Ao Seu Lado
9 Capítulo nove, Larissa
Ai minha nossa senhora da bicicletinha, me manda um punhado de paciência aí?! Larguei aquele infame no quiosque e entrei em casa pra procurar algo pra comer, porque eu só tinha beliscado desde a hora em que levantei.
Jonas: Já tomou café, filha? – Fiz que não com a cabeça enquanto enchia o meu copo com suco de goiaba que estava na mesa.
Lari: Ainda não... Vou fazer uma tapioca. Quer?
Jonas: Ah, eu quero! Uma de queijo. – Assenti, pegando as coisas no armário.
Jonas: E Gabriela? Nem tomou café?
Lari: Não também. Na verdade nem deu tempo.
Jonas: Eu vi quando ela acenou. Só achei que ela ia ficar um pouco mais... Foi o pai dela que veio buscar?
Lari: Não, foi tia Ju. O pai dela não vem embora não...
Jonas: Como não? – Meu pai arqueou as sobrancelhas.
Lari: Eles se divorciaram pai. Gabi só veio morar aqui por isso. Tia Ju só ficava em Coité por causa do casamento, até o trabalho dela é aqui em Salvador.
Jonas: É? Ela trabalha onde?
Lari: Ai... Gabi já me falou, mas eu não lembro direito. Sei que é numa editora. – Eu tinha acabado de peneirar o suficiente para as duas tapiocas quando acendi o fogo.
Lari: Vai querer sal?
Jonas: Lari? Tem quanto tempo que eles se separaram? – Encarei meu pai. Oxe. Ainda nisso? Sei lá.
Lari: Também não sei. Sei que divorciaram. – Dei de ombros, e, já que ele não respondeu, fiz as duas tapiocas sem sal. Se ele parou de falar? Não, claro que não.
Jonas: Eu ainda lembro-me dela... Gabriela é uma cópia quase fiel. O cabelo, os olhos e o sorriso são quase iguais. A única diferença é que ela tem um tipão de mulher... E Juliana não era assim na idade dela. Era magrinha. – Meu pai riu e por um momento eu tive a leve impressão de que ele estava pensando alto, tipo, falando sozinho mesmo. Eu não cortei o barato. Coloquei a tapioca dele em um pratinho, a minha em outro prato e sentei ao lado dele pra comer. A família inteira estava lá fora: alguns pelo quiosque, outros pela piscina (inclusive os meus avós, que apoiavam as meninas na boia) e tia Duda que ficava pra lá e pra cá repondo lanche pra todo mundo. E agora, ela estava vindo com dois pratos e uma jarra de suco vazia.
Tia Duda: Meu Deus! Eu tô ficando preocupada com Gustavo. Não acordou ainda? – Ela colocou a louça suja na pia, pegando um biscoito do pote que tava em cima da mesa.
Jonas: Dulce subiu pra arrumar as coisas lá em cima com a irmã faz pouco tempo, e eu pedi que ela olhasse como eles estão. Mas até agora... Nada. – Meu pai deu de ombros.
Lari: Eu ainda não entendo como foi isso. Não vi NADA! – Ri, bebendo mais um gole do meu suco.
Tia Duda: Heitor chegou aqui contando que ele tinha vomitado o quarto inteiro. Acho que ele passou mal lá no mirante e tentou chegar ao banheiro... Mas não deu. – Ri alto.
Tia Duda: Ele não tem costume de beber não. Fiquei esperando o pai falar alguma coisa, mas...
Lari: Eu vou lá em cima levar um pouco de suco de laranja pra ele. Se ele não acordar a gente leva no hospital pra tomar insulina.
Tia Duda: Devia deixar aí. – Tia Duda não tava gostando muito da ideia não, mas como eu já tinha terminado de tomar café, não me incomodei de fazer um pouco de suco de laranja pra ele. Sem brincadeiras... Eu coloquei 10 – DEZ – colheres de açúcar no copo. Ou ele acorda e fica bem, ou ele acorda diabético. Das duas uma, né? Bom. Da escada eu conseguia escutar a gargalhada alta de Heitor e eu só pude entender o motivo quando entrei no quarto e achei Gustavo de cueca tentando vestir o tapete do banheiro pensando que era a calça. Heitor? Heitor tava fazendo storie dessa cena no Instagram.
Heitor: Conseguiu vestir?
Gustavo: Não! – Ele gritou. Eu passei uns 15 segundos sem ação. Não sabia se ria ou se ajudava.
Gustavo: Heitor me dá água? – Ele sacudia o tapete como se tentasse abrir a calça para vestir.
Heitor: Água? Aqui água. – Não... Não era água. Heitor tava enchendo o copo com Corote. A garrafinha estava quase vazia.
Lari: Não Heitor! Você vai fazer isso?! – Ele assentiu, entregando o copo cheio a Gustavo. ELE VIROU O COPO DE UMA VEZ SÓ e foi inevitável passar uns segundos fazendo careta. Sério... Eu estava vendo lágrimas nos olhos de Gustavo e Heitor só filmava e dava risada. Porra, vei. Eu tomei o tapete da mão de Gustavo e deixei que ele apoiasse em mim até entrar debaixo do chuveiro.
Heitor: Ô LARI!
Lari: Cala a boca! Aproveite que você não está fazendo NADA e vá buscar uma toalha pra ele. – Que porra! Gustavo não conseguia se segurar em pé e eu quase caí com ele no box do banheiro. Tentei fazer com que ele segurasse na parede pra diminuir o peso em meus ombros, mas era uma missão quase impossível. Heitor ainda ria da cena.
Lari: Se você ainda estiver filmando, eu sinto muito, mas o seu celular vai beber um pouquinho de corote, viu?
Gustavo: Eu quero água. – Gustavo estava completamente bêbado. Completamente brisado e eu tava com medo de piorar o estado dele caindo ali no banheiro. Só fiz o que eu consegui fazer em um banho rápido e aí saí com ele dali.
Heitor: Pô, por que você não me pediu duas toalhas?
Lari: Sai daqui. – Se bobear, eu estava mais molhada que Gustavo. Só que o que Heitor queria era me tirar do sério e eu não estava afim. Sequei o que consegui de Gustavo e aproveitei pra tirar o excesso de água de mim. Heitor tinha parado de filmar e já tinha até pegado uma cueca e uma bermuda pro irmão, estendeu pra mim da porta do banheiro.
Lari: Esse papel aqui devia ser seu, sabia? – Revirei os olhos.
Lari: Quem tem você como irmão nem precisa de inimigo.
Heitor: Ah, para. Ele bebeu porque quis.
Lari: Em partes... Você ajudou.
Heitor: Tira a cueca, Gustavo. – Eu saí do banheiro e deixei Heitor vestindo o irmão. Dulce já tinha passado por ali porque o banheiro estava lavado, mas como eles estavam dormindo, a cama ainda tava do mesmo jeito. Tirei as roupas de cima dela e estiquei o lençol. Foi o tempo que ele veio e se jogou na cama.
Lari: Ei! Senta um pouco. Toma esse suco de laranja que fiz pra você. – Mexi o copo misturando o suco e entreguei na mão dele, sentado.
Lari: Quer comer? – Ele fez que não com a cabeça, me entregando o copo vazio. Gustavo se jogou na cama de novo e eu saí do quarto. Parei na porta encarando Heitor, que também me encarava. Apontei pro chão a minha frente e falei baixinho um “vem pra cá agora” que ele me atendeu sem falar nada. Eu não queria que ele ficasse chateado comigo por isso, só queria que levasse o caso a sério e me ajudasse um pouco, né?
Lari: Heitor? – Ele me olhou, lado a lado na escada.
Lari: O vídeo tem quantas visualizações? – Ele sorriu de lado, percebendo que eu não tinha ficado tão grilada assim. +700 visualizações e algumas respostas dos amigos dele de São Paulo e de algumas pessoas que eu duvido que ele conheça. A gente tava indo pro quiosque, onde Eduardo tava com Joca e tio João. Eles estavam assistindo as mesmas histórias que eu no Instagram de Heitor.
Eduardo: Que desgraça foi essa?! – Ele riu alto.
Tio João: Ê! Daqui uns dias Joca tá aí repetindo e eu quebro a sua boca, viu? – Eduardo se ligou que tava fazendo merda e calou a boca, assentindo.
Lari: Bora na praia? Meu storie vai ser lá.
Tio João: Ah, eu também vou! Bora?

Joca e o papai na praia. Tem menino mais lindo? Não, não tem.
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