Anyway, The Darkness Is Coming...

18 MIDNIGHT - Destruction


-- Por que esse labirinto só tem um caminho? — perguntou Heiko, quando elas pararam para descansar.

-- Não existe um só caminho. Existem vários outros. Só que não podemos escolher por onde vamos. O labirinto escolhe por nós. — Kibishii respondeu, ajeitando o pé falso.

Se eu assumir o controle, isso vai desaparecer?

Sim. Mas não posso fazer uma grande peça de magia aqui. O labirinto bloqueia as magias mais poderosas.

Eu não sabia que vocês podiam usa uma coisa que nem magia...

Ela riu internamente.

Só alguns podem. Assim como os humanos.

Os humanos podem usar magia, como assim?

Eu nunca disse que não podiam. São exatamente esses humanos que usam magia que nos expulsaram deste mundo no passado.

Não perguntei mais nada. Com certeza Kibishii ficava ressentida de ter passado a vida toda num mundo escuro e tal, enquanto os humanos viviam felizes na Terra e a destruíam só por ganância.

Andamos mais devagar.

Era possível ver um pequeno brilho prateado à nossa frente. Estranho. Porém, por mais que andássemos na direção do brilho, nunca chegávamos lá.

-- O Corredor Infinito... — Kibishii murmurou.

-- Tem como passar por isso? — Heiko perguntou, nervosa.

-- Ah, sim. Sozinha, eu não poderia, mas com você, sim. Este corredor se alimenta da minha própria força sobrenatural, e se estende enquando houver vida em mim. Mas os humanos...

-- Os humanos são neutros. Não tem poder sobrenatural.

-- Vá na frente.

Heiko estendeu a mão e deu um passo. A luz ficou ligeiramente mais perto. Continuaram assim lentamente, Heiko sempre um passo à frente.

Chegamos até a luz prateada, que começou a tomar forma. Meu coração teria parado de susto se eu estivesse no comando do corpo.

Era a mesma garotinha. A mesma que pressentira a morte de Juno. Mas não era mais branca. Agora, ela era feita de luz prateada.

-- Um espírito da lua — Kibishii sussurrou, surpresa.

-- Eu observei vocês — o espírito disse — E agora preciso dar-lhes meu último aviso. Está me ouvindo, Yuuko Katsuze?

Meus olhos falsos se arregalaram. Ela olhava para Kibishii como se tentasse me ver através dos olhos dela. Senti que se respondesse, mesmo que minha voz não saísse, ela ouviria.

-- Ouça com atenção. Você foi escolhida para tomar esta deisão. Você pode destruí-los, ou pode se unir a eles. As duas opções trazem um destino trágico. Uma, para você. Outra, para o mundo. Qual deles você escolhe salvar? Os seus amigos... ou todo o resto do planeta?

Não posso salvar os dois?

A imagem balançou negativamente a cabeça.

-- Apenas um.

-- Yuuko... Yuuko... Se pode me ouvir, salve o mundo. Destrua-os. Eu não me importo de morrer. — Heiko disse, o rosto repentinamente sério.

Não! Tenho que salvar sua irmã!

-- Ela disse que tem que salvar sua irmã — Kibishii transmitiu a mensagem.

-- Minha irmã já deve estar morta! Eu não aguento mais! Não vou lutar pelo "se"! "Se" ela estiver viva! "Se" for possível trazê-la de volta! Isso não é o suficiente! Salve logo essa droga de mundo antes que outros como nós sofram! — ela gritou.

-- Sua amiga está certa. Não se deve lutar por uma possibilidade, por um talvez. Lute por um fato, com um objetivo concreto, e terá resultados — Kibishii resmungou.

-- Elas não podem interferir — a garota de luz sorriu — A escolha é toda sua. Destrua este mundo, e salve seus amigos. Destrua seus inimigos, e salve este mundo.

Se eu me unir a eles, meus amigos realmente serão poupados?

-- Apenas os que sobreviverem até o momento em que você tomar sua decisão. Cuidado, Yuuko Katsuze. Não hesite muito, porque se não poderá ser tarde demais. — a figura se dissipou na escuridão.

O que eu faço? Não posso destruir o mundo, mas tampouco posso matar meus amigos. Antes, eu teria escolhido sem hesitar. Porém agora já havia feito laços fortes demais para deixar que todos morressem.

Sua missão é destruí-los. Pouco importa se os outros morrerão ou não.

Cale a boca! Você nunca teve alguém importante? Nunca teve um amigo? Não tem como você entender o que eu sinto!

Realmente, eu não entendo. Mas você também está longe de entender o porquê de eu não sentir o que chamam de compaixão.

Quer dizer que você não nasceu assim?

Ninguém nasce do jeito que ficará quando crescer. O seu ser é definido pelo que você já passou durante sua vida.

Então... Kibishii... Deve ter sofrido. Muito. Ao ponto de passar a ignorar os sentimentos, para não se ferir mais.

Eu sou uma tola.

Pensei que ela não conseguia compreender como as pessoas se definem. Muito pelo contrário, ela entendia isso melhor do que eu.

-- Vamos. A decisão não será tomada agora. Sinto um inimigo se aproximando — Kibishii rosnou.

-- Que surpresa! Não pensei que uma filha da noite sentiria minha presença.

-- Como não? Até a humana sentiu seu cheiro.

-- Eca. Então não era a minha imaginação? — resmungou Heiko.

-- Insolente. Pode ter derrotado Kyofu, mas ele era o mais fraco dos generais. Eu sou Ukano, um diakóptes. Sabe o que isso significa?

-- Significa que você é um otário.

-- Você vai morrer!

-- Venha me matar.

A figura finalmente ficou visível. Era uma coisa horrorosa. Parecia um humanóide com a cabeça grande demais e braços muito curtos. Seus pés pareciam os de um canguru, e nas suas costas havia um par de asas.

Ukano ergueu uma coisa que parecia uma enorme lança.

Kibishii abriu um sorriso sádico.

-- Se afaste, garota. — disse para Heiko, que obedeceu.

Agora veja o verdadeiro poder desta espada.

Ela ergueu a espada, e as trevas começaram a se tornar mais sólidas em volta dela. A espada se alongou e nela surgiu uma lámina curva.

Uma foice.

Como você fez isso?

Não te interessa.

Aff. Mal-educada.

Ela me ignorou.

O general das sombras não pareceu se surpreender ao ver a foice. Deu um urro de guerra, e partiu para cima de Kibishii.

Ela só precisou girar a foice uma vez.

O monstro foi cortado ao meio, espirrando sangue para todo o lado.

-- Como você fez isso? — ele gritou.

-- Fazendo. — Kibishii riu.

O general gritou e gritou de dor. A luta parecia já ter terminado. Mas... Havia algo errado. Tinha sido rápido demais. Kibishii era tão forte assim?

-- Tola — o monstro rosnou e se reconstruiu. Levantou-se e, com um golpe rápido da lança, fez um rasgo na lateral do corpo de Kibishii.

-- Teve sorte, filha da noite. Na próxima não conseguirá desviar.

Kibishii girou a foice ameaçadoramente. Ukano era mais forte do que parecia. Ela golpeou, mas o diakóptes se defendeu com a lança. Ele abriu as enormes asas e subiu no ar. Estávamos em desvantagem.

Foi o que eu pensei.

A filha da noite se abaixou e pulou numa das paredes, em seguida na oposta, subindo em direção ao inimigo. O general jogou a lança, mas errou. Kibishii saltou em direção ao céu noturno do Labirinto, ficando às costas de Ukano.

-- Não me subestime.

O monstro se virou mais rápido do que algo do tamanho dele poderia. Cortou o ar com suas garras, e o deslocamento cortou a pele de Kibishii. Ela não se retesou. Estava apostando tudo naquele golpe.

Com um movimento rápido da foice, decapitou o general.

-- Vencemos — Kibishii sussurrou quando pousou no chão.

-- Que horror... — Heiko disse, a voz quebrando.

-- Seria pior se não fosse ele quem estivesse morto agora, humana.

Kibishii ofegou. Não parecia, mas estava muito enfraquecida usando tanto poder mágico para substituir o pé. Precisava descansar, e logo.

Cale a boca. Eu estou bem.

Não está, não. Você precisa descansar.

Já passei por coisas piores. Posso aguentar isso.

Eu duvido muito.

Não duvide de nada.

Por algum motivo, não consegui responder. Ela estava falando sério. O que haveria de tão terrível no passado de Kibishii que a tornou esse ser sádico e cruel?

Eu não podia assumir o controle, por mais que quisesse. Poderíamos morrer por perda de sangue. Nossa única opção era continuar em frente.

Andamos com cuidado, Heiko sempre um passo à frente e Kibishii empunhando a foice. Por um bom tempo tudo foi apenas silêncio e escuridão, até sairmos em um enorme pátio, com uma enorme estátua de esqueleto coberta por um manto rasgado.

-- Espere... Este não é o mesmo lugar do começo? — Heiko se assustou ao ver quela estátua gigante novamente.

-- O Labirinto começou a pregar suas peças — Kibishii murmurou.

Adentraram o pátio, e viram o caminho atrás delas se fechar numa parede sólida. Agora haviam apenas duas saídas.

De repente, pode-se ouvir o som de passos vindo de uma delas. Hiroko entrou correndo no pátio, seguido por Daiki.

-- Tem um cara nos seguindo! — Hiroko berrou quando avistou as garotas.

-- Detone ele!

-- Como se ele comeu nossas espadas?

Kibishii rosnou e se posicionou para lutar. Nem um segundo depois, uma enorme sombra se projetou do corredor, que logo se fechou atrás dela.

-- Morram, humanos! — a sombra guinchou.

-- Eu não sou humana — comentou Kibishii.

A coisa parou e olhou para a cara dela com uns trinta olhos. Os outros ainda focalizavam Hiroko e Daiki, e mais aguns só giravam sem direção. Não estou exagerando.

-- Humana? — a coisa resmungou.

-- Não, idiota, já disse que não sou humana. Não me insulte.

-- Ei! — Daiki gritou.

-- Fiquem aí e deixem que eu cuido disso.

-- Não humana? Não como?

-- Não sendo, caramba! Que saco de bicho burro dos infernos!

Você aprendeu isso com a minha mente, não é?

Talvez.

Kibishii girou a foice, cortando o ar com um som agudo.

-- Isso é um umbra, uma sombra pura viva. Ataques físicos não vão funcionar.

-- Quero humano! Humano gosto bom!

-- Cale a boca!

Ela cortou o dedo na foice e passou sangue pela lâmina. Murmurou alguma coisa naquela língua esquisita.

Ei, você está cansada. Não devia usar magia.

Nunca vamos derrotar essa coisa sem magia.

A foice estalou, soltando algo que pareciam chamas negras. Kibishii rangeu os dentes.

-- Perigo... Matar! — o umbra finalmente se tocou que estavam tentando matá-lo.

-- Tarde demais, amigo!

-- Não! Você morrer! Eu general! Eu viver!

-- E-essa coisa é um dos cinco generais? — Heiko perguntou, gaguejando.

-- Aparentemente sim. Eu não duvidaria nada, precisam de alguém que entenda o cérebro das sombras mais baixas. — Kibishii respondeu.

-- Morra, humana! — a coisa gritou, e atacou.

-- EU-JÁ-DISSE-QUE-NÃO-SOU-HUMANA! — Kibishii cortou a sombra com a foice.

-- Há! Não acertou!

-- Eu não teria tanta certeza.

A sombra olhou para si mesma com seu milhão de olhos. Seu corpo começara a ser coberto pelas chamas negras. Oumbra gritou, sendo consumido até restar apenas duas espadas no chão.

Os garotos se adiantaram para recuperar suas armas.

-- Finalmente... Desculpe dar trabalho. — Hiroko murmurou.

-- Sem proble... — Kibishii parou no meio da palavra. Levou a mão ao peito e tossiu. Algo que parecia ser sangue negro saiu de sua boca. Ela caiu no chão.

-- O que houve? — Hiroko amparou-a.

-- Minha força... Acabou...

Neste momento, Shiori entrou correndo pelo caminho restante. Ele estava ofegando. Hotaru não estava com ele, e isso não era a única coisa estranha.

-- Por que você está mais baixo? — Daiki perguntou, franzindo o cenho.

Shiori levantou o rosto coberto de lágrimas.

-- Eles tentaram me levar... Shiori... Ele trocou de lugar comigo! As sombras levaram meu irmão! — Hotaru gritou por debaixo das roupas emprestadas.