Ao Cair da Neve
3 Parte III
Chan-yeol foi um furacão que bagunçou tudo em nós. Tudo em mim.
Chan-yeol não era o cara rebelde em uma jaqueta de couro que me colocou na garupa de sua moto e me fez cair de amores por ele num primeiro beijo nada calmo e recatado. Era o cara de olhos tímidos e uma voz que mudava de tom a cada palavra proferida numa frase; quieto e desajeitado, e que por vezes estava com a mente mais pra lá, em seus livros e quadrinhos, do que pra cá, na realidade de um estudante de Ensino Médio. Nossa história não era o romance clichê dos filmes, em verdade, era cheia de linhas tortas e falhas, idas e vindas, passos para frente e para trás, cujo passado não foi superado com o passar dos meses e anos, mas com o apoio um do outro e a força de vontade para ver um futuro em que déssemos certo.
O último ano do Ensino Médio fora o mais conturbado possível para todo o nosso grupo de amigos. Todo ele fora passado nas minhas falhas tentativas de superar Yixing e consertar os estragos que ele deixara, sendo cada dia um entendimento diferente da dimensão dos acontecimentos e de seus atos. A terapia na qual entrei durou para além daquele ano, mas logo recebi alta sob a justificativa de que eu estava bem para seguir com a minha vida, ainda que eu sentisse que havia algo que não estava resolvido como deveria e que eu não estava sendo totalmente sincero.
A pressão do vestibular consumiu a todos nós, a uns mais que a outros. Kyung-soo se afogou em seus estudos movido à pressão constante de seus pais para que fosse para uma universidade de excelência. Isso desencadeou uma série de problemas, incluindo depressão e ansiedade, e logo Kyung-soo era uma bomba relógio. Nunca sabíamos quando ele poderia explodir em uma nova crise e como lidar com ela, então tentávamos amenizar a situação de maneiras que por vezes eram falhas. Ele acabou afogado em seus remédios e perdendo muito peso, a ponto de, física e psicologicamente, parecer irreconhecível aos nossos olhos.
Jong-dae seguiu os passos de Kyung-soo, mas com motivações bastante diferentes: A pressão que o seguia não apenas em casa, mas em sua vida como um todo; e na perspectiva de que poderia fazer a diferença em sua família com uma formação que levasse retorno financeiro a sua casa para que seus pais não precisassem passar pelos apertos financeiros que passavam há alguns anos. Ao contrário dele, Baek-hyun não tinha motivações por não se sentir parte de nada. Teve várias crises ao longo do ano, desencadeadas pela pressão para escolher um caminho quando ainda não tinha maturidade para se entender em algum lugar. Foi o último de nós a entrar na universidade, com 26 anos.
Xiumin usou a bebida como refúgio dos problemas que tinha em casa, ao contrário de mim, que usei os estudos, e isso desencadeou uma série de problemas para nós ao longo do ano. Por vezes, recebíamos ligações de alguém, senão dele mesmo, pedindo por ajuda porque não tinha condições de se manter de pé para ir para casa sozinho. Seus pais não podiam saber do que estava acontecendo, e por isso muitas vezes ele dormia na minha casa ou na de Baek-hyun. Porém, seu segredo veio à tona quando entrou em coma alcoólico em uma praça e foi largado lá por Se-hun, que seguiu sua vida após falar para o pai de Xiumin onde ele estava em uma ligação. Passou um tempo no hospital até que voltasse para a escola, onde o boato se espalhou e ele nunca mais foi olhado da mesma forma.
Já Chan-yeol tinha como motivo das suas insônias a necessidade de manter suas notas nas matérias de exatas na média se quisesse conseguir uma chance de estudar Literatura Coreana na universidade, e eu era sua única chance. Isso fez com que nosso convívio diário aumentasse consideravelmente nas tardes de estudo na biblioteca da escola, onde eu tentava descomplicar a matemática para ele e ele tentava me convencer de que estudar Literatura não tinha que ser um martírio, mas sim um dos momentos em que eu me encontrava na arte.
Um estranho sentimento nasceu nesses encontros, sentimento este que eu não sabia definir, mas que depois de um tempo ficou difícil de ignorar. Havia algo nos olhares furtivos, nos poucos sorrisos realmente abertos de Chan-yeol e nos tímidos também, e em como nem mesmo em meio a tanta timidez seus olhos transbordavam suas paixões e emoções.
Fomos para a mesma universidade no ano seguinte, mas para áreas totalmente diferentes. Chan-yeol seguiu para a Literatura, sua grande paixão, enquanto que eu segui para os estudos da Física. Acabei não gostando do curso e entrando em uma crise atrás da outra com medo de não conseguir outra oportunidade, e foi como nossos caminhos voltaram a se cruzar quando eu achava que não mais o fariam. Quando eu achava que não havia como, em meio a novos compromissos rotineiros, estarmos juntos como antes. E foi entre tantos encontros e choros que me apaixonei por ele em sua nova versão, então mais maduro para lidar com suas paixões, nem tão desajeitado e mais confiante.
Cerca de um ano e meio depois, consegui uma vaga na faculdade de Matemática e Chan-yeol jamais me perdoou.
— Por que um curso tão horrível?
— Sai pra lá! Você estuda Literatura! — dizia eu, e então ele me batia no braço e eu me fingia de ofendido até ele se sentir culpado e me odiar.
— Sabe que eu vou te apoiar independente do que escolher, contanto que esteja feliz, né? — devolvia ele, e eu me calava com um sorriso, sabendo que sempre teria ele ao meu lado.
Acabei por mudar de curso mais uma vez, mesmo com um ultimato dos meus pais para que eu mantivesse minhas escolhas. Acabei me encontrando em uma área que jamais pensei que fosse me identificar: Psicologia. E foi com essa escolha que fui mais feliz e interessado do que nunca. A essa altura, Chan-yeol me dizia que já estava cansado de discursar sobre o quanto me apoiava, mas eu sabia que poderia refazer minhas escolhas quantas vezes fossem necessárias e ele continuaria a colocar a mão grande e quente em meu ombro, olhar no fundo dos meus olhos e dizer “Se você está feliz, eu estou feliz”.
A pior parte de estar apaixonado por Chan-yeol era o fato de estar apaixonado por um homem hétero e comprometido. Brincávamos que todos iriam terminar a escola com uma história de romance e que só faltava Chan-yeol para completar o ciclo. Ele sempre ficava bastante envergonhado, mas ele e Roseanne, a quem passamos a chamar apenas por Rosé, já se gostavam bastante e há muito tempo. E foi assim que, dois anos depois daquele show na pizzaria, ela decidiu pedir ele em namoro, e ele aceitou sem nem pensar duas vezes. A noite em que ele nos contou que ambos estavam oficialmente juntos foi um dos mais difíceis do meu ano, e a memória do choro entalado em minha garganta e do sorriso forçado que abri ainda são muito vívidas em minha memória. Até que eu conseguisse controlar meus sentimentos, era difícil estar com ele quando ela estava por perto, e embora ela fosse uma ótima amiga e namorada, criou-se no meu interior um imaturo sentimento de raiva contra sua pessoa porque Rosé tinha o que eu nunca poderia ter: o coração de Chan-yeol.
— Você gosta dele. — Kyung-soo me pegou de surpresa em uma de nossas noites de filmes que se tornaram tão raras naquele ano. — Não minta para mim.
— Está tão na cara assim?
— Está na cara o quanto você odeia Rosé, que não tem nada a ver com isso. Aceita, Jun-myeon.
Senti meus olhos marejarem com as duras palavras de Kyung-soo, e ele logo percebeu o quão duro tinha sido. Abraçou-me forte e sussurrou um pedido de desculpas em meu ouvido.
— Ele quer seu apoio também, cara, você sempre foi mais próximo dele. Faz esse esforço, sei que é difícil.
— Você tem razão — respondi com a voz quebrada.
Kyung-soo bagunçou meus cabelos e respirou fundo comigo antes de voltarmos para a sala com a garrafa de refrigerantes. Não prestei atenção no filme naquela noite, como há muito não fazia, mas ao final da nossa sessão, quando todos conversavam e riam, aproveitei que Rosé foi até a cozinha para ir atrás dela me desculpar por tudo, e ela de prontidão abriu um sorriso dizendo que entendia o medo de Chan-yeol se afastar de nós, mas que ela apoiava a amizade do nosso grupo e estaria sempre incentivando ele a estar conosco. Abri um sorriso pequeno e genuíno, pois foi ali que entendi o que era estar feliz por uma pessoa que amava, mesmo que a felicidade dela não fosse comigo.
O término do namoro deles veio três anos depois, mas de maneira amigável. Eles não andavam mais juntos, já não tinham mais os mesmos objetivos, e o melhor era que seguissem cada um seu caminho. Não fora fácil para Chan-yeol, e não posso dizer que fiquei aliviado. Várias foram as vezes que esteve na minha casa, ou que fui até a sua para passarmos a noite juntos fazendo qualquer coisa que o fizesse esquecer dela e, aos poucos, bem aos poucos, aconteceu. Pude ver seu amadurecimento no decorrer dos meses enquanto pensava e repensava suas questões, no quanto percebia seus erros e os dela e o quanto ambos estavam se atrapalhando. Foi quase como ver seu renascer.
Alguns meses depois insisti que fosse junto ao nosso grupo de amigos a uma festa da faculdade. Chan-yeol havia mudado muito, mas ninguém abandonava velhos hábitos da noite para o dia e ele continuava sendo o cara recluso que eu havia conhecido anos antes e naquela vez não foi diferente. O que o fez mudar de ideia foi que fazia algum tempo que não nos reuníamos como grupo com o peso das novas rotinas.
Chan-yeol acabou sendo o que mais teve história para contar sobre aquela festa por ter bebido demais e dito muitas besteiras. No final da noite, eu estava tão bêbado quanto ele, e foi essa a alavanca que eu precisava para dizer a ele como me sentia mesmo sabendo que jamais seria correspondido. Acontece que fui: Chan-yeol me beijou.
Os dias que se seguiram foram os mais estranhos possíveis. Chan-yeol se afastou de mim, nem mesmo respondendo minhas mensagens e me deixando totalmente confuso. Fora um beijo insignificante ou havia algo da parte dele também? Foi assim que decidi ir até sua casa num sábado tirar toda a história a limpo. Chan-yeol me atendeu visivelmente envergonhado e sem mal conseguir me olhar.
— Chan-yeol, não brinca comigo — pedi.
— Estou confuso, Suho — disse. — Parece ter um turbilhão de coisas acontecendo.
Chan-yeol não se entendia e não por culpa dele. Não havia culpados. Disse-lhe que pensasse melhor sobre como se sentia e no que estava acontecendo consigo, levando o tempo que precisasse, e ele me deu um abraço sofrido de quem estava se descobrindo bissexual aos 20 anos, quando achava que não havia mais nada a ser descoberto sobre si.
O assunto foi enterrado por nós dois e nosso grupo de amigos que ficaram sabendo do ocorrido. Chan-yeol nunca mais demonstrou seus questionamentos e inquietações, como se tivesse uma decisão não compartilhada sobre tudo, e também não mais perguntei. Parecia haver um muro entre nós dois, o acontecimento havia de fato mudado as estruturas de nossa amizade — ele por não mais compartilhar tudo e eu por pura vergonha de ter me confessado pra ele. Mas quando se trata de descobertas, o assunto nunca é enterrado e esquecido, e certo dia Chan-yeol também se confessou.
— Eu não sei o que é isso, Suho. Me sinto diferente perto de você.
As palavras de Chan-yeol ecoaram em minha cabeça por dias, trazendo-me, pela primeira vez, o acalento da ilusão que eu queria viver desde os 17 anos: que tínhamos chances de ficar juntos. Mas no fundo da minha racionalidade, eu sabia que era um futuro de um caminho tortuoso. Estávamos falando de um homem passando por uma fase de descoberta quando já estava certo de si, e de uma amizade de anos que estava ameaçando quebrantar ou ao menos ser afetada — mesmo que temporariamente. E o que seguiu foram dolorosos meses que eu jamais iria prever em nossa amizade.
Foi em uma tarde de uma chuva inesperada que nos beijamos pela segunda vez. O mundo parecia cair lá fora, todos corriam de um lado para outro em busca de um lugar para se abrigar e nós nos acolhemos sob um toldo de uma floricultura na expectativa de que aquilo passasse, próximos um do outro e com frio. Ríamos como idiotas daquela situação trágica e eu deixei escapar o quanto adorava o riso dele e, me deixando levar pela irracionalidade, beijei-o lentamente. Foi um beijo rápido, mas pareceu parar meu universo particular nos segundos que durou e reacender minhas inquietações quanto a Chan-yeol.
Mas fora apenas o prelúdio de minha catástrofe pessoal. Chan-yeol e eu discutíamos mais do que nunca com sua indecisão. Íamos e voltávamos ainda que nada tivesse começado. Eu nem sempre era paciente e compreensível como deveria com o momento pelo qual passava, principalmente quando Chan-yeol me enchia de esperanças, ainda que mínimas, de que seria quem eu gostaria que fosse.
Decidi que a melhor decisão seria me afastar dele por algum tempo. Não foi fácil. Antes de Chan-yeol ser quem ocupava meus pensamentos de todos os dias, era meu amigo, e eu sentia falta de sua companhia, assim como nossos amigos sentiam falta da harmonia no grupo. E então no aniversário de 22 anos de Jong-dae, quando eu estava na cozinha reabastecendo meu copo, surpreendi-me com sua presença, os olhos tristes por trás dos óculos redondos, dizendo:
— Sinto sua falta, Suho. Apesar de todas as confusões, o que mais sinto é sua falta.
E ali, aceitei de uma vez por todas que, mesmo machucado, deveria lidar com minha paixão por ele sem esperar que fosse retribuído da mesma maneira.
Às vésperas da virada do ano, Chan-yeol e eu andávamos pelo parque após mais uma de nossas idas convencionais a uma cafeteria que gostávamos desde a adolescência. Sua escolha era a mesma desde os 17 anos: doce, como ele próprio, e com uma divertida camada de chantilly e calda de chocolate. Já eu optava por um expresso duplo, bem quente, na esperança de me manter aquecido e também acordado nos dias de recesso, mas de intensos estudos.
O clima entre nós mantinha-se amistoso desde o aniversário de Jong-dae, meses atrás. Quase parecia que éramos os velhos amigos de antes dessa bagunça toda. Num acordo silencioso, decidimos que não mais falaríamos sobre o assunto, mas Chan-yeol nunca foi bom em se manter calado ou em não bagunçar tudo dentro de mim.
— Eu amo você — disse ele, olhando-me fundo nos olhos. Abri a boca para dizer alguma coisa, mas ele se apressou em levantar a mão enluvada para me interromper. — Não quero brincar com seus sentimentos, Suho. Eu inclusive considerei deixar isso passar, enterrar tudo, mas acho que jamais me perdoaria se te deixasse ir.
— Nunca fui embora.
— Mas não tá tão perto de mim — disse. — Sei que fui eu quem causou isso tudo, mas—
— Você não tem culpa, Chan-yeol. Poderia ter acontecido com qualquer um.
— Poderia, mas eu não deveria ter dado esperanças e depois ter tirado todas elas. — Suspirou. — Jamais deveria ter negado meus sentimentos por você. Jamais deveria ter me deixado levar pelo medo.
Foi quando olhei em seus olhos como há muito não fazia e, sentindo seu toque suave em meu rosto, vi os vários Chan-yeol’s escondidos ali: o adolescente, o imaturo e maduro, o adulto, num misto de passado e presente, arrependimentos, vontades e esperanças.
— Não quero mais ter medo. Quero me permitir amar você em todas as suas qualidades e defeitos, em todas as suas versões. Quero estar ao seu lado em cada uma delas, fazer parte das suas histórias como quero que faça parte das minhas. Como queria que construa uma comigo.
Beijei e me permiti ser beijado por todas as suas versões, ser amado por todas elas e amá-las também. Ao cair da neve de dezembro, permiti-me ser o amor de Chan-yeol e que ele fosse o meu. E quando o novo ano chegou, começamos também um novo capítulo de nossa história.
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