Ao Nascer do Sol
1 Capítulo Único
Os dois estavam sentados próximos a uma árvore, ao longe os primeiros feixes de luz começavam a sobrepor as montanhas.
- Nunca pensei que iria ver o nascer do sol! – A mulher sussurrou, colocando a mão sobre o chão coberto de vermelho e deitando a sua cabeça sobre o peito do amado.
- Ainda mais com você... – Ele respondeu, afagando os cabelos negros da garota. – Eu te amo, Jéssica.
- Também, Ronald... – A jovem moveu a cabeça para cima e deu um beijo no namorado. – Tem certeza que quer fazer isso?
- Irá desistir agora, querida?
- Não... E você?
- Iremos ficar juntos até o fim. – Ele moveu os olhos na vila abaixo. Era pequena, com algumas casas de telhados vermelhos e quebrados, portas de madeiras trancadas e janelas abertas para a rua. Um silêncio profundo e amargo reinava no local, sendo cortado por um sapo que coaxou ao longe.
- O sol irá aparecer em breve. – Jéssica lembrou, tirando a mão da luminosidade que a atingiu.
- Será minha primeira vez...
- Primeira vez?
- Eu nunca pude ver o Sol nascer.
- Você não teve sorte.
- Eu não aproveitei a minha vida, querida.
- Desculpas...
- A primeira e última. Soa engraçado, não?
- Diria que dramático.
- É... – As mãos dele envolveram o corpo da jovem. Ela era charmosa, com curvas perfeitas e as pernas encolhidas. A árvore sobre os dois balançou a favor do vento, algumas folhas caindo sobre o casal. – Outono?
- Ainda não. – Jéssica disse, se encolhendo ainda mais e percebeu o calor aumentando em seu corpo. – Vamos ficar...
- E esperar. Fizemos uma promessa!
- Viver juntos...
- E morrer juntos... – Ronald completou, dando um beijo no cabelo da amada. Ela sorriu com a carícia e encolheu ainda mais as suas pernas.
- Quer comer? – Perguntou ainda com os olhos sobre o horizonte e vendo o Sol surgindo do outro lado da montanha. – Pode ser a sua última oportunidade.
- A sua última também. – Ele enfatizou. Seus cabelos eram curtos e lisos, movendo-se de um lado ao outro. As mãos pálidas seguraram a barriga da amada. – Nós já comemos, não?
- É...
- Está com fome?
- Não. – Ele a observou com um olhar duvidoso e ela entendeu o que significava. – Eu pensei que você poderia sentir fome mais rápido que eu.
- Não, querida, já estou cheio. – E então os primeiros raios de luz invadiram toda a vila, iluminando os vários corpos jogados no chão, as suas peles brancas e pálidas com as veias sem mais nenhuma gota de sangue. – É lindo, não?
- Concordo. – Ela respondeu, olhando para o Sol que agora iluminava parte do campo onde os dois estavam. O lugar estava coberto de sangue impregnado nos capins. – Então, estamos cansados de viver eternamente, certo?
- 547 anos, querida. Já vi muita coisa e não quero continuar vendo mais. – Ronald virou a amada e beijo o seu rosto frio. Ela sorriu no momento do beijo, as suas presas ainda avermelhadas pela alimentação. As mãos da mulher abraçaram o corpo do homem, que moveu a sua boca com ferocidade enquanto a beijava. Os seus corpos se tocaram pela última vez, gelados e frios como um par de pedras de gelo. Ela sentiu o seu beijo doce no pescoço e em seguida uma mordida na orelha.
- 422 anos de vida. – Sussurrou, sentindo a pele da perna queimar ao primeiro feixe de luz atingi-la. Jéssica olhou para a árvore atrás dos dois, tão alta e magnífica que parecia o cenário perfeito para a sua morte. Ela gemeu de dor e girou o corpo do amado, agora ele estava queimando ao Sol.
- Sim, que venha a morte! – Ronald declarou, girando uma segunda vez e fazendo a sua mulher ficar sobre ele. As costas de Jéssica começaram a fumaçar, o rosto de rancor encarando o amado.
- Uma morte lenta e dolorosa! – Ela beijou o homem pela última vez, puxando os seus ombros e os batendo com força contra o campo. – Iremos juntos! – Lembrou, o seu corpo ficando negro pelas costas. Ela então se virou, empurrando o amado em direção ao Sol e o vendo contorcer de dor.
- Venha! – Ordenou, puxando a mão da mulher e a forçando a abraçá-lo. Agora ambos estavam juntos, sobre o Sol da manhã de domingo e seus corpos desfaleciam a cada segundo. Ela olhou para os olhos azuis sedutores do homem em que um dia amou de verdade.
- Iremos viver juntos! — Disse, o seu rosto ficando desfigurado com a ação do sol.
- E morrer juntos! – Completou Ronald, as suas costas pegando fogo e passando para a amada, que agora virava cinzas com o tempo. – Te amo. – Ele disse suas últimas palavras, da boca saia uma fumaça cinza e suja.
- Tam... – E o corpo de Jéssica despencou no chão, apenas cinzas. Ronald foi o próximo, os dedos se contorcendo e caindo de suas mãos, assim como o restante do corpo, em cinzas. Agora a cidade estava em silêncio, somente o Sol pairando no ar e iluminando a completa tragédia da vila. Sem nenhuma vida, apenas a morte.
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