Anything But Ordinary
3 Quero provar cada pedaço desse mundo
O CHEIRO DE FOLHAS FRESCAS ME DEIXA SEM AR. Meus pelos se arrepiam. O símbolo do “HOSTEL SOLARIS” grita em dourado com risquinhos. Parecem arranhões de unhas. Uma bandeira do Brasil e outra da Coreia sacodem com o vento bem lá no alto e as paredes são cor de terracota.
— Uau!
O caminho de pedras é cheio de rachaduras pequenas e puxa o ar quente pra cima.
— Até estufa vocês têm aqui? — pergunto, tapando a boca. O vidro é fosco. Maior do que eu esperava. Tem flores amarelas que eu não sei o nome espalhadas por toda a entrada. São macias. Meio geladas.
— Sim. — Yoongi dá de ombros.
Toco nas pétalas. O aroma que sai delas é leve, quase imperceptível.
— Que flores são essas?
— Camélias.
— Agora faz sentido o nome do bairro!
Não presto atenção na resposta dele, perdida nos vasos de barro e nas luminárias amarelas do jardim.
Um beija-flor passa zumbindo alto.
Dou um salto, colocando uma mão no peito. — Vocês… têm… beija-flor aqui?
Yoongi bufa. — É… eles gostam de invadir…
— Eu também invadiria! Aqui é tudo muito lindo… eu não imaginava que ia ser assim!
Yoongi boceja. — Coisa da Sra. Park.
— Cadê ela? Eu quero conhecer ela!
Yoongi respira fundo e volta a caminhar. — Ela também quer te conhecer.
A madeira range sob os meus pés. O mesmo letreiro com o nome do hostel brilha no centro da recepção.
As luzes amarelas se intensificam.
— Nossa! — É tudo o que eu digo, apertando o sino. Encosto na placa escrito “RECEPTION” e um sorriso escapa dos meus lábios.
— Não acredito que eu vou trabalhar aqui!
A bancada é lisa. Fria. As paredes seguem as mesmas cores da entrada, meio pontudas, com mini grãos que esquentam nos dedos. Dá até uma dorzinha quando eu toco.
— Isso é muito legal! Eu tô apaixonada por esse lugar!
— É… — Yoongi suspira. — Eu tô vendo…
Me aproximo mais do centro.
Tem sofás de couro marrom, janelas quadradas de madeira e almofadas coloridas.
A recepcionista está mexendo no computador e batendo os mocassins no ritmo da música. Seu uniforme tem uma cara antiga e chique, bordado num tom vinho com botões dourados. Chuto que ela tem 20 anos. Sua pele é marrom-escuro com um brilho frio e suas tranças castanho-claras estão presas num coque.
— Até as músicas são tops! — comento e Yoongi aperta os olhos.
Me debruço na bancada, sorrindo.
— Oi! É gabardine, né? — Aponto pro uniforme. — Ou é crepe? Eu nunca vi um tão bonito de perto! Mesmo que seja meio sim—
Seguro a vontade de sugerir que poderia ter mais brilho.
Ela ajeita o crachá no peito e sorri fraco, franzindo as sobrancelhas. “ALICE” está grafado na lapela.
— Olá! Eu não faço ideia do que é… mas é confortável!
Yoongi respira fundo atrás de mim.
— Eu… posso tocar no tecido?
Alice continua com a testa enrugada, mas faz que sim com o polegar. Yoongi respira fundo.
Passo os dedos pelo tecido do ombro dela. Não pinica. É firme.
Muito melhor que o uniforme da Casa Jovem!
— Sua maquiagem é tão linda! Amei essa sombra cor de pêssego… você sabe fazer? Depois pode fazer em mim?
Alice sorri, corada. — Sim, posso.
— E essas argolas te deixaram ainda mais linda!
— Obrigada… você também é linda!
— Brigada você! Ah, eu nem falei meu nome, né? É Lali! — Estico minha mão e Alice a aperta.
— Prazer! Você… é a garota do acidente, né? — Ela faz uma expressão de choro. — Sinto muito…
— Tudo bem! Agora eu tô melhor! Nem vejo a hora de começar! Você sabe o que tem de legal pra fazer aqui?
— Sei sim: tem feirinha, festival, balada, trilha…
— E você quer ir comigo? Ah! E eu posso te chamar de Lice?
Antes que eu elogie as tranças dela, Yoongi para do meu lado.
— Bora? — Ele cruza os braços. — Você já viu tudo aqui na recepção. Agora a gente vai pra cozinha. E bom dia, Alice.
Alice ergue o queixo e fica ainda mais vermelha.
Hum… então ela gosta dele?
— A Sra. Park tá desesperada atrás de você, Yoongi! Se eu fosse você, eu corria logo!
Yoongi solta uma risada baixa. Seus olhos diminuem, o sorriso gengival aumenta, e alguns dentes tortinhos aparecem.
Tiro os cabelos do pescoço, me abanando. Que gato!
— É isso que eu vou fazer, Alice. — Yoongi enfia as mãos no bolso da calça. — Vou deixar ela na cozinha e já já volto pra trocar com você.
Alice sinaliza “pare”. — A Sra. Park quer que você faça um tour com a Lali pelo Solaris, e depois vá com ela na feirinha! Hoje o Jimin vai trocar comigo!
Jimin? Quem é Jimin?
— Ela já conheceu tudo no caminho, Alice!
— Não conheci não! — Balanço a cabeça. — Da viatura não conta!
Alice ri pelo nariz. — Cê que sabe. Só não diz que eu não te avisei!
— Essa Sra. Park é insuportável… — sussurro. — Pelo jeito que vocês falam dela…
Alice sorri. — Ela é legal, mas pega no nosso pé de vez em quando… principalmente no do Yoongi…
Mexo uma sobrancelha e Alice prende a risada.
— Mas por quê ela pega no pé dele, Lice?
— Lice? — Yoongi sopra o ar. — Depois vocês conversam. Vamos!
Yoongi indica o corredor.
— Tchau, Lice!
— Tchau, Lali!
A porta de um dos quartos revela duas garotas fumando. São loiras e usam camisas de alcinha azul do Brasil. Babyliss, secador e chapinha enfeitam uma das camas de beliche e o lençol está todo bagunçado. Elas falam rápido e não percebem que estamos no corredor.
Faço uma careta. — Pode fumar aqui?
— Em alguns quartos sim. — Yoongi imita minha expressão.
— Os quartos são divididos em meninos e meninas?
Yoongi murmura “aham”. Ele apressa o passo e eu não acompanho direito a decoração dos outros quartos.
Quando piso na cozinha, minha boca se abre até o queixo doer.
Luzes âmbar e oliva.
Colheres de pau.
Bancos de madeira.
As sopas borbulham e o cheiro de alho domina a cozinha.
Meu estômago afunda.
Perco a conta de quantas tigelas de cerâmica preta decoram a mesa, organizadas em filas.
Os micro-ondas rodam rápido. As geladeiras cinzas são enormes. A vista do jardim é de tirar o fôlego, com direito à uma parte da rua e às camélias balançando.
Não entendo o que as letras das plaquinhas das paredes significam, mas são iguais às da lojinha onde eu fui assaltada. Meus olhos ardem com a lembrança.
Respiro fundo. Não é hora disso!
Mexo a cabeça e fixo o olhar na mesa outra vez.
— Puta que pariu! — solto um gritinho.
Yoongi abre a boca.
— D-desculpa! — Abafo a risada, com as bochechas ardendo.
Numa das mesas do centro, duas hóspedes ruivas tomam sorvete perto dos fogões, falando em inglês e rindo.
Uma mulher corta carne em tirinhas numa tábua transparente. Ela é baixinha e magra. Os fios ondulados e dourados ultrapassam um pouco seus ombros. Pérolas decoram seu pescoço e pulsos. A jaqueta verde militar combina com os detalhes de oncinha da calça e com sua pele bege de tom quente.
— Que mulher chique! Mas por que ela tá cortando carne com uma tesoura e não com uma faca?
Yoongi sussurra “é”. — A gente não usa faca. Ah, e aproveita, tá? Ela não faz esse monte de comida nem pro Jimin!
— Jimin? — cochicho de volta. — Quem é Jimin? É o garoto que vai te substituir? Ele é recepcionista também? Espera! Essa é a tal Sra. Park? Como assim vocês chamam ela de senhora?
Yoongi sopra o ar e dobra as costas na direção da mulher, igual nos filmes de época da TV. Eu o imito, sem piscar.
— Finalmente você chegou, criança! — ela comemora. Sua voz é fofa, assim como seus olhos apertados.
— Sim, Sra. Park. Agora com licença, eu tô destruído. Trouxe ela pro seu banquete. Depois eu como.
— Claro, minha criança. Pode ir!
Ele dobra o corpo de novo e some pelo corredor.
A Sra. Park conserta as fivelas das anabelas antes de se sentar.
— Oi, querida! Seja bem-vinda!
Minha voz falha.
Me sento de frente pra Sra. Park.
Ela tem cheiro de limão fresco misturado com alguma coisa aquática. Quase não tem pés de galinha. Nem cabelos brancos. Sua pele parece mais dourada de perto. E é firme.
Não falo nada por pelo menos um minuto, até disparar:
— Muito obrigada, Sra. Park! De verdade! Obrigada por me deixar morar e trabalhar aqui! Mesmo! Eu prometo que vou me esforçar pra ser a melhor recepcionista que a senhora já teve na vida!
— Pode comer, querida. — Ela empurra uma tigela pra mim. — E pode me chamar de Angeline.
— Angeline? Mas… todo mundo te chama de Sra. Park!
Ela sugere “não” com a cabeça. — Eles não me escutam! Já te assustaram falando que eu sou chata, não foi?
Fico vermelha. — Sim…
— Isso é bulgogi. — Ela aponta pra tigela e me entrega uma colher. — Aquele outro ali é kimchi, mas como você tá se recuperando, é melhor evitar pimenta.
Agradeço com um sorriso fraco. — Qual é a receita?
Ela me explica e eu finjo prestar atenção, perdida no sabor que gruda na língua. A carne é meio salgada. Meio doce. Chega a derreter.
— Angeline… essa… é a melhor carne… que eu já comi… na minha vida… eu não tô brincando!
Ela dá uma risadinha. — Pode repetir se quiser.
Paro de mastigar. — R-repetir?
Ela confirma com a cabeça.
Nem lembro quando foi a última vez que essa palavra saiu da boca de um adulto perto de mim, mas me dá vontade de chorar. De gritar. De comer tudo de uma vez só.
E é o que eu faço.
Provo dos outros pratos até a barriga queimar. Exceto pelo kimchi.
— Por que vocês não usam facas?
Angeline limpa a boca com o guardanapo. — É uma tradição nossa pra manter a segurança na mesa.
Minhas mãos descem automaticamente pra barriga, a respiração trava e o peito arde. É… melhor prevenir mesmo.
— E-entendi…
— Fica à vontade, Lali! Não precisa lavar os pratos, depois o Jimin limpa tudo.
— Jimin?
— Ah. Você não conheceu ele ainda. É o meu filho. Ele também trabalha na recepção.
Filho? Como assim?
Minha cara queima. — É… Não precisa, Angeline! Eu já tô bem! Não quero atrapalhar ninguém!
— Não, querida! Tira esses dois pra descansar, faço questão! Você começa sexta 7 da manhã. O Yoongi vai te treinar certinho.
— Ok…
— Mas… se você quiser mesmo dar uma saidinha, eu já pedi pra ele te levar pra conhecer a feirinha da Camélia. Tenta andar devagar, tá bom?
Morta de vermelha, me levanto. — Onde… eu… posso tomar banho?
— Ali! — Ela indica a lateral. — Seu quarto já tá com o seu nome na porta. As chaves tão pra dentro. A Alice deixou uma muda de roupa pra você. Vocês têm quase a mesma altura… então eu acho que vai servir certinho.
— M-meu quarto?
O Yoongi… não tava brincando?
Angeline ri baixinho. — Vira à esquerda.
Congelo por três segundos. Por pouco, não tropeço. Desço o olhar. Meus tênis estão imundos de lama. A calça, toda desfiada.
A blusa do uniforme…
Está com uma mancha vermelha enorme no meio.
É por isso que todo mundo tá me olhando desse jeito!
Aperto os olhos.
Quando dobro a esquina, paraliso.
“LALI” reflete a luz quente do corredor, num tom marrom-claro.
Uma. Plaquinha. Com. O. Meu. Nome!
— Lali! — digo mil vezes, sem piscar. — E-eu tenho um quarto… um quarto!
Giro a maçaneta. Meu coração bate tão forte que quase me derruba.
— AH!
Paredes beges. Madeira firme nas janelas e no chão.
As cortinas são de veludo branco. Macias demais. Puxo os tecidos e o vento gelado gruda na pele junto da sensação de sal. O mar da Praia dos Pescadores aparece lá no final da rua, e as camélias do jardim do Solaris se destacam.
Meu coração dispara outra vez.
Os lençóis e os tapetes são cor de pérola. Os bordados são bem cuidados. Cetim, lã e viscose.
Me jogo na cama, esfregando o corpo no edredom até as costas formigarem.
— É tudo meu. Só meu! MEU! Que sonho… SONHO!
Na mesa de cabeceira tem um buquê de camélias, um vidrinho de leite e um potinho do miojo iguais aos que eu comprei na lojinha.
Não evito as lágrimas.
Uma carta cai de dentro do buquê. As pétalas quase não têm cheiro, mas o papel cheira a livro novo.
Lali, seja bem-vinda! Lamentamos muito por tudo o que aconteceu. Esperamos que você se sinta em casa e que se recupere. Nos avise caso precise de qualquer ajuda. Feliz aniversário atrasado! Conta com a gente pro que precisar! Agora você tem amigos e um novo lar! (E uma amiga também!)Em nome de todos,Com carinho,Alice!Ela quer ser minha amiga? Não é possível! Eu tenho uma amiga! Uma AMIGA! A gente vai na balada! Vai viajar juntas! Vamos curtir! Arrasar!
Meu peito se aquece e me tira o fôlego. Fungo, limpando as bochechas.
Minha mecha verde no espelho ativa memórias do meus dedos sujas de tinta vermelha e verde, do cheiro de química e da pia velha da Casa Jovem.
Do meu último dia.
Dos pulos em comemoração.
Esse cabelo tá horrível! Pra quê você foi inventar isso, Lali?
— Chega, Lali! Não importa! Você é foda! FODA! Você vai se divertir muito! Vai beijar muito! Tá cheio de gringo gato aqui!
Rio outra vez, mas o sorriso logo morre.
Eu tô… fedendo muito?
Farejo as roupas.
É… tô!
Corro pro banheiro.
Me perco por alguns segundos nos detalhes de uma das toalhas. Bordô, algodão de qualidade e bainhas bem costuradas.
É a Angeline que costura?
Chacoalho a cabeça.
Jogo as roupas no lixo, e a borboleta lilás na manga se torna a única parte visível do uniforme.
Gesticulo, rindo e chorando. — Adeus, “abrigo” do inferno!
Em segundos, estou dentro do box, espalhando o sabonete líquido pela pele e assobiando.
Um vidrinho me chama atenção. Transparente. Escrito “Lali” em letras pequenininhas vermelhas.
— Quê isso?
Rodo a tampa e respiro fundo. Tem um cheiro bem suave de coco.
— Xampu? Pra mim? A Angeline é maravilhosa!
Tombo a cabeça pra frente e tento molhar os fios sem encostar água na barriga.
— Merda! — resmungo, me secando com a ponta da toalha. — E se infeccionar?
É difícil me ensaboar sem molhar a ferida, e sem deixar meu olhar descer pra barriga. Fico sem ar quando isso acontece. Meu coração paralisa.
Mas eu continuo, com as mãos trêmulas.
O xampu é meio grudento e quase não forma espuma quando eu massageio o couro cabeludo.
Do lado, tem outro vidrinho.
— Condicionador?
É macio, tem o mesmo aroma do xampu e facilita na hora de desembaraçar os fios.
Quando piso fora do box, abro a boca.
— Calcinha e sutiã? Hidratante? Roupão? Isso… isso é um SPA? Eu sou rica! RICA!
Me enrolo no roupão por uns bons minutos, apreciando o calor do momento. Termino de ajeitar a roupa que Alice separou pra mim, me controlando outra vez pra não desviar o olhar pro machucado.
A jaqueta de tricô listrada me cai bem. Por um milagre, a calça de alfaiataria não fica brega e minhas pernas parecem mais curtas.
— Muito melhor do que eu esperava! Mas essa alpargata, misericórdia! Eu tô mesmo em 2025? Nem pra ser um tamanquinho!
Respiro fundo.
Eu sou uma ingrata do caralho! Não devia reclamar, né? Nem tenho dinheiro pra comprar nada!
Direciono o olhar pra bancada. Minha caixinha está ali.
Solto um suspiro. As lágrimas finalmente escapam de mim.
— Calma, Lali! — Enxugo o rosto com o dorso da mão. — Calma! A gente vai sair disso! Logo logo você vai estar na Itália! E vai ser tudo! Tu-do!
Depois de passar o gloss de morango que a Alice deixou na mesa de cabeceira, saio saltitando pelo corredor.
Na recepção, Yoongi está sentado em um dos sofás, de pernas cruzadas, anotando alguma coisa num caderninho verde e mordendo os lábios. O suéter de linho bege aumenta seus ombros, e a calça jeans clara dá uma cara diferente pra ele.
Você. Usa. Mocassim! Mocassim! Com. 19. Anos!
Então você não é badboy e sim…
Nerd?
Semicerro os olhos.
Mas…
É tão gato! Aff!
Meu sorriso se abre sozinho.
Ele morde a tampa da caneta preta e batuca os dedos na nuca. Agora mais de perto, seu perfume se intensifica: um caramelo quente, bem quente. Não escondo meu bico quando me sento do lado dele.
O meu sangue tapou o seu cheiro esse tempo todo?
— Bora? Desculpa te atrapalhar… mas eu preciso conhecer tudo! Me mostra?
Yoongi entorta a cabeça e fecha o caderninho. A caneta afunda do lado.
— Não vou conseguir estudar mesmo…
Franzo os lábios.
— Estudar? Mas você não tá de folga? — Coloco uma mão no queixo. — É… você realmente é igualzinho eu pensei…
Ele se levanta, dando de ombros. — Bora começar pelo básico: nada de relacionamentos.
Minhas bochechas esquentam. — A-Ahn?
— Seja com hóspedes ou com colegas de trabalho. Só da porta pra fora.
Levo meu olhar até Alice, que está conversando em espanhol com um hóspede de cachos ruivos. Que homem!
Um sorriso escapa de mim.
Yoongi pigarreia. — Entendido?
— Desculpa. Eu… eu só tava dando oi…
Calma! Essa regra foi uma indireta pra Alice! Eu sei que foi! O Yoongi também deve gostar dela. Deve tá só fingindo que não. Conheço esse tipinho de cara metido de longe! Argh! Coitada da Alice! Ninguém merece gostar de um cara assim...
Sigo os passos apressados dele pela recepção.
— Vou te ensinar a fazer o check-in e o checkout só na sexta. A Sra. Park te explicou que você começa às 7h, certo?
— Sim. Aliás… ela não é chata igual eu pensei!
Yoongi paralisa por um segundo antes de prosseguir:
— Aqui tem os guarda-volumes. É a primeira coisa que você precisa mostrar pros hóspedes depois de entregar as chaves do quarto. Não somos responsáveis por roubo, então eles precisam tomar bastante cuidado. Mas se acontecer alguma coisa, a gente chama a polícia.
Bufo. — Polícia? Era só o que me faltava!
— Relaxa. Isso é bem raro.
Sinalizo “ok”.
— Os chaveiros são feitos pela Sra. Park. É uma forma de você ganhar comissão. Depois eu te explico melhor. Você precisa memorizar esses guias e sempre entregar pros hóspedes junto com as chaves no check-in. Já tem tudo traduzido em inglês, espanhol e coreano.
Seguro o panfleto. No meio, “DESCUBRA COSTARÉ!” está estampado com letras redondas e coloridas. Os desenhos são meio infantis, como se alguém tivesse pintado as pedrinhas e o mar da cidade com pressa antes de imprimir. A Camélia, o Centro e a Vila Dorata aparecem divididos por sessões, e também há menções a outros bairros. Tem recomendações de restaurantes, cafés, estações de metrô, telefones de táxis, hospitais…
— Nem sabia que Costaré tinha tudo isso, não! — Estendo uma mão ao ar. — Obrigada por me fazer costarenha, Senhor!
Yoongi cruza os braços e me mostra uma sacola transparente. — Enfim, esse aqui é o kit básico pra banho. A gente também entrega no check-in. A gente pede pros hóspedes não circularem de toalha e saírem do box vestindo pelo menos uma muda de roupas. Tem roupão pra alugar também, se eles preferirem.
Concordo com a cabeça. Parece com o que eu usei. Deve ser muito macio.
Ele continua andando. Mal respiro com a quantidade de informações.
— A cozinha você já conheceu.
Mais passos.
— Esse é um dos quartos de hóspedes masculino.
As paredes são cor de mel e tem azulejos de flores marrons no chão.
— Tá lotado! — exclamo.
Homens de todas as idades falam um por cima do outro como um zumbido, enquanto outros dormem despreocupados. Mochilas de caminhada caem pelas beliches, roupas pendem de cabides e o cheiro de naftalina é forte.
— Você fica ali. — Yoongi aponta pro final do corredor. — Sei que você já sabe isso porque tomou banho.
— Brigada pelo miojo e pela vitamina de banana.
Ele ri pelo nariz. — O ramyeon e o banana milk?
Fico com vontade de me esconder. — É… eu não sabia o nome certo… desculpa!
— Tudo bem. Enfim, eu fico dois quartos depois do seu. Por favor, só apareça lá se for uma emergência!
Faço que sim com a cabeça. — Quantas pessoas cabem aqui?
— Umas 70 em alta temporada, mas como a gente tá quase no outono, você vai ver metade disso.
— E quanto custa?
— Quarto misto e sem ventilador… a partir de R$80. Privativo e mais confortável, chega a R$200. Relaxa: tá tudo salvo no computador. Você não vai esquecer.
Dou uma risadinha. — Você já deve ter falado isso umas… mil vezes… Como conseguiu aprender tudo?
— Prática.
— E como vocês fazem pra ir no banheiro?
— Indo. Tem uma portinha atrás do balcão da recepção com um vaso e uma pia exclusiva pra funcionários.
O corredor fica mais úmido conforme nós caminhamos.
Paramos em frente à uma porta branca com uma plaquinha de madeira.
— Isso por acaso é banheiro em inglês?
— Sim.
Dou mais um passo.
A água escoa. O banheiro cheira a sabão de coco e o chão de madeira reflete as luzes amarelas do teto.
— É gigante!
— Aqui é o banheiro compartilhado feminino. Sete cabines, todas fechadas. Dobrando o corredor, é o masculino. Chuveiro e vaso juntos. A gente pede pra não jogarem papel dentro do vaso pra evitar entupir.
Voltamos a caminhar.
Alice cruza o caminho ao lado de vários hóspedes arrastando malas e sorrindo. Ela acena pra nós e continua falando rápido com eles.
— Ela tava falando qual língua?
— Russo.
— Que massa! — disparo, balançando as mãos. — Ah… eu sei que sou bonita, mas se fosse bonita e inteligente igual a ela, eu ia ser insuportável! Aliás… Será que ela conhece alguma balada de gringo aqui perto?
Yoongi solta um chiado. — Cê não ouviu as regras?
— Ouvi. Mas eu vou na balada fora do meu turno!
— A Alice cursa Direito. Não é a vibe dela perder tempo com essas besteiras.
Cruzo os braços. — Perder tempo ou aproveitar? E o que uma coisa tem a ver com a outra? Me passa o número dela? Por favor! Ou melhor: me empresta o seu celular pra eu falar com ela!
Entrelaço os dedos e faço um bico.
Yoongi continua parado, sem expressão. — Você vai ter o número dela quando assinar a carteira. Vamos te colocar no grupo dos funcionários.
Aumento o bico.
Yoongi resmunga algo que eu não entendo.
— Você tá me xingando em inglês?
— Não. Eu tava pedindo pra Deus pra esse dia acabar logo. E em coreano.
Quando vou chamá-lo de estraga-prazeres, Yoongi contrai os ombros.
— Dois minutos. — Ele tira um celular preto do bolso, o desbloqueia e me entrega.
Seguro a capinha marinho, tremendo. A foto da capa é de um gato de pelo preto dormindo.
Achei que ia ser a foto de um mocassim.
— Eu nunca tive um celular, sabia? Só via na TV! — Dou risada. — Nem sei mexer direito! Você entende bem dessas coisas? Quando eu for comprar, vai comigo? Aí eu chamo a Alice e vai todo mundo junto!
Yoongi gesticula “anda logo”.
Demoro pra digitar.
“Alice Almeida” aparece.
— É mais fácil você mandar áudio. — Yoongi indica o botão. — Solta quando for enviar.
Respondo “ok” com um aceno.
Oi, Lice! Aqui é a Lali. Eu queria saber se você gosta de festas e se você conhece alguma legal aqui perto. Desculpa te atrapalhar. Eu sei que você deve tá cansada do turno.
Ela responde rápido.
Tranquilo, Lali, eu tenho pique ainda! Inclusive eu vou numa balada hoje à noite, só que ela fica perto do Centro. Quer ir comigo?
Claro! Eu tô muito animada! Essa noite promete! Deve ter muitos gatinhos nessa balada!
Yoongi balança a cabeça, murmurando “tisc” e semicerrando os olhos.
Tem gringo sim, mas… não era pra cê tá descansando, Lali?
Não posso pular, beber ou transar, mas posso dançar um pouco!
Minha cara esquenta quando Yoongi arqueia a sobrancelha. Ele balança a cabeça de novo, cruzando os braços.
Você vai querer um vestido emprestado?
Claro! Se for bem curtinho é melhor ainda!
Ok. Eu vou trocar de turno com o Jimin agora e vou pra casa. Te encontro aqui às… seis… Pode ser?
Mando um áudio soltando um gritinho.
— Eu vou dançar horrores!
Yoongi dá um passo na minha direção. — Cabou?
Devolvo o celular pra ele, corrigindo a postura e pigarreando. — Bem que cê podia ir também, hein?
— Nem morto! Eu tenho que estudar!
Mexo os ombros. — Ai! Já imagino um vestido curto cheio de strass! Tomara que a Alice deixe eu dar uma pinça!
Yoongi bufa péla milésima vez no dia. — Bora!
Uma menina passa por nós segurando um balde, e logo atrás, um menino com o mesmo macacão azul empurra um carrinho com álcool, desinfetante e luvas amarelas.
— É o pessoal da limpeza. A Sra. Park também contrata uns freelancers em alta temporada, mas geralmente eles dão conta de tudo. Ah, eles se chamam Maia e Caíque.
— Eles são irmãos gêmeos? São daqui?
— É. É.
Yoongi apressa o passo e eu o sigo.
— A gente não precisa limpar também?
— Sim. O nosso próprio quarto, os pratos que come e a recepção de vez em quando.
Tiro um cílio do olho. — Mas a gente não pode ajudar eles?
— Pode. Mas tem dias que o Solaris lota tanto que mal dá pra sair da recepção.
— Entendi.
Yoongi abre outra porta. — Essa é a lavanderia.
O cheiro de sabão em pó e amaciante de lavanda invade o ar. Tem muitos banquinhos de madeira, cestinhas com furinhos, pregadores coloridos e luminárias meio queimadas espalhadas pelo espaço.
— Pronto? Viu tudo?
— Vi!
— Só tem uma secadora, como você viu. Então você pode usar o varal se ela tiver ocupada. Não mistura roupa colorida com roupa preta. E não desperdiça água! Lava pelo menos 10 peças de uma vez!
Rio pelo nariz. — Eu não tenho nem dinheiro, quem dirá roupa, Yoongi! Esqueceu que até as calcinhas vocês tiveram que me dar?
Ele suspira, vermelho. — Quando você comprar… Enfim… a lavanderia serve como almoxarifado também: tem álcool, desinfetante, vassoura, rodo… tudo que você precisa pra limpar o seu quarto e a recepção. Vamos. Ainda falta muita coisa!
Paramos numa portinha, que recebe mais vento do que os outros cômodos.
Chão de carpete. Paredes oliva. Puffs coloridos.
Tacos de sinuca batendo. Bonecos de totó martelando.
Me seguro pra não jogar junto com os hóspedes.
— Nossa!
Um cara mexe numa máquina de comprar guloseimas. Distraído. Sua camisa de gola V é rosa empoeirada e perfeitamente ajustada nas curvas do braço. Penso em me aproximar dele e perguntar que tipo de algodão ele usa, mas uma tosse me interrompe.
— Como você viu, aqui é uma sala de jogos. E já deve ter percebido que aqui ninguém faz barulho demais.
— Sim.
— Principalmente depois das dez. Regras básicas de convivência. Ceder espaço pros outros jogarem e tudo mais. Pode ficar aqui no seu intervalo.
O corredor escuro da Casa Jovem me vem à mente por um segundo.
— Aqui tem muitas regras… — Respiro fundo. — Mas ainda é bem mais legal que a Casa Jovem!
— Deve ser. Nossa média de estadia é de 8 diárias.
— Uau! Quem me dera ter ficado só 8 dias naquele inferno!
Yoongi cora e eu coro junto.
— É — gaguejo —, tô começando a achar que a graça não é a Camélia, mas sim o Solaris!
Yoongi ri pelo nariz. — Mais ou menos isso.
— Então é por isso que você não quer ir na feirinha e... nem na balada? Você fica brincando na sala de jogos e não sai nunca daqui?
— Não.
Antes que eu pergunte o porquê, ele abre a porta dos fundos da sala de jogos.
O cheiro químico domina o ar. A água é tão azul que meu cabelo aparece no reflexo retangular da piscina.
As espreguiçadeiras estão enfileiradas lado a lado, cheias de hóspedes deitados conversando. Outros dançam um proibidão perto das churrasqueiras.
— Puta merda! — exclamo, saltando para trás. — Isso não é um hostel! É um resort, Yoongi!
Ele solta uma risadinha. — Anos de história…
— Uns 100? Isso é de família?
— Você viu a Sra. Park. Não é pra tanto.
É a minha vez de rir. — Me conta mais detalhes! Quero saber tudo!
— Melhor você conversar com ela.
Dou de ombros. — Acho que aqui já é a minha parte favorita!
Os biquínis que vou costurar me vêm à mente.
Como você vai usar biquíni com esse machucado, Lali? Enlouqueceu?
Meu sorriso morre.
Droga! Droga! Droga!
A vontade de chorar quase prende as minhas palavras, mas eu as solto:
— Por acaso… tem horário pra entrar e sair do Solaris?
Yoongi mexe as sobrancelhas. — Não? Isso é um hostel. Não uma escola. Gente do mundo todo chega aqui o tempo todo. Quem tem horário pra entrar e sair é a gente que trabalha aqui.
Não acredito!
Seguro o impulso de chorar outra vez.
Um barulho soa atrás de mim. Papetes de couro marrom são arrastadas pelo deck.
O hóspede da máquina de café. Ele tem cheiro de canela.
Ele finalmente me vê. Sorri de volta. Leve. Quente. A calça cor de areia e as pulseiras de concha desaparecem dentro da água.
Quando ele suspende o corpo, sua pele dourada brilha junto da piscina, e os fios cacheados caem pelas bochechas.
Quero me aproximar dele. Perguntar seu nome. Dizer que ele é gato. Chamar ele pra ir na balada comigo hoje.
Seu sorriso me tira o fôlego e eu esqueço como se fala português.
E o tanquinho…
Ah.
O tanquinho.
Não disfarço o olhar. Ele muito menos, piscando de volta.
Minhas bochechas esquentam.
Minhas pernas se direcionam sozinhas até à beira da piscina.
— Lali — Yoongi me chama —, falta só mais uma parte! Bora!
O jeito como Yoongi diz meu nome me arranca um sorrisinho e eu demoro uns segundos pra disfarçar o calor nas bochechas.
O hóspede acena. Me seguro pra não acenar de volta e perder o emprego.
Me aguarde, gatinho!
Yoongi e eu andamos até o final do jardim. A chave chacoalha nas mãos dele.
— Você reparou que tinha várias chaves no molho do seu quarto, né? São reservas. E também tem a chave desse quartinho aqui.
A porta range baixo e a poeira me faz tossir.
— Merda! Eu não devia ter te trazido aqui! Tá tudo bem? Cê consegue respirar?
Faço que sim com a cabeça. Aperto os olhos.
Yoongi fecha as janelas e liga o ar condicionado, enquanto eu deslizo o olhar pelo quartinho.
Caixas de papelão empilhadas. Estantes abarrotadas de livros marrons e azuis.
Cara de quarto de personagem de desenho animado.
— Aqui é bem a sua cara mesmo! Mas cê dorme aqui? Cadê a cama?
Yoongi nega com os indicadores. Continuo passeando os olhos pelo lugar.
Os lençóis das poltronas são meio rasgados, com manchinhas amareladas. As paredes, brancas e cobertas com frases em coreano.
— Tem até mapa-múndi? Era um resort… Agora virou uma faculdade?
Ignoro o que ele fala, parando na frente de um dos murais.
— Oscar… Niemeyer…
Yoongi ri da minha pronúncia baixinho e a corrige.
Coro. — Isso é o quê? Matéria de prova?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Aqui é o meu refúgio. E pode ser o seu também pra quando você precisar fugir dos hóspedes…
Jogo o cabelo pra trás. — Por que eu fugiria… se aqui tá cheio de gringo gato?
Yoongi pisca rápido. — Você vai entender quando começar a trabalhar aqui. Tem uns bem folgados.
— Entendi… mas… aqui tem alguma coisa pra costurar?
— Tem uns negócios antigos ali que a Sra. Park deixa guardado. Pano velho. Não deve servir pra nada.
Ele puxa uma gaveta no canto e uma caixa preta brilha sob a luz.
— Pra nada? — Arqueio uma sobrancelha e mexo nos botões. — Tem agulha, alfinete, fita… Já dá pra fazer bastante coisa com isso!
Yoongi dá de ombros. — Se você diz…
Devolvo os itens pra gaveta. — Que horas são agora?
— Meio dia e nove.
— E que horas a gente vai na feirinha? Eu ainda preciso ir na balada! Preciso organizar meu horário!
Yoongi levanta a cabeça na direção do teto e respira fundo.
— Você não tá animado… Lá é muito chato?
— Pra mim sim.
Me sento num dos banquinhos.
Quando vou perguntar o porquê, uma voz me corta:
— YOONGI!
E eu caio.
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