Ao Despertar
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O tempo chuvoso e frio dava uma sensação de melancolia na bela mulher que acabara de acordar, não sabia o por quê, mas sentia-se extremamente confusa e incomodada.
Espreguiçando-se na cama ela sentou olhando para o lado e espantou-se ao vê um homem dormindo de peito para cima e aparentemente nu. Olhou para si mesma e percebeu que estava sem roupas, rapidamente levantou e viu a porta de um banheiro aberto, entrou sentindo-se perdida e trancou a porta. Varreo os olhos pelo lugar, não reconhecendo nada, não sabia quem era aquele homem, não sabia o que estava fazendo ali, a única coisa que se lembrava era de seu nome, Maria Fernandes de Acuna e que tinha 20 anos e que recentemente perdera seus pais em um acidente de carro.
Maria sentiu uma dor no peito, seus pais morreram! Com um choro doído colocou as mãos na cabeça e escorreu devagar na porta se perguntando, com a voz embargada.
— Meu Deus, o que está acontecendo?
Maria chorou por longos minutos, até que ao levantar a cabeça viu fotos coladas ao lado do espelho, acima da pia. Se aproximou e viu seu reflexo, estava abatida e com uma aparência mais madura, estranhou e aproximou-se mais para se olhar, enxergou uma leve mancha roxa próximo ao seu olho esquerdo, tocou alí e sentiu dolorido. Enxugou o rosto das lágrimas e olhou uma das fotos.
— Essa sou eu — Sussurrou.
Maria acariciou a foto e logo se viu em todas as outras com pessoas que ela não se lembrava, em vários momentos e lugares, em bares, parques, universidade, festas e em muitas dela aquele homem nu, sobre a cama do quarto, estava presente.
— Quem é você? — se perguntou.
Maria paralisou ao notar uma foto de casamento, arrancou da parede com as mãos trêmulas e se viu vestida de noiva com aquele homem desconhecido. Virou a foto e viu os dizeres "Eu sempre vou amar você! — de seu, agora, esposo Estevão San Roman."
— Estevão? — Maria jogou a foto em cima da pia e com a respiração agitada andou pelo banheiro desnorteada. Não lembrava de ter casado, não lembrava de nenhuma daquelas pessoas.
Maria olhou o boxe grande do banheiro e abriu, precisava molhar a cabeça, precisava de um banho para acalmar seus pensamentos, que dificilmente conseguiria controlar, até saber o que estava acontecendo. Ligou o chuveiro e se pôs em baixo fechando os olhos e respirando fundo.
15 minutos depois Maria apreensiva estava com a mão na maçaneta da porta, não havia encontrado toalhas no banheiro e torceu interiormente para Estevão ainda estar dormindo. Abriu a porta devagar, como se não quisesse fazer barulho e saiu do banheiro e deu de cara com Estevão sentado na cama e segurando um roupão. Maria se tampou e nervosa perguntou querendo saber de fato quem era aquele homem.
— Q-quem é você?
Estevão suspirou e levantou indo até ela que se encostou na parede com medo e virou o rosto.
— Não se preocupe. Tome.
Estevão estendeu o roupão para Maria e virou de costas para lhe dar privacidade, Maria assim que pegou, rápido colocou no corpo.
— Sou Estevão, seu marido. — respondeu Estevão.
Maria amarrou o roupão, o olhou confusa e disse com uma voz baixa.
— Eu não lembro de você. Por que não me lembro de nada? Exceto de meus pais.
Estevão a olhou e levantou as sobrancelhas surpreso e indagou.
— Querida, você lembra de seus pais?
Maria se sentiu estranha com aquela forma de Estevão a chamar, não o conhecia, mas de fato, ele era muito lindo e de um intenso olhar verde, lábios finos e rosados, pele clara, com cabelos de um preto brilhante e alguns charmosos fios brancos, seu belo rosto com aquela barba desenhada lhe dava um ar de misterioso e seu porte era de um homem viril, havia um magnetismo que a fez se sentir atraída por Estevão, fazendo assim Maria suspirar ao constatar que em seu corpo só havia uma toalha presa a cintura, que antes Maria não havia notado e sem jeito ela desviou o olhar de seu corpo e o mirou nos olhos dizendo meio vacilante.
— S-sim, lembro... Lembro que eles sofreram um acidente e que...Morreram.
No fim de suas palavras, Maria tinha os olhos molhados pelas lágrimas e Estevão suspirou, aparentemente, preocupado e perguntou.
— Lembra só deles?
Maria estranhou e tocou um lado de sua cabeça, confusa e com medo.
— Sim. Meus pais morreram, como é meu marido e não sabe disso?
Estevão passou a mão nos cabelos e pegou a mão de Maria a levando para sentar na cama. Ficou a olhando por uns minutos, pensando o quanto Maria é linda, seus olhos, ainda que confusos e tristes, eram os verdes mais puros que viu em toda sua vida, seu olhar, seu olhar lhe hipnotizava, tudo em Maria era lindo e o atraía cada vez mais para ela e assim, ele acariciou o rosto de sua mulher e disse calmo.
— Eu sei que seus pais morreram, querida. Mas isso já foi a muito tempo. Você já tem 40 anos, Maria.
Maria levantou da cama aflita, aquelas palavras de Estevão ficou ecoando em sua mente, como já se passaram anos da morte de seus pais e por que ela só lembrava deles? Como tinha 40 anos se não lembrava de ter vivido todos esses anos? Alguma coisa não estava certa. Maria se virou para Estevão e o questionou.
— Vi fotos no banheiro. Por que não tem fotos de meus pais ali? Por que eu não lembro da minha vida? O que aconteceu comigo?
Estevão andou até Maria e acariciou seu rosto, mas ela recuou. Era como se fosse errado receber seus carinhos, sem antes conhecê-lo melhor. Estevão suspirou e disse de uma forma calma.
— Você que as tira, diz que não consegue olhar as fotos — Se afastou indo até um imenso guarda-roupa e abrindo as portas — Mas se você quiser posso pegá-las para você. Só espere que eu me arrume, tenho alguns minutos para conversar com você, depois preciso trabalhar. Aqui estão suas roupas. — apontou para dentro do guarda-roupa.
Maria o olhou temerosa e Estevão se aproximou tocando seu rosto com adoração.
— Vai ficar tudo bem, meu amor.
Maria derramou lágrimas e confessou em um sussurro.
— Eu estou com muito medo.
— Eu sei — Estevão a abraçou apertado — Eu te amo, Maria, eu te amo.
Maria não o abraçou, estava paralisada e sem saber como reagir. Estevão a soltou e entrou no banheiro.
Algum tempo depois, Maria estava sentada na cadeira da cozinha olhando a foto dos pais e ouvindo mais algumas informações de Estevão, que em pé, tomava uma xícara de café, já arrumado para ir ao trabalho.
— Você sofreu um acidente e hoje tem dificuldades de lembrar das coisas — explicou Estevão.
— Quais coisas? — perguntou Maria o olhando.
— Tudo. Pelo menos era, até lembrar de seus pais.
— Então eu não lembrava deles antes?
— Não, Maria. Você armazena informações por um dia e quando acorda não lembra mais, você volta aos seus vinte anos. — Confessou Estevão em um suspiro.
— E como...como nos conhecemos?
— Na faculdade. Nos formamos em administração e nos casamos três anos depois disso — Estevão pegou o álbum e mostrou fotos do casamento — Você estava linda.
Maria olhou todas, parecia tão feliz e realizada. Tocou nas fotos e viu várias pessoas.
— Quem são essas pessoas? Nossos amigos?
Estevão sentou ao seu lado e sorriu olhando as fotos.
— Sim, todos são.
— E onde eles estão? — Maria olhou para as fotos e se viu abraçada com uma mulher loira muito sorridente e bonita de olhos azuis e de pele branca — Quem é ela?
Estevão olhou para onde Maria apontava e levantou tomando o último gole do seu café e deixando a xícara na pia.
— Vivian, sua melhor amiga.
Maria sorriu e perguntou com empolgação.
— E onde ela está? Eu quero vê-la e conversar com ela, quem sabe eu não lembre de mais alguma coisa.
Estevão pegou sua pasta da cadeira e deu a volta na mesa parando em frente a geladeira, aonde havia várias anotações.
— Vivian não mora mais no México, se mudou para Aruba, perdemos o contato com todos, viemos para essa casa afastada de tudo e de todos para cuidar de você, os médicos disseram que um lugar calmo e longe de toda a agitação te deixaria mais confortável. Como vê, não temos vizinhos, somos só eu e você e estou fazendo meu melhor porque te amo — Estevão olhou para seu relógio e depois apontou para as anotações — Aqui está tudo que você precisa saber, onde fica cada coisa. O que você precisar está tudo anotado aqui.
Maria o olhou, não tinha mais amiga e nem ninguém, pelo visto só tinha Estevão. Isso a deixou com uma sensação de sozinha no mundo. Levantou e olhou as anotações e viu algo que lhe chamou a atenção.
— Fazer as malas? — Olhou para Estevão com um ar de interrogação.
Estevão sorriu e disse feliz.
— Vamos viajar, comemorar nosso aniversário de casamento de 18 anos. Se precisar de qualquer coisa me liga, meu número está anotado aí.
Estevão se aproximou para beijar Maria, mas ela virou o rosto envergonhada. Com um suspiro ele fechou os olhos e lhe deu um castro beijo nos cabelos e se foi. Maria o olhou sair pela porta e se aproximou da janela e logo o viu dar partida no carro e ir embora.
Maria girou o corpo olhando toda a casa, era linda, cores claras e móveis sofisticados. Andou um pouco por ali e ouviu um telefone tocar. Seguiu o som do telefone tocando e subiu as escadas abrindo a porta de um escritório e logo atendeu, um pouco acanhada, com a voz baixa, disse.
— Alô?
E logo uma voz grossa de homem lhe respondeu.
— Maria? É o Dr Heriberto, eu sei que você não se lembra, mas tá tudo bem. Temos tido progresso em sua memória. Estamos tentando um novo método e surtiu efeitos.
Maria franziu o cenho, e confusa disse.
— Estevão não me falou nada a respeito.
O Doutor suspirou e confessou.
— Creio que ele não sabe.
— Eu não entendo — admitiu Maria, ainda confusa.
— Maria eu quero que você faça uma coisa. Vá no seu banheiro, do seu quarto. Procure uma coisa escondido dentro da descarga do vaso sanitário, retire a tampa, tem uma sacola.
Maria caminhou até o quarto do casal e logo estava no banheiro.
— O que eu vou procurar exatamente?
— Você vai pegar essa sacola. Já está vendo?
Maria colocou o celular no chão e abriu a tampa e se agachou para vê melhor, ali havia uma sacola em meio a água, escondida bem no fundo. Tirou dali, enxugou e abriu vendo uma câmera.
— Achou a câmera?
Maria pôde ouvir a voz longe de Heriberto, pegou o telefone e disse.
— Sim, achei.
— Quero que você aperte no botão acima e depois aperte no play. Tudo bem?
Maria sussurrou que sim e ligou a câmera e deu play e logo se viu dentro do banheiro segurando a câmera, se gravando. Estava aparentemente nervosa e sem roupa, seus cabelos estavam revoltos e logo começou a falar, em um sussurro.
— Meu nome é Maria, Maria San Roman. Eu sofro de amnésia. Quando eu dormir, minha mente vai apagar tudo que descobrir hoje e vou acordar não sabendo de nada. Só queria minha vida de volta, metade de uma vida que nem se quer lembro. Em todo caso, é melhor ter a ilusão de que um dia eu a terei. — Maria ouviu um barulho do lado de fora do banheiro e olhou para a porta e antes de desligar disse — Meu Deus, ele tá aqui.
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