Ao - Parte I - A Ameaça Cerul
10 Isso é um encontro?
— Cara, eu não acredito que tem um membro da Quadris na nossa sala! – Dois alunos do primeiro ano estavam conversando, quando Ao chegou.
— Eu sinceramente, achei que seria… – Quando os olhos do colega se encontraram com os de Ao, ele gaguejou. – Ah, esquece.
— Você já conheceu ele? Como ele é?
— Sabem que não posso falar sobre isso…
Outros primeiranistas estavam bombardeando Char com perguntas. Muitas das quais ele não tinha como responder.
— Qual seu posto? – Perguntou a garota sentada ao lado de Char.
Uma pergunta que ele podia responder. Estufando o peito de orgulho, respondeu:
— O braço direito. Dex.
— Caramba! Tinha que ser o filho do Primeiro Ministro!
— Silêncio, alunos. Sei que estão todos animados para cumprimentar o colega da Quadris, mas agora é hora de estudar. Sentem-se.
Os alunos reclamaram, mas obedeceram e se sentaram. A aula prosseguiu, embora ainda houvesse cochichos por todos os lados. As luzinhas da chegada de mensagens nos tablets se acendiam com mais frequência do que normalmente seria permitido, mas o professor fez vista grossa. Até ele parecia mais feliz do que o normal.
A atmosfera em toda a escola era de animação.
No almoço, Yuna e Ao escolheram um cantinho isolado do jardim, longe da balbúrdia adolescente.
— Yuna, você é muito boa nisso! – Ao exclamou, ao morder um pedaço de bolinho de arroz recheado de salmão com maionese.
Ela corou.
— Obrigada. Fico feliz que tenha gostado.
Após terminarem, ficaram apenas observando o jardim e as pessoas caminhando.
— Conversei com meu pai ontem.
— Hum?
— Sobre você sabe o quê. – Ela sorriu. – Agora não há mais segredos entre eu e ele.
— A relação de vocês parece boa.
— Não é ruim… Ele só se preocupa demais comigo. Mas eu entendo. Depois que minha mãe morreu, ele nunca mais foi o mesmo… – Yuna encarou o chão, com alguma tristeza.
— Ele se preocupa com você, é o que importa. – Ao se aproximou dela e pegou sua mão. – Seu pai é um cara legal. – Só um pouquinho sádico às vezes, completou mentalmente.
— Tenho certo orgulho dele por não ser um militar estúpido. Sabe, como é a maioria deles…
Ao riu.
— Sei o que quer dizer.
— Você… Deve ter vivido muito sozinho. – Yuna disse. – Eu sei como é isso… Fico muito feliz de ter te encontrado aqui nesse fim de mundo.
— E um dia vamos sair desse lugar e eu vou te levar para ver as estrelas de perto.
— Quão perto? – Ela disse, com uma expressão que não sabia decifrar.
— Até onde for seguro…
Ela fez uma careta.
— Segurança? Isso é para os fracos.
Um ruído atrás deles, fez Ao se virar. Akira Senno estava parado atrás deles.
— Afaste-se dela. – Seus olhos negros encararam Ao com frieza.
— O que você está fazendo aqui, Akira? – Yuna franziu o cenho para o colega de classe.
Ambos eram do segundo ano, da mesma turma. Ao olhou de um para o outro e se lembrou do pé na bunda que o rapaz levou da garota. Controlou-se para não sorrir. Se aquilo era um mero ataque de ciúmes, ele não tinha razão para se preocupar.
— Vou repetir. Afaste-se dela, ceruliano.
Ao não queria encrenca, mas a atitude de Akira era completamente irracional. Yuna era sua amiga e não iria se afastar dela só porque um ex-pretendente desiludido estava pedindo.
— Por quê? – Perguntou simplesmente.
— Está brincando com a minha cara? Você, um inimigo que jamais deveria ter pisado nesta cidade…
— Se tem algum problema comigo, afaste-se você. Yuna é minha amiga, você não tem nada com isso. – Ele sabia que, caso as coisas ficassem feias, algum soldado brotaria de algum lugar para ajudá-lo. Ou talvez para impedir que Ao machucasse algum humano.
— Ao tem razão. – Yuna parecia irritada. – Você é o que, um stalker maluco? Cai fora você, Akira.
— É pela sua segurança, você não está entendendo.
— Quem não entende é você! Qual das palavras você ainda não compreendeu? São só duas: CAI FORA. – Ela foi muito enfática nas palavras.
Reunindo suas coisas rapidamente, ela se levantou, puxando Ao consigo, pela mão. Ele olhou de esguelha e se deparou com o rosto enfurecido de Akira. Naquela hora, ele tinha certeza que partiria para cima. Mas isso não aconteceu. Ele ficou apenas parado, encarando-os caminhar para longe, seus olhos negros envolvidos por um ódio profundo.
— Eu, hein? Credo. – Desabafou Yuna. – Toma cuidado com o Akira, Ao. Não sabemos o que ele pode fazer.
— Deixa ele tentar. – Ao sabia que era mais forte e principalmente mais rápido que Akira. Mesmo ele sendo um prodígio, ainda era humano. Além disso, Akira não poderia ir contra alguém importante como o Precentor de Lesa. Fizera um juramento sob pena de morte.
— Ah, você também? Não compra briga com ele!
— Eu posso vencer. – Ao se gabou.
— Garotos estúpidos!
— Mas, considerando as circunstâncias… Eu duvido que ele vá realmente tentar alguma coisa.
— Nunca se sabe o que passa na cabeça desse idiota. – Yuna suspirou.
— As aulas já vão começar. – Lembrou Ao.
— Vejo você depois da aula? – A menina disse, repentinamente.
— Hum?
— Quer tomar um sorvete comigo? – A garota inclinou levemente o rosto para o lado e sorriu. O coração de Ao quase parou.
“Use meu presente… talvez assim consiga me enganar”
O rosto de Ao esquentou, enquanto as palavras de Char reviveram em sua mente.
— C-claro!
Yuna se afastou, deixando Ao e seu coração a ponto de explodir de emoção.
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