Notas iniciais
Vamos ao primeiro dia de aula de Ao! Ansiosos?

Ao precisaria se esforçar muito se quisesse se atrasar, pois a Academia militar ficava dentro da própria base. Vestindo o uniforme casual, Ao se sentiu exposto: os cabelos verde-água à vista lhe traziam desconforto, já que não tinha mais como escondê-los sob o capuz. Carregava também uma bolsa, onde colocou os materiais escolares, seu tablet e celular, que tinha ganhado do exército. Nunca antes fora para a escola: tinha aprendido o básico da leitura, escrita e matemática com um professor particular.

Mesmo na base, ele sentia o som baixo e inquieto da cidade sob seus pés. Como diria um filósofo famoso de um período anterior à Queda, quando se olha muito para o abismo, ele olha de volta para você. Ao sentia o abismo como se ele fosse uma criatura viva.

Ao encontrar sua sala, caminhou até o primeiro canto vago que viu e logo se sentou. A sala era ampla, com mesas compridas em fileiras dispostas, cada uma, em um nível diferente do chão. Não prestou muita atenção nos colegas que logo encheram a sala, embora fosse difícil não reparar nos murmúrios que se seguiram.

Aparentemente, os alunos não tinham sido avisados que o menino ceruliano se juntaria a eles na classe. Ele manteve o olhar distante, enquanto os lugares ao seu redor eram preenchidos.

O professor entrou e todos se levantaram, bateram continência e se sentaram. O homem de meia idade logo pôs seus olhos em Ao.

─ Bom dia, alunos. Como vocês devem ter reparado, temos um aluno… transferido. Por favor, poderia se apresentar?

A sala fez um silêncio mórbido. Ao se levantou.

─ Meu nome é Ao. – Olhou fixamente para o professor. – Prazer em conhecer.

Então, ele se sentou novamente, sem encarar ninguém nos olhos.

─ Ao, seja bem vindo. É muito bom ter você aqui na nossa aula de história. Hoje vamos aprender sobre A Queda. Alguém saberia me dizer por que a Terra ainda segue em disputa?

Uma garota no fundo da sala respondeu.

─ A Terra está muito distante das outras civilizações.

─ Muito bem, Sayla. Isso significa que, nas três décadas que se passaram desde a chegada da primeira nave alienígena, não houve tempo para organizarem grandes invasões. Podemos dizer que ainda estão em estágio de reconhecimento. Isso nos deu tempo para preparar nossas defesas. É por isso que todos vocês estão aqui. Como militares de Lesa, vão ter a honra de defender a Terra contra as ameaças do espaço.

Ao sentiu alguns olhares curiosos em direção a ele. Um alienígena estudando para defender a Terra era no mínimo curioso.

─ Mais uma pergunta: qual povo desceu à Terra na Queda, há 33 anos?

─ Os Cerulianos, senhor. Vieram invadir e conquistar nosso planeta. Mas, nos últimos tempos, parece que a tática deles mudou um pouquinho. ─ Risadinhas apareceram aqui e ali, entre os alunos, que olhavam para Ao e desviavam rapidamente o olhar.

O professor deu-lhes uma bronca e a aula continuou.

A despeito de todas as preocupações de Ao, a manhã transcorreu bem. Ao achou algumas aulas mais complicadas, mas a maioria era possível de acompanhar.

No horário do almoço, ele encontrou Yuna no corredor. Ela vestia o uniforme feminino: casaco preto e saia com detalhes em branco.

─ Ao!

─ Yuna, como vai? ─ Respondeu ele. Era um alívio encontrá-la, depois de preso em uma sala com tantos desconhecidos.

─ Vou bem e você?

─ Um pouco melhor agora.

─ Você trouxe o almoço de casa?

─ Não, eu pretendia comprar alguma coisa na cantina. ─ Os soldados lhe deram dinheiro para o almoço.

─ Sabia! Por isso, eu trouxe comida para nós dois. Meu pai deveria fazê-los cuidarem melhor de você.

─ Por que não me disse que seu pai era o novo Comandante?

─ Porque você não me perguntou.

Ao e Yuna almoçaram juntos. Estavam sentados comendo e conversando sobre o que o meio-ceruliano estava achando da academia, quando Ao sentiu a aproximação de alguém.

─ Quando meus amigos disseram, eu não acreditei. ─ O garoto falou, ao olhar para Yuna e Ao. ─ Que essa coisa estaria estudando conosco.

Ao fechou a cara. Sabia bem como lidar com tipos como esse. Ignorou o rapaz e comeu um pedaço de bolinho de arroz que Yuna preparou. Estavam muito gostosos.

O garoto, visivelmente, não gostou de ser ignorado.

─ Não fala nossa língua, aberração?

Yuna o encarou, com ódio.

─ Deixe-o em paz.

─ Não vale a pena, Yuna. ─ Ao sussurrou.

─ O que você está cochichando aí? ─ Ele fez menção de se aproximar de Ao, quando dois soldados surgiram dos corredores, fazendo o garoto parar onde estava.

Eles se posicionaram entre Ao e o rapaz.

─ 0053 está sob nossa custódia e proteção. ─ Um deles disse.

─ De onde eles surgiram? ─ Resmungou o garoto, que logo se afastou, sem olhar para trás.

Ao suspirou.

─ Viu? – Disse para Yuna. Voltou-se aos soldados e disse. – Ah, obrigado.

Os soldados assentiram e também se afastaram.

─ Estou quase sempre sob vigilância. Às vezes me pergunto se eles acham que vou criar asas e sair voando de repente. ─ Disse, dando uma risadinha.

─ Sinto muito por isso…

─ Já estou acostumado.

Ele deu de ombros.

─ Pelo menos eles serviram para alguma coisa. Que cara chato! – Yuna disse. ─ Vamos, coma mais bolinhos! Não tive o trabalho de fazê-los para vê-los sobrar.

***

As aulas da tarde foram práticas físicas. Fizeram testes básicos de velocidade e força. Na corrida, Ao foi o melhor, de longe. Ele mesmo não sabia que era tão mais rápido que os outros, embora nunca tivesse realmente treinado junto com os humanos.

Também teve facilidade com os pesos, embora a diferença para os outros alunos não fosse tão grande quanto no teste de velocidade.

Seu desempenho causou olhares mistos de medo e admiração dos colegas de turma. Os mais apavorados mantiveram distância, mas os suficientemente corajosos o cumprimentaram com educação.

— Hey, você é bom nisso. – Um rapaz o parabenizou. – É… Ao, certo?

— Sim. Ah, obrigado. – Ao estava um pouquinho feliz de alguém além de Yuna ter se aproximado dele e ter sido legal. Era mais do que tinha tido em muito tempo. Só não sabia bem como responder. Estava acostumado a apenas ignorar todos.

— Se precisar de um tour na Academia, conte comigo. – Ele estendeu a mão. – Meu nome é Charlane Sune-Agassi, mas pode me chamar só de Char.

Ao nunca tinha visto um garoto com esse nome, por isso entendeu o porquê de preferir ser chamado de Char. O sobrenome… Tinha ouvido em algum lugar.

— Certo. Você também foi impressionante. – Ao disse, fitando o placar com os resultados gerais.

Char era um rapaz de estatura mediana, magro e um pouco delicado. Os cabelos loiros eram meio rebeldes e os olhos azuis. Apesar disso, conseguiu resultados impressionantes nos testes de agilidade. Se não fosse Ao, estaria em primeiro lugar.

— Eu aceito. – Disse Ao, de repente. – Seu convite para me mostrar a escola.

— Hoje depois da aula?

— Combinado.

Ao passou o resto da tarde pensando que a escola poderia ser legal.

Após o jantar, ele encontrou Char no portão principal. Tinha retornado para o seu quarto para o banho e agora vestia seu moletom com capuz, que escondia seus cabelos e orelhas esquisitas.

— Hey, quase não o reconheci. Achei que pudesse ser um maluco que ia me roubar.

Ao riu.

— Ainda é melhor andar por aí com alguém assim do que comigo, você vai ver.

Os dois conversavam, enquanto Char mostrava a Academia. Visitaram o refeitório e a cantina, que Ao já conhecia. Passaram pelos dormitórios, que Ao não conhecia, pois dormia em uma ala completamente diferente da base de Lesa.

Os quartos estavam divididos em duas alas, uma para meninos e outra para as garotas. Os professores também podiam utilizar os dormitórios, embora a maioria preferisse a privacidade de um apartamento na cidade, mesmo custando muito mais caro. Um professor da Academia jamais teria que se preocupar com dinheiro.

— Nunca te vi por aqui, então imagino que viva na cidade. – Char comentou.

— Ah, eu vivo na base, mas a ala dos… ah… prisioneiros especiais. Fica para o outro lado.

— O quê?

— Você achava que eu era um cidadão comum de Lesa?

— Cara, desculpa, eu não sabia… – Char disse, olhando para baixo.

— Tudo bem. Eu sou mais bem tratado do que um prisioneiro normalmente seria.

Continuaram o tour pela Academia, visitando o prédio das salas de aula, o ginásio, a piscina e as áreas externas, onde treinavam tiro.

Enquanto andavam, Ao se lembrou de uma coisa importante que queria perguntar a alguém.

— Char, você já ouviu falar sobre… Praesis, ou algo assim? – Ao perguntou, baixando a voz ao falar aquele nome. Era o termo que ouviu do pai de Yuna, na noite anterior.

— Mas quem não ouviu? – Char disse, espantado. – O Praesis é o Precentor de Lesa.

— Precentor?

— O controlador, o piloto, chame do que quiser. Aquele que pode controlar a cidade e ordená-la a lutar. O de Lesa nós chamamos quase carinhosamente de Praesis. Alguns dizem que ele já está por aí, outros que jamais teremos um. Não sabemos quais as condições para ser escolhido. De qualquer forma, a identidade de um Precentor nunca é revelada. Segurança, sabe? Se derem cabo dele, estamos perdidos! Mesmo a Quadris pode ser substituída.

— Quadris?

— Cara, eles não te contaram nada? Têm tanto medo assim de um moleque com cara de fada?

— Ei, quem tem cara de… – Ao fez uma carranca. – Ah, esquece… – Suspirou, desistindo de discutir. – Não, não me contaram nada.

— Olha, eu acho que você vai acabar descobrindo mais cedo ou mais tarde, mas a Quadris é a equipe do Praesis, seus “braços e pernas”. Não é fácil controlar uma cidade inteira, então quatro pessoas muito habilidosas são escolhidas a dedo para ajudá-lo.

— Entendi, então assim o piloto não luta sozinho.

— Exatamente. Mas por que você está tão interessado assim no Praesis?

— Ah, p-por nada. – Ao gaguejou, inábil em mentir. – Só ouvi… por aí. – Ele riu, desconfortavelmente.

Char percebeu, mas não quis insistir.

Notas finais
Até o próximo capítulo, pessoal!