Anything But Ordinary
9 Ser amada é o suficiente?
OS OLHOS DO YOONGI BRILHAM DENTRO DA MINHA MEMÓRIA. Tranco a porta.
Porque é bom ter um amigo.
Bom ter um amigo.
Ter um amigo!
Meu soluço sai sem avisar. Meu quarto está tão arrumado que a bagunça da minha mente se acalma.
Por um segundo.
As lágrimas molham a minha língua.
Um flash passa na frente dos meus olhos.
Contraio os ombros.
Tenho 9 anos. É inverno em Costaré, daqueles que fazem parecer que eu nem moro no Brasil. Estou num corredor meio amarelado, vestindo um uniforme largo e chorando até soluçar com saudades do papà.
— Tia Juliana, onde eu vou ficar? — digo, parando na frente de uma porta entreaberta. “DIRETORIA” brilha no centro da mesa cheia de livros grossos, canetas douradas e o símbolo da prefeitura de Costaré.
As imagens se misturam. Não lembro o que aconteceu primeiro, se foi ela gritando pra que eu não a chamasse de Tia, “ALA FEMININA: 7-9” escrito na parede ou o gosto da comida sem sal do refeitório.
Mas é vívido demais. Abraço os joelhos e deslizo o olhar pras camélias do jardim do Solaris.
— Merda!
Outro flash invade minha memória.
— Aqui é o refeitório.
— Seu quarto.
— Fala baixo! E não demora no banho porque tem mais gente na fila!
Duas garotas iguaizinhas estão na beliche perto da porta, alternando entre sacudir as cortinas e descascar a parede. Seus cabelos loiros e lambidos caem pelos corpos largos. Elas fedem à talco.
— Oi! — Sorrio. — Quer ser minha amiga?
— Quer ser minha amiga? — Uma delas imita minha voz.
A outra ri.
Fecho a cara.
Ah, já sei!
— Olha o que eu sei fazer! — Entorto o pescoço.
Elas se olham e gargalham.
A imagem me faz chorar.
— Droga! — Enxugo as bochechas.
Abro as janelas e o vento gelado me arrepia.
Meus olhos param na minha caixa.
Puxo o zíper.
A foto dos meus pais cai no chão.
— Mamãe… Papà… — As lágrimas tapam a minha visão de novo.
Tenho 11 anos.
Os corrimões da Casa Jovem já estão ficando enferrujados de tanta movimentação, e os pés de acerola mais maduros. Tem cheiro de perfume de rico, blazers de tweed e mocassins pra todo lado. Tenho certeza que a última família que entrou usava roupas da última coleção da Chanel.
Comento isso em voz alta na sala.
Sem querer.
Alto o bastante pras gêmeas Guedes ouvirem.
— Cê nem sabe de nada direito, Lali! — Manuela debocha, apontando pra tela. — Como você sabe se não é mentira?
Levo meu olhar até o pátio externo. Algumas meninas da Ala Laranja estão brincando com os meninos da Ala Roxa, mesmo com o frio e os chuviscos. As tias varrem as folhas do piso irregular, e Juliana conversa com os visitantes.
Cadê você, Tia Margot? Bem que você podia aparecer!
Fecho a aba que fala sobre os tecidos do Norte da Itália. Aperto forte o mouse e escrevo sobre como costurar uma blusa que tenha cara de rica usando o algodãozinho da Casa Jovem.
— Ela acha que vai ser estilista, Manu! — Ester acrescenta, batendo na janela e rindo. — Essa feiosa!
— Por que cê acha que ninguém quer ser seu amigo? Porque você é uma chata bocuda!
— Sim! Essa branquela azeda! Essa girafa! Ninguém vai querer comprar essas roupas de tribufu que você fica fazendo aí!
Meu sangue ferve.
Finjo que estou prestando atenção no computador, mas o cheiro de banho mal tomado e bafo de me distrai.
— Só você acha bonito, Lali — Ester aponta pra costura invisível da blusa laranja que eu estou terminando.
Paro de digitar.
— Sim! — Manuela diz. — Quem vai querer adotar uma chata que fica mexendo com linha o dia todo? Ela vai dar o quê pros pais? Um pano de prato velho com um monte de fiozinhos?
— Não! — Ester ri pelo nariz. — Ela vai fazer uma roupa escrito “eu não fecho a matraca e nem a minha tia gosta de mim!”
Ah, não! Cês não vão falar da minha família!
— Eu queria ser amiga de vocês, mas agora eu odeio vocês! Suas idiotas! Além de banguelas, ainda se acham!
Minha mão se mexe sozinha.
As bochechas dela ficam vermelhas.
Bufo. Que saco! Mais um dia no milho!
Meus joelhos pinicam só de pensar.
— É agora que ela começa a xingar a gente em italiano, né? — Manuela caçoa.
— É!
— Stronze! — grito, avançando pra cima delas.
Puxo os cabelos das duas. Elas não se esquivam. Em segundos, as borboletas das mangas delas estão completamente desfiadas. Cadu e Marcinho tentam nos separar.
— SAI!
— AH!
— PARA!
Os passos apressados e o cheiro de limão que se espalha pelo ar me paralisa.
Alguém tosse.
Não vai ser só um dia no milho. Vai ser uma semana!
— Sua tia tá aqui. — Juliana toca meus ombros.
As outras pragas que ficaram só assistindo mentem, dizendo que a culpa é minha.
Juliana não se importa com os gritos da Ester nem com o choro fingido da Manuela e me arrasta pelo corredor. Tento não fazer careta com os puxões na pele e ignorar os olhares das outras Tias que passam por mim, forçando um sorrisinho.
— Sem escândalos, Lali. Lembra que você só tem 10 minutos. Se demorar, eu te chamo.
Minhas pernas ainda ardem quando eu entro na salinha da diretoria.
Respiro fundo.
O ar está gelado, as cortinas escuras entreabertas e a luz azulada. Me escoro numa prateleira e tapo a boca.
A Tia Margot está mais alta e malhada do que da última vez. E mais velha. Seu cabelo ainda é cor de chocolate igual ao da mamãe. Os olhos também.
Bella, zia Margot!
Mas o sorriso não existe.
— Tia Margot, cê ficou rica? Tá parecendo aquelas madames da Vila Dorata! — Bato palmas.
Ela ajeita o blazer preto de alfaiataria e para de bater as plataformas vermelhas no chão.
— Cê vai me adotar? Finalmente lembrou que eu existo? Eu sabia que você ia vir me buscar, era tudo mentira da Juliana! Tudo mentira! Você me quer sim! Me quer sim!
Ela pousa os óculos na cabeça. Seu olhar me faz encolher no canto.
— Por que eu te adotaria, Lali? — A voz dela sai baixa e fina.
Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Eu sou filha da sua irmã! — Misturo as palavras. — Da sua única irmã! Você é a única pessoa que eu tenho, Tia Margot! Por favor! Me ajuda a sair daqui! Eu odeio esse lugar, aqui é um inferno!
Ela se agacha. — Por que eu adotaria um erro?
Me levanto num salto. — E-erro?
— Sim. Se você não tivesse nascido, a Beatriz ia tá bem aqui hoje: viva. VIVA, Lali!
Fecho as mãos em forma de soquinhos. — Mas eu não pedi pra nascer, Tia!
— Não pediu, mas nasceu. E eu fiquei sem a minha irmã.
Empurro um vaso no chão, e os cacos espalham pó pelo ar.
Tusso forte.
Tia Margot gargalha. Dói dentro dos meus ouvidos.
— E-Eu fiquei sem a minha mãe, tia! — Soluço. — Eu nem lembro dela direito! E eu nem lembro direito do papà!
— Papà? O seu papà era outro erro, um desgraçado filho da puta!
— Não fala assim dele! — Tento bater na Tia Margot, mas ela desvia de mim antes.
Caio de cara no chão, com as bochechas grudadas na poeira.
— Sabe o quanto a sua mãe sofreu? Seu papà não era esse pai bonzinho que você tá pensando, não, tá? Ele era um riquinho mimado que vivia viajando, bebendo pelos cantos e ficando com várias mulheres sem compromisso!
— Mentira! Mentira! MENTIRA!
— Não é mentira! Ele foi se envolver logo com a Beatriz! Logo com ela! Uma menina tão centrada, tão feliz!
Continuo soluçando.
— Você nunca se perguntou por quê os seus avós nunca vieram atrás de você?
Pisco forte, me sentando de joelhos. Meu peito arde e minha visão embaça.
— Eles não queriam que o filhinho deles tivesse uma filha com uma brasileira fodida!
— MENTIRA!
Tia Margot dá um passo pra trás e seca as lágrimas. — No começo eu achei que a Beatriz tinha sido inteligente e tentado dar um golpe, mas não. A burra da sua mãe realmente se apaixonou por aquele gringo escroto! Ele jurou que amava ela! E eu aceitei! Eu até ajudei eles a acharem uma casa!
— C-casa?
— É. E quando eles me disseram que iam embora com você pra Itália, eu fiquei sem chão.
Itália.
Itália.
Itália.
Meus olhos ardem. — O papà… ele… ele falava… de cittadinanza! Quê isso, Tia Margot? Me ajuda!
Me levanto, puxando a barra do blazer dela.
Ela solta um riso curto. — Se depender de mim, você vai continuar aqui até fazer 18. Você não é minha responsabilidade, Lali.
— A mamãe não ia gostar que você fizesse isso! A gente é da mesma família, Tia Margot!
— Ela não tá aqui pra dar opinião, né? Você sabe como doeu ver a minha irmã morrer depois que você saiu de dentro da barriga dela? Ela tinha só 20 anos, Lali! VINTE!
— Desculpa, Tia Margot… — Minha voz falha.
Soluçamos ao mesmo tempo. Minha respiração está toda embolada, a garganta dolorida e os cabelos suados.
— Você veio aqui… só pra… me… xingar?
— Não. Vim pra te pedir pra parar de me perturbar! Não aguento mais as assistentes sociais indo na minha casa pedindo pra eu entrar com um pedido de adoção. Esquece!
— Por… favor! — Minha voz some.
Ela mexe nas ondas escuras. — Esquece que eu existo!
Meu peito dói tanto que eu caio no chão de novo.
— Eu… não tenho… nenhum amigo aqui, Tia Margot… Eu… eu tô sozinha… Se… se você me… me deixar aqui… como eu vou fazer?
— Se. Vira.
— Pode… pelo menos… pedir pra eles falarem… com a família… do… do papà?
— Eles não vão querer você, Lali! Você matou o filho deles.
— Eu não matei! Não matei!
— Matou. O seu papà ficou depressivo porque você matou a sua mãe! Ou você esqueceu de como você veio parar aqui? Isso já tem 3 anos! Como a sua memória é ruim, hein? Nisso você puxou a Beatriz!
— Por que você não ajudou ele a cuidar de mim, Tia Margot? Você não podia? Por que você é tão ruim assim pra mim? O que eu te fiz? Eu te odeio! Sua monstra! Sua cara de maracujá azeda!
O tapa dela vem forte.
E eu revido.
Quando pisco, estou em cima dela, arranhando seus ombros. Ela puxa os meus cabelos. É tão fraca que nem parece adulta.
— Stai zitta! — grito sem querer.
As ofensas da Ester e da Manuela entram dentro da minha cabeça e se misturam aos gritos da Tia Margot e da Juliana.
Imagens passam diante de mim.
As aulas de atletismo.
O refeitório largo e vazio.
As risadas na escola.
As roupas que o papà trouxe e não me deixaram levar pra Casa Jovem.
A voz dele.
Minhas tentativas de costurar alguma roupa que me lembrasse dele.
As vezes que eu falhei.
O abraço dele.
“Figlia mia!”
“Vai a Milano!”
“Ti amo!”
De repente, Juliana me arrasta pro canto. Minha visão escurece, mas eu continuo gritando enquanto o resto de voz que eu ainda tenho sai em forma de soluço:
— Quando eu chegar lá, meus avós vão mudar de ideia! Eles vão me ouvir! Vão me amar! Me AMAR! Lá a minha vida vai mudar! Lá é o meu lugar! MEU LUGAR! Você vai ver, Tia Margot! VAI VER!
Recupero o ar e prendo o olhar nas camélias do jardim do Solaris outra vez.
Agarro a foto dos meus pais. — È per voi… per voi… resisterò…
Seco o rosto.
As memórias me castigam até as lágrimas me doparem de sono.
Acordo meio grogue quinta-feira de manhã, sem noção nenhuma de horário ou de espaço.
Por sorte, o céu ainda está bem escuro.
Tomo um banho, lavo o cabelo e visto o uniforme.
Mais do que nunca, preciso focar. Focar. Focar!
Aproveito que a recepção está vazia pra continuar pesquisando.
— Iure sanguinis… antenato… — Reviro os olhos. — Pra quê complicar desse jeito?
Vou precisar desenferrujar meu italiano. Levar muitos euros. Isso pode demorar muitos anos.
Não.
Não.
Não!
Tem que ser pra ontem!
Rolo a página.
Formulário. Apostilamento. Tradução.
É tanta burocracia que minha cabeça dói.
Eu vou passar mal. Não vou conseguir juntar esse dinheiro. A Tia Margot tava certa! Eles não vão me querer! Eu vou ficar aqui pra sempre! SEMPRE!
Choro baixo o suficiente pros hóspedes não notarem, e entre um check-in ou outro, faço mais pesquisas.
Como eu vou juntar mais de 40 mil reais? Eu devia ter planejado melhor onde eu ia trabalhar! Arrumar um trabalho num banco, sei lá!
Se pelo menos aqueles filhos da puta não tivessem roubado o meu carro…
Respiro fundo. — Calma, Lali!
Mas como eu vou juntar tudo isso sem surtar? Nunca mais vou poder beber e nem me divertir? Só trabalhar, trabalhar e trabalhar?
— Ah, não! Eu me recuso! Tem que ter outro jeito! Tem que ter!
A Alice falou pra eu investir no meu sonho, mas quem compraria uma peça que demora 1 semana pra ficar pronta?
Penso em pesquisar preços de máquinas. Talvez facilite.
Não, sem pressa! Lembra de como o papà te ensinou!
Como uma voz fria, um anúncio aparece em vermelho: “Cidadania italiana: fazemos sua pesquisa genealógica sem sair de casa e sem burocracia! Apenas R$5000!”
Fecho a aba por impulso.
— Merda! — Puxo o couro cabeludo. — Como você é burra, Lali!
Como eu vou achar os meus avós? Como? COMO?
Normalizo a respiração. — Preciso começar logo!
Mas por onde? Pelo passaporte? Pela carteira de motorista? Pela inscrição no Marangoni?
Isso vai me enlouquecer!
O Yoongi deve ter cidadania coreana. Ele deve saber melhor do que eu sobre essas coisas de documento!
É isso! ISSO! Eu vou falar com ele!
Meu sorriso se desfaz. Melhor não. Toda hora ele fala que a gente não é amigo! Ele não vai com a minha cara!
No mesmo instante, Angeline entra no Solaris vestindo um conjunto de moletom e sapatilhas antiderrapantes.
Aceno pra ela. — Adorei essa legging flare, Angeline! Você arrasou! Tava na academia?
Ela pausa pra respirar e ajeitar o coque bagunçado. — Oi, querida! Eu tava no Pilates. Precisa de alguma ajuda? Tá tudo certinho por aqui?
— Sim, tá sim!
Ela sorri sem mostrar os dentes.
— Tá tudo bem, Angeline? Você parece meio tristinha…
— É só o cansaço.
Semicerro os olhos. — Se o Yoongi tivesse aqui acho que ele ia desmaiar e dizer que eu vou perder meu emprego, mas a minha curiosidade não me deixa quieta!
— Tudo bem. Pode falar.
— Cê é solteira?
Angeline ri baixo. — Sou.
— Então cê podia arrumar um namorado, hein? Você é linda e uma ótima pessoa! Mesmo sendo cinquentona! O Jimin me falou e eu fiquei chocada! Nem parece!
Ela gargalha.
Meu rosto esquenta. — D-desculpa! Não falei por mal!
— Tudo bem, querida! Quem sabe, né? Tem muito homem por aí!
Esfrego os dedos no uniforme. — É… Pode me responder uma coisa?
— Claro!
— Você já se sentiu meio… perdida? Sem nem saber por onde começar a fazer uma coisa muito importante que vai mudar a sua vida pra sempre?
— Sim. Principalmente na sua idade. O mundo parecia que ia me engolir.
— E como você saiu disso?
— Você não sai. Você só… se acostuma com a instabilidade da vida.
Apoio uma mão no queixo. — Você parece sempre saber o que dizer e tem todas as respostas do mundo! Eu quero ser assim um dia!
Angeline ri. — Eu não tenho! Nem um pingo, eu juro! Só parece. Mas uma hora eu chego lá.
— Eu vou embora, Angeline.
Ela arregala os olhos. — Como assim?
— É… eu preciso juntar dinheiro pra conhecer a minha família na Itália…
Angeline segura minhas mãos.
— Sério? — ela sussurra. — Quando?
— Sim. Preciso ver minha nonna e meu nonno… eu tenho que ir pra lá, é o meu sonho… talvez lá eu me acostume com essa sensação de instabilidade que você falou…
— Eu te entendo, querida. Fico muito feliz por você.
— Desculpa por não ter falado nada antes.
— Tudo bem… Mas quando você vai?
— Fica tranquila. Eu não vou deixar vocês na mão. Bem antes da viagem, eu vou avisar pra todo mundo.
Ela sorri. — A gente vai sentir sua falta. Principalmente o Jimin. Em pouco tempo, ele já gosta muito de você.
— Mesmo? — Meus olhos se enchem d’água.
— Claro!
— Eu também gosto muito de vocês! Prometo que vou visitar Costaré sempre que der!
Angeline assente.
— Você… pode não falar pra ele… pelo menos por agora? É que eu não quero que ele fique triste e pense que eu menti… só o Yoongi e a Alice que sabem… mas tá tudo bem. A Lice não vai contar. E o Yoongi não liga.
— Liga sim. — Angeline ri. — Ele só finge que não.
Fico vermelha. — Ah… Mas não fala pro Jimin! Ele vai ficar chateado comigo!
— Não vou dizer, Lali. Fica tranquila!
Respiro fundo. — Brigada! Aliás, o Yoongi me disse que o Solaris tem muitos anos. É tipo uns 100?
Angeline ri. — Quase 45.
— Então… — Tento calcular.
— Eu sou o que a sua geração chama de “nepo baby”. Herdei o Solaris da minha mãe.
— Por isso que você é tão inteligente: mexe com isso há muito tempo!
— Ter crescido aqui dentro me ajudou. Eu já sabia muita coisa.
— V-Você cresceu aqui dentro?
— Cresci. Minha mãe veio pro Brasil cheia de sonhos. Ela sempre quis ter um hotel num país onde o turismo desse retorno. Ela quase desistiu no meio do caminho porque minha avó dizia que ia dar errado, que ela devia ser policial na Coreia, largar tudo e voltar pra Busan… mas ela persistiu! Tudo começou com quartinhos pequenos bem simplesinhos… até virar tudo isso aqui que você tá vendo!
— Uau! Então o bom gosto é de família mesmo!
Ela sorri. — Brigada, querida. Vocês é que me ajudam a manter tudo em ordem!
— Você também sente falta dos seus pais?
O sorriso dela diminui.
— Desculpa, eu não devia te ter perguntado isso!
Ela toca minha mão outra vez. — Tudo bem, querida. Eu te entendo! É uma dor que não sara nunca!
— Sabe… — Enxugo uma lágrima. — Eu às vezes sinto culpa por não me lembrar deles direito… principalmente da minha mãe… ela teve uma hemorragia no parto…
— Sinto muito, querida! É normal sentir isso. Eu também perdi meu pai cedo, acredita? E pela minha idade… você já deve imaginar que a minha memória não é das melhores, né?
Ela ri junto comigo. — Não se culpa, tá bom?
Faço que sim com a cabeça, engulindo o nó na garganta.
— Quando o Ian morreu, o Jimin também era novo.
— Ian? Era o nome do pai dele?
— Isso.
— Fico triste por vocês… ele me contou… deve ter sido muito difícil…
— Ainda é. Eu me culpava muito. Me casei com um engenheiro de sucesso, tive um filho com ele… e ele se foi… na minha cabeça, eu tinha fracassado. Meu filho ia crescer sem pai, então eu ia sentir dor em dobro.
A vontade de chorar volta e eu não a controlo.
— Deve ser mesmo o destino — brinco —, o Jimin tem uma história parecida com a minha, sabia? O meu pai também morreu quando eu tinha uns cinco anos mais ou menos. Eu falava só em italiano com ele… aí esqueci tudo…
Angeline ri baixo. — O Jimin fala coreano às vezes quando tá assustado. Cê também?
— Eu também faço isso, é muito estranho! Outra coincidência é que eu também comecei a gostar de costurar com 8 anos, igual ele com os cosméticos!
— Sério?
— Sim. Eu passava o dia tentando lembrar das dicas que o meu pai me ensinou… mas as minhas memórias dele só sumiam…
— Então cê tá esperando o quê pra ir pra Itália, menina? Lá é o lugar perfeito pra tudo: pra você estudar, trabalhar com o que gosta e ficar perto da sua família!
— Ah, não me faz chorar, Angeline!
— É verdade! Olha o que você fez com esse uniforme: nunca vi uma bainha tão bem-feita, nem dá pra ver a costura direito!
Abraço os cotovelos. — B-Brigada… A Alice me deu uma ideia e eu até pensei em vender roupas, mas eu não sei se devo mesmo! Eu demoro semanas pra terminar uma peça na mão! Não sei se alguém iria querer! E eu… eu não posso usar a máquina.
— Hoje em dia tudo ficou mais fácil, querida! Posta na Internet. Logo logo você vai ficar famosa aqui! Você pode achar um monte de gente que vai achar sua história linda e querer e fechar trabalho com você!
— Obrigada!
— Se você passar pela Coreia um dia e eu estiver de férias por lá, me avisa!
— Claro! Vou na balada com você, Angeline!
— Precisando de qualquer coisa, é só chamar — ela diz antes de sair.
Aumento a música e bato os pés ao som da minha playlist.
Se o Yoongi tivesse aqui ia fazer a maior careta do mundo.
Me olhar com aquela cara de tédio.
Balançar a cabeça.
E rir achando que eu não tô vendo.
Mordo os lábios. — Ele deve tá dormindo agora. Ou tá lendo um livro daqueles bem chatos.
Meus pés me guiam sozinhos pelo corredor.
O ar quente me deixa em alerta.
As vozes dos hóspedes se embolam dentro dos quartos. Alguns espalham fedor de cigarro pelo ar, outros desfazem malas com cliques irritantes. Outros só dormem.
A plaquinha escrito “YOONGI” me dá vontade de colar strass na porta. Talvez fazer uma carinha de gatinho emburrado.
É isso!
Dou uma gargalhada. Ele vai amar!
Dou dois soquinhos na porta.
— Quem morreu? — A voz dele sai baixa, seguida de um bocejo.
O rangido ecoa e ele aparece, cheirando a banho tomado. Seu cabelo está penteado com gel, sua camisa é de algodão e mangas curtas com listras marrom e off white.
Nossa!
Minha língua coça pra jogar uma piadinha no ar, mas a garganta trava.
— Fala, Lali.
— O-oi… Desculpa te acordar…
— Eu não tava dormindo. Tava indo estudar.
— Então eu não sou a única que não paro quieta, né?
Yoongi arqueia uma sobrancelha e se escora na porta. A janela está entreaberta e a cama impecável. No canto, Duri brinca com uma bolinha no tapete de lã verde.
Seguro a vontade de entrar.
Meu peito bate forte.
— Aconteceu alguma coisa?
— N-não… eu só… eu só… vim dar oi pra você… e pro Duri…
Yoongi levanta as sobrancelhas de novo. — Oi. E agora tchau.
Quando ele está prestes a fechar a porta, eu encurto o espaço.
Yoongi prende o queixo.
Paro de respirar. — É-É… eu… eu só queria te ver, Yoongi! Qual o problema? Eu não posso?
— Tá. Cê já viu, né? Então já pode voltar pro seu turno.
— Grosso! — Jogo o cabelo de lado. — Tá quase na hora de eu trocar com o Jimin, sabia? Eu ia te chamar pra… pra comer kimchi comigo!
— Valeu, mas eu passo. Será que… eu posso estudar agora?
— Você prefere estudar do que conversar comigo?
— Sim. É a coisa mais legal do mundo. Tchau.
Antes que eu pense, já estou beijando sua bochecha. Yoongi trava. Sua pele está quente. Muito quente. E esse perfume de caramelo ainda vai me derreter de tão bom. Meu estômago dá voltas. Minha nuca queima de tanto suor.
— Vou sentir sua falta, gatinho! — deixo escapar.
Ele arregala os olhos.
Coça o couro cabeludo.
Solta um grunhido.
E um sorriso se forma no canto da boca dele.
Um calor se espalha pelo meu peito. Eu sabia! Cê gosta disso!
Meu sorriso se alarga.
Yoongi recua um passo. — T-tchau, Lali. Eu não vou sentir a sua.
— Você é um mentiroso de uma figa!
Quero fazer cócegas nele até que ele confesse que somos amigos. Que eu sou a garota mais linda, legal e inteligente que ele conhece.
Mas agora não dá.
Me viro, com as mãos suadas e quentes.
Em poucos passos, estou atrás do balcão da recepção.
Minhas pernas tremem.
Minha boca está seca, como se eu não bebesse água há dias.
Mordo o canto da boca. — Eu, hein! Que besteira! Por que eu tô desse jeito? É só o Yoongi!
Ele nem é tudo isso.
É só mais um gatinho que mora aqui e trabalha comigo!
Nem faz tanta diferença assim!
Por que eu tô tremendo?
Coloco uma mão no peito.
Bate igual um motor.
Parece que eu corri uma maratona.
Respiro fundo.
A última vez que eu fiquei desse jeito foi…
Com o Leo.
Não! Não! Não pode ser!
Não!
Eu… não…
Não tô…
Não, né?
Não é possível!
Você só acha ele bonito! Para de ser idiota!
— Essa foi a pior ideia que eu já tive na vida, meu Deus do céu!
Até porque você vai embora, né, Lali? Era pra estar preocupada com qualquer coisa menos homem!
Lágrimas se formam no canto dos meus olhos.
Balanço a cabeça. — Ai, não acredito que eu conheço ele não tem nem um mês direito e já tô assim!
Jimin pisa na recepção.
— Cê tava falando sozinha? — Ele faz bico. — Tá tudo bem?
Seu uniforme com bainha de oncinha… as correntes… os olhos de risquinhos…
Eu vou perder o meu melhor amigo!
Vou perder tudo! Tudo! TUDO!
Mas se eu não for pra Itália logo, a minha vida vai acabar!
— …me ouvindo? Cê tá tremendo, Lali! — Ele toca os meus ombros e deixa de ser um borrão.
— Tô. Só tô cansada.
— Por que eu sinto que cê tá mentindo? Ah. Claro. Porque você tá, né?
Droga.
Engulo a saliva. — É que eu não sei se vou conseguir entregar o vestido da formatura da Alice a tempo…
— É só isso?
— Sim.
— É pra que dia?
— 16 de junho.
— Falta quase três semanas, Lali. Dá tempo. Eu te ajudo!
— Cê tá querendo dizer que eu não vou dar conta? Cê me acha sem talento? Sem futuro?
Jimin segura minhas bochechas. — Ei! Eu não falei isso! Calma!
Respiro fundo. — Desculpa, eu não quis ser grossa! Eu…
Meu corpo se impulsiona sozinho e o abraço do Jimin me faz chorar.
— Calma, Lali! Vai ficar tudo bem!
— Desculpa!
— Tá bom!
— Ah! Acabei de lembrar. — Separo o abraço. — Eu tenho um presente pra você. Me espera aqui.
Volto pra recepção com um sorriso largo.
Quando ele tira a echarpe da sacola, seus olhos se iluminam. — V-você fez pra mim?
— Sim. Não diz que não precisava, por favor!
Jimin desliza os dedos pelos detalhes de oncinha roxa do tecido — Vou usar em todos os lugares, até pra dormir!
Aperto as bochechas dele.
— Obrigada, Jimin — gaguejo —, você é um ótimo amigo, você é tipo um irmão pra mim… Eu vou sentir tanto a sua falta!
Ele franze a testa. — Como assim sentir minha falta? Cê vai pra onde?
Antes que eu invente outra mentira, um barulho me atrapalha: um par de tênis bate no chão da recepção. Cano alto. Vermelho. Velho.
Subo o olhar.
A pele do carinha é bege meio dourada, e o cabelo dele é azul da cor de uma piscina muito forte.
Que gato!
Um moletom grosso cobre seus ombros largos. A estampa neon parece tinta fresca.
Cara de cantor!
Ele coloca a bolsa tiracolo e o boné na bancada e se aproxima de mim e do Jimin. Seu perfume é uma coisa meio terrosa misturada com algo fresco.
— Fala, Namjoon, meu mano! E aí? Tá preparado pra ser treinado pelo cara mais foda da Camélia? — Jimin o cumprimenta com um abraço e um tapinha nas costas.
Namjoon? Que nome diferente! Bonito!
Ele segura o currículo e só seu nome fica visível: NAMJOON KIM PEREIRA. Suas micro tatuagens no pescoço e na nuca são de diversos tipos: punhos fechados, leões e até cruzes. Ele usa inúmeros brincos.
Minha boca ainda está aberta quando ele sorri.
— Que fofo! Você tem covinhas!
— V-valeu. — Sua voz é grossa. — É… Você é a…?
Jimin dá uma risadinha, alternando o sinal entre nós dois. — Lali, Namjoon. Namjoon, Lali. Ela é uma das recepcionistas do Solaris.
— Prazer! — Aperto a mão do Namjoon. — Quanto cê tem de altura? Tô até me sentindo baixinha agora!
— 1,92.
— Alto? Cabelo azul? Tatuado? Pacote completo, hein? Cê deve fazer sucesso!
Namjoon fica ainda mais vermelho.
— É. Ele faz sucesso com as senhorinhas da igreja! — Jimin ri.
Namjoon estapeia a cabeça dele. — Vai me zoar ou vai me treinar? Sua mãe me disse que você era super focado no trabalho… Tô vendo como!
Prendo o riso. — Então quer dizer que vai ter mais um gatinho trabalhando aqui, Jimin?
— Sim, eu preciso pagar as contas! — Namjoon me responde com uma piscadela.
— É. Ele vai substituir o Yoongi.
Ah, não! Não! Não! NÃo!
Minha cara esquenta. — Quê? Ele vai sair do Solaris? Eu vou ficar sem o meu gatinho emburrado?
— Não. Ele vai virar gerente.
Faço bico. — Ah, então agora ele vai mandar na gente! Nossa! Vai ficar ainda mais insuportável!
— Fazer o quê, né? — Jimin boceja. — Cê já pode ir, Lali! Descansa, meu bem.
Meus olhos marejam.
Eu não vou mais te ver.
Nunca mais!
Balanço a cabeça pra que a minha mente pare de criar borrões.
Eu. Sozinha. Num quartinho escuro em Milão.
PARA!
Namjoon coloca as mãos no bolso e acena “tchauzinho”.
— Não! — Nego com o indicador. — Você é legal! Quero saber mais sobre você, Namjoon!
Jimin ri antes de sumir na direção do banheiro. — Se prepara, mano!
— Cê tem quantos anos?
— 21.
— E você nasceu aqui ou na Coreia?
— Aqui.
— Já foi pra lá?
— Não.
— E o que você gosta de fazer?
Ele sorri de canto. — Grafitar… andar de skate… desenhar…
— Que massa! Cê tem muita personalidade! Muito estilo!
— Sim. É por isso que eu tô cursando Moda.
Paraliso.
Tô cursando Moda.
Cursando Moda.
Moda.
MODA!
Aperto os olhos.
— M-moda? — Minha voz some. — E… é legal?
Namjoon pensa por uns segundos.
O Yoongi vai ser arquiteto.
O Jimin, cosmetólogo.
A Alice, advogada.
E eu?
Eu vou continuar sendo só a Lali.
Todo mundo vai esquecer de mim!
Disfarço a vontade de chorar com um sorriso.
— É um desafio, Lali — Namjoon afirma —, é um curso meio instável. Eu não nem sei se vou conseguir trabalho quando me formar! Mas ao mesmo tempo eu penso: se isso é o que eu amo, como eu vou fugir disso?
O que eu amo.
Amo.
Amo.
Fugir disso.
Disso.
Disso.
Dessa vez, não evito as lágrimas.
Namjoon arregala os olhos e corre até o filtro.
Ele me entrega um copo. — C-cê tá bem? Eu disse alguma coisa errada
Bebo a água e respiro fundo. — Valeu… É só que… você tem um sonho muito bonito… Desculpa se eu te assustei!
— Cê também quer ser estilista, né?
Chacoalho a cabeça. — C-como você sabe?
— Intuição, eu acho. Mas cê já se inscreveu no curso? Ou desistiu?
Comprimo os lábios. — É complicado… Eu não sei nem por onde começar a te explicar!
— Tudo bem. — Ele sorri levemente. — Quer que eu te mostre os meus croquis?
— Sério?
— Claro!
Ele tira um caderninho da bolsa. O papel é firme, mais do que qualquer um que eu já toquei antes. Em dourado, “UNIVERSIDADE DO CENTRO DE COSTARÉ” reflete nas bordas verde musgo.
O nó trava minha garganta a cada folha que eu passo.
Moletons com spikes. Gorros. Bandanas. Chapéus de balde. Calças capri. Bermudas cargo. Tênis plataformas. Tudo é muito colorido. Muito bem estruturado, com infinitos bolsos e cortes. Chartreuse. Ocre. Fuschia. Ciano. Ondas. Listras. Plumas. Strass.
Talvez eu não consiga entrar no Marangoni!
Eu podia tentar entrar na Universidade do Cen—
Aperto a barra do uniforme.
Não se empolga, Lali! Fica perto da sua família!
É muito melhor!
Forço mais um sorriso. — U-a-u, Namjoon! Você tem muita referência hip hop!
— É. Gostar virou quase uma obrigação! Eu tive que honrar as minhas raízes da Maré, né?
Tapo a boca. — M-Maré? A Maré Baixa? Aquela favela perto da Vila Dorata? Lá não é perigoso?
— Sim. Eu sou da Co-mu-ni-da-de da Maré Baixa.
Meu rosto arde tanto que eu soluço. — Desculpa! Eu não falei por mal!
Namjoon se senta do meu lado e abre um sorriso.
— Lá não é o lugar mais seguro do mundo, Lali — ele diz com uma piscadinha —, mas não é esse bicho todo que eles pintam! A Comunidade é super receptiva! Lá de cima a gente tem a vista mais privilegiada de Costaré, sabia?
Passo os dedos pela bainha do uniforme. — Sério? Eu quero ver! Cê tem foto?
Namjoon abre a galeria do celular. As casas são coloridas, agrupadas e sem ordem correta, mas não atrapalham a vista. Os prédios da Vila Dorata aparecem lá no fundo. Logo em seguida, a Praia do Lírio, a Fábrica de Chocolates Dorata e o Exército.
O letreiro de maracujá do Museu das Sementes brilha dentro da minha cabeça: “SEJA UMA SEMENTE: FAÇA O FUTURO GERMINAR!”
Arregalo os olhos.
Era… era isso? Aquele pôr do sol significava que eu vou embora? Só pode ser!
Ergo o queixo. — Meu Deus! Como é bonito!
Namjoon passa pra próxima imagem.
Do novo ângulo, o mar da Praia dos Pescadores reflete no céu claro. Ao final de um beco, as camélias brilham.
— Viu? Da pra ver quase a cidade toda!
— Sim.
Ele desliza a foto de novo. Um casal sorri no morro. A mulher tem os olhos iguais aos do Namjoon. O homem tem o mesmo sorriso. Sua pele tem um tom marrom profundo e ele usa um gorro vermelho que parece feito de seda.
— São os seus pais?
— Sim.
— Como é o nome desse gorro na cabeça dele?
— Durag.
— É bem bonito. Você com certeza deve ficar lindo usando um.
— Valeu.
— Seus pais parecem ser muito legais! Quero saber tudo: o que eles fazem? Qual o nome deles? Têm quantos anos? Eles brigam muito com você?
Namjoon ri baixo.
— Desculpa… Eu sei que sou chata às vezes… Quer dizer: sempre!
Namjoon põe uma mão no queixo. — Você devia ir lá qualquer dia desses.
— Posso ir mesmo?
— Claro! Vem grafitar com a gente! Meu pai vai amar te receber!
Entrelaço os dedos na frente dos joelhos. — Não é difícil?
— É, mas não é impossível.
Seguro os croquis de novo. — Acho que eu não conseguiria ser tão criativa assim! Meus desenhos são bem mais simples.
Ele balança a cabeça. — Com a técnica certa, você consegue.
— Os professores da faculdade são tranquilos? Te ajudam?
— Sim. Ajudam muito. Você só precisa arcar com os gastos dos tecidos.
— Nem me fale! Tô ficando quebrada já e olha que as minhas roupas são baratinhas!
— Agora eu que fiquei curioso. Queria ver o que você faz.
Fico vermelha. — Quem sabe algum dia, né?
— É. Quem sabe! Você tem cara que tem um estilo bem único, Lali.
— O seu também!
É a vez dele ficar vermelho.
— Mas eu não sei se você me dá esperança ou se me deixa ainda mais triste.
— Por quê?
— É que… você tem toda a teoria que vídeo nenhum da internet vai me ensinar. E pratica todos os dias… Deve ter apoio da sua família. Eu sinto um pouco de inveja de você…
Ele entreabre a boca.
— Droga! Eu e a minha língua grande! Por que eu não consigo ficar quieta?
Namjoon dá uma risadinha. — Quem sou eu pra te julgar? Só Deus pode fazer isso!
Meu queixo dói. — Que raiva! Tô chorando mais do que o normal hoje.
— Eu te entendo mais do que você imagina! A gente que é artista é assim mesmo: super sensível!
— Artista? Eu não sou artista!
— Você que pensa. Não é você que escolhe! A gente nasce assim.
Meus olhos pegam fogo.
— Voltei! — Jimin dá um pulinho.
— Ele tá tentando me fazer chorar, Jimin! Manda a Angeline demitir esse garoto!
Namjoon e Jimin gargalham.
— Que foi? Ele tá reclamando sobre as dores de ser um homem estilista?
— Dor? — Arqueio a sobrancelha.
— É. — Namjoon suspira. — É o maior rolé!
O papà sempre costurou normalmente! Nunca sofreu!
Sofreu?
Merda! Por que eu não lembro de nada?
Semicerro os olhos. — Mas pelo menos os seus pais te apoiam?
— Não muito, eles queriam que eu fizesse uma coisa mais “masculina”. Mas acontece…
— Sinto muito.
— Tranquilo.
— Posso colocar uma música pra tocar, Jimin?
Ele levanta os polegares.
Coloco Smile da Avril outra vez.
Controlo a vontade de dançar.
Até que uma voz soa junto da minha e da Avril. Mais grossa. Num tom mais baixo.
— Namjoon! Cê também gosta da Avril?
— Claro, ela fez parte da minha infância!
— Finalmente alguém com bom gosto nesse lugar! A gente vai virar melhores amigos!
Ele ri e faz um sinal de soquinho na minha mão.
Jimin cruza os braços. — Como é que é, Lali?
— Relaxa, eu não vou te trocar! No meu coração tem espaço pra 1257 amigos! — Abraço Jimin de lado.
Ele continua com um bico enorme.
Beijo a bochecha dele.
Ele fica vermelho.
— Me perdoa?
— Não.
— Vou costurar um blazer cheio de strass pra você…
— Tentador, mas não!
— Vou fazer um xampu de cereja!
— Ótima tentativa.
— Pintar o seu cabelo?
— Nananinanão!
Abro um sorriso sarcástico. — Já sei: vou comprar aquela trufa de abacaxi horrorosa que só você gosta!
— Tá bom, mas eu quero agora! — Jimin descruza os braços.
— Vocês são um casal? — Namjoon debocha. — Achei que você gostava da Alice, Jimin! Não da Lali!
— NAMJOON!
Arregalo os olhos. — Quê?
Jimin esconde o rosto no balcão.
— Oops… — Namjoon gargalha.
— É… é verdade? — Tapo a boca. — Ah, eu já desconfiava! Vocês combinam muito! Eu super apoio!
Jimin suspira. — Ela nunca vai me notar… Ela é muito madura. Focada. Linda. Deve querer um namorado que também seja assim. E eu não sou!
— Quem disse isso? — Namjoon e eu perguntamos juntos.
Jimin continua reclamando que não é suficiente pra Alice enquanto Namjoon e eu nos aproximamos devagar.
— Tá pensando o que eu tô pensando?
— Que a gente têm neurônios gêmeos? — ele ironiza.
— Sim. Esse vai ser o nosso projeto! Me ajuda a juntar eles?
— Não faço ideia de como, mas tô dentro.
— Ótimo. Eu também não faço ideia, mas a gente vai dar um jeito! Ah, se vai!
Eu posso até ir embora, mas enquanto eu tiver aqui…
Isso vai ser um caos!
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