Eu não consigo explicar o que senti ali naquele lugar. A companhia da Lari era o que não deixava com que eu me sentisse estranha. Eu estava bem! Rodeada de pessoas legais que me receberam como se eu fosse da família! Vocês precisavam ver a festa que dona Elisabeth e seu Augusto fizeram quando me viram entrar! É que eu ia muito a casa deles em Coité quando ainda morava lá e Lari também. Na verdade eu vivia lá. E eles nunca me trataram mal... Pelo contrário! Mimavam-me demais! Ah! Eu errei aí em cima, tá? Eles não gostavam quando eu chamava de ‘dona Elisabeth ou seu Augusto’. Era pra chamar de vó e vô! E foi assim que eu cumprimentei os dois. O restante do pessoal eu ainda não conhecia, mas bastaram alguns minutos de conversa para que eu conhecesse quase todo mundo.

Isadora: Olha tia Gabi, essa minha Polly tem um haras de verdade, você quer ver? – Ela arregalou os olhos pra me contar. Ri.

Lari: É muito grande, Isadora! Você vai trazer aqui?!

Isadora: Claro que não! Eu ia levar tia Gabi até o meu quarto!

Gabi: Não precisa não meu amor... Senta aqui que a gente brinca com a Polly, vem!

Isabella: E eu, tia? – Isadora pulou em meu colo e Isabella ficou mexendo com a Lari por trás do banco. Estávamos brincando e conversando – incrivelmente – em um papo só.

Guilherme: Essa menina não come?! – Ele riu, olhando pra mim. Eu realmente estava muito cheia por ter comido demais em casa. Não cabia!

Gabi: Eu como sim, tio... Mas eu tô muito cheia, sério mesmo!

Heloísa: Olha só... Nós sabemos que você é educada! Pode comer. Você tá em casa! – Rimos. Eu assenti e, pra não fazer desfeita, peguei um palito com uma mini coxinha espetada nele. Dava pra sentir uma energia boa naquela galera... Gente que não tá nem aí, sabe? Que leva a vida adoidado sem se preocupar muito com o que falam ou só com o que pensam deles. Nós ficamos ao redor da mesa até pouco antes da meia noite, que foi quando corremos pra beira-mar pra assistir à queima de fogos. Foi lindo, sério! Lari foi a primeira a pular em mim.

Lari: Feliz ano novo e feliz vida, meu presentinhooooo! Você sabe que eu amo você, né?! – Ela me encheu de beijos na bochecha. Lari me puxou um pouco mais distante do pessoal e ainda conseguimos tirar algumas fotos antes do pessoal vir desejar boas coisas pro ano que acabou de chegar. Adivinha quem foi o primeiro a vir fazer isso? Eduardo. Eu ainda sentia raiva dele, sabia? Eu não o perdoei. Ainda conseguia olhar pra ele e escutar ele me chamando de ‘Gabibola’. Assisti-o abraçando a irmã, tirando-a do chão e eu juro que não acreditei quando ele falou comigo.

Eduardo: Feliz ano novo, ‘Gabibola’! – Não. Eu não podia acreditar! Por um momento pensei ser fruto da minha imaginação, mas o sorriso escapando dos lábios dele me fez cair em si. Era isso mesmo que eu tinha acabado de escutar. Gabibola.

Gabi: O que?! Eu não acredito nisso... – Revirei os olhos, virando pra sair de perto daquele infame. Eu realmente ia saindo, mas me bati na tia Esther.

Esther: Vai onde, mocinha? Feliz ano novo e feliz aniversário, não é? – Ela me abraçou forte. Eu não vi mais Eduardo por ali porque fiquei até perdida em meio a tantos abraços e felicitações. A família inteira veio falar comigo. Jesus! Aos poucos o pessoal foi voltando lá pra casa e continuaram a beber e a comer até umas 3h da manhã. Isso com muita vasão: as mamães e os papais foram colocar os filhos pra dormir e nem ficaram. Minha vó e meu vô emprestados foram os primeiros a sair dali. Eram exatamente 03h: 22min da manhã e no quiosque só estava Guilherme, Duda, Heitor, Gustavo, Jonas, Eduardo, Lari e eu. Eles ainda bebiam e beliscavam o que tinha ficado na mesa – MUITA COISA – e alguns dos que estavam ali já pareciam não aguentar mais.

Guilherme: Ó... Bom dia pra quem fica... Eu tô bêbado de sono. Pra mim deu. – Duda riu.

Duda: Bêbado de sono?! Essa é nova, ein? Eu acho que você tá é bêbado de outra coisa. – Ela tomou a caneca de Chopp da mão dele e bebeu os últimos goles. Ri alto.

Duda: Vocês vão ficar aí?! – Ela olhou pra gente. Olhei pra Lari com aquela cara de pra-onde-você-for-eu-vou.

Jonas: Ah... Essa galera não cansa não. Bora? Eu também vou. – Eles saíram e quando eu olhei pra frente mais uma vez, contei a décima segunda vez que eu pego Eduardo olhando pra mim. Revirei os olhos. Idiota.

Gabi: Ele não mudou nada, né? – Falei baixinho pra Lari.

Lari: Ele deve ter pensado totalmente o contrário de você. – Lari riu mordendo um pedaço do quibe em suas mãos. Af. A galerinha que ficou era só com os novinhos da casa, mas nem podia fazer muito barulho porque todo mundo já tava dormindo.

Lari: Gente, bora lá pro mirante? Assistir o primeiro dia do ano nascer? – Ninguém contestou. Rapidinho nós colocamos as coisas que sobraram dentro de casa e enquanto eu ajudava a Lari a separar alguns lanchinhos pra subir e guardava o restante, os meninos trancaram a casa e foram subindo pra levar uns colchões pro mirante. Não levamos muita coisa. Eu levei uma garrafa de água de 2L e Lari subiu com um vasinho cheio de salgados dentro. Lá, os meninos já tinham arrumado os colchões no chão: dois de casal, como estavam juntos, dava pra todo mundo deitar de boa. O mirante era enorme! Uma área que devia equivaler ao tamanho da casa interna. Todo coberto com telhas e rodeado por uma ‘cerquinha’ de madeira. Muito lindo! Dono de uma vista incrível! Os meninos tinham colocado os colhões bem perto da parede da escada por ser um lugar estratégico onde os ventos não batiam com tanta força e aí sentiríamos menos frio durante a noite. Eu deixei a água e o vasinho com o lanche no cantinho isolado e deitei onde ainda tinha espaço. Tava assim, da esquerda pra direita: Gustavo, Heitor, Eduardo e Lari. Eu fiquei na outra ponta do colchão. Foi meio estranho e cheguei à conclusão de que todos estavam com muito álcool no corpo. Ou, como Guilherme mesmo disse: estavam bêbados de sono!

Primeiro que a Lari me deixou falando sozinha e quando me apoiei nos meus cotovelos para ver melhor... Estavam todos dormindo. E cá estava eu: sem sono. Af! Eu não ia dormir nem pretendia acordar ninguém. Foi por isso que peguei meu celular escorei-me à cerca de madeira pra responder as várias mensagens que tinham chegado me desejando feliz ano novo e aniversário. Chamadas perdidas do meu pai, da minha mãe, do Luan, da Aninha, ui! Senti-me importante. Mensagens tinham algumas dos mesmos que ligaram e até do Arthur. Comecei a responder pelos meus genitores e senti um arrepio quando percebi que não estava mais sozinha: Eduardo tinha acabado de encostar-se ao meu lado. Revirei os olhos.

Eduardo: Posso falar um minuto com você? – Respirei fundo, conferindo as horas em meu celular. Eu ia fazer a contagem regressiva, pode crer. Assenti, ainda sem olhar pra ele. Ele debruçou-se sobre a cerca, encarando o horizonte.

Eduardo: Me desculpa?

Gabi: Hum? – Arqueei as sobrancelhas.

Eduardo: É... Eu fui um ‘crianção’. – Nossa, veio perceber isso agora?! Fixei meu olhar sob ele, encorajando-o a continuar.

Eduardo: É que a gente tinha tanto tempo sem se ver... E essa era a minha lembrança de você. Eu só precisava saber se...

Gabi: Se?

Eduardo: Se ainda lembrava-se de mim.

Gabi: E tinha como esquecer você, idiota?! – Revirei os olhos. Eduardo começou a rir alto da minha cara. Eu encarava-o sem entender e ele não parava! Dei um tapa em seu braço.

Gabi: Cala a boca! Vai acordar o povo!

Eduardo: Parei. – Ele respirou fundo. Fazendo bico pra não voltar a dar risada. Eu não consegui segurar o riso que escapou da minha boca e senti o olhar dele cair sobre mim sem disfarçar.

Eduardo: Você sabe que você não é mais nenhuma Gabibola, não é? – Ele falou baixinho.

Gabi: Eduardo...

Eduardo: Hum? – Ele sorriu de canto de boca.

Eduardo: Eu estou desculpado? – Ele arqueou a sobrancelha mordendo o lábio. Af, que arrepio foi esse que eu senti? Isso tava no roteiro?

Gabi: Tá. – Sorri.

Eduardo: Mereço um abraço? – Ué?

Gabi: Não. – Fingi desdém.

Eduardo: Aaaaf. – Ri da cara que ele fez.

Eduardo: Então é assim, né? Você gosta de maltratar? – Ri um pouco mais alto do que deveria.

Gabi: Eita! Agora eu que tô fazendo barulho.

Eduardo: O que é que você quer fazer sem ninguém ver, ein? – Puta que pariu. Fiquei toda vermelha de vergonha. Eu não sabia nem o que responder. Ele viu que me deixou sem jeito e aí começou a rir.

Eduardo: Eu tô brincando. Mas se quiser fazer alguma coisa eu não nego não. – Semicerrei os olhos.

Gabi: Engraçadinho demais, não acha não? – Eduardo sorriu indo em direção à garrafa de água que eu tinha deixado de lado, e voltou com dois copos cheios d’água em suas mãos.

Eduardo: Então, Gabi... Posso te chamar assim? – Ele estendeu um dos copos, bebendo um gole d´água do outro. Assenti.

Gabi: Pode...

Eduardo: Ou você prefere Gabibola? – Revirei os olhos.

Eduardo: Tá, tá. Parei! – Ele apoiou o copo em cima da madeira da cerca e voltou o seu olhar sob mim.

Eduardo: A gente pode se conhecer melhor? Tipo, se reconhecer melhor? – Assenti. Na verdade eu achei que Eduardo ia me perguntar coisa boba, mas... Ele foi bem direto.

Eduardo: Você tem namorado?

Gabi: Af. – Ri.

Eduardo: É sério... Você tem? – Ele bebeu o último gole do copo.

Gabi: Não, Eduardo... Não tenho namorado. Por quê? Ia mudar alguma coisa? – Eu também acabei com toda a água que restava no meu copo.

Eduardo: Ia mudar o teu presente de hoje. Se você tivesse namorado eu não ia poder fazer o que eu tô com vontade. – Lá vem. Arqueei a sobrancelha.

Gabi: E se brincar nem eu solteira você vai fazer. – Dei de ombros rindo da cara que ele ficou.

Eduardo: Será? – Ele mordeu o lábio.

Eduardo: Eu nem disse o que eu ia fazer...

Gabi: E precisa?! Quer ver a cara de ninfomaníaco que você tá agora? – Ele riu.

Eduardo: Nem é... Eu sou romântico. Eu ia te mandar um super buquê de rosas vermelhas com uma caixa de chocolate. Aí ia ficar meio tenso se você tivesse namorado, entendeu? Imagina aí? Eu pagando pra ele colocar chocolate na sua boca? – Ele gesticulava enquanto conversava e eu só conseguia rir. Que menino idiota!

Eduardo: Nunca!

Gabi: Tá, né... Mas e você? Tem namorada?

Eduardo: Não, ué. Tava esperando você aparecer. Se tivesse vindo embora antes, hoje já tava aí chamando Jonas de meu sogro. – Encarei incrédula. Oh, viagem...

Gabi: Ei! Vamos dormir? Tu tá sonhando demais acordado, sabia? – Tomei o copo da mão dele colocando dentro do meu. Com a outra mão eu empurrei Eduardo pra perto do colchão e ele se deitou enquanto eu fui colocar os copos em cima da garrafa. Eduardo tinha tomado o lugar de Lari e agora quem estava do meu lado era ele. Deitei morrendo de vergonha porque ele não tirou os olhos de mim nem por um segundo.

Gabi: O que foi? – Acomodei-me melhor no colchão, encarando-o.

Eduardo: Nada... Eu só não queria ir dormir brigado com você. – Eduardo tirou a mecha de cabelo que tinha escorregado sob meu rosto e a colocou atrás da minha orelha. Sorri agradecendo.

Gabi: Agora vamos dormir? – Ele assentiu. Eu virei, ficando de costas pra ele justamente porque não estava conseguindo mandar nos meus sentimentos. Nem sabia o que fazer com a vontade que eu tava de ficar pertinho dele.

Eduardo: Ahh Gabi! Assim não vale! – Ri baixinho. Alguns minutos se passaram e eu já estava com medo do que ele estava aprontando. E aí, antes que eu pudesse virar, eu senti a mão dele acariciar os meus cabelos da ponta à raiz, talvez imaginando que eu já tivesse pegado no sono. Ele repetiu os movimentos mais uma vez, afagando meus cabelos e eu fechei meus olhos. A última coisa que eu lembro e também a última que vou esquecer foi o ‘dorme bem’ que ele sussurrou enquanto fazia carinho em mim.

Acho que preciso que colem isso em mim, eu não posso esquecer. Socorrooo!