Anything But Ordinary
8 Ser suficiente é o suficiente?
O VESTIDO DA LALI ARDE OS OLHOS. É amarelo e laranja demais. Sempre que ela respira, o tecido estica. E solta. Solta. E estica. Para, Yoongi! Só. Para!
Eu paro.
Por.
Dois.
Segundos.
O cheiro de coco do cabelo dela me obriga a prender o ar, a travar as pernas e os braços.
— Por que você tinha que costurar uma roupa tão a sua cara? Pra quê esse monte de enfeite? Meu olho tá doendo por sua culpa, sabia?
Ela nem se mexe.
— O Leo tava certo! — brinco, soltando uma risadinha. — É mesmo tudo da cor do pôr do sol…
Desço o olhar pra pele pálida do braço dela.
Subo pra boca.
Mudo pros olhos fechados.
Contenho a vontade de tirar os fios da frente do rosto dela.
Aperto seus dedos levemente.
Mas a Lali não acorda.
E eu continuo parado. Tentando me manter sem nenhuma expressão. Queimando por dentro. Sendo punido pelo vento gelado.
Daqui de cima, as camélias brilham ao fundo da Praia dos Pescadores. O pôr do sol queima o céu. Os prédios velhos do Centro se empilham, espalhando fumaça pelo ar.
— Eu devia era te deixar dormindo aqui e ir embora, sabia?
Lali se aninha ainda mais em mim e entrelaça os nossos dedos. Sua respiração raspa contra o meu pescoço. Quente. Quente demais.
Minhas pernas congelam.
— Lali — gaguejo —, eu já esgotei a minha cota de boa ação do dia: escutei você desabafar e te deixei me fazer de travesseiro. Agora… será que dá pra… me soltar, por favor? Eu. Quero. Ir. Embora!
Não posso me mexer. Um centímetro sequer! Puta merda!
Solto o ar devagar.
Milagrosamente, ela acorda e se levanta num salto torto.
Ajeito a postura.
Lali dá passos meio instáveis.
E continua em silêncio.
E eu a sigo.
A sensação de pedra molhada se afasta.
As vozes circulam no vento.
Entramos no metrô. A Estação Passione está lotada, com fedor de borracha e gente bebendo café. As paradas são rápidas.
Descemos na Estação dos Pescadores.
Lali ainda está quieta.
Quase rio e solto uma provocação sobre ela estar passando mal.
Me controlo e entro no Solaris.
Alice está interagindo com um grupo de hóspedes.
Lali some em segundos.
Ué… Cê não vai reclamar com a Alice que doeu pra tirar os pontos, dizer que tá com medo de olhar a cicatriz e reclamar que eu estraguei o seu dia com o meu mau humor?
Dou de ombros. Tô nem aí. Eu já sabia que cê era esquisita!
Caminho até a melhor parte do Solaris.
Os hóspedes formam círculos ao redor das mesas. Risadas e mais risadas. O calor se acumula na ponta da bancada e atravessa as paredes.
Os banchans me deixam salivando. Me jogo num banquinho afastado, e com uma simples garfada de japchae, já estou no céu.
A Sra. Park entra na cozinha. Sua saia longa e rodada balança a cada passo, branca da mesma cor do colete. A sandália é uma daquelas rasteiras de amarrar na batata da perna, diretamente do Paleolítico pra Camélia.
Continuo mastigando. Ela deixa a bolsa na bancada e se aproxima. Seu perfume está fraco, mas a maquiagem, mais forte do que ela costuma usar.
— Yoongi, minha criança! — Ela acena e se senta do meu lado.
Dobro o corpo até a cintura. — Boa noite, Sra. Park!
— Que milagre é esse que você saiu do Solaris?
— É. Fui com a Lali no hospital tirar os ponto. Já a senhora vai pra um encontro, né? O Jimin não vai ficar com ciúmes?
Ela assente, com um sorriso curto. — É, um encontro. Isso mesmo. Mas não fala pra ele não, tá?
Faço sinal de boca selada.
— Como a Lali tá se saindo?
— Bem. Ela já aprendeu a mexer no sistema e começou a estudar inglês e espanhol. Os hóspedes gostam dela. O Jimin e a Alice também, óbvio.
— Ótimo. — A Sra. Park corrige a postura e estica o pano da mesa. — Me desculpa por não tá tão presente como eu devia.
— Tranquilo, a senhora me paga pra isso.
— Bem lembrado, criança. Eu tava mesmo pra te entregar isso!
Ela puxa uma folha da bolsa.
Folha de pagamento…
Férias…
Total dos proventos…
Valor líquido…
Meu estômago embrulha. — Sra. Park! 5000 mil reais? Isso quer dizer que agora eu vou ter o triplo de responsabilidade, né? Quer que eu vire seu sócio?
Ela bagunça meu cabelo. — Garoto besta! Quer dizer que eu confio em você!
Inclino levemente o corpo.
Ela bagunça meu cabelo de novo.
— Aqui tá escrito reajuste.
— Sim. Preciso de você na gerência.
Ergo o olhar. — Gerência?
— Vai bombar de cliente em junho depois da Festa Junina. Um caos como sempre foi. Preciso de você pra manter tudo em ordem: quarta a domingo de 8 às 12h, pausa e depois de 17h às 21h. Se você aceitar, assino no dia que você voltar das férias, mas você começa o quanto antes.
— Fazer o quê, né?
Minha cara arde. Levo o olhar pra tigela e como mais um bocado do japchae.
— E como tão os estudos, hein? Cê tá animado pro vestibular? Já ligou pro seus pais essa semana?
— Mais ou menos. A senhora já sabe como eles são.
Ela faz uma careta. — Tá de mal humor? Tadinho! Tão enchendo muito o seu saco?
As palavras deles reverberam dentro da minha cabeça. As mensagens. As ligações.
Os gritos.
“Você tem uma mãe pediatra e um pai cardiologista que podem te ajudar, Yoongi. Já parou pra pensar no quão ingrato você tá sendo com a sua própria família?”
— A mesma ladainha de sempre: seus primos ouviram os seus tios e hoje são bem-sucedidos. Arquitetura é uma área instável e artística demais. Você vai se arrepender de não escutar a gente…
A Sra. Park acaricia minhas mãos.
Respiro alto. — Mas a senhora sabe que eu não me importo. Por que eu escutaria conselhos de pessoas que fazem tudo por status? Prefiro passar o dia preso num prédio que eu projetei do que em outro consertando vesículas de pessoas que só vão fazer besteira.
— Sua carinha não mente, criança.
Um nó prende a minha voz. — N-Não é nada demais, eu juro. Eu só fico meio… chateado… bate aquela insegurança de não conseguir suprir as expectativas deles… e de seguir o caminho errado…
— É assim mesmo. Os pais nunca concordam com os filhos. Eles sempre acham que o caminho que a gente escolheu é o errado. Ou você acha que quando a minha mãe abriu o Solaris meus avós concordaram?
Seguro a risada. — A senhora já me contou essa história umas mil vezes!
— Vou contar outras mil se precisar! Imagina se ela tivesse desistido porque os meus avós queriam que ela fosse policial? Se ela tivesse abandonado o próprio sonho e seguido o sonho dos pais? Teria sido feliz?
Ela força um sorriso.
A senhora sempre fica assim quando briga com o Jimin. Aconteceu alguma coisa?
Fico a um fio de perguntar como vamos resolver qualquer problema que seja.
— É. Acho que não.
— Segue o seu caminho, Yoongi. Vai doer. Mais do que dói agora. — Ela ri. — Acho que não dá pra passar pelos 20 e poucos anos sem sentir dor, mas eu juro que vai valer a pena no final!
É a minha vez de forçar um sorriso. Meu queixo treme.
— Isso não para nunca, né? Parece que eles não querem resolver nada, só reclamar. A gente nunca vai se entender, Sra. Park.
— Se tem uma coisa que eu aprendi nessa minha quase meia década de vida é que a gente nunca vai se entender 100%, Yoongi. E a gente não precisa. Só precisa se respeitar e aceitar as diferenças um do outro. De todos. Até dos que chegaram agora.
Minha cara pega fogo. Pra quê isso agora?
— É…
— Eu sei que tá sendo difícil pra você conviver com a Lali, mas você tá se saindo bem. Ela tá carregando uma barra muito grande. Obrigada por me ajudar.
— De nada… Eu me sinto numa sessão de terapia toda vez que a gente conversa. — Rio pelo nariz. — Uma terapia que eu não pedi.
— Mas você tá bem? Mesmo?
— Tô… — Me espreguiço. — A senhora e essa sua mania de querer saber como eu tô. O Jimin teve a quem puxar mesmo.
Ela me dá uma cotovelada leve. — E as suas férias? Cê tá me enrolando, criança! Quero problema pro meu lado não, hein?
— Não posso parar agora, Sra. Park!
— Tira pelo menos 14 dias. Eu peço pro Namjoon te substituir nesses dias.
— Namjoon?
— É o filho de uma amiga minha da igreja.
— Ok. Posso ir quando?
— A hora que você quiser.
Assinto. — Vou planejar tudo e falo com a senhora.
Finalizo o prato de japchae.
A Sra. Park respira fundo. — Cuidado pra não perder o que você já tem.
Arregalo os olhos. — C-como assim, Sra. Park? Do que a senhora tá falando?
— Minha criança, você é um rapaz bonito e trabalhador. Um dos jovens mais inteligentes que eu conheço. Não fica brigando com os seus pais não, tá bom? Tenta evitar! Ter eles vivos do seu lado não têm preço, mesmo que eles sejam difíceis. Eu te juro! E foca no seu futuro!
Levo os olhos até as manchas de vapor do teto.
— Não tô te dando bronca. Cê sabe disso.
— Sim. — Dou uma risadinha. — Eu sou o outro filho que a senhora não teve. Um Jimin só que bem menos chorão.
— Ah! Não me faz chorar, garoto! — Ela bate de brincadeira na minha mão.
Rimos juntos.
— Valeu, Sra. Park.
— Tenho muito orgulho de você, minha criança!
Meus olhos tremem.
As mãos.
As pernas.
O ar desaparece.
O celular da Sra. Park toca. — Vou ter que atender!
Faço que sim com a cabeça.
Ela sai na direção da sala de jogos.
Depois de me arrumar pro turno e reabastecer as vasilhas do Duri, passo perfume e ajeito o cabelo.
Abro a porta.
Alice está parada no corredor, segurando uma sacola com um tecido amarelo quase branco, fino e liso. Deve ser cetim.
Sem nem piscar, Lali segura a maçaneta da porta do próprio quarto, e passa os dedos pelo vestido amarrotado com a mão livre.
— Vai demorar umas 2 semanas pra ficar pronto… — ela diz.
— Tranquilo — Alice a responde.
— É pra que dia mesmo? — A respiração da Lali está descontrolada e os ombros contraídos.
Alice arqueia as sobrancelhas ao mesmo tempo que eu.
— Dia 16 de junho. Mas cê tá bem, Lali?
— Tô. Me desculpa por te dar trabalho!
— Por que cê tá falando isso?
Lali nega com a cabeça. — Bem lembrado.
Em dois segundos, ela sai do quarto com uma touca cor de vinho nas mãos.
— U-uma touca de cetim? — Alice aponta pro peito. — Pra mim? Você costurou pra mim?
Abro um sorriso.
— É. Você tinha me dito que ajudava a evitar o frizz eu pensei que você fosse gostar e—
Alice abraça Lali. Ela segura o choro e retribui o gesto.
Me escoro na porta.
— Brigada, Lali. Mas o que você costurou pra você?
— Cê não gostou? É um presente!
— Eu gostei, é só que você não precisava ter gastado tanto tempo costurando um presente pra mim, Lali. Devia se preocupar mais com você.
Lali enxuga uma lágrima. — Já entendi, Alice. Você não quer mais ser minha amiga, é isso?
Franzo as sobrancelhas. Quê?
Alice segura Lali pelos ombros. — Respira, Lali. Por que você acha isso? Desculpa se eu te magoei. Eu amei! Só quero que você cuide mais de você mesma, entendeu? Você tá trabalhando muito. Não sai. Não descansa. Não se alimenta direito...
Lali soluça. — Tá, eu vou! Mas promete que não vai deixar de ser minha amiga, Lice?
Meu peito arde.
Alice seca as lágrimas da Lali. — Prometo, mas respira: eu tô aqui com você!
— Eu vou embora pra Itália, Lice…
É a vez da Alice chorar. — Isso… isso tem a ver com a sua família, né?
— Sim. Me perdoa… Depois eu te explico melhor… Eu quero ficar sozinha agora… Mas... não pra sempre... Não me deixa perder a minha amiga... por favor, Lice…
— Tudo bem. Depois eu volto pra ver como você tá, Lali!
— Não se preocupa comigo. E bom descanso pra você!
— Fica bem.
Lali beija a bochecha da Alice.
Alice sai, confusa. Cruzo os braços.
Meu Deus, o que que foi isso que acabou de acontecer?
Ela definitivamente tá mal.
Foi… foi… alguma coisa que eu disse?
Ou…
Ah.
Claro!
Tem a ver com o tal Leo.
Ela deve gostar dele até hoje.
Aquele morro mexeu com ela.
Faz sentido.
Eu não devia ter ido lá com ela.
Duri se engatinha pelo corredor. Antes que eu feche a porta do quarto dela, Lali ouve o miado dele.
Merda, Duri! Coloco uma mão na testa. Não. Não. NÃO!
— Ai. Meu. Deus! Você tem um gatinho? — Lali tapa a boca e se aproxima. — Que fofinho!
Respiro fundo. Já era.
— Sim. E você nunca viu um de perto, pelo visto.
— Já vi sim, mas nunca peguei um no colo! Posso pegar ele?
— Claro que não!
— Por favor!
— Me deixa em paz! — Aceno “tchau” e me aproximo da porta. — E fica longe do Duri!
— D-Duri? — Lali pisca forte. — Ah! Até o nome dele é fofo!
Abro a porta.
— Uau! Seu quarto é todo arrumadinho e cheiroso! Mas não tem claraboias! E cadê a sua biblioteca secreta?
Prendo o riso. Ué, cê já voltou ao normal?
São 17:55 no relógio.
Recomponho a postura. — Anda logo, Lali.
Me aproximo pra que ela pegue o Duri no colo.
— Ele vai me arranhar!
Bufo e o acomodo sobre o lençol. — Então pode ir embora!
— Nem sei porque eu tô com tanto medo, né? Eu já trabalho com dois gatinhos: você e o Jimin!
Reviro os olhos.
Lali se senta na beirada da cama.
Não acredito que o Senhor vai me fazer ensinar pra uma garota a como segurar um gato, Deus. Valeu!
— Deixa o Duri respirar! Se ele quiser, ele vai chegar perto de você.
Em dois segundos, ele está cheirando ela.
Lali se encolhe no canto. — A-Ah… ele vai me morder!
Quanta frescura!
— Ai que fofinho! — Lali comemora, fazendo carinho nas orelhas dele.
Duri ronrona.
Fecho a cara. Traíra!
— Duri! Duri! Duri! — Ela mexe as patas dele.
A pronúncia dela me arranca um risinho.
— Eu tô falando errado?
Minha cara queima. — N-Não.
— O que significa Duri?
— Dois.
— Por quê? — Ela ri pelo nariz. — Cê tem outro gato, por acaso?
Nego com a cabeça.
— Então é o seu número favorito?
— Não. É porque é bom ter um amigo.
Lali fica vermelha e volta a fazer carinho nas orelhas do Duri. Balanço o corpo pra frente e pra trás, com as mãos nos bolsos, desejando que ela vá embora logo, e lutando contra a vontade de dormir por 48 horas.
Solto um pigarro.
Lali finalmente se levanta e se vira de costas. — Desculpa por ter entrado no seu quarto e por te atrasar pro turno! Eu… não quero que você me veja desse jeito! Eu… eu não sou assim…
— Ahn? Assim como?
— Uma sem noção, chata! Desculpa por ficar te irritando toda hora. Eu prometo que vou parar!
Lali funga.
— Lali, cê tá chorando?
Ela ajeita a bolsa no ombro. — É só um cisco. Tchau, Duri. E tchau, gatinho.
Lali beija minha bochecha e corre porta afora.
Meu estômago ronca, causando uma dor insuportável. Quê isso? Fome? Logo agora? Eu acabei de comer! Eu devo ter comido pouco.
Respiro fundo.
A Casa Jovem.
As regras.
Longe da família na Itália.
Ela só tinha o Leo de amigo…
Isso explica tudo.
Ele nem vai durar muito nesse emprego.
Eu não sei quanto tempo.
Mas ela vai sumir uma hora ou outra daqui.
Sem nem avisar!
Passo uma mão no cabelo.
De repente, meu celular apita com um e-mail.
“Prezado Yoongi Min,Sua candidatura foi considerada elegível para a próxima etapa do Processo Seletivo de 2025 do curso de Arquitetura e Urbanismo.A primeira fase da prova escrita será aplicada no dia 16 de novembro.Fique ligado para receber atualizações.Atenciosamente,Universidade do Centro de Costaré.”Não tem porquê se desesperar, Yoongi! A gente ainda tá em maio. Vai dar tempo!
Meus ombros quase explodem de tanta dor.
Meu peito pinica.
De repente, tenho 8 anos.
A melhor nota da sala.
10 em Álgebra.
Elogios da professora.
Na sala de casa, chacoalho o papel.
Café na mesa.
Grito “Mamãe” e “Papai” em coreano e dobro o corpo numa reverência.
— Era sua obrigação.
De volta ao trabalho.
Meu sorriso murcha.
— Então é assim que funciona — digo, soluçando num quartinho incolor. — Que droga de pais!
As memórias passam diante de mim como flechas ardentes em forma de remorso, que me arrancam o fôlego, congelam minhas costas na cama e fazem minhas pernas baterem uma na outra sem parar. É como se eu estivesse me assistindo direto de uma televisão gigante e ao mesmo tempo minúscula. Uma caixa oca. Um vidro transparente de onde eu grito e não sai nenhum som. Borrões e mais borrões. Nem parece que tudo isso aconteceu comigo. Como se fosse a história de um parente muito distante de mim.
Inferno. Inferno. INFERNO!
A foto dos pais da Lali invade minha mente e me imobiliza.
Meu coração dispara ao som da voz dela:
Pelo menos você tem alguma coisa!
Tem alguma coisa!
Alguma coisa!
Num impulso, abro uma aba no navegador do celular.
“Quanto tempo demora pra tirar a cidadania italiana?”
Saem resultados misturados: um lugar diz 1 ano. O outro, entre 6 a 3. Pode levar décadas. Viajando pra Itália é mais rápido. Ser parente de 1º grau facilita.
Lógico. Ela é filha. Vai juntar a grana e vazar.
Eu faria o mesmo.
— Acho que isso é o que chamam de inveja — ironizo.
Talvez ela não esteja mais aqui no dia do meu vestibular.
E talvez eu nem passe!
Talvez eu não seja inteligente o suficiente pra essa carreira.
Meus pais devem ter razão. Eu devia recuar!
Minha língua fica com gosto de sal.
Mas eu não quero viver infeliz vivendo o sonho deles.
Soluço.
Passo uma mão na bochecha. — Por que eu tô chorando? Logo agora que eu tenho um milhão de coisas pra resolver? Que droga!
Minha mão umedece.
— Oi, Duri. — Faço carinho nas orelhas dele. Ele deita nas minhas pernas e me lambe. — Preciso ir. Tô atrasado.
Os olhos dele brilham.
— Você me trocou por uma desconhecida. — Dou risada e faço mais um pouco de carinho nele antes de sair.
A porta do quarto da Lali está fechada, cheia de pedras laranjas na porta. Um cartaz grita com uma caligrafia horrorosa e muito glitter: “GATINHOS MIAM AO INVÉS DE BATER”.
Passo a unha do polegar no vidro do celular.
“Lali, quando você dormiu no meu ombro hoje, eu gostei muito. Foi legal ter passado o dia com você e ter descoberto mais sobre você. Quando a gente tava junto, eu senti—”
— Q-quê? — sussurro.
Apago a mensagem.
O vento gelado do corredor deixa o meu rosto quente.
— Mas que merda! — praguejo, secando a mão na calça e guardando o celular.
Você é idiota, Yoongi? Ela nem tem celular! E por quê raios você ia fazer isso?
Afrouxo as correntes do uniforme na cintura.
Sigo caminhando.
Meu sorriso se abre sozinho. Você quer dizer que vocês são amigos. Perguntar porquê ela tava chorando. Saber como ela tá. Aceita!
Mordo o canto da boca. Claro que não! Eu não quero saber de nada!
Pelo menos, não hoje.
Um hóspede me chama.
E eu vou.
Como sempre, preciso ir.
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