Ao Seu Lado
11 Capítulo onze, Eduardo
Eu acho incrível como que as férias conseguem ser tão iguais e ao mesmo tempo tão inéditas na minha família. Nesse período de fim de um ano e início de outro, nós sempre nos reunimos em algum canto do mundo. O lugar é o mínimo: o que vale mesmo é manter a tradição das viagens em família. E acho que só quem nasceu em datas comemorativas – como eu –, sabe a dor e a desgraça de não conseguir juntar todo mundo pra fazer uma festa. Eu carrego no peito os traumas de não ter tido aniversário na escola e os que meu pai fez em casa pra mim eram incríveis: não tinha muita gente. Meus amigos do condomínio e os da escola, 99% das vezes estavam viajando. E quando eu decidi fazer esse reggae dos 18 anos, eu criei um grupo do WhatsApp em outubro do ano passado pra organizar e tentar juntar a turma inteira. Deu? Não deu. Caio e mais uns colegas também viajaram. Inclusive estava respondendo mensagens deles no grupo do reggae enquanto esperava Lari vestir um biquíni pra gente ir pra praia. Caio ainda não sabia se ia chegar a tempo... Só me disse que viria. Se acostumem com esse nome aí: se fosse mulher era a minha puta.
Quase todo mundo foi pra praia. Só o meu pai, Gustavo e os meus avós que ficaram em casa. A galera sentou numa barraca de praia e passamos o dia bebendo, comendo e cuidando dos guris. Só voltamos pra casa de tardezinha, com a maioria das crianças no colo cansadas de brincar o dia inteiro na praia. Aí em casa os pais foram dar banho, dar algo pra comer e colocar pra dormir e eu encontrei Gustavo sentado na mesa do quiosque sentei do outro lado dele junto com Heitor.
Gustavo: Eu sei amor... Só que eu não lembro não.
...
Gustavo: Não! Eu não me lembro de nada, mas não precisa se preocupar que só a minha família tava aqui.
...
Gustavo: Ah... Tinha.— Pela conversa você já sabia que era a general que tava falando, né?
Gustavo: Uma do cabelo preto? — Heitor me olhou dando risada e começou a gemer alto perto dele.
Heitor: Ai Gustavoooooooooo! Vem pra cá, gostoso! – Gustavo mostrou o dedo do meio pro irmão e tentou abafar o som do celular.
Gustavo: Sim, Letícia, sim... Tinha mesmo. Ela é a namorada do Eduardo e quem tá gemendo aqui é o Heitor.— Quê?
Heitor: Ohhhhhhh! – Ele gemeu mais uma vez.
Gustavo: Amor? Eu te ligo mais tarde, pode ser? Ele não deixa a gente conversar não.
...
Gustavo: Não, não vou sair... Ainda tô com dor de cabeça.
...
Gustavo: Certo. Eu te ligo.
...
Gustavo: Te amo! — Gustavo não estava com uma cara muito boa quando desligou a ligação e jogou o celular em cima da mesa.
Gustavo: Que caralho!
Heitor: Por que não trouxe Letícia? Aí agora fica de ciuminho à distância. – Heitor revirou os olhos.
Gustavo: Não trouxe porque a avó dela está doente e ela não quis vim. E ela assistiu todos os seus stories, que você vai apagar agora...
Heitor: Ahhh vou... – Heitor riu.
Gustavo: E ela também viu os stories da minha mãe e tinha aquela foto da gente aqui na mesa e Gabriela também tava. Eu tive que dizer que era sua namorada. – Ele olhou pra mim, ainda estressado.
Eduardo: ÔH! Eu pego mesmo...
Heitor: Ah... Eu também pego. Aquela dali tem selo de qualidade. – Encarei Heitor esperando ele continuar a falar.
Heitor: Por que ela não ficou, hein? Tava no Porto da Barra. – Heitor pegou o celular do bolso e abriu no perfil do Instagram de Gabi. O mesmo perfil que eu mandei solicitação e ela negou, lembra?
Eduardo: Deixa eu ver?
Heitor: Ê! Espera, ô! Eu a achei hoje de manhã... Mandei solicitação, ela aceitou. Aqui as fotos dela. – Heitor esperava carregar as fotos enquanto eu abri o meu perfil e cacei a Gabi por lá. Mandei outra solicitação. E aí, enquanto ela não respondia eu assisti os stories dela e fui olhando foto por foto. Sem curtir, óbvio. Quem tem que curtir é eu, não ele. Esperei só que ele desse uma vacilada e parei de seguir a Gabi pelo perfil dele.
Heitor: Mano, não acredito! Que desgraça! Agora eu entendi porque a sua certidão de nascimento é um pedido de desculpas da Jontex. – Vocês não imaginam a briga que isso deu. Eu estava bem e feliz por ter visto algumas das fotos que eu sempre quis ver e de ter tirado a Gabi da lista de seguidores de Heitor. Agora ele? Ele ficou puto comigo por um tempão e eu ainda fiquei zoando com a cara dele.
Era pouco mais de 23h da noite quando eu deitei em minha cama. Tinha acabado de tomar banho depois de resolver um probleminha que teve com o meu aniversário. Coisa boba. Só porque meu pai gosta de problematizar as coisas demais... O povo tava numa maresia sem fim e eu acabei entrando na vibe deles quando me joguei naquela cama e peguei meu celular. Tinham várias notificações de mensagens: algumas mensagens do grupo do reggae; um monte de foto – que eu nem baixo – no grupo da família; mensagens de um monte de nega que eu tinha mandando o meu método de assistência à distância “bom dia” e não tinha respondido porque fui pra praia; várias mensagens de Luiza – é uma colega minha, que eu fico com ela sempre que dá –; e ainda tinha alguns avisos de amigos que fizeram vídeo ao vivo e duas notificações que me fizeram desbloquear o aparelho:
Gabriela Annenberg (gabbiannenberg) aceitou a sua solicitação para seguir. Agora você pode ver suas fotos e vídeos.
Gabriela Annenberg (gabbiannenberg) começou a seguir você.
Af. Fui olhar foto por foto na hora! Ô papai... Não faz isso comigo não! Gabi tá muito gostosa! 99% das fotos eram em Coité. No Baião de 2 – foi à festa que rolou uma briga na minha família porque eu fui pra Coité e não fui à casa da minha mãe –, foto no Projeção, em casa e algumas viajando. Eu curti de uma por uma. Só queria achar uma foto dela pequena pra vocês não acharem que é exagero meu... Tudo bem que hoje é ‘Gabigostosa’, mas era Gabibola! Aproveitei que ela tava no espírito bom e reenviei a solicitação pro Facebook enquanto descobria mais sobre ela. Vocês acreditam? Linda daquele jeito e torcedora do Vicetória?! Ah, não. Vai mudar pro Bahia. É só começar a andar comigo.
Pois é... Eu viajei nas fotos dela e percebi que tinha dormido quando escutei o barulho do celular caindo no chão no meio da noite. Af. Não... Não era o celular caindo no chão e não era ‘meio da noite’. Era pouco mais das 02h da manhã quando os meninos entraram no meu quarto junto com a Lari estourando lança confetes e apertando cornetas. Puta que pariu. O meu celular que estava em minhas mãos agora estavam nas mãos da Lari e ela parou de soar a corneta e começou a rir.
Lari: AHHHHHHHHH! Eu não acredito! – Ela riu. Franzi a testa, levantando pra ver do que ela ria.
Gustavo: O que é?! – Foi ele que tomou a frente para que eu não pegasse o celular e teve, curiosamente, a mesma reação de Lari. Porra. Lembrei... Eu não fechei o perfil de Gabriela.
Heitor: Joga aí! – Gustavo se achou esperto demais e jogou o celular pra cima, mas eu peguei. Deu tempo bloquear antes que ele jogasse o braço pelo meu pescoço, bagunçando o meu cabelo com a outra mão.
Gustavo: Feliz aniversário, viado.
Eduardo: Viado não. – Me livrei do braço dele e Lari me agarrou pelo pescoço.
Lari: Parabéns ser-humano-insuportável-que-eu-amo-muito! – Segurei ela pela cintura, levantando-a do chão.
Lari: Eu vi, viu? – Ela semicerrou os olhos ainda rindo da minha cara. Suspirei. Heitor bateu as mãos comigo me felicitando e desejando um monte de coisa e eu me joguei na cama, dando espaço para que eles sentassem e pudéssemos comer a pizza que eles tinham levado. Mal dormi... Fechei os olhos perto das 07h da manhã e acordei 10h pra ajudar a arrumar as coisas do aniversário. Tínhamos contratado um churrasqueiro, Dulce ia com a irmã e meu pai tinha chamado mais dois garçons. O churrasqueiro já tinha chegado e já tinha tomado conta da churrasqueira, Dulce tava com a irmã e as minhas tias tomando conta da cozinha e aí eu senti que podia relaxar e começar a beber pra comemorar os meus 18. Peguei uma caneca e enchi de Chopp do barril da cozinha fazendo meu desjejum.
Tia Esther: Eu nem preciso te dizer nada, né?! – Ela me olhou de cara feia.
Eduardo: Já tá dizendo... Continue. – Ri, bebendo mais um gole.
Tia Esther: Vá vestir uma roupa. Daqui a pouco teus amigos chegam aí e quem vai recepcionar não sou eu, hein?! – Af. Minha tia ainda ficou falando quando eu saí da cozinha com a caneca na mão e por mais que eu não estivesse afim, eu fui obedecer ela. Tomei um banho, vesti uma bermuda jeans, calcei um sapatênis preto e vesti uma pólo amarela da Lacoste. Aí só passei perfume, penteei o cabelo, peguei meu relógio, o óculos escuro, meu celular e ia saindo do quarto quando Lari entrou.
Eduardo: Hum? – Ela me olhou de cima a baixo, balançando a cabeça negativamente.
Lari: Não, vem cá. – Lari tava com a toalha presa nos cabelos e escovando os dentes e me puxou até a minha bolsa. Puxou a pólo vermelha e estendeu pra mim.
Lari: Essa sim. – Ela disse correndo de volta ao banheiro. Bom... Opinião de mulher deve ser filé, né? Acatei. Foi tudo tranquilo, pô. A galera começou a chegar e meio dia já estávamos sentados todos juntos na mesa do quiosque. Todos – aqueles que não viajaram, estavam ali na mesa –. Nem todo mundo da galera bebia, mas boa parte. Os que não estavam bebendo, estavam comendo e fazendo parte da resenha.
Luiza: Eduardo... Quer mais Chopp? – Ela balançou a caneca dela vazia, levantando do meu lado do banco.
Eduardo: Vai buscar? – Luiza assentiu. Bebi o último gole e estendi a caneca pra ela. Eu voltei pra resenha da galera e realmente não tinha escutado meu pai me chamar...
Victor: Ô viado! Teu pai te chamando, ó. – Ele apontou pro portão de casa e meu pai tava mesmo me chamando, com duas mulheres do lado. Levantei e fui até lá. Só chegando perto que eu reconheci: era o meu pai, Gabi e a mãe dela. Paralisei.
Jonas: Tem meia hora que eu te grito.
Eduardo: Gabi? Ah! Oi tia! Boa tarde! – Sorri acenando pra mãe dela.
Gabi: Feliz aniversário! – Ela sorriu estendendo uma sacola pra mim.
Eduardo: Não precisava... – Ri, segurando na mão dela e puxando-a pra um abraço forte. Que perfume bom é esse?!
Eduardo: Achei que você não vinha.

Sente a vibe da minha pizza aí, óh.
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