Anything But Ordinary

5 Baixe suas defesas


LALI ESTENDE UM CALENDÁRIO NA MINHA DIREÇÃO.

Agora nem estudar eu posso mais!

Solto um pigarro e jogo o caderno no canto, me pondo de pé.

— Será que dá pra abaixar esse calendário, Lali? Cê vai me bater com isso? E fala baixo, por favor!

— Yoongi! É você!

Ela tropeça no sofá.

Se levanta.

Tropeça de novo.

Sua cabeça pende pro lado esquerdo e seu fedor de álcool me arranca uma careta.

Ela semicerra os olhos, com o rosto vermelho da cor do salto alto, e o cabelo suado colado na testa. Misericórdia, Senhor!

Faço mais uma careta. — Se apoia em mim.

Lali se inclina com cuidado e tensiona os ombros, apertando as mãos nas minhas costelas. Seguro sua cintura por reflexo. Ela resmunga algo incompreensível.

A luz bate nas bochechas dela e suas sardas ficam visíveis. Poucas, mas existem. Ela tem um risco pequeno no meio do queixo. Uma boca pequena. Sobrancelhas grossas.

O cabelo dourado tá melhor. Bem melhor. Mas esse cheiro de conhaque de 2,50… Esse batom e esse olho todo borrado… Deus que me livre!

Abro a boca, e um suspiro escapa de mim.

— Eu mereço isso mesmo, Senhor? Pra quê? E por quê? Por quê eu não chamei a polícia e fui embora? Por que eu trouxe ela pra cá? Logo uma garota tão irresponsável, tão… tão…

Lali sorri. — Tão gata!

Respiro fundo, me contendo pra não xingar “droga” em coreano.

— Você consegue andar? — sussurro.

— Se eu… tomei uma facada… e tô viva… claro que consigo… andar!

Reviro os olhos.

— Cê só fica… lendo? — Ela arrasta as palavras junto dos passos. — Nunca sai… pra beber e dançar?

— Não. Isso é perda de tempo. Eu tenho mais o que fazer.

— E você… acha que eu… eu vou perder o meu? Ainda mais agora que… que eu sou adulta! Aquela chata… da Juliana não... não pode mais mandar em mim! Eu... eu sou livre!

Lali capota no sofá.

Ando até o balcão.

— Será que dá pra me ajudar aqui?

Jimin não me responde, abraçando um calendário.

Controlo o impulso de apertar o sino.

— Que amigo você é, hein, Jimin? Vai me deixar mesmo carregar uma garota bêbada? E sozinho?

— Sai! — Ele se vira de lado, voltando a roncar.

Respiro fundo.

Guio Lali pelo corredor, tentando não deixá-la tropeçar ou bater a cabeça na parede. Ela murmura sílabas tortas e comprime os lábios.

Empurro a porta do quarto dela com o pé.

— Lógico que você ia deixar a porta aberta, né? Como você é previsível!

— Sabe o que cê é? Mó estraga-graças! Estraga-festas! — Ela gargalha, puxando meus braços pra não cair.

Travo os ombros.

Meus olhos se direcionam sozinhos pra maleta entreaberta no canto.

A foto do casal no Cristo Redentor me vem à mente. Merda! Já era pra eu ter devolvido isso!

Penso em dar meia volta, mas Lali resmunga de novo:

— Gatinho… Yoongi gatinho… Fofinho… Lindinho…

Minha cara arde.

— Você é esquisita! — sussurro.

Lali cambaleia pra trás e em dois segundos, está roncando alto sobre o lençol bagunçado. Ajeito sua postura pra que sua barriga fique pra cima e saio.

Em poucos passos, entro no meu quarto. Ao trancar a porta, minha dor nas costas some.

Empurro os chinelos pra longe e me jogo na cama de braços abertos. — Paz… paz! Ai, como eu senti sua falta! Você nunca me abandona!

Me estico no lençol, aproveitando o calor do cobertor por meia hora.

Até que os livros me chamam atenção. Acendo o abajur deixo o frio da noite entrar pela fresta, trazendo o cheiro do jardim.

Dou play na minha playlist de rap.

Danço.

Tropeço na quina.

Danço de novo.

E me jogo na cama outra vez.

Ela dirigiu sem carteira.

Ignorou a orientação da Doutora.

Comeu kimchi mesmo sabendo que ia arder.

Se meteu no meio das garotas na feira.

Ela nunca pensa no que pode dar errado, não?

Por quê?

Isso vai respingar em mim. Eu sei que vai! Não sei como, mas vai. E eu não posso fazer nada pra impedir!

AH!

Ando até a cozinha em busca de café. Por sorte, nenhum hóspede está falando alto e ninguém me pergunta nada.

Volto depressa pro quarto. A cafeína me deixa em alerta.

Crio uma lista pra minha próxima folga:

Repassar os conteúdos de geografia;
Técnicas de redação;
Chamar o Jimin pra tomar soju;
Terminar de planejar o restante de 2025 e o começo de 2026;
Alinhar os horários da faculdade com o taekwondo e os turnos do Solaris;
Comprar uma máquina de café;
Comprar uma cadeira de massagem;
Plano B caso o plano A falhe: Me mudar de cidade e ignorar meus pais pelo resto da vida;
Plano C: Se não conseguir ignorar eles, eu

— Droga.

Não pensa nisso agora, Yoongi! Relaxa!

Me abarroto de alfajor.

Leio um capítulo do meu sci-fi favorito.

Perco a noção do horário.

O ponteiro marca meia-noite e quinze.

— É. Acabou a diversão. Hora do trabalho.

Resolvo as questões de física que faltam, quebrando cada neurônio que existe dentro de mim. O açúcar do alfajor me desperta, mas o mundo desaparece em segundos.

Um som agudo me desperta. Curto. Familiar demais.

Limpo o canto da boca e levanto a cabeça.

Empurro os livros pra beirada. — Você é o filhote mais folgado do mundo, sabia, Duri? Poxa, cara! Comprei sua cama na semana passada!

Ele nem se mexe, só ronrona baixo.

— Se eu reprovar por sua culpa, você vai ter que me arrumar uma apostila nova. Tá me ouvindo? Hein?

A capa do meu caderno de história está toda amassada, e os pelos pretos dele espalhados pela bancada.

Duri encosta a cabeça na minha mão, e sua barriga gordinha sobe e desce devagar.

Estalo a língua. — Ótimo. Agora você me paga!

Antes que eu o pegue no colo e brinque com suas patinhas, ele gruda o focinho na minha calça e mia baixo. Suas íris se transformam em dois diamantes. Enormes. E muito julgadores.

Alargo o sorriso. — Ah, cara! Golpe baixo!

Deito na cama, deslizando os dedos pelas orelhas pontudas dele.

— Também tô com sono, Duri. — Bocejo.

Minutos depois, o peso quente do corpo dele se enrosca nos meus pés.

Como é bom respirar…

Um clique me acorda.

Limpo as bochechas e pego o celular debaixo da fronha.

9 horas? Já?

O grupo do Solaris pipoca. Os hóspedes não param de dizer o quão animados estão pro tour das 10h.

A Sra. Park me envia uma mensagem de áudio no mesmo instante. Já estou revirando os olhos antes mesmo de clicar na tela.

“Yoongi, minha criança! Lembra que hoje você vai no passeio junto com a Lali pra ela se sentir em casa, né? Beijo! Se cuida!”

Solto um grunhido. — Ah! Cê só pode tá de brincadeira com a minha cara! Me deu folga pra eu ficar de babá? Já tive que aguentar essa garota bêbada ontem!

Eu vou num passeio hoje. Com pessoas. Muitas pessoas. Barulho. Muito barulho.

Só a ideia já triplica a dor na minha coluna. Penso em inventar uma desculpa. Dor de cabeça. Garganta. Se a Sra. Park não acreditar, finjo que torci o pé.

Meu celular apita de novo.

“Ela foi resolver algumas coisas hoje cedo na polícia. Vai trazer o RG pronto. Por favor, ajuda ela a fazer a carteira de trabalho no site do governo. Já deixei a papelada pronta, depois vou fechar os outros detalhes do exame admissional com ela. E sorria! Seja gentil com a nossa nova integrante!”

Gentil. Gentil. Gentil.

“Eu já tô sendo gentil demais, a senhora não acha? Tô fazendo trabalho de gerente, babá e guia. De graça, ainda por cima! Preciso de um aumento, Sra. Park!”

Grudo a tela na testa.

Prendo o ar.

Apago a mensagem.

“Ok.”

“Você sempre me ajuda a manter tudo nos conformes. Obrigada, minha criança. Você me enche de orgulho!”

Meu nariz arde. — Quanto drama!

“Depois eu vou acertar os valores com você.”

Meu rosto fica vermelho. — Era o mínimo, né?

Troco a areia, a ração e a água do Duri. Aproveito pra dar uma varrida nos pelos dele e ajeitar a bagunça nos materiais.

Uso o resquício de energia que me atinge e corro pro banheiro.

O choque da água gelada me acorda.

Visto um moletom roxo, uma calça jeans, meu tênis de corrida, passo perfume e penteio o cabelo.

Alguns hóspedes já estão na recepção. Me sento na beirada vazia.

— Bom dia, Alice. — Me espreguiço. — Sabe se a Lali já voltou?

Alice alinha os ombros. — Ainda não. Mas ela já deve estar chegando. Você precisava ver: nem o Azizol resolveu a azia dela de manhã.

Faço uma cara cínica. Meus olhos gritam “eu te avisei” antes mesmo de eu falar. Óbvio que você ia passar mal, né, Lali?

— É mesmo? Ela te deu muito trabalho na balada?

Alice diz que não com a cabeça.

— E como tão os seus estudos pro vestibular, Yoongi? Quando foi a minha vez, eu fiquei por um triz de endoidar!

Suspiro. — Nem me fale!

— Por que cê não tenta o Enem? É bem mais fácil do que a Universidade do Centro!

Congelo o sorriso.

— Eu não tô querendo te desmotivar, Yoongi. Acredito no seu potencial igual a todos aqui. Só tô te avisando pra você poupar seu tempo e também poupar sua energia!

— É complicado.

— Se precisar de ajuda com alguma matéria que envolva Ética ou Legislação Urbanística, me avisa.

— Aviso sim. Vou sobreviver.

Alice volta a organizar uma pilha de papéis.

Desbloqueio o celular e abro um capítulo sobre paisagismo no e-book. Vez ou outra, espero por um sinal de que o Hoseok tenha chegado.

— Nossa! — alguém grita.

Lali se escora nos joelhos e põe a língua pra fora. Usa a mesma roupa de ontem na feira. Seu cabelo está a mesma bagunça da madrugada.

A lembrança me faz contorcer o nariz.

Ela se joga no sofá do meu lado. As olheiras e as marcas de travesseiro nas bochechas dela me causam um arrepio.

Cê foi na polícia… assim?

— Que demora do caralho! — Lali reclama. Alice dá uma risadinha. Me seguro pra não fugir pro quarto.

Como cê fala alto, hein?

— Cheguei oito em ponto lá! — ela continua. — Mas só ficou pronto agora, acredita?

— É bem burocrático mesmo — Alice concorda. — No seu caso é até rápido, sabia?

— Imagina se não fosse, né? Mas… olha como eu fiquei gata, Yoongi! — Lali tira o documento do bolso. Sua calça bate de leve na minha quando ela se inclina. Ela não usa perfume, mas seu cabelo cheira ao xampu de coco do Jimin.

Prendo o ar.

A foto dela me faz arquear as sobrancelhas. Nem parece que ela está toda desarrumada. O que está escrito no registro me faz arquear as sobrancelhas ainda mais:

Filiação: Jacopo Bergamaschi e Beatriz Carvalho.

Antes que eu leia seu local de nascimento, Lali suspende o corpo do sofá e mostra o RG pra Alice.

— A Sra. Park me disse hoje cedo que eu preciso fazer uma conta do governo! — Ela bufa. — E que o Yoongi ia me ajudar!

Massageio o pescoço. Ah, não! Agora?

— É uma tal de… carteira de trabalho. Você liga se a Alice me ajudar no seu lugar, Yoongi?

Não contenho o sorriso. — De forma alguma!

Alice indica a entrada pra Lali atravessar o balcão. Valeu, Alice! Você é dez!

Coloco uma mão sob o queixo e apoio um cotovelo no braço do sofá. Jacopo… Beatriz… Beatriz… Jacopo… Carvalho… Bergamaschi… Bergamaschi… Carvalho…

Lali morde a tampa de uma caneta vermelha enquanto Alice continua preenchendo os dados no computador.

— Cê podia falar com a Angeline pra dar uma mexida nesse uniforme, né, Lice? É bonito, mas um pouquinho sem graça e bastante fora de moda!

Balanço a cabeça.

Logo você falando de moda? Que engraçado, tava com aquela mecha verde horrível até ontem!

Alice gargalha. — Assim você vai magoar a Sra. Park, Lali!

— Podia ser estiloso igual o do Jimin!

— Aí já são outros 500. Ele é exagerado e a Sra. Park dá corda.

— Mas ele é o maior gatinho, fala a verdade!

Cruzo os braços. Muda o disco!

— É gatinho, mas muito novinho!

— Ué, Alice, cê não tem 20 anos? Ele tem 18! Qual o problema?

— Nenhum. Ele só não faz meu tipo… ele é muito… sei lá… falante?

Lali intercala o olhar entre Alice e eu. — É… e você gosta de caras mais quietos, né? Mas… alguns nerds são uma gracinha.

Minha cara arde.

— Pena que ser bonito não adianta nada.

Enrugo a testa. O que você tá insinuando?

— Pronto. — Alice sorri. — Vou avisar pra Sra. Park que você já fez a identidade e a carteira. Ela vai ver o restante das etapas com você depois.

— Já esqueci: quando é que eu recebo meu salário mesmo?

— Dia 30.

— Falta pouco! Graças a Deus! E cadê o vestido, Lice?

Alice tira uma sacola debaixo do balcão.

Lali desdobra o tecido e o estica contra seu corpo. — Que algodão bom! Só acho que esse decote de coração vai me deixar com o peito ainda menor! Talvez se fosse em V, ficaria ainda mais sexy!

Sacudo as pernas. Quanta besteira! Faz dar 10 horas logo, Senhor! Ou pula de uma vez pro final do dia!

— Desculpa… — Lali fica vermelha. — Eu não devia me intrometer nas suas roupas, Lice! Eu só dei uma sugestão, tá? Não fica brava comigo! Eu não quero ser chata!

— Tudo bem, Lali! Eu te entendo. A sua ideia é boa. Ah, eu trouxe uma blusa de frio também.

— Nem vou precisar, mas brigada!

— Você não me escutou ontem quando eu falei pra gente ir embora logo. Lembra? Quase deu merda! — O canto da boca da Alice treme.

Descruzo as pernas. Elas brigaram?

— Eu queria ter quebrado ele! — Lali rosna.

Mexo as sobrancelhas. Ele quem?

— Se a gente não tivesse corrido, ele poderia ter te… te batido, Lali!

Um frio estranho passa pelas minhas costas. Ahn?

As bochechas das duas se enchem d’água, e a minha curiosidade triplica.

— Tá tudo bem agora, Lali. Ou vai ficar! — Alice sorri fraco e olha pra mim. Desvio a atenção pra porta e endireito a postura.

— Já são 9:30, Lali. Daqui a pouco o Hoseok chega, e o restante do pessoal já tá vindo aí, ó! — Alice aponta pro final do corredor.

O burburinho dos hóspedes se intensifica.

Prendo o fôlego.

— Poxa! Nem vai dar tempo de eu tomar banho, de me maquiar, de pentear o cabelo! Eu vou horrível pra esse tour! — Lali morde as unhas.

— Se você correr, eu consigo fazer uma make básica! — Alice ri.

Lali desaparece num segundo.

Primeiro roubaram o carro dela e quase mataram ela com um estilete. Agora tentaram bater nela numa festa? Isso tá longe de ser só uma coincidência! Deve mesmo ter alguém perseguindo ela!

Mas… por quê?

Bato os dedos na perna.

Talvez seja só culpa do lugar que ela foi. Esses gringos são um bando de escrotos e aproveitadores baratos! Mas não adiantaria nada avisar. Tenho certeza que semana que vem ela vai pra outra festa dessas!

Mas parece que ela tá bem agora. E eu não tenho nada a ver com isso. Então dane-se!

— Yoongi! — Alice me chama.

— S-sim?

— Coloquei na mochila um sanduíche de peito de peru pra você e outro pra Lali, — ela afirma depressa —, também tem suco de goiaba, um pedaço de mousse de maracujá, e um kit de primeiros-socorros se vocês precisarem!

— V-valeu… mas não precisava, Alice.

— Eu faço questão.

— Você não vai gostar se eu não aceitar, né? — Dou uma risadinha.

— É. — Alice passa os dedos pelas tranças. — Você me conhece.

Ela se agacha e estica uma embalagem azul marinho no balcão.

Trufa de abacaxi?

— Quer uma?

— Não, mas obrigado. Isso é coisa do Jimin, né? Ele é a única pessoa que eu conheço que gosta desse negócio!

— É. Ele adivinhou o meu gosto. Como eu sou sortuda!

Concordo com a cabeça. Por que ele não perguntou direto pra ela? Era muito mais fá—

Entreabro a boca. Ah, claro! Se bobear ele sabe até o CPF dela de cor. Não é à toa que ultimamente ele fica de conversinha com ela pelos cantos. Eu devia ter percebido antes!

— É, Alice. A gente tem sorte de ser amigo dele. Você ganha bombom de abacaxi e eu ganho soju!

— Ninguém merece soju! — Ela ri junto comigo.

— Cê tá bem depois do que aconteceu ontem?

Alice empalidece. — Tô.

— Tem certeza?

— Tenho. Agora eu tô bem.

— Pelo jeito que você falou com a Lali eu fiquei na dúvida.

Ela força um sorriso.

— Se você quiser, eu vou com você na delegacia agora mesmo!

Ela nega com a cabeça.

— Lice! — Lali grita, passando as mãos pelas mangas do tecido azul florido.

Coloco uma mão no peito, estabilizando a respiração e volto pro sofá.

Lali gira em volta de si mesma e seu vestido balança, quase mostrando o seu posterior de coxas.

Bato os tênis um no outro pela enésima vez.

Alice sai de trás do balcão e ajuda Lali a guardar uma garrafa de água, maquiagem e documento na mochila.

Alice abaixa o cumprimento do vestido. — Não sabia que ia ficar tão curto! Me desculpa!

— Melhor ainda! Agora minhas aulas de atletismo vão valer a pena!

— Verdade, olha só essas coxas, Lali!

Chacoalho a cabeça e deslizo os dedos pelo couro do sofá. Nem tinha reparado que cê tava tão velho! Caramba!

Lali gira em torno de si mesma outra vez e gargalha. — Eu era bem magrinha antes, sabia? Foi a puberdade!

Alice ri junto e fica séria do nada. — Mas você vai andar o dia todo, Lali! E se você se assar toda?

— Você me emprestou o seu shorts, lembra?

— E se te der bolha no pé?

— Seu tênis é muito confortável!

Reviro os olhos pela terceira vez em dez segundos. Que. Tortura. Do. Caralho! Eu tô ouvindo isso mesmo?

Eu gosto da senhora, Sra. Park, mas hoje eu te odeio! ODEIO!

Good morning, everyone! — Uma voz meio fina grita, e uma figura alta surge segurando as alças da mochila bege. Seu macacão verde está amarrotado e seus fios vermelhos alinhados demais. “HOSEOK JUNG” brilha na lapela. O cheiro de laranja se espalha pelo ar. Até mesmo o sorriso alto-astral dele me deixa com sono hoje.

Ao redor dos mapas da recepção, os hóspedes zumbem. Abelhas famintas. Fedorentas. Umas 15.

Hoseok distribui os fones de tradução simultânea pra todos.

— Prontos pra conhecerem mais sobre Costaré? — Ele agita a colmeia. — Hoje passearemos pelos principais pontos do Centro e da Camélia! Vocês irão se surpreender com as paisagens!

Os hóspedes dão gritinhos, e Lali sacode meus ombros. Solto um grito dentro da cabeça. O impulso de me esconder no quarto e só sair de lá às 19h direto pro meu turno fica por um triz de me tomar.

— Vai ser muito legal, Yoongi! — Lali folheia um dos panfletos e joga um beijo pra Alice antes de atravessar a porta.

Lali tagarela sobre o quão lindo o dia está dentro da van. Pergunta qual é a minha cor favorita. O que estou achando do frio. Não respondo nada. Só concordo com a cabeça e pressiono uma mão debaixo da bochecha.

O ronco da van abafa um pouco as risadas escandalosas da Lali e os comentários dos hóspedes sobre o clima nublado do outono brasileiro.

Hoseok, sempre um idiota, inventa de colocar uma música de K-Pop pra tocar. Ecoa dentro das minhas têmporas.

Merda.

Afundo os cotovelos na espuma do apoio.

— Essa música é muito legal, Yoongi! — Lali me cutuca pelo ombro. — O que a letra tá falando?

— É… sono. Isso. Sobre isso: dormir.

Lali estreita os olhos, mas volta a mexer a cabeça. Estende os braços e tenta acompanhar a melodia. Sou obrigado a rir da pronúncia dela.

O cheiro de poeira e a fumaça de Costaré duplica quando atravessamos a ponte. A Estação Passione é minúscula daqui, as pessoas se transformam em formigas e os pinheiros em riscos.

Eu vou morrer. Juro que vou!

A luz é pesada. Cai em cima dos prédios verdes e marrons desbotados, como se quebrasse os vidros. O tempo não passa. O espaço só encurta. Não respiro direito. O vidro é gelado. Velho. Embaçado. O ar é quente. Quente demais.

Quando finalmente descemos, o frio bate na pele e o sol permanece escondido atrás das nuvens. Os hóspedes se agrupam ao redor da Praça Passione, registrando fotos e vídeos.

— Aqui é o berço de Costaré, minha querida cidade, fundada em 1853 pelos portugueses, mais conhecida como a Busan brasileira! — Hoseok explica com um sorriso teatral.

Abraço os cotovelos. Já sei tudo que ele vai dizer: O nosso lema. 900 mil habitantes. 82 bairros. Sudeste brasileiro. Cidade costeira. Clima tropical úmido.

O tesouro escondido entre o mar e a serra.

Lali se aproxima de mim com os olhos brilhando. — Eu não lembrava de nada isso! Acho que eu tava viajando na escola, só pode!

Forço um sorriso, e torço pra que pareça gentil. Gentil o bastante pra Sra. Park me deixar em paz por uma semana.

Incrível, né, Lali?

— …e o clima é ótimo pras plantações de maracujá, que ficam na região rural da cidade. Costaré é a maior produtora de maracujá do Brasil!

Os hóspedes aplaudem. Lali por pouco não tromba nos pescadores do Marco da Fundação.

Nego levemente com a cabeça.

— Aqui no Centro vocês terão 2 horas e meia pra passearem, admirarem lojas, museus e parques antes de voltarmos pra van. Aproveitem! Qualquer coisa, eu tô aqui pra sanar as dúvidas de vocês, pessoal!

Os hóspedes o enchem de perguntas, e ele continua narrando detalhes sobre as estátuas de bronze do Marco da Fundação e dando dicas do que explorar no Centro.

Suspiro, apertando os olhos.

Me seguro pra não girar os calcanhares e acabar pegando o metrô de volta pra Estação dos Pescadores.

Ando em busca de qualquer coisa pra matar o tédio.

As luzes deixam o caminho mais frio.

Gambiarras.

Gente se espremendo nos sinais.

Já estou cruzando a terceira rua sem ter decidido nada ainda, e Lali para do meu lado.

Erguemos a cabeça ao mesmo tempo.

“CASA JOVEM DE COSTARÉ” reflete à luz fraca do sol. Tem toldos improvisados no pátio externo. Gritaria nas rampas tortas, laranjas nos cantos.

Lali passeia os olhos pelas paredes azul e rosa claro… pelos portões de ferro…

E paralisa na borboleta lilás.

Seus olhos se enchem d’água. Ela limpa o rosto e funga. Minhas mãos ardem com a memória do uniforme dela. Do sangue. Do asfalto frio. Da mecha verde.

Engulo a seco.

— V-Você vem muito aqui no Centro, Yoongi? — ela sussurra, sorrindo.

— Só às vezes.

— Sabe de algum lugar legal?

— A Biblioteca Central e o Museu das Sementes.

— Eu falei lugar legal. Nesses que você falou, todo mundo já foi no passeio da escola!

Dou de ombros. — Então não. Centro de cidade geralmente é meio sem graça mesmo. Café, museu e gente demais.

Lali pensa por alguns segundos.

— Eu conheço um lugar que você vai amar! Vem! — Ela me puxa.

O cheiro de terra molhada se intensifica, e o chão de pedras se torna mais irregular ao dobrarmos a esquina. O barulho de pneus chiando fica mais abafado.

A mão dela está quente e suada. Grudada na minha.

Até. Agora.

Entorto a cabeça e pisco forte. Me afasto devagar, secando os dedos no suéter.

— Desculpa — ela pede.

Minha cara arde.

— Olha que legal, Yoongi!

A ferrugem gasta range à medida que o guardinha abre espaço pros visitantes entrarem. Vendedores de picolé e de algodão-doce arrastam carrinhos com pressa na direção do portão traseiro.

— Muito legal. — Enfio as mãos no bolso.

O letreiro grita “PARQUE COSTARENHO”, com galhos formando sombras. Patos brincam no lago que contorna a entrada. Crianças deslizam pelo escorregador, sujas de areia enquanto adultos leem livros nos bancos.

Todo mundo já veio aqui no passeio da escola, Lali.

— Argh! — Ela joga o cabelo pra trás. — Você acabou com a graça! Não vai querer nem entrar?

Rio pelo nariz e arrasto os coturnos pelos ladrilhos na direção do semáforo.

— Aff, Yoongi! Você estragou meu plano! Mas… tem um outro lugar que eu duvido que você conhece!

Levanto as sobrancelhas. — Qual?

Lali me puxa de novo. Agora mais rápido. Ainda não acredito que estou deixando uma garota que eu conheço há dois dias segurar minha mão e me arrastar desse jeito pelo Centro da cidade, mas não falo nada, até porque ela não cala a boca nunca e não resta espaço pra eu pensar direito ou me afastar dela como eu gostaria.

Paramos na subida de um morro.

— Isso é pra eu rir, né? — Bufo. — Eu não vou subir aí!

Lali ergue as mãos. — Cê vai se arrepender!

Recupero o fôlego.

Eu não combinei isso com a Sra. Park!

Não era nem pra eu ter vindo, na moral!

Eu não sou obrigado a aguentar essa garota!

— Cê vai me deixar quieto se eu subir?

Lali sinaliza “silêncio” e confirma com os polegares.

Enquanto subo com a maior lentidão do mundo, uma MPB antiga toca no rádio de um apartamento.

O óleo quente e o vento gelado se misturam no ar.

Me apoio nos joelhos. — Tá, tô aqui. Já entendi que você queria me mostrar uma rua sem saída em cima de um morro e um monte de mato escondido! Já sei: cê achou uma caveira, né? Arqueologia não é o meu forte.

Lali abre um meio sorriso. — Olha pra trás.

Me viro.

Minha boca se abre sozinha.

Prédios enfileirados na frente dos pinheiros e das azaleias. Fachadas amarelas, rosas e verdes. Antenas. Fios. Caixas d’água. Calçadas estreitas. Céu nublado.

No final, os pontinhos de luz amarelos se enfileiram e as praias do Centro, Camélia e da Vila Dorata se estendem pelo caminho.

— Uau! Dá quase pra ver Costaré todinha daqui!

— Te falei!

Meu peito dispara. — Parece que a gente chegou no final da cidade.

— Sim!

— Essa ideia foi boa.

Lali ajeita o cabelo. — Esse é o seu jeito de flertar comigo?

Quase engasgo com o vento. — F-flertar? Quem falou em flertar?

— Como não? Olha o jeito que você tá me olhando!

Que saco.

— Eu fiz um comentário.

— Elogio.

— Co-men-tário. É você que tá falando em flertar! Mas pode ficar tranquila: se eu tivesse flertando com você, você saberia.

Lali inclina a cabeça e bufa.

— Vou abrir meu sanduíche… vai querer o seu? — Ela me mostra a mochila.

Nego com o indicador. Mesmo assim, ela me entrega. Rio pelo nariz e desembrulho o papel. Meu estômago ronca. Ainda bem que cê me lembrou de comer.

Mordo um pedaço e suspiro.

Lali intercala o olhar entre cada ponto da paisagem enquanto come.

— Você e o Jimin são bem amigos, né?

— Somos.

— Eu gostei muito dele. Ele é um amor de pessoa.

— Sim.

— O que você acha da Alice?

— Ela é uma ótima colega de trabalho. Por quê?

— Só isso? — Lali ri.

Dou de ombros.

— Ela te contou o que aconteceu ontem?

Respiro fundo. — Sim. Ela comentou que um cara incomodou vocês.

Lali força a risada. — Incomodou é pouco. Ele ofereceu 100 reais pra cada uma pra gente passar a noite com ele, chamou a gente de puta e fez um sinal pra Alice como se ela fosse um animal!

Paro de piscar.

— Ele era um lixo! — Lali rosna. — Um bandido!

— Essas coisas infelizmente acontecem, Lali.

— Sim.

— Eu não entendi porque vocês ainda não foram na polícia.

— Melhor não.

— Por que?

— Não sou eu. É a Alice que não quer ir.

Suspiro. — Então infelizmente eu não posso fazer nada.

Lali suspira também.

— Lali…

Ela murmura “hum” e assente.

— Como que cê descobriu esse lugar?

— Ah… — Ela fica vermelha e limpa a boca com um guardanapo. — Eu… eu… eu… deixa pra lá!

Pra quê eu fui perguntar?

— Me… me passa o suco, por favor?

Ela faz que sim com a cabeça e me entrega, ainda vermelha.

Ela tá quieta. Isso é estranho. Muito estranho. Tá do mesmo jeito de quando a gente passou na frente da Casa Jovem…

Limpo a boca com o guardanapo.

Por que eu tô perdendo o meu tempo aqui?

Dou de ombros. — Bora? Já vai dar o horário!

— A gente mal chegou aqui, Yoongi!

— Só pra chegar aqui a gente gastou 12 minutos. Pra descer e chegar na Passione, deve gastar uns 8. Se acontecer algum imprevisto, pelo menos a gente tem chance de chegar no horário.

Lali pisca forte. — Você é muito chato. Chato demais!

É a minha vez de piscar forte. — Obrigado. Todo mundo diz isso.

Me levanto.

Lali estende a mão.

Bufo.

Ela segura meu braço e se põe de pé.

— Yoongi… — Ela cora de novo.

— Sim?

— Você… pode tirar uma foto minha?

Recuo um passo.

— É que… Eu sempre quis tirar uma foto aqui… Pra guardar de lembrança. Pode tirar e me mandar pelo celular da Alice? Ela vai guardar pra mim!

O ar sai dos meus pulmões com força. — Tá, tá. Eu tiro. Mas anda logo!

Lali dá um pulinho.

Passa batom.

Se vira de costas pros prédios.

Conserta o cabelo.

Pego o celular e desbloqueio a tela.

Quando posiciono a câmera, Lali entorta a cabeça.

Coloca uma mão na cintura.

Tira.

Coloca de novo.

Acabo soltando uma risada. — Anda logo!

— Tá! Tá bom! — Ela corrige a postura.

— 1. 2. 3… e…

Lali faz “V” com as mãos e abre um sorriso.

Bato a foto.

— Pronto. — Guardo o celular.

— Deixa eu ver?

— Cê já tirou a foto, agora vamo embora!

— Mas e se eu tiver ficado feia?

Cruzo os braços.

— Ah, é! Esqueci que é impossível, né?

Contenho a vontade de revirar os olhos. Retiro o celular do bolso e o destravo.

Lali se aproxima da tela e sorri. — Eu fiquei perfeita, né? Amei! Brigada! Quer tirar uma comigo?

Engasgo com o ar.

— Prometo que não vou ficar te chamando daquele nome esquisito que as pirralhas te chamaram ontem!

Empalideço. — De Oppa?

— É. Só olha pra câmera. Nem precisa sorrir se não quiser. E pode apagar se você ficar feio! Você é gatinho até, mas não tem cara de que sabe fazer pose!

Reprimo o impulso de rir. Garota sem noção.

Configuro a tela no modo selfie.

Lali toca meu ombro com o cotovelo.

Congelo.

Ela mostra a língua pra câmera.

Uma risada escapa de mim.

Demoro uns segundos pra entender que já cliquei na tela. Na segunda foto, Lali faz uma careta e encosta a cabeça na minha. Fico parado, com as mãos tremendo.

— Yoongi? — Lali me chama, parada na metade da descida. — Qual é a próxima parte do passeio?

Estou há uns oito segundos sem piscar. Tentando tirar o suor da nuca.

— É… agora a gente vai embora — minto. Quem me dera!

— Poxa! Mas pelo menos foi legal vir aqui com você!

Minha cara esquenta. Antes que eu agradeça com mais um gaguejo, uma voz me chama.

Lali entra na van.

A garota fala comigo em inglês. Seu cabelo rosa está cheio de tererês.

Yes? — Finjo um sorriso.

Lá vem mais uma idiota.

Picture, please? — Ela ajeita a camisa retrô do Flamengo e se aproxima, saltitando.

Me seguro pra não dizer “que inferno” ou fazer uma oração pedindo socorro a Deus em coreano quando ela grita “Oppa!”.

Sorrio pra tela do jeito mais cínico que a minha atuação permite.

Ela beija minha bochecha.

Diz que sou seu namorado dos sonhos.

Que pareço com um idol de K-pop que eu não faço ideia de quem seja.

Pergunta se eu me envolveria com uma estrangeira.

Fala umas palavras em coreano com o sotaque mais ridículo do planeta.

E me abraça.

Beija minha bochecha de novo.

Em menos de 10 segundos.

Tento reagir. Me afastar. Sair correndo. Mas meu corpo não assimila o que acabou de acontecer.

Meu sangue ferve.

Os olhos se fecham.

O peito sobe. Desce. Desce. Sobe.

Sem. Controle.

Sem. Parar.

Não tenho fôlego.

Só existe o calor. O frio nas mãos. O suor na testa. O cheiro de café e de cigarro no ar.

A fumaça de Costaré.

As vozes das pessoas são agulhas na minha coluna. O vento gelado é uma cobra venenosa que entala minha garganta. Mastiga o meu ânimo. Envenena o meu dia.

Em segundos, estou dentro da van. Respirando ar puro. Ou tentando.

Deito a cabeça no banco e desejo que tudo acabe de uma vez.

Durmo pelos 20 minutos do trajeto.

Lali mexe meus ombros devagar. — Você é muito mentiroso! O Hoseok disse que agora a gente vai passear de barco, Yoongi!

Estico os braços. — Infelizmente.

Desço da van, ainda bocejando.

Massageio os ombros e sou obrigado a aguentar toda a chatice de regras de segurança: coletes firmes, pertences na mão e distância das bordas.

Os hóspedes sorriem e gargalham, e Lali me faz um milhão de perguntas que eu sequer presto atenção, murmurando “é” a cada dois minutos.

Entramos no barco em fila. O chão é tão escorregadio que eu me encosto no canto pra não cair. O sal da maresia gruda na pele.

Os hóspedes se espremem nos bancos, e ajeitam suas jaquetas e gorros de lã. Erguem os celulares. Entopem Hoseok de perguntas. Ele responde tudo com rapidez e sorrisos largos. Pra variar, toca mais uma música de K-Pop.

Devo ter feito muita merda pra merecer isso.

Lali tenta cantar, senta à esquerda. As mãos e os tênis dela se mexem sem ordem nenhuma. É engraçado e entediante ao mesmo tempo. Suas maçãs do rosto estão da cor de uma pimenta, e a voz aguda como nunca.

— …entendeu? Caramba! Isso é demais! Demais!

— É. Demais. Mesmo.

— Aliás… Cê não tá sentindo frio não? Porque eu tô! E muito! Só esse lençolzinho aqui não esquenta nada!

Abro um sorriso sem mostrar os dentes. O vento quase arranca minha pele fora, mas minha cabeça dói tanto que talvez congelar o corpo seja uma ótima saída daqui.

— Hoseok — eu o chamo —, me arruma uma coberta a mais, por favor.

Ele assente e pega duas no saco reserva.

Entrego a manta pra Lali, que a abraça e sorri. Me cubro e tento ignorar as explicações do Hoseok sobre a Pedra Haru.

— O primeiro grupo de coreanos chegou à Costaré depois da guerra das Coreias direto ao Porto. Muitos começaram como pescadores embarcados, técnicos de estaleiros e mecânicos navais.

Lali toca meu braço de leve. Seus olhos estão úmidos.

— Que história linda! Você sabia de tudo isso?

— Claro. É a história do meu povo. Como eu não vou saber?

Ela pisca forte.

Desvio o olhar pro mar, esticando os cotovelos e raspando a garganta.

— …além da culinária e da língua, também mantivemos outros aspectos da cultura coreana, como a tradição de plantar camélias. Quando Costaré foi fundada, o prefeito nos homenageou nomeando o nosso bairro como Camélia.

O barco diminui a velocidade aos poucos, e para para o desembarque perto de um quiosque de kimbap. O vento fica ainda mais violento nessa direção, e eu me encolho, com a boca rachada.

— A Pedra Haru era inicialmente usada por pescadores. As esposas deles deixavam bilhetes e tentavam colar com cera de vela nas fendas da Pedra, esperando que o vento os protegesse, mesmo sabendo que não iria durar muito tempo! Uma verdadeira lição de resiliência!

— Isso é outra coisa que eu não sabia! — Lali cochicha comigo.

Faço que sim com a cabeça. — É. Tem uns imbecis que acreditam nisso.

— Ei! É legal!

Passo uma mão pelo rosto. Claro. Você deve ser um deles, né?

— Com o tempo e a mistura de diversas culturas e religiões, cada pessoa vem aqui por um motivo diferente: algumas para fazer preces, outras para pedir por amor eterno… Já outras, vêm apenas para admirar o mar e o céu da Praia dos Pescadores.

— O que cê vai escrever, Yoongi? Eu te ajudo!

Dou uma risadinha. — Eu? Nada! Isso é a maior besteira!

Lali pega o papelzinho e o firma na pedra. — Vou colocar o meu nome, o seu, o do Jimin e o da Alice. O da Angeline também.

— Quê isso? Uma banda?

— Não, besta! É pra gente ser feliz. E pra cada um realizar seu sonho.

Abro um meio sorriso.

— Esse é o nosso último ponto, pessoal! — Hoseok anuncia, apontando pra rua. — A partir daqui, vocês podem explorar tudo por conta própria ou voltar pro Solaris caso queiram. Vou pra Hong’s Mart agora, uma loja de conveniência fica no final do bairro. Quem quiser souvenirs ou um bom soju, é só me seguir!

— Essa… é rua… e a lojinha… onde… onde… — O olhar da Lali se fixa no final da estrada.

— É. Você quer ir embora?

— Não. — Ela força um sorriso. — Eu quero entrar.

As luzes fluorescentes piscam conforme pisamos no porcelanato. O ar gelado atravessa as prateleiras. Alguns hóspedes cochicham sobre salgadinhos de camarão, enquanto outros abarrotam suas cestas com balas de mirtilo e de kiwi, e caixas coloridas de mochi.

— O que você quer comer?

— A mesma coisa que você — Lali afirma.

Preparo um ramyeon pra mim com muita pimenta e outro com quase nada pra ela. Pago por duas latas de Bong Bong e volto pra mesa.

Lali me agradece com um aceno.

Me sento e sopro o ramyeon. Só o aroma já enche o meu estômago.

Tinha esquecido o quanto isso era bom. Vai me matar. Mas é bom demais!

Lali come depressa.

Levanto as sobrancelhas.

— Ahn? — murmuro.

Ela firma os hashis entre os dedos. — Te falei que eu aprendia rápido!

— Tá.

Volto a comer.

Lali se abana, mastigando. — Puta merda, viu? Quem inventou isso odeia os seres humano! Minha boca tá pegando fogo! Nem sei como… tô conseguindo falar!

Solto uma risada baixa e estico a soda de maçã verde pelo balcão. — Eu nem coloquei tanta pimenta assim!

— Não é possível! Você colocou mais do que isso na sua?

Confirmo com uma piscada.

Lali tapa a boca. — Você deve ser um fantasma ou alguma coisa parecida!

Rio de novo. Além de esquisita, você também é exagerada. Mas até que é engraçada.

Às vezes.

— Tá sujo. — Sinalizo.

Lali agradece com um sorriso, limpando o canto da boca com o guardanapo.

— Mas, Yoongi…

— Ahn? — Continuo mastigando. — Fala.

— Por que você não gosta de morar aqui?

Quase engasgo. — Q-Quê? Quem te falou isso?

— Você não é muito fã, pelo que eu vi. Você por acaso tem… vergonha de ser coreano?

Demoro pra assimilar o que ela disse. — Não! E de… de onde você tirou isso?

— Ah… é que você não gosta de sair… não gosta de ir nas baladas… nem de ir na feirinha… E ficou de cara amarrada o passeio todo!

Faço uma careta.

Lali cruza os braços. — Tá… eu sei que as garotas te pedindo foto toda hora não é legal, mas… elas fazem isso porque você é bonito, né? Isso não era pra ser uma coisa boa? E elas amam a Coreia! A sua cultura!

Quero explicar que aquelas garotas só se aproximam de mim justamente por eu ser coreano. Um bando de fúteis. Superficiais.

Seguro a vontade de dizer que não me importo com a opinião da Lali. Não quero ter que lidar com a Sra. Park me dando esporro mais tarde.

Fico quieto por cinco segundos, respirando fundo.

Já já isso vai acabar. Você vai embora daqui a pouco. Isso. Foca nisso!

Mas por que eu ainda tô aqui?

O passeio já acabou.

E a minha paciência também!

— Olha, Lali, eu tô tentando ser gentil com você porque a Sra. Park me pediu. — Respiro fundo, mantendo o tom falsamente simpático. — Juro que tô!

Lali estala a língua. — Achei que a gente tá virando amigo de verdade!

Rio pelo nariz. Amigo. Que piada.

— Não fica achando que você entende das coisas porque você simplesmente não faz ideia do que cê tá falando, Lali. Você só tá vendo o lado bom das coisas. Você não conhece nada da Camélia. Nada. E muito menos me conhece. Você não entenderia nem se eu te explicasse.

— Se você acha que isso é ser “gentil”, Yoongi… — Lali gesticula depressa. — Tem que pedir pra Angeline te ensinar direito! Você fica só lendo o dia todo, mas não sabe o básico das coisas! Não sabe como é viver de verdade, né?

Uma fisgada atinge meu peito e deixa minhas mãos tremendo. Gelo puro. Puta. Que. Me. Pariu!

Prendo os ombros. — Como eu falei: é complicado, né? Você não entenderia. Mas desculpa por ter te magoado te lembrando que você não sabe nada sobre a minha vida.

Lali cruza os braços. — E o que você sabe sobre a minha?

Volto a comer. O vapor pega fogo na boca. Me perco na textura e tomo um gole do refri.

Lali arrasta seu banquinho de volta pro lugar.

— Yoongi…

Levanto a cabeça, sem parar de mastigar. Ela pigarreia, semicerra os olhos e dispara:

— Pelo menos você tem alguma coisa.