Ao Seu Lado
2 Capítulo dois, Eduardo
Fim de mais um ano e como é que eu tô?! Jogado na farra! Hoje faz três dias que eu tô bebendo sem parar, tô bebendo sem fazer pausa. Na verdade, a ordem dada pelo meu pai era a de organizar uma festa pro meu aniversário (dois de janeiro), mas eu tô aproveitando e emendando o feriadão completo. Comecei a beber na quinta-feira meio dia e liguei até hoje: sábado, 31 de dezembro.
Jonas: Ainda tem alguma coisa faltando aí? – Meu pai descia as escadas ainda vestindo a camisa e parou pra me encarar bebendo às 9h da manhã.
Eduardo: Não. Já arrumei tudo: chamei a galera, comprei os comes e bebes... Acho que dá.
Jonas: Se você não beber tudo sozinho até lá, né? Também acho que dá. – Ele riu olhando pra garrafinha de Heineken no balcão da cozinha, e antes de sair ainda se atreveu a tomar um gole.
Eduardo: Sozinho?! Tem certeza?! – Meu pai tateou a chave do carro que tava ali na bancada e saiu correndo. Não se assustem: o meu pai tem o mesmo espírito de farra que eu tenho. Ás vezes acho que ele é um irmão mais velho, e não um pai. A verdade é que ele foi pai bem novinho. Com 15 anos ele já tinha recebido a notícia de que Catharina – minha mãe, também com 15 anos na época – estava grávida. E nem tudo foi tão fácil assim. Conceição do Coité, cidade pequena... Não foi preciso um dia para que a notícia percorresse a cidade inteira e ‘envergonhasse’ a família dos dois: novinhos e sem compromisso nenhum um com o outro. A conversa rolou, as famílias se uniram e, viabilizando o melhor pro casal, organizaram o casamento. Foi tudo muito rápido! Casaram no fórum e como a família da minha mãe não tinha condições nenhuma para bancar qualquer parte, foi tudo providenciado pelo meu avô Augusto. Casamento, casa e até o emprego do meu pai. Sim... Eu até imagino o pesadelo que ele viveu em dias, só em ver a brusca mudança de vida que ele tinha: dormiu sem nada pra fazer e acordou trabalhando na loja de carros que o meu avô tinha acabado de abrir lá no interior.
O meu avô cresceu em cima de muito esforço e suor! Começou como mecânico na oficina de um vizinho e foi vendendo um carro aqui... Um carro ali... E alguns anos depois, conseguiu abrir a própria loja. Já ganhando um empregado de ouro, né? Isso, Jonas. O que o meu avô queria ensinar era justamente a responsabilidade de zelar e manter uma casa, coisa que o meu pai teria que enfrentar daqui pra frente. E eu diria que ele se saiu MUITO bem! Aprendeu a cumprir horário, a dirigir, a vender e a negociar a venda também! Dentro de casa não foi diferente: aprendeu a cuidar de um bebê e a amar sem medidas. Conseguia ser o melhor do que todos os super herois juntos.
Bom... Tudo parecia estar muito bem apesar das dificuldades: meu pai talvez não imaginasse que o homem também acorda a noite quando o bebê chora e que talvez eu precisasse fazer minhas necessidades sem a minha mãe, vó ou alguém por perto. Tinha que ser ELE! Até que ele se saía bem... E aí... Alguns meses depois do meu primeiro aninho, mais uma notícia: BETA POSITIVO da mamãe! Ela tinha engordado um monte durante a minha gravidez e talvez por isso ninguém tivesse notado que ela escondia um bebê na barriga. A Lari só foi descoberta quando já completava seis meses se alimentando por cordão umbilical. Foi uma loucura! Eu não entendi muito bem esse lance de irmãzinha no início... Mas gostei da ideia de ter alguém pra perturbar.
E realmente era desse jeito aí. Sempre fomos cúmplices e bem amigos um do outro, melhor dizendo... Sempre fomos cúmplices e bem amigos um do outro até os meus seis anos de idade. O motivo explica o fato de que eu e o meu pai temos uma relação pra lá de amigável!
Eu não consigo esquecer essa cena e talvez isso nunca aconteça... Mas ainda me lembro das férias de verão de 2005. Eu tinha seis anos de idade e o que eu mais gostava de fazer era ajudar o meu pai e o meu avô na loja de carros. Af! Eu ficava no céu quando estava lá. E aí juntava o meu pai e o meu avô... O mimo era grande demais! Lá na loja era um lugar que eu podia fazer tudo e mais um pouco. E aí, de férias do colégio não queria ir pra nenhum outro lugar senão lá. Meu pai me levava todos os dias e essa sexta-feira foi um pouco diferente dos outros dias já corridos. Não lembro o motivo, mas lembro de que o meu avô tinha liberado o meu pai mais cedo e fazíamos um plano de buscar a Lari e a minha mãe em casa e voltar para a churrascaria pra fazer um almoço diferente e em família. É... Esse plano foi por água abaixo...
Entrei em casa levando bronca do meu pai por ter pulado da carroceria do carro sem ele terminar de estacionar... E aquela foi a primeira vez na minha vida em que a reclamação foi deixada para se resolver depois. Um grito fino e um pouco curioso vinha de dentro de casa e parecia muito com a voz da minha mãe. Hoje eu entendo o que aquele grito queria dizer... Mas naquele dia eu que alertei o meu pai com uma frase ingênua, fazendo-o mudar o foco da conversa.
“Papai, a mamãe tá passando mal!”
Meu pai saiu a passos largos a minha frente e o resto da história ele veio me contar muitos anos depois. Quando eu já entendia a situação, ele me contou que aquele grito não era pedido de socorro. Ele me contou que aquele grito era um sinal de diversão extraconjugal e que a minha mãe estava o traindo com Bernardo. E quem era Bernardo? Bernardo era nosso vizinho de muro. “Amigo” do meu pai. Saíram juntos por várias vezes! Jogo de futebol, barzinho... Pareciam ser bem parceiros, até. E olha só o que aconteceu, né?
Enquanto isso eu sofri muito por me mudar sem nenhum preparo psicológico. No início eu achei que eram as nossas férias aqui em Salvador, mas depois meu pai foi me falando que aquele apartamento minúsculo era a nossa casa e que as férias que seriam em Coité. Apresentou-me um novo colégio (o que eu perdi a 1° série do ensino fundamental e fiquei com 18 anos no 3° ano do ensino médio).
Isso porque durante a briga meu pai pediu divórcio e nem esperou as audiências em Coité... Meu avô estava com data marcada para inaugurar uma filial da KIA em Salvador e meu pai quem trouxe a chave. Foi ele quem inaugurou e colocou a loja pra frente, que funciona até hoje.
Quanto à Lari, ela não ficou sozinha... Ficou com a minha mãe. Sempre veio pra cá pra Salvador nas férias ou eventos especiais, mas eu só fui pra Coité (por obrigação) até entender essa história aí. Depois de saber de tudo isso... Nunca mais voltei lá. Nunca mais tive contato algum com a minha mãe... Nem pretendo ter tão cedo.
Ah! Podem se sentir especiais: eu não costumo contar essas coisas pra ninguém. E só em estar pensando nisso tudo, sinto meu sangue ferver de raiva. Tanto é que nem vi que a Lari estava falando comigo e eu aqui... Viajando na maionese.
Lari: EDUARDO?! – Ela me deu um tapão nas costas.
Eduardo: Ai! Oi? É o que peste?! – Lari arqueou a sobrancelha me encarando como se estivesse procurando algo de errado em mim.
Lari: O que? Vai dizer que tu não tava escutando?!
Eduardo: Escutando o que?
Lari: Af. Demônio. – Ela revirou os olhos, dando mais uma mordida na maçã que tava em sua mão. É... De visita à moradora. Agora Lari veio morar com a gente. Vamos ser coleguinhas, que tal?! Férias o ano todo. Alguém aí realmente acha que eu vou fazer alguma coisa? Não, né?
Eduardo: Se você não falar... Eu não vou saber. – Dei de ombros, bebendo mais um gole da cerveja. Lari ainda me encarava.
Lari: Você vai morrer de tanto beber.
Eduardo: Quem bebe morre, quem não bebe também morre...
Lari: Há-há-há. Piada. – Ela semicerrou os olhos. Ri.
Eduardo: Você tava falando isso? Sério?! Que menina sem conteúdo.
Lari: Não. Não era isso não... Isso eu observei depois.
Eduardo: Era o que então? – Arqueei a sobrancelha.
Lari: Tá. Assim... Em um nível de 0 a 10, quanto que vai rolar de putaria no seu aniversário? – Eu não aguentei! Quase coloquei a cerveja pra fora.
Eduardo: Tá louca?! Meu avô vem, minha avó... Meu pai... – É... Esse último aí até liberava uma zoada na casa de Villas. Mas o resto me cobra respeito e o projeto das panicats no meu aniversário vai ter que ficar pro outro ano.
Lari: Ah, tá. Menos mal.
Eduardo: Por quê?
Lari: Nada demais... Queria saber se eu posso levar uma amiga. Só isso. – Ela deu de ombros.
Eduardo: Uhum... Amiga, sei... Qual o nome dela? Cícero?
Lari: Amiga!
Eduardo: Uhum... De bermuda e boné, né?
Lari: Amiga. – Ela falou num tom mais sério.
Eduardo: Com a chave do carro pendurada no bolso?

Segue a foto do moleque mais mimado do mundo. Primeiro filho e primeiro neto... Quer mais um motivo pra tanto dengo?
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