Ao Estar Com Você

1 Penhasco das Estrelas


Notas iniciais
Olá, caros leitores!
Agradeço de antemão pela atenção e espero que possam aproveitar a leitura como desejam.
Desejo-lhes uma boa leitura.

Rabiscando os últimos traços que davam forma a paisagem de seu esboço, Albedo respirou um pouco mais profundamente quando, satisfeito, comparou sua arte com a bela vista que tentava representar.

Sem uma explicação plausível para justificar aquela mudança de ritmo, o jovem capitão do departamento de investigação dos Cavaleiros de Favonius só havia sucumbido ao desejo de seu próprio cérebro. Registrar uma imagem tão ordinária não deveria ter tanta importância, muito menos deveria ter chamado sua atenção. Afinal, caminhar pelo Penhasco das Estrelas era quase como um ritual quando buscava um pouco de ar fresco.

Talvez, sua mente cansada quis se aliviar das tensões de frustração quanto aos seus experimentos que, num breve resumo, não resultaram da forma como gostaria. Ou melhor, elas tinham sido exatamente como ele previra e, para seu próprio contentamento, era a pior coisa a se acontecer. Ou talvez, seu espírito ficou tão calmo por estar cercado das flores que mais amava que desejou gravar aquele momento. De qualquer forma, ali estava ele, acompanhado apenas pelas cecílias enquanto que a brisa constante e gentil brincava com as mechas de seu cabelo loiro pálido. Além do carinho, o vento também se entretinha com as flores daquele campo, fazendo com que dançassem conforme sua vontade.

Estar de frente para aquela campina íngreme era tudo o que ele precisava naquele instante.

De certa forma, Albedo estava tranquilo quanto ao tempo que se dedicava ali. Apesar de não ter ideia do tempo “desperdiçado” desde que iniciou seus rabiscos, milagrosamente, ele não estava preocupado. Seu trabalho para com os cavaleiros estava mais do que adiantado e, mesmo com suas pesquisas não saindo como gostaria, estavam em processo de espera para a próxima etapa. Por isso, nada o prendia em sua oficina, dando a liberdade de se encontrar naquele lugar. Aliás, fazia algum tempo que não desenhava sem o propósito de estudar algum item e seus mecanismos. Naquele momento, seu desenho era sua terapia, revigorando-o aos poucos para novas descobertas e ideias.

Com sua atenção dedica nos mínimos detalhes das flores que o cercavam, o jovem alquimista dava um empenho especial ao que retratava as cecílias em seu desenho. A Espinha do Dragão quase não tinha relevância naquele cenário impregnado no papel e, desse modo, Albedo deixava claro o que realmente queria exibir. Além de suas flores preferidas, parte da majestosa árvore na Origem do Vento também conquistava o olhar de quem apreciasse aquela obra. E com a mais absoluta certa, era um dos poucos trabalhos fora de suas pesquisas que mais havia se empenhado até então.

E não foi apenas o alquimista que notara isso.

— Nossa, você tem realmente um grande talento para isso.

Surpreso com a presença alheia, Albedo dirigiu seu olhar mais expressivo do que seu rosto para aquela voz que conhecia muito bem. De pé a não muitos passos de si, Aether tinha um olhar cheio de admiração e felicidade, deixando claro o quanto estava encantado com o seu desenho. O viajante se sentiu culpado quando percebeu o pequeno espanto que havia causado. Havia sido o mais cauteloso possível para não atrapalhar a concentração do amigo ou mesmo prejudicar a finalização daquele belo retrato, porém, sua boca acabou agindo antes que sua mente a detivesse. Por sorte, estava grato que ela apenas agira quando Albedo afastou o lápis do papel e, desse modo, não teria riscos de que uma imperfeição surgisse. Incomodado com o que ele próprio havia causado, Aether buscou se desculpar.

— Desculpa. Eu não queria te assustar ou te atrapalhar.

— Está tudo bem. Eu já estava acabando... Só não esperava te ver por aqui. – ainda com seu olhar impressionado fixo na imagem do viajante, o alquimista teve uma verdadeira dificuldade para abandonar a figura do outro e retornar ao seu trabalho. – Veio só desta vez, cavaleiro honorável?

— Por que tanta formalidade? – rindo contido, Aether hesitou muito antes de se sentar ao lado de Albedo, garantindo certo espaço entre eles. Por algum motivo, ele teve medo de estar sendo um incômodo e, mesmo que impensável, até duvidou o alquimista o via como um amigo.

— Desculpa, é a força do hábito. Não estou muito acostumado em tratar as pessoas tão casualmente fora a Klee e a Sucrose.

— Ah, por falar nelas, elas estavam te procurando.

— É mesmo?

— Sim. Elas não sabiam onde você estava e pediram para que te procurasse. Paimon acabou escolhendo ficar com elas, já que está cansada da viagem.

— Oh, é por isso que está aqui. – apesar de seus traços estarem sempre precisos, os olhos azuis do jovem cavaleiro estavam mais ocupados em assistir a qualquer reação do viajante do que no capricho do desenho. – E como sabia que eu estava aqui?

— Na verdade, eu não tinha ideia. Mas como eu imaginei que tivesse saído para desenhar, acabei indo nos lugares que mais me encantaram em Mondstadt.

E pelo canto dos olhos, Albedo viu um doce e adorável sorriso se formar naqueles delicados lábios.

— Sério, você é um excelente desenhista.

— Você acha?

— Eu já viajei por muitos mundos junto da minha irmã e, ao menos, consigo afirmar isso. – mostrando-se sem graça, Aether riu entretido como se recordasse de muitos momentos e situações. Logo, ele deixou que suas mãos sustentassem seu corpo enquanto encarava o limpo céu azul celeste, em uma forte tonalidade já que em poucas horas, o sol iria rumo ao horizonte. A luz não estava tão quente quanto o viajante esperava, o que o havia preocupando quando encontrou Albedo sentado sem a proteção de uma sombra. Porém, com a doce e gentil brisa que rondava por aquela vastidão, era impossível que o sol chegasse a realmente os afetar. No mesmo instante, o agradável aroma das flores aguçara seu olfato e lhe trouxe ainda mais paz, uma recompensa mais do que merecia depois do quanto havia andado. – Faz sentido você ter parado aqui para desenhar. É muito agradável.

— É... De fato, hoje está sendo um dia muito tranquilo. Não é sempre que essa colina tem toda essa paz, principalmente com a presença constante dos Hilichurls.

— Amber disse que eles recuaram um pouco, é verdade?

— Aparentemente, sim. – ainda discretamente, Albedo continuava a observar a figura do viajante e sua postura relaxada. Ele não soube apontar quando foi a última vez que tinham ficado daquele modo, tão despreocupados. Porém, mesmo contemplando aquela serenidade, algo escondido no olhar de Aether o incomodou. – Faz muito tempo que chegou de Liyue?

— Não muito, pra falar a verdade. Chegamos hoje de manhã. – endireitando-se melhor e ajeitando sua postura, o garoto tentou parecer positivo, mas tanto seu olhar quanto a curvatura de suas sobrancelhas o delatavam descaradamente. – No fim, Keqing disse que não houve nada de novo em relação as informações sobre a minha irmã.

Ah, então era isso...

Abaixando sutilmente seu olhar antes de encarar seu desenho já finalizado, Albedo suspirou inaudível ao que fechou seu caderno e o colocou ao lado oposto de onde o outro estava.

— Você vai encontrá-la, Aether. Você verá.

Retornando a sorrir um pouco mais confiante, o viajante não tinha deixado totalmente sua melancolia.

— Obrigado, Albedo.

Incomodado com aquela postura deprimida, o jovem alquimista pensou consigo em como poderia mudar aquele clima e, até mesmo, o tópico do assunto. Porém, ele não tinha noção alguma de como pessoas normais interagiam. Tudo o que sabia era o mínimo em todos os requisitos para um convívio social saudável e, até aquele momento, havia lhe bastado.

Contudo, ele duvidou muito que isso fosse o bastante para aquela situação.

— E como vão as suas experiências? – grato pelo próprio Aether ter encontrado um jeito, Albedo respirou, discretamente, mais profundamente. – Espero que não tenha feito nada perigoso.

— Ultimamente, elas não trouxeram nada do que resultados já esperados. Não que seja um mal sinal, mas é um pouco desanimador. – confessando após um suspiro pequeno, as palavras sinceras do alquimista impressionaram o outro. Afinal, mesmo que Albedo fosse muito direto, Aether sabia que ele omitia muito para si.

— Entendo... É como nos meus testes, não é?

— Na realidade, no seu caso, é algo extremamente positivo. Isso mostra que somos muito pouco diferentes e ter o prazer de desvendar esses pequenos detalhes distintos é fascinante.

— Você fala como se eu fosse um rato de laboratório. – rindo pelo entusiasmo, o viajante nem percebeu que sua atitude acalmou ainda mais ao outro.

— Bom, te vejo mais como um companheiro, alguém que eu possa contar.

Dito aquele fato, Aether ficou sem uma reação. Sua boca se abriu minimamente, como se quisesse dizer algo, mas, no fim, era apenas para deixar claro seu espanto. Um pouco sem jeito, o rapaz riu de forma mais tímida, coçando sua nuca ao que seus olhos se tornavam incrivelmente mansos. Ele parecia muito feliz com aquilo e apenas para comprová-lo, um carinhoso curvar tomou seus lábios.

— Às vezes, você me deixa sem jeito quando diz essas coisas.

— Só estou sendo sincero com você, mas se preferir em outras palavras, te considero um grande amigo.

— Eu também te vejo dessa forma. – vendo aquele brilho encantador nos olhos dourados como ouro, Albedo sentiu seu peito pesar de forma muito agradável.

— E bem, quanto aos riscos... Não há descobrimento enquanto não se der o primeiro passo.

— Mas isso não significa que você deve se machucar por isso.

— Não se preocupe. Nada de muito grave aconteceu.

— Então, aconteceu algo. – frustrado, as feições de Aether deixaram de serem amáveis para expressar toda sua negação enquanto balançava sua cabeça em reforço. – Você tem que tomar mais cuidado, Albedo. Não quero que nada de ruim aconteça com você.

Após instantes daquelas palavras terem sido pronunciadas, o viajante arregalou brevemente seus olhos ao que notou um sentimento novo e intenso nos olhos azuis do amigo. Traído por seus próprios sentimentos, ele levou seu olhar para longe da figura do alquimista, esperançoso que estivesse enganado. Albedo, por outro lado, não teve o mesmo tipo de atitude. Na realidade, ele não tinha nada a esconder quanto ao brilho de seu olhar e sobre a felicidade que sentia por ter a preocupação pessoal de Aether para si.

E era com esses pequenos e preciosos detalhes que um certo sentimento crescia forte e saudável, algo que Albedo nunca imaginou que nutriria por alguém.

— Está tudo bem, Aether. Realmente, não aconteceu nada de grave. Apenas pequenos ferimentos e uma perda considerável de materiais.

— Apesar de você dizer isso, ainda me preocupo. – suspirando com alguma vergonha visível em seu tom de voz, o viajante arriscou olhar para o amigo e se tornou refém da imensidão azul daquele olhar seguro.

— Bom, eu também me preocupo quando você não está por perto. Você é impulsivo e enfrenta qualquer desafio à sua frente, sem saber suas reais chances. Isso o torna tão imprudente quanto a mim, certo?

Vendo uma leve expressão de surpresa surgir naquele belo e jovem rosto, Albedo quase não conseguiu segurar seu próprio espanto quando uma leve tonalidade rubra cobriu a pele macia da face de Aether. O viajante tentou disfarçar ao fugir, mais uma vez, seus brilhantes olhos dourados como o sol do caminho do outro, porém, tudo o que ele conseguiu foi transparecer ainda mais seu constrangimento.

— Eu sei o que eu faço e consigo me defender.

— Eu sei bem disso, mas se precisar de ajuda, estarei ao seu lado.

Novamente, impressionado com as palavras do alquimista, Aether bagunçou seus cabelos para dispersar um pouco do pulsar estranho que seu coração fazia e abaixou seu rosto, como se quisesse refúgio.

— O-Obrigado, eu acho...

— É a verdade. Acha que estou mentindo?

— O-o que? – nervoso, Aether voltou sua atenção para Albedo, surpreendendo-se com a proximidade tomada e encerrando qualquer distância que tinha deixado anteriormente. O rosto do alquimista mostrava uma serenidade invejável, injustificável com sua atitude ou pelo momento. Seu olhar seguro e firme era perigoso, mas mesmo o viajante sabendo disso, ele não era capaz de desobedecer a aquele comando silencioso. – A-Albedo...

Como se ambos tivessem parado no tempo, Aether perdeu o jeito de como se respirava. Enquanto a respiração calma do alquimista atingia sua pele e a fazia formigar, sua própria se tornou frágil e acuada, ameaçando em desaparecer. Seus olhos se negavam em deixar a tensão delicada se havia ali. E dentro do dourado e do azul, havia algo que apenas ambos tinham ciência, desfrutavam quando a sós e, principalmente, algo somente deles.

Lentamente, Albedo fez questão de diminuir o espaço entre eles um pouco mais. Por instinto, Aether fechou seus olhos com força, temendo as consequências que viriam e o estado de seu coração. Sua imaginação rapidamente começou a brincar consigo, fazendo com que seus lábios formigassem mesmo sem a presença da boca do outro. Entretanto, no final, nada do que imaginou aconteceu.

E para seu grande espanto, Albedo apenas depositou um beijo extremamente significativo em sua testa.

Extasiado com a agradável fragrância do alquimista e pelo inocente toque, Aether não pôde evitar de corar quando Albedo afastou sua face e exibiu um sorriso único e singular. Era um momento raro que o viajante nunca se esqueceria e, ao mesmo tempo, desejaria receber mais dali por diante.

— Está vendo?

Apesar do tom sempre calmo, Aether sabia quando o jovem cavaleiro queria provocá-lo. Frustrado com sua derrota, o jovem se levantou às pressas e tentou recuperar sua personalidade. Em contra partida, o alquimista aumentou o pequeno sorriso que tinha em seu rosto. Por respeito, ele privou-se de rir encantado com aquela reação tão genuína e reunindo seus materiais, este se preparou para retornar à cidade.

— E-Eu nunca disse que não acreditava em você... – ainda incapaz de encarar o outro, Aether respirou mais profundamente para se sentir no controle de seu corpo.

— Então, isso basta. – tranquilamente, Albedo levou uma de suas mãos contra os cabelos longos e dourados, efetuando um pequeno afago. Claramente, ele não tinha problema algum em quebrar os limites do jovem, mas não era como se Aether se importasse. – Não tenha medo de vir até mim.

O viajante quase riu com aquela frase sem sentido. Desde que se conheceram, medo era a última coisa que sentia pelo alquimista. E se fosse dizer o que realmente o amedrontava era aquela situação delicada em que viviam há algum tempo.

Porém, como poderia temer algo que acometia a ambos?

— Obrigado, Albedo.

Presenciando aquele doce e verdadeiro sorriso, Albedo, enfim, permitiu-se em tomar uma atitude. Apesar de breve, o toque sutil de seus lábios sobre os do viajante deveria ser o suficiente para que suportasse mais um tempo sem tê-lo ao seu lado, caso acontecesse. E reprimindo seu desejo de macular aquela ação pura, o alquimista deu tudo de si para que se contentasse com mais uma atitude sua. Gentis, seus dedos deslizaram sobre uma das bochechas avermelhadas e a acariciaram após se acomodarem perfeitamente contra aquela curvatura. E apesar de estar com luvas, Albedo conseguia sentir o calor que emanava daquela pele.

O alquimista não saiba o que significava ser egoísta, mas vendo o quanto se importava e queria Aether consigo, parecia que aquela palavra, pela primeira vez, tinha um sentido em sua vida e o julgava.

Certamente, era muito egoísmo seu querer tê-lo atado a si para que nunca mais partisse.

— Na próxima, eu poderia te desenhar?

E rindo aquela pergunta aleatória, Aether nem se importou com a tonalidade bem visível em sua face...

— Eu adoraria.

E o quanto estava feliz.

Notas finais
Caros leitores de todas as idades. Gostaria que, humildemente, deixassem uma palavra a esta escritora que aqui vos escreve. Não é pedir muito um simplório comentário para dar a luz que um escritor necessita.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!