Anything Goes
1 I. O Agora
72.
Fazem exatamente setenta e duas horas que estou presa nesse bunker. Meu pai o construiu anos atrás. Décadas atrás. Ele era um desses lunáticos que achavam que um dia o planeta Terra seria invadido por extraterrestres, ou algo do tipo.
Bom, ele estava praticamente certo. E agora ele está morto. Ou quase.
O planeta não foi invadido, a ameaça na verdade reside aqui. Como isso tudo começou? Não tenho pista. A única coisa que sei é que se você ainda está vivo, não ouse colocar os pés para fora de casa. Nem tente.
Meu pai foi levado no primeiro dia, mas ainda me faz visitas. Principalmente de manhã. Consigo ver pelo pequeno periscópio, implantado anos atrás, a sua chegada, seus movimentos e expressões. Ele costumava ser bonito. Agora tem apenas um olhar vazio.
Abro os olhos e procuro meu celular. Seis e meia da manhã. Não durmo há mais de trinta e duas horas. Os sons de fúria não cessam, e conseguem infalivelmente me manter acordada. Um bom substituto para a cafeína.
Até agora não tive coragem de explorar o resto do bunker. Meu pai trabalhou bem por aqui, o lugar é enorme. Pelo menos bem maior do que eu imaginava. O inventário registra quilos de comida enlatada e água, que serão suficientes para o inverno. Mas e depois?
A energia ainda não foi cortada, mas provavelmente muito em breve será. Já tentei ligar para a emergência, a polícia, os bombeiros. Ninguém nunca atende. As estações de rádio estão todas fora do ar. Três dias e nenhuma alma viva apareceu nos arredores.
Tenho observado o lado de fora pelo periscópio todos os dias. Praticamente toda hora. A única coisa visível em quilômetros é o nada. O nada cheio de prédios, casas e estabelecimentos saqueados e destruídos. O nada completamente preenchido de gemidos, sangue e cadáveres.
Já fui em mais enterros do que gostaria. Os mortos vão para debaixo da terra, certo? Esse é o certo. Depois de milhares de lágrimas, cantos e pêsames, eles vão para debaixo da terra.
Não mais.
Nunca serei capaz de esquecer o dia em que levaram meu pai. Três dias atrás estávamos visitando o túmulo da minha mãe. Um dia atípico de fim do outono, nublado e congelante. Nenhum de nós chorava ao visitar o cemitério. Nossa política era apenas lembrar dos dias mais felizes. Nunca os tristes. Nunca da doença. E jamais do dia em que ela se foi.
Ao final da visita percebemos de longe a presença do reverendo Jim, que costumava passar as tardes no cemitério consolando as famílias. Seus passos eram urgentes e ao mesmo tempo arrastados; como quando você está cansado e nem os tira do chão para andar, apenas se arrasta por aí.
Ele murmurava algo, ou foi o que pensei no momento. Vinha com os braços estendidos, o olhar fixo em nós. Quando estava razoavelmente próximo, pude ver sua pele cinzenta e as manchas de sangue em seu hábito. Por último identifiquei um grande rombo na região abdominal do costume branco.
Meu pai, parecendo esquecer de todas as suas paranoias, se aproximou preocupado do reverendo. Ofereceu ajuda, e Jim fez a coisa mais inesperada possível.
Eu, atônita, apenas observei. Deveria ter me jogado no meio dos dois, ou feito qualquer outra coisa para impedir. Mas não fiz. Apenas porque não esperava a violenta mordida que o reverendo depositou no ombro direito do meu pai.
Despertei do meu transe quando percebi que Jim começou a se arrastar na minha direção, e meu pai, ainda consciente, conseguiu levantar e me puxar para longe. Seu estado era miserável, e eu nem conseguia imagina a dor que ele estava sentindo. "Não me renderei até deixar você em segurança.", foi o que ele murmurou.
Seu olhar transbordava dor. Eu tentei impedi-lo, mas ele só parou quando alcançamos um lugar razoavelmente seguro do cemitério, e do reverendo canibal.
O buraco deixado no ombro dele expunha osso, carne e gordura. Seria incrível, se não fosse meu pai ali agonizando. Avistamos mais alguns conhecidos, todos com as mesmas características do reverendo.
De repente meu pai ficou inquieto. Seus murmúrios eram ininteligíveis, consegui apenas absorver palavras aleatórias, mas que formavam uma mensagem bem clara. "Vírus... Morte... Corra... Bunker... Proteja-se... Não tente... Salvar... Arma... Você não pode..."
"Vamos, pai. Temos que ir, não estamos longe do bunker. Você consegue ir até..." Ele me interrompeu, puxando uma grande quantidade de ar e formando sua última frase:
"Não posso. Já fui t-tomado. Acredite... em mim. Procure u-u-uma pasta... a C-203... procure, a-a C-203. Eu estudei... Mire na c-cabeça. Adeus, minha m-menina. Não chore."
Desde então não derrubei uma lágrima sequer. De uma maneira que nem eu mesma reconheço, consegui chegar e me trancar aqui, sã e salva. Saí correndo depois que meu pai ficou imóvel, e os outros cadáveres me notaram.
Quando olhei para trás pela última vez, lá estava meu pai, junto do bando, se arrastando até mim com os braços estendidos.
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