Ao - Parte I - A Ameaça Cerul
2 Prenúncio de uma Guerra
Notas iniciais
Ao, o meio-ceruliano, estava na base de Lesa, no seu quarto, quando uma batida repentina o fez levantar-se da cama e abrir a porta. Ele nunca tinha visitas, então quem poderia ser?
Eram dois soldados com expressões frias. Nada de sorrisos para ele.
─ 0053, você vem conosco.
─ Por quê? ─ Disse, esfregando os olhos violeta. Estava quase na hora de dormir.
─ Não temos permissão para responder.
Levaram-no pelos corredores frios do prédio até a sala do Comandante, a figura de maior poder na hierarquia militar de Lesa.
─ Entre. ─ Disseram.
Ao não tinha medo dos militares, afinal passara toda a sua vida ao redor deles, embora nenhum jamais tenha mostrado o mínimo sinal de afeto. Não tinham sido hostis, tampouco. Ele olhou para os soldados, confuso, mas fez o que lhe pediram.
Após abrir a porta da sala, viu um homem completamente desconhecido. O que houve com o Comandante Ley? Ele era o Comandante de Lesa havia décadas.
─ Muito prazer, Ao. Eu sou Cassian Adler e pedi que viesse conversar comigo porque preciso da sua ajuda.
Ao quase abriu a boca de surpresa. Aquele era o pai de Yuna! A semelhança com a menina era muito evidente: tinha um rosto que transbordava confiança, cabelos lisos longos e mesmo olhos pretos da amiga.
─ Muito prazer, Senhor Adler. ─ Ele abaixou a cabeça. ─ Se me permite a pergunta… Onde está o Comandante Ley Harris?
─ Aposentou. Sou o novo Comandante de Lesa. ─ Os olhos escuros de Cassian Adler brilharam. ─ Feche a porta e se aproxime. Não seja tímido.
Ao não era tímido, de forma alguma, mas os militares jamais requisitaram sua ajuda antes. Era no mínimo muito suspeito que subitamente precisassem dele agora. Nunca fora nada além de um forasteiro, que ninguém sabia como lidar. O garoto aprendera a ser cauteloso.
Lentamente, aproximou-se de Cassian e se sentou na cadeira à frente de sua mesa.
─ Muito bem, agora podemos começar. Servido? ─ Disse, apontando para um bule de chá.
─ Não precisa…
─ Aceite. ─ Ele insistiu.
─ Está bem.
Cassian serviu a Ao uma xícara de chá.
─ Obrigado. ─ Mesmo um pouco desconfiado, Ao aprendera a ser educado.
─ Ao, diga o que você sabe sobre essa cidade?
Ele vasculhou a memória em busca das lições básicas que tivera de seu professor particular, há alguns anos.
─ Lesa foi construída como uma cidade militar na ilha de Kemu-lai, com o propósito de ser linha de frente contra ataques marítimos. Mas isso foi há muito tempo… Hoje em dia a cidade se expandiu e abriga civis, como qualquer outra cidade no mundo.
─ Está quase certo. A ilha é uma base militar de defesa, que conta com um arsenal complexo de armas. Mas Lesa não é uma cidade comum, e nem foi projetada para enfrentar inimigos comuns. Ela é a arma que temos contra os alienígenas invasores. Estamos para entrar em uma nova guerra, Ao.
O garoto arregalou os olhos.
─ Como?
─ Nossos batedores detectaram sinais de outra invasão alienígena.
─ Mas… A última foi há muito tempo!
─ Não, a última invasão foi há 13 anos, quando sua mãe pousou neste planeta.
─ Você quer dizer que os invasores serão… ─ Os Cerulianos não eram o único povo alienígena do Universo conhecido, apenas o mais numeroso. Devido à sua cultura expansionista, tinham invadido e povoado uma série de planetas habitáveis. A Terra ainda estava na lista.
─ É provável, mas ainda não temos certeza. Sabemos que há outros povos interessados na Terra, mas as chances do povo de Cerul estar vindo para cá são altas.
─ Tirando a minha origem, eu não tenho nada a ver com isso. Fui criado aqui na Terra como humano. Por que está me dizendo isso tudo? ─ Ao estava ficando nervoso. Seria ele um possível refém?
─ Porque precisamos de você.
─ Eu não tenho esse valor todo, fui abandonado, lembra? ─ Mesmo sabendo que não era inteligente levantar o tom de voz, ele não conseguiu evitar. ─ Se o seu plano é me usar como moeda de troca, vocês devem estar muito desesperados para pensar direito!
O Comandante ignorou os protestos de Ao e pacientemente continuou a explicar.
─ Precisamos de você para pilotar a cidade.
Ao emudeceu, a perplexidade estampada no rosto.
─ O quê? Como assim pilotar a cidade?
─ Como eu estava dizendo, antes de você fazer suposições na sua cabeça de adolescente, a cidade de Lesa é nossa arma e, de forma alguma, poderia ser considerada uma cidade comum. Quando os invasores chegarem e os ataques começarem, a cidade vai se mover, para proteger as pessoas. E você, o piloto, vai controlá-la e lutar por nós.
Nunca tinha ouvido falar nisso antes. O menino não encontrou palavras para respondê-lo. Não tinha como ele saber controlar uma arma dessas, ainda mais uma cidade inteira…
─ Você consegue ouvi-las. Você sente as engrenagens, a vibração do chão.
O garoto manteve silêncio por um minuto, enquanto organizava seus pensamentos, e, por fim, perguntou.
─ Como você sabe disso?
─ Yuna me falou sobre você.
Ao fechou a cara instantaneamente. Cassian Adler riu.
─ Não a culpe. Yuna não fez por mal, só estava empolgada com seu primeiro amigo. E agradeço a você, de verdade, por aceitar sua amizade.
─ Tá bom, eu posso ouvir. Mas isso não significa que eu possa controlar a cidade… Imagina lutar?!
─ Somente o verdadeiro piloto tem o poder para ouvir Lesa, esta é a prova. Já o matriculamos na Academia Militar e lá você será treinado apropriadamente. Não se preocupe, vamos fornecer uma equipe qualificada de apoio, treinamento e a educação que lhe falta. Você tem… ─ Voltou seus olhos para a ficha sobre a mesa. ─ 14 anos, certo?
Ao assentiu.
─ Muito bem. Está na idade certa de ingressar na Academia. Começará amanhã.
Já?
─ Mas… ─ Fora Yuna, ele nunca tivera contato com pessoas da sua idade antes…
─ Yuna estuda na mesma escola. Ela é um ano mais velha, mas acho que poderá ajudá-lo a se adaptar.
Ao aprendeu muito cedo na vida que se adaptar, para alguém como ele, significava permanecer incógnito entre os humanos. Em uma escola cheia de adolescentes, certamente seria impossível. Seu rosto evidenciou seus pensamentos de tal maneira, que o Comandante acrescentou:
─ Vamos repreender qualquer estudante que o trate mal, não se preocupe com isso. E, por fim… Cuide bem da minha filha, garoto.
O Comandante Adler deu uma piscadela para Ao, que corou. Um militar, ainda mais o próprio Comandante, estava sendo simpático com ele? Isso era, definitivamente, uma cilada. Mas Ao tinha alguma escolha?
─ É claro, senhor... Obrigado. ─ Agradecer lhe pareceu a coisa certa a se fazer.
─ Seu uniforme estará no seu quarto. As aulas começam às 9h00, peço que evite atrasos. É uma honra tê-lo ao nosso lado, Praesis.
Cassian Adler estendeu a mão para o garoto, que a apertou, hesitante.
─ Praesis? ─ Nunca tinha ouvido aquela palavra antes. Seria alguma palavra do continente?
─ O piloto de Lesa é chamado de Praesis. Mas vamos deixar isso para outro momento. Está dispensado, Ao.
Ao assentiu e deixou a sala do Comandante com quase mais perguntas do que tinha antes de entrar nela.
Enquanto caminhava de volta à Detenção para Prisioneiros Especiais (DPE), Ao tentou processar todas aquelas informações. Tudo o que conseguiu, foi ficar tenso. Havia uma guerra chegando e isso o assustava.
Passou pelos soldados que guardavam a entrada da DPE e eles, como sempre, ignoraram-no completamente.
Sozinho em seu quarto, Ao analisou o uniforme. Havia camisas sociais brancas de manga curta, gravata azul escura, calças pretas e um casaco preto com detalhes em branco. Havia também roupas mais leves, que deveriam ser de educação física: uma camiseta branca, uma bermuda azul marinho e tênis. Também havia sapatos pretos e algo que jamais poderia ser confundido com um uniforme escolar.
Era um traje completo de piloto, azul marinho e branco, com um capacete de visor azul escuro. No centro do peito, os dizeres “Coryphaeus”. Era o traje mais chamativo que já vira na vida. Será que esperavam que levasse aquilo para a escola no dia seguinte?
O dia seguinte. Apesar de um pouco ansioso, Ao varreu para longe os pensamentos negativos.
─ Deixa disso, você já está acostumado a ser um pária. Nada de novo!
Cheio de nervosismo, ele se deitou para dormir. Mesmo com toda a insegurança, uma pequena pontada de alegria acompanhou o pensamento de que no dia seguinte ele veria Yuna Adler, sua primeira amiga.
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