Ao decair do último floco de neve...

1 ❄ Capítulo 1 - Uma mesa para dois ❄


Notas iniciais
Data: 06 de Janeiro de 1995 Trilha Sonora: The Start Of Something Good - Daughtry

"Há dias em que coisas fantásticas estão destinadas à acontecer."

Coisa que com certeza não se passava pela cabeça daquela garota sentada na mesa mais afastada da pequena cafeteria onde se encontrava, o lugar era um tanto quanto vazio e escuro por conta da luz da manha estar sendo utilizada á favor do ambiente para economizar energia. Os poucos presentes mal desconfiavam que aquela garota com um vertido branco como sua pele e com os cabelos negros soltos e penteados todos para lado direito caindo suavemente sobre o ombro poderia conter dentro de si uma força gélida e impiedosa. Quione havia se distanciado do palácio de seu pai, Bóreas o deus dos ventos do norte, e agora se encontra mais ao sul no município de West Kelowna para uma breve exploração.

Na verdade, suas intenções não eram nada de busca ou princípios e sim um passeio, ser a menina dos olhos de seu pai era ótimo assim como gozar da total confiança dele, porém o espaço era necessário de tempos em tempos para que ela pudesse viver sem estar na sombra de alguém e quando isso acontecia ela visitava o mundo mortal. Orítia, sua mãe, possuía um negócio local e se mantinha afastada do marido por certo tempo, porém nunca ia muito longe assim como a própria Quione. Seus olhos cor de café intenso nas íris admiravam a paisagem pela janela onde os flocos de neve caiam sem pressa ao comando dela. Envolta em seus pensamentos, nem percebeu quando a campainha da porta ressoou indicando a chegada de mais um cliente. Á frente da deusa se encontrava uma xícara simples com um liquido fumegante na mesma cor de seus olhos, ele já havia bebericado suavemente a bebida porém perdeu o interesse pelo café até que um ruído foi ouvido á sua frente. Um homem com touca e um grosso blusão puxava a cadeira para se sentar e aquilo despertou instantaneamente a fúria da deusa.

— O que pensa que esta fazendo?

— Me sentando.

Ele nem esperou e a raiva de Quione pareceu não lhe incomodar nem um pouco, ao contrário, ele sorria e ajeitava a enorme mochila ao seu lado, apoiou o copo tampado na mesa e a observou. O semblante de Quione não deixava nem mesmo a mais leve das expressões tomarem forma, muita menos a raiva que crescia em seu peito. Os dedos, que antes tamborilavam na mesa, agora haviam se silenciado.

— É muito grosseiro se sentar sem pedir permissão.

— Achei que gostaria de companhia, é a única sozinha por aqui.

— Não preciso de você e nem do que julga ser cortesia, sua presença não faz diferença aqui e nem no mundo em si.

Ela então voltou a olhar pela janela crente de que seus modos frios e indiferença seriam o suficiente para afastar o petulante que se instalara em sua mesa, porém o homem de aparência jovial se limitou a dar de ombros.

— Então não vai se importar se eu ficar aqui.

Quione então respirou profundamente e se alinhou na espaldar da cadeira de madeira polida. A presença do rapaz a incomodava um pouco mas não se importaria já que em breve deixaria o local, ela pegou sua caneca e levou aos lábios sem proferir nenhuma palavra e quando estava para beber seu café o homem votou a se pronunciar.

— Meu nome é Matthew.

— Eu não perguntei. — Ela bebeu o café e recolocou delicadamente a xícara no pires.

— Não, não perguntou mesmo. Mas e você, como se chama?

Ela virou a cabeça de forma lenta para fita-lo com certo desprezo e então percebeu que seus olhos eram de um tom bem claro de azul, a touca havia sumido e revelado os fios castanho claro bem bagunçados, as mãos desprovidas de luva pareciam abraçar o copo fumegante e ele ainda sorria.

— Quione. — Disse ela em um tom ríspido.

— Nome interessante.

Ele bebeu o conteúdo do copo e ela voltou a observar seus flocos em coreografia descendente que aos poucos cobriam o solo e as calçadas com um leve tapete branco.

— Você gosta de ficar olhando pela janela não é mesmo? Gosta da neve?

A deusa voltou a olha-lo mas se atentou bem mais aos detalhes antes de proferir algo. A pele dele era branca porém nem tanto, haviam covinhas em sua bochecha e alguns montes pequenos de neve em suas roupas, seu casaco era cinza com alguns detalhes em vermelhos, mesma cor da touca que agora descansava em cima da mochila. Quione tinha os modos de uma verdadeira princesa porém possuía a mesma rigidez e frieza do pai.

— Ainda esta ai?

— Incrível, mas sim.

Ela continuou a o observar, não iria desperdiçar fúria em um mero mortal, até por que seu pai poderia localiza-la com mais facilidade assim. O silêncio imperava e ela o fitava tão fria e profundamente que qualquer um sentiria medo ou um arrepio, o que foi o caso de Matthew.

— Mas você ainda não respondeu minha pergunta...

Ela levou a xícara até os lábios novamente e terminou sua bebida, realmente não valia à pena desperdiçar tempo com um mortal tão indelicado e curioso e a ideia de seu corpo perecendo em uma futura nevasca muito lhe agradou mas resolveu manter aquele pensamento apenas para si. Matthew ainda esperava uma resposta mas Quione deixou a xícara descansar em seu devido lugar e se levantou sem fazer nenhum som fazendo com que o vestido simples ondulasse até o chão, ela contornou a mesa e seguiu andando até a saída.

— Ei! Espere.

A porta se abriu sem nenhum toque a garota a atravessou para o lado de fora, Matthew rapidamente recolheu suas coisas e saiu ás pressas para segui-la. Nem ele sabia o motivo de estar fazendo aquilo mas sempre fora um homem muito curioso desde a infância, aquilo havia lhe trazido até aquela cidade e aquela mulher despertará alguma coisa nele.

Quione não olhou para trás e seguiu seus passos pela calçada sem nenhuma pressa, os flocos de neve que caiam pairavam ao seu redor como se toda a extensão de seu corpo fosse um imã de neve. O vento gélido soprou contra o rosto do rapaz enquanto ele corria até ela e se posicionava andando ao seu lado.

— Diga-me, por que esta me evitando?

— Por que é um ser completamente estranho que por algum motivo esta me perseguindo. É resposta suficiente para você?

— Só fiquei curioso... — Ele deu de ombros.

A deusa então suspirou e não acelerou e nem diminui o passo mas dobrou a esquina e seguiu em silêncio até a entrada da trilha à beira do lago ao lado de Gellatly Road.

— Se por um acaso eu responder suas perguntas, poderá me deixar em paz? -Disse ela.

— Talvez...

Em todo o caso se algo nele a desagradasse ela poderia simplesmente mata-lo sufocando com montes e montes de neve em uma asfixia lenta e dolorosa com um toque de hipotermia.

— Pois então, faça suas perguntas.

Matthew levou o bebeu mas um pouco do líquido de seu copo, que era um capuccino, e coçou a nuca. O lago Okanagan começava a ganhar forma no horizonte, Quione já esperava perguntas idiotas que os mortais sempre faziam como "Qual é sua cor favorita" ou "De que banda mais gosta" e por isso não levava muito a sério o rapaz que a acompanhava

— O que te trouxe até esse lugar e por que esta de vestido neste tempo de frio intenso?

A barra do vestido longo de Quione se arrastava pela neve e as botas de Matthew afundavam parcialmente nos montantes de neve, realmente ela não esperava por uma pergunta daquelas ou que ele houvesse notado que ela usava nada mais que um vestido simples e sem mangas. A deusa exibiu u leve sorriso frio mas não estabeleceu contato visual com o rapaz.

— É uma pergunta interessante... Digamos que o frio não me incomoda, e sim é meu lar. Quanto ao que me trouxe aqui, não sei dizer mas se descobrisse não seria a alguém como você que contaria.

— Você é meio fechada, não é? O que quer dizer com "alguém como você?"

Matthew parecia se animar com a conversa e não deixava de sorrir por mais agressiva e distante que Quione pudesse ser, o fato de ele ainda não ter se distanciado realmente a surpreendeu um pouco mas ela nunca deixava que suas emoções tornassem-se transparentes na face, na verdade ela mesma duvidasse que tivesse capacidade de nutrir alguma emoção.

— Pessoas intrometidas e curiosas demais. A curiosidade pode ser algo mortal, senhor Matthew.

— Legal ver que você lembra do meu nome, Quione.

Ele enfiou as mãos no casaco e ajeitou a mochila nas costas com seu sorriso aumentando. Não era intenção de Quione parecer gentil e aquilo fez com que ela soltasse uma baforada de neblina leve que Matthew nem viu por conta de estar mexendo em seus bolsos. De lé ele retirou um papel e uma caneta pequena, usou a mão de apoio e escreveu uma série de números.

— Eu vou estar na cidade por algum tempo até continuar minha viagem, aliás eu sou um mochileiro, nem contei isso né? Desculpa, mas esse aqui é meu número, se estiver a fim de fazer alguma coisa é só ligar.

Ele estendeu o papel rabiscado e a deusa apenas pegou por educação, foi ai que a pele fria da mão dela tocou com a a pele morna do rapaz, por alguma razão ela sentiu uma coisa muito estranha como um puxão leve em seu estomâgo, talvez pelo contato com um ser mais calorosa que ela. Ele sorriu e disse com um sorriso "Té vejo por ai". Segurando as alças da mochila ele se afastou, não por que queria mas sim por que ele sabia que estava incomodando ela e não gostava de perturbar ninguém. Era a primeira vez em éons que havia tido um contato físico com um mortal, ela olhou para o papel e o amassou, chamas azuladas irromperam de seu punho direito e ela jogou a massa de fogo gélido no chão, não iria procurar aquele homem e iria apenas seguir seu caminho ao longo do lago, talvez congela-lo para relaxar um pouco.

O que ambos não sabiam era que aquele encontro poderia modificar algo na vida de ambos, ou talvez não, mas uma coisa era certa... Não seria a última vez que Quione encontraria Matthew...

Notas finais
Este é apenas o início de nossa história e nele foi narrado o choque do mundo divino com o mundo mortal, como será o próximo encontro? Isso você só descobrirá no próximo capítulo...