Anything But Ordinary: Contos

2 Os alienígenas invisíveis


Notas iniciais
Esse foi o primeiro conto que eu escrevi depois de finalizar ABO, e assim como a Jussara, achava que seria o menos interessante justamente por Adriano e Jussara terem uma personalidade mais séria na vida adulta, achava que não seria tão legal abordar a adolescência deles. Juro que não. Foi muito legal escrever e contar um pedacinho de como eu imagino que tenha sido a vida das pessoas em 1988 no meu país Soteco. Quis mostrar que às vezes, a visão que temos dos nossos pais é diferente do que realmente aconteceu. Até mesmo de como eles mesmos se lembram. Resolvi me desafiar e tentar escrever algo na terceira pessoa depois de muito tempo. Beijos.

— 1988. Eu lembro muito bem. Foi o ano da promulgação da Constituição. O ano das Olimpíadas de Seul. Quê mais você quer que eu diga? Minha vida não tem como competir com todos esses acontecimentos, e—

Direto ao assunto, Jussara!

Era quase primavera em Itaúnas, e ela rosnava pelos cantos, ajeitando a trança e a saia e fingindo que sabia dançar forró. Dançava tão mal que daria vontade de ir embora em qualquer transeunte.

As aulas de forró foram uma tentativa da mãe de Jussara pra que a filha tivesse “hábitos brasileiros”, e se enturmasse com a galera. Todo mundo achava estranho uma coreana ter um nome tão brasileiro, e como se isso não bastasse, ela ainda tinha que dançar um ritmo que odiava. Queria que fosse Nabi, ou Luna ou Sara, algo mais simples e fácil de pronunciar. Talvez ter um nome mais coreano.

Não. Aí não. Jussara não queria ter que ouvir a professora errar seu nome na chamada e as risadas dos colegas, já bastavam as gracinhas que ouvia na escola.

Se dependesse de Jussara, ela estaria agorinha mesmo enfurnada dentro do próprio quartinho em Soteco, jogando Go com seus irmãos mais novos, e assistindo as Olimpíadas de Seul passando na TV. Não estaria em Itaúnas. Nesse frio de pocar a pele. No meio desse monte de gente diferente dela, que a fazia se sentir um alienígena.

Eram seus olhos “puxados”? O corpo “magricela”? Ou será que o sotaque que ela pegou da mãe coreana?

Talvez fosse tudo de uma vez.

Quando seus olhos encontraram aquele garoto no meio da pista, Jussara parou de respirar.

Quem era Patrick Swayze? Os pôsteres em seu quarto podiam ir embora com as batidas do coração.

Jussara se sentiu cafona, bonita, feliz e esperançosa. Sorriu e tentou se aproximar do centro da pista devagar.

— Esse é o meu amigo Adriano — Clarinha disse — Jussara.

Amigo? Então ele é gay? Desde quando um rapaz solteiro tem uma amiga sem a paquerar?

Sem saberem se deveriam se cumprimentar em português ou aderir às formalidades do coreano, Jussara e Adriano apenas sorriram sem mostrar os dentes.

— Ele é nosso vizinho, vocês nunca se viram?

Jussara e Adriano trocaram um olhar breve.

— Não — responderam juntos.

— Mundo pequeno — Jussara sussurra.

Quem dera que naquele mundo pequeno ela pudesse perder sua grande timidez (que já era quase debutante).

Jussara e Adriano descobriram terem nascido em 72, o que os aproximava dentro da própria cultura, mas por algum motivo, eles escolheram conversar em português.

Os pais de Adriano e Jussara tinham recebido propostas de emprego como metalúrgico e soldador, respectivamente, e por isso, em vez de irem morar perto da colônia coreana em Costaré, tinham ido pra Vila Velha. Seria legal ter alguém com quem reclamar da vida, com quem desabafar sobre as angústias e toda a gastura de viver longe da Coreia.

Jussara já imaginava o nome dos dois em Hangul num papel de seda claro, o nome dos filhos e como seria a vida dos dois em Seul. Talvez em Costaré. Ele era bonito o suficiente pra valer seus delírios.

최 주사라 & 민 아드리아누 ♡

Não dançaram forró juntos naquela noite, mas entraram na mesma turma do 1° ano do colegial porque a turma de Adriano ficou sem professores depois que os últimos renunciaram.

Jussara sonhava com o Magistério; sua mãe não conseguiria fazê-la ceder à Medicina. Ela prometia a si mesma todas às noites que faria diferente quando tivesse um filho. Daria chances para o filho respirar. Daria o amor que ela sentia que não tinha recebido da forma que gostaria dos pais. Jussara jamais pressionaria seu filho a seguir uma carreira que ele não quisesse, o daria chances para respirar, pensar e daria o amor que ela sentia que não tinha recebido dos pais. Não sabia de onde o tiraria de dentro de si, mas procuraria muitas vezes. Se não conseguisse, desejaria nunca ter sido mãe e reveria seus conceitos, afinal ela seria quem ditaria as regras. Faria diferente. Daria tudo de si. Ela tinha certeza de que teria sucesso.

Mas ela ainda tinha muito tempo para pensar em casamento e filhos. Tinha só 16 anos e muitos sonhos.

Se algum rapaz a olhasse…

Se ela tivesse uma chance…

Se pelo menos ela não fosse invisível…

Num domingo de manhã, o grupinho de três amigas de Jussara foi tomar sorvete na D’1ª, a sorveteria mais badalada de Soteco. O sol das nove realçava os paralelepípedos de uma das únicas ruas do bairro que não era de estrada de chão. A rua da Pracinha principal de Soteco. Era longe o bastante de todos os valões que esperavam por manilhas. O prefeito Dr. Dionísio Lira tinha prometido que não ia focar só na Praia da Costa, que iria trazer melhorias pra todos os bairros, mas as noites continuavam mal-iluminadas, as estradas esburacadas e os outros pontos de Vila Velha esquecidos.

A única opção de lazer à noite era se sentar na frente de casa, fofocando com os vizinhos em cadeiras plásticas, ou andar até a Praia de Itaparica a pé. Talvez beber uma água de coco. Observar o mar escuro e sentir a areia nos dedões, jogar uma partida de latinha se você tinha uma bola livre. Isto é, se ainda tivesse sobrado algum cruzado depois do 5⁰ dia útil.

Pro dia, o que restava era caçar alguma promoção na locadora, sonhar com os filmes lançados dois anos atrás que você estava doido pra ver.

E pro lazer da manhã, tinham pipas. Peões. Bolinhas de gude.

Os meninos soltavam pipa na pracinha, e Adriano seguia anotando rabiscos num caderninho verde. Duas meninas chupavam picolé, e outra cantava “Hoje é sábado, pé de quiabo, amanhã é domingo, pé de cachimbo…”

— Por que é que você nunca solta pipa com os rapazes? — Jussara perguntou.

— Eu já me divirto bastante assim. — Adriano apontou pras funções que resolvia.

Adriano não elogiou a regata vermelha que Jussara usava, que foi uma ideia de Clarinha para impressioná-lo com sua cor favorita. “Ele gosta de garotas inteligentes”.

— Qual foi o livro mais difícil que você já leu?

Adriano pensou por uns instantes. — Estou lendo agora. Sertão: Veredas.

— Quantos você lê por mês?

— Cerca de 10.

— Você tem tudo isso de dinheiro? Eu achava que a sua mãe ganhava dinheiro com as faxinas igual a minha, não sabia que ela fazia bicos.

— Ela dá aulas de forró. Por isso eu fui naquele dia em Itaúnas na inauguração do bar.

Jussara se sentiu burra, como não tinha se tocado? E por que uma coreana dançaria forró tão bem senão fosse professora? Se bem que, comparada a si mesma, qualquer pessoa seria maravilhosa.

— Entendi.

— Quais foram as suas últimas leituras?

Jussara sentiu as bochechas arderem e sua mente não conseguiu formular uma mentira:

— Ah… Eu estava tão ocupada com as matérias do colégio… Acho que… Dom Casmurro.

— Capitu traiu?

— Capi—quem?

— Você não leu o livro, então. — Adriano riu. — Entendi.

Jussara mordeu a bochecha. — Você quer entrar em qual universidade?

— Na UFES.

— Legal. Quem me dera ser professora. A mamãe quer que eu seja Doutora.

Adriano fechou o caderno. — É uma boa carreira. Você pretende seguir por qual caminho?

— Me disseram que pessoas iguais à nós não formam bons Doutores, dizem que o que sobra para nós é a venda de pastéis e caldo de cana.

Adriano amassou uma folha. — São um bando de tontos. A mim me disseram que eu era bom de matemática por ser exatamente assim. Indecisos. Hipócritas. Não se engane.

— Não precisa se exaltar. Eu não ligo.

Adriano se aproximou de Jussara.

— Não se mexa!

Ela fechou os olhos e fez bico. Se sentiu idiota com o que veio em seguida: não era um beijo, era só uma tanajura que Adriano havia tirado de seu cabelo.

— Você… está de paquera com alguma moça?

— Não, me falta tempo para essas coisas.

— Entendi. E você me acha bonita?

— Acho.

Jussara ficou vermelha, batendo os dedos no banco. Para um garoto que passava as semanas indo na biblioteca pegar livro emprestado e mal interagia com o mundo ao redor, ele até que Adriano não era tão desajeitado. Era maneiro ficar perto dele.

De manhã na merenda do Municipal de Vila Velha, Adriano passou pelo corredor lendo Sertão: Veredas. Cedeu seu biscoito Maria e o copinho plástico azul com Quik pro Fabinho já que os alunos mais velhos não podiam repetir a vez na fila pela falta de verba.

A falta de merenda pras turmas maiores só durou seis meses dessa vez.

Adriano andou na direção da quadra, sonhando com o dia do mês que iria levar aqueles 3 kg de carne de soja pra casa, dessa vez o prefeito tinha acertado no que dar de presente pros estudantes. Ele ainda preferia que fosse uma cesta com farofa, arroz e sardinha, ou que a ajuda fosse em cruzados; talvez assim ele poderia levar pra eomma aquele quilo de salame do Seu Perim que ficou faltando na última compra. Ele odiava saber que tudo na sua família era pago fiado.

Eram três bocas pra alimentar (Iris, a caçula gulosa que sonhava em ser cantora de ópera, Sueli, a chata do meio que fazia de tudo pra que Adriano ficasse de castigo quando eles eram mais novos, e a eomma, que assumiu o controle da casa depois que o abeoji se foi quando Adriano tinha 8 anos).

Adriano achava chato ser obrigado a ir na igreja. A bola era a cabeça do diabo, a televisão o caixote e a bicicleta levaria ao inferno com suas rodas malignas. Cortes de cabelo? Que blasfêmia.

Se Adriano tivesse um filho, não o obrigaria a ir. Faria diferente.

Adriano era o tipo de pessoa que não chorava por nada nesse mundo. Nem quando o abeoji morreu ele conseguiu. Se sentiu mal, queria ter chorado. Iris e Sueli eram novas, e ele achava que sua mãe o julgava como um cruel garotinho de oito anos. Mas ela só sentia orgulho por ele não demonstrar toda a fraqueza que ela carregava.

Podia suportar todos os sentimentos que rasgavam seu coração, a fome, o frio e a falta de uns bons cruzados. Era o tipo de pessoa que sabia se virar. Consertava qualquer coisa. Ficava indo no Banco do Brasil só pra ver os computadores, eram tão inovadores. Queria ser engenheiro mecânico.

Mas a eomma queria que ele fosse médico.

Então ele ia se tornar um.

Ia estudar enquanto todos dormiam. Ler todos os livros possíveis, aprender todas as continhas, deixar as pálpebras pesadas de olheiras.

Mas ele ia.

Na quadra, um burburinho começou atrás de Adriano. Sentadas ao lado dele na arquibancada, umas oito garotas brincavam de bambolê, outras exibiam seus relógios caros, e ainda tinha uma dupla que cantava “Fui à praia tomar um banho, e encontrei um garotinho do meu tamanho, eu pisquei pra ele e ele nem ligou…”.

Adriano bufou, virando a página do calhamaço.

— Esquece, Firmina! O tailandês não gosta de garotas, ele só quer saber de livros!

Adriano continuou lendo.

— Ele é tão boa pinta… mesmo sendo tão diferente dos outros rapazes.

— Diferente? — Alguma das garotas riu. — Diferente como?

— Ah… — Adriano sentiu o veneno na voz da Firmina. — Ele não sorri nunca, né? É o rapaz mais carrancudo de todo o Municipal! E também… ele tem os olhos rasgados, muito rasgados.

O grupinho esperou Adriano levantar o rosto, mas ele não o levantou. Apenas soltou o ar devagar e tentou voltar a ler. Fingiu que conseguiu. Todas as garotas riram, e algumas até deram tapinhas no ombro umas das outras, jogando a cabeça pra trás.

— Dizem que eles comem carne de cachorro até hoje na China.

— China? Pensava que fosse a Tailândia!

— É tudo pastel de flango igual!

— Como é que ele faz para ler se enxerga tudo tão diferente de nós?

— Quem vai enxergar diferente vai ser você, Luziane! — Jussara gritou, partindo pra cima das garotas e desfazendo a trança e o rabo-de-cavalo de duas delas.

Jussara foi parar na coordenação por ter colado chiclete no cabelo de Luziane e por todos os socos, tapas, chutes, puxões de cabelo e xingamentos que trocou com Bruna e Firmina. As outras tentaram apartar, mas saíram feridas.

Quem elas pensavam que eram pra falarem com o futuro namorado e pai dos filhos de Jussara daquele jeito? Foi ali que ela percebeu que violência de nada adiantava. Saiu com o nariz quebrado e as pernas moles, mas sentiu o coração mais mole ainda quando saiu da coordenação. Adriano estava lendo seu calhamaço e assobiando.

— Por que você se complicou por minha causa? Não pedi pra você me defender de ninguém, eu já sou homem feito e posso muito bem cuidar de mim, Jussara!

Jussara desatou a chorar e tentou. — Ingrato. Patife. Te odeio!

— Agora eu tenho mais uma pessoa para cuidar. — Adriano bufou, guardando o livro na mochila e puxando Jussara pelo corredor.

Ele a escondeu para que chorasse escondido dos outros, e a levou para casa. Esperou que a mãe cuidasse dos ferimentos de Jussara, e no final lhe deu uma caixa da Garoto.

— Mas… mas é muito caro! Caríssimo, Adriano! Não posso aceitar seu presente!

— Aceite. É de bom grado.

Jussara ficou vermelha outra vez, e dividiu um Serenata de Amor com ele. Quase saiu o primeiro beijo dos dois na mordida, mas Adriano se virou de costas.

— Preciso ir. Sua mãe me expulsa se me vir aqui no seu quarto.

— Espere!

Jussara o beijou.

Adriano deu um pulo, com o coração saindo boca afora.

— Obrigada por toda sua ajuda. Esse foi o meu presente pra você, Adriano. Você é muito mais que a minha paquera. Você vai ser meu marido.

Ele correu para casa, tropeçando nos calcanhares. Por que sua amiga o beijou? E por que logo ele?

Ele conseguiu encontrar um motivo para estar sorrindo, conseguiria até mesmo justificar o motivo pelo qual estava sorrindo, tremendo e com o coração disparado. Era adrenalina. O medo de ser pego. A falta de experiência e de costume de ter uma garota bonita tão perto.

Mas não encontrou uma justificativa plausível para querer repetir o beijo.

Já tinha dias que Adriano lambia os beiços pro pé-de-manga da Dona Neide.

— Se você quiser, podemos pular juntos!

— É arriscado demais, Ju!

Jussara encurtou o espaço entre eles, mais vermelha que um gochugaru. Adriano sempre agia assim, com as sobrancelhas arqueadas sem entender porquê essa garota tão bonita arrumava motivos pra estar perto dele.

— Mas eu quero, se você quiser eu também vou querer, Diano!

Adriano sorriu. — É assim que a mamãe me chama.

Jussara beijou as bochechas dele, e o abraçou apertado. — Você é um bobo.

Adriano recuou um passo e consertou a postura torta, com a cara da cor das pitangas na parede. Pulou o muro primeiro. Impulsionou o corpo e inspecionou o quintal. Só tinha as galinhas.

Jussara pulou antes que ele lhe oferecesse ajuda.

E pulou num caco de vidro que Adriano deixou passar despercebido.

— Ai!

— Eu não tinha visto, perdão!

— Vamos ficar sem mangas? — Jussara perguntou, com a cabeça girando.

— Mangas? — Adriano a pegou no colo.

Jussara só pensava em como os braços dele eram fortes ao redor do corpo dela, mesmo ele sendo magrinho.

Como seria casar com ele? Ter filhos?

— É Doutor que você vai ser?

Adriano murmurou “sim”, enquanto a ajudava a pular o muro outra vez. O sangue pingava no chão.

— E você já sabe de qual tipo?

— Não.

— Você devia ser cardiologista.

Adriano ficou sem entender a piada, mas sorriu.

— E você pretende ir embora para a Praia da Costa quando enriquecer?

— Não. Eu pretendo continuar aqui.

— Não tem curiosidade sobre como é Costaré? Dizem que na Camélia seríamos só mais um, sem esses olhares e comentários.

— Sim, mas aqui em Vila Velha nós temos mais oportunidades.

— Por enquanto. Algum dia, eu sei que a Coreia será famosa e todos farão fila para nos ver. Nossa culinária é a melhor. A música. Os atletas. O cinema! Os poemas… Tudo!

— Você está louca.

Eles riram.

Os esporros que Jussara tomou não foram surpresa, e muito menos que o sermão só cessou quando Adriano bateu à porta.

Ele fez uma reverência e cumprimentou a família.

— Vim ver como você tava — ele sempre falava em coreano perto da família dela, e mantinha o português pros dois.

Quando a mãe dela o chamou de “genro”, os dois ficaram vermelhos ao mesmo tempo. Obrigado pela “sogra”, levou vasilhas e mais vasilhas de kimchi consigo para casa.


Jussara fingiu ter câimbras por mais uns dias só para continuar vendo Adriano, mas quando ficou sabendo que ele iria começar a trabalhar na pizzaria da rotatória aos sábados, parou com a encenação. Se arrumou. Deixou suas ondas volumosas e a franja bem alinhadas, colocou sua melhor calça, melhor blusa, melhor tênis, melhor perfume e melhor maquiagem.

Era só uma blusa branca básica e calça jeans clara, uma manteiga de cacau e rímel velho, e um tênis que quase não cabia nela mais.

Não queria competir pelo coração dele, mas se tivesse que competir, queria ser a primeira da fila. Tinha desistido da ideia de sair de Vila Velha, até pensava em ficar no Brasil se pudesse ver Adriano todos os dias. Estudar na UFES, ir morar com ele em Costaré… num lugar onde ela seria menos alienígena, menos a filha mais velha da família e só ela…

Um sonho.

Chegando na casa do vizinho, Adriano estava saindo com a mochila nas costas. Ele ficou vermelho sentindo o perfume de baunilha de Jussara, mas tentou disfarçar olhando pro céu nublado.

Jussara cruzou os braços. — Perdoa a mamãe por aquele dia. Era só brincadeira de mãe ciumenta.

Adriano negou com a cabeça. — Está tudo bem. É de suspeitar que dois jovens bonitos de 16 anos se apaixonem hora ou outra.

Jussara arregalou os olhos, mas seguiu andando ao lado dele.

— O que você quis dizer com isso?

Adriano não encontrou uma resposta que fizesse sentido, mas sentiu o coração bater quando Jussara segurou suas mãos. Ah, aquilo sim fazia sentido.

— Eu te fiz uma pergunta, Adriano!

Ele coçou as orelhas. A nuca. O cabelo. Os olhos.

— Adriano?

— Desculpe se eu não sei falar o que você queria que eu te dissesse. Eu sinto tudo que você sente, talvez até mais porque meu amor transborda, é o dobro, o triplo do seu, e talvez… e talvez…

Ele não conseguiria puxar mais nenhuma inspiração pra completar tamanha breguice. Jussara certamente não o entenderia. Adriano não deveria ter deixado seu coração falar pela cabeça, deveria ter controlado a boca e…

Jussara olhou pros lados para ver se teriam testemunhas, e lhe roubou um selinho. Não seria nada agradável serem pegos no flagra e virarem fofoca no bairro, ela não queria ser a garota mal-falada que saía beijando qualquer rapaz, e ele jamais feriria sua honra antes do casamento e da autorização das mães.

Nenhum dos dois queria se voltar contra à própria família, atrapalhar os estudos um do outro e manchar a imagem, os sobrenomes, causar intrigas e trazer mais sofrimento. Jussara sabia que Adriano era o homem da sua casa, que carregava o mundo nas costas, e não queria ser mais um fardo.

Mas ele valia o esforço.

Ela valia o risco.

Os dois se transformaram em cor de pitanga e seus mindinhos se entrelaçaram. E então, Adriano tomou coragem, pegou Jussara pela nuca com delicadeza e ali os dois selaram seus futuros.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.