Anything But Ordinary

22 Amar é o suficiente?


CAPÍTULO 22: Amar é o suficiente?


JIMIN PUXA A PINÇA COM FORÇA. Seguro a vontade de xingar.

— Que mão pesada do caramba!

— Fica quieto! — Ele limita o movimento das minhas mãos.

— Pra quê eu fui topar isso, Senhor?

Jimin me obriga a ficar sentado na cadeira por mais uma hora, platina meu cabelo, hidrata meu rosto com argila e faz a minha barba.

— Pronto!

— Finalmente!

Ele tira fotos minhas e posta na página de clientes dele com a legenda “Um novo homem. A Jimin Cosmetics é muito mais do que só produtinhos caseiros.”

— Valeu. Agora eu posso roubar um banco sem ninguém me reconhecer. Meus pais vão morrer de tanto orgulho de mim. Cê não tem i-de-ia!

— Isso que dá ajudar gente feia a ficar bonita.

— Claro. Você tem experiência nisso.

Ele chuta minha panturrilha sem força.

Recebo uma mensagem.

Sexta-feira, 24 de outubro

19:07

— Bora ir logo porque o Seu Marcelo já tá apressando geral no grupo — digo.

As máquinas de fumaça do Solaris Bar disparam luzes rosas, pretas e verdes.

Namjoon chama atenção de um hóspede que ultrapassa o tempo limite de cinco minutos na piscina de bolinhas.

Hoseok quase é esmagado ao monitorar a porta da fila pro karaokê.

Maia acha graça dos hóspedes na cabine de vento.

Jungkook corre na direção do palco central. Ele desamassa o uniforme e pega as baquetas, se juntando com o restante da banda. Taehyung afina a guitarra. Vitor faz a segunda voz pro Rafael.

— Cê ficou sabendo? — Jimin sussurra.

Dou de ombros. — Do quê?

— Que ele e a Lali ficaram.

Enfio as mãos nos bolsos. — Não tava sabendo de nada não.

— …mas aí ela deu um toco nele.

— Q-quê?

— É. Ela me falou que gosta de outro cara.

— Outro cara?

— Quem será, né? — Jimin semicerra os olhos.

Tusso e sorrio ao mesmo tempo.

Jimin estapeia minhas costas e me serve um copo d’água. — Ela também falou outra coisa…

— O-o quê?

— Por que cê tá tremendo tanto, véi? Eu nem falei nada ainda!

— Eu tô normal.

— Você por acaso disse que ia conversar com ela hoje?

— Como você sabia?

— A Alice me contou.

— Entendi, mas… que que isso tem a ver?

— Ela vai ficar só um ano em Milão pra resolver a papelada da cidadania. Depois ela volta pra estudar Moda na UDCC.

— Um ano? Estudar na… na UDCC?

— Sim. Não é possível que vocês não vão esperar! Passa muito rápido! Ninguém merece jogar uma história inteira no lixo por burrice!

Levanto as mãos. — Alô, alô, alô: liçãozinha de moral às sete da noite? Peraí, Jimin! Hoje é dia de festa! E de trabalho, com licença!

Me posiciono na frente da placa “LET’S PRACTICE KOREAN”. Larissa está do meu lado, embaixo da “LET’S PRACTICE GERMAN”.

Bruno registra foto de cada um dos 15 encarregados dos idiomas e nos incentiva a tomar alguns shots sem exagerar.

Tirando o fato de que alguns clientes me perguntam se eu conheço todos os grupos de K-Pop da face da terra, não é tão ruim.

Caroline me abraça. — Yoongi, what ya up to?

Hi… Nothing much…

Recuo antes que ela me beije na boca. — I’m no longer in the mood…

Why? We had so much fun yesterday!

It’s all in the past now. Sorry. Have a nice stay.

Ela gira a taça, dançando na direção da pista.

Lali acena pra mim enquanto serve canapés pros clientes que conversam comigo. Seu cabelo está mais curto e castanho-claro, e a maquiagem dourada e rosa-claro. Suas pernas estão mais grossas. O perfume mais cítrico. Os cílios maiores.

É. Você tá mal mesmo, Yoongi. Reparando nos cílios de uma pessoa. Onde já se viu isso?

Continuo falando em coreano com mais um grupo de clientes sobre procedimentos estéticos, globalização e rap.

Lali conserta os botões da saia preta. Os laços rosas do colete. O pingente de sol.

Compete contra uma cliente no hóquei de mão. Só falta perder o disco de tanto que se estica pra rebater os movimentos. Troca as fichas por caipirinha. Ganha de lavada de um hóspede no basquete. Troca as fichas por uma dose de soju.

E para na minha frente. A forma como ela pronuncia “annyeong” me arranca uma risada.

— Para de rir!

— Não é isso. É que você não pode chegar assim falando informal com um estranho.

— Estranho? A gente já quase namorou, Yoongi!

— M-me expressei mal. É… nós estamos num ambiente profissional, entendeu?

— Não entendi nada! A ideia do Solaris bar não era fazer amigos e praticar outras línguas?

— E eu sou dois anos mais velho que você.

— Foi por isso que cê pintou seu cabelo dessa cor? — Lali abafa a risada. — Combinou com você, ficou bem cara de ancião. Brincadeira. Ficou bem descolado.

— Essa cor que você pintou também combina bastante com você.

Lali tenta disfarçar seu rosto vermelho, se abanando. — Aff, você é muito estraga-prazeres! Pelo menos eu tentei aprender alguma coisa! Você por acaso sabe alguma coisa de italiano?

— Sei.

— O quê?

— Aprendi a letra toda de Bella Ciao depois de assistir La Casa de Papel.

— Canta aí então pra eu ver!

— Ver?

Lali revira os olhos.

— Que mais que você sabe em coreano?

Ela diz “Meu nome é Lali e eu sou brasileira”.

— Melhorou.

— Agora eu tô focada em aprender inglês, espanhol e italiano.

— Mas não dá um nó na sua cabeça?

— Dá.

A gente ri ao mesmo tempo.

Cómo estás? Sabías que… yo solo me voy a quedar… I’ll only stay for one… Como é que fala mesmo… um ano? É… é…

Então era verdade.

Lali desvia o olhar pra porta. — Deixa pra lá!

— Seu espanhol não tá mais tão ruim, Lali.

— Brigada. Eu… eu…

— Que foi?

— Nada…

Ela arrasta a bandeja na direção do balcão. Caíque está ajudando Fernanda a preparar bombas de soju com cerveja. Os hóspedes e clientes os aplaudem. Lali vira dois shots seguidos.

— Que que tá rolando, hein? — Alice me dá uma cotovelada de brincadeira. — Você e a Lali voltaram?

Jimin ri. — Minha poção funcionou.

Contenho o impulso de empurrar ele na piscina de bolinhas.

— Some daqui vocês dois!

Eles saem, gargalhando.

— Aproveitando a festa, rapaz? — Vinicius dá um tapa fraco nas minhas costas.

— Sim, Seu Vinicius!

Marcelo me cumprimenta com um aperto de mão. — A equipe toda tá de parabéns! A Angeline ficaria muito feliz de ver como o Solaris se transformou.

Sorrio. — Ficaria mesmo.

— Pode curtir bastante, rapaz! Hoje a noite é nossa!

Mexo a cabeça.

Lali me oferece mais canapés. Mordo um com patê de frango e azeitona.

— Muito bom.

Lali limpa minha boca com o guardanapo. Dura um segundo, mas é o suficiente pra deixar minha mão tremendo.

Ela raspa a garganta. — Desculpa…Foi o impulso…

— T-tranquilo…

Jimin nos serve uma bandeja com doses de gin, piscando.

Lali o espera sair pra dizer:

— É… eu… queria te perguntar uma coisa…

— O quê?

— Eu… eu vi você com aquela gringa… Cês… cês tão ficando?

Escondo o sorriso atrás do copinho de gin. — A gente tava.

— Tendi. Eu também fiquei com o Jungkook uma vez… Não deu muito certo…

— Saquei.

— …pena que… que eu gosto de outra pessoa…

Engasgo com o ar.

— Yoongi…

Levanto a cabeça. Os olhos da Lali estão cheios d’água e seu queixo está tremendo.

— O-o que você queria falar comigo? Eu vi sua mensagem.

— Ah, é… É só que…

Eu sou um idiota por ainda gostar de você.

— Eu me precipitei… — Lali funga. — Eu me arrependo amargamente todos os dias…

— Se arrepende do quê?

— De ter falado com a minha família que eu ia embora e que ia ficar um ano direto…

— Você não vai mais?

— Não é isso… É só que… que… se você pudesse prometer que ia esperar por mim… A gente ia voltar… A gente ia voltar a ficar junto, Yoongi… Pena que… que eu estraguei tudo sendo tão idiota…

Meu rosto arde.

Abro a boca três vezes.

Lali aponta pros laços rosas do meu paletó preto. — Quem foi que deu a ideia de customizar o nosso uniforme assim, hein? Ficou horroroso!

— Acho que foram duas pessoas que queriam fazer os colegas passarem vergonha.

— Ei! Era o mínimo depois daquela polo preta básica que o Vinicius fez a gente usar na recepção! Eu e o Jimin arrasamos nessa inauguração, né? Fala a verdade!

Prendo a risada.

— Mas eu… eu prefiro você de gola v marrom listrada — ela diz.

Prendo o fôlego.

Ela volta devagar pro bar.

Volto pro meu posto debaixo da placa.

Se você pudesse prometer que ia esperar por mim…

Voltar a ficar junto…

Junto…

JUNTOS?

Lali passa servindo os hóspedes da minha área.

E para na minha frente de novo. — Yoongi, seu aniversário é segunda depois de amanhã, né?

— É.

— Quer dançar comigo pra comemorar?

— Não… Valeu…

Jungkook apresenta sua banda de rock depois deles finalizarem a terceira música.

— Essa eu vou dedicar pra uma garota que é amiga da nossa banda. Na verdade, acho que ela é amiga de todo mundo dessa cidade. Até rimou! É pra você, Lila Bergamota!

Lila Bergamota?

Lali mostra o dedo do meio pro Jungkook.

Namjoon gargalha junto com o restante da equipe.

Lali mexe a cintura no ritmo da música, sem parar de servir os hóspedes da minha área.

Esbarrando em mim de propósito, ela passa o guardanapo pelo canto da minha boca.

Minhas pernas formigam.

— Tem certeza que cê não quer dançar comigo?

Ela me puxa pra longe dos balcões. A gente atravessa a fumaça colorida juntos. O volume das caixas de som e dos fliperamas diminui.

— Você dança muito mal, Lali.

— Aprendi com você.

— Ah, é? — sussurro. — Fui eu que te ensinei a dançar tão mal assim, é?

— Sim. — Ela encurta o espaço a um centímetro da minha boca.

— L-Lali…

— Sim?

— Você… é leve.

— Eu sei! Eu peso 59. Queria chegar nos 65 pelo menos até final do ano! Por isso que eu tô comendo bastante e fazendo academia! — Ela me mostra o bíceps. — Tá vendo? A mãe tá ficando gigante!

Rio baixo e ela me acompanha.

— A sua energia é leve.

— A sua é pesada.

Paro de beber. — Pesada?

— Você me irrita demais! Tipo… demais mesmo! Parece que eu desci na neve de escorregador, ralei o joelho e depois veio aquela dorzinha gostosa da adrenalina.

— Dorzinha gostosa da adrenalina? Isso… isso é bom?

Lali enrola uma mecha de cabelo. — Não sei… Você acha bom? Acho melhor eu ficar longe de você, né?

Meu sorriso se alarga sozinho. — É-é? Então você quer ficar longe de mim?

Lali deixa a bandeja de canapés na mesa.

Amarra o cabelo num coque.

Cola nossos peitos.

E olha pra minha boca.

A dela está com hálito de limão.

A respiração acelerada.

As mãos quentes grudadas na minha.

Sem que eu pense duas vezes, minhas mãos tocam na cintura dela.

— Olha só como eu gosto de ficar longe de você, gatinho.

Meu peito sobe e desce rápido.

Lali fica a um centímetro de me beijar e recua dois passos.

— Tenho que atender os hóspedes. Fui.

Me escoro na parede, tentando recuperar o ar.

No final da festa, Jimin me belisca.

— AI!

— Bora na Hong’s Mart!

Só pelo sorriso dele eu já sei quem vai estar lá do lado da Alice e da Rosé.

— Eu vou ficar pouco tempo.

Jimin me aperta pelos ombros até a saída.

Na Hong’s Mart, Alice, Lali e Rosé estão enchendo um carrinho com doces e chips. Namjoon tenta acompanhar a conversa do grupo sobre a “noite das garotas”, abarrotando uma cesta com soju.

— Noite dos abandonados. — Ele estica um dedo.

Jimin e eu seguramos a risada.

Lali está de moletom rosa, cabelo bagunçado num coque e zero maquiagem. Quando ela sorri pra mim, eu desço o olhar pro chão.

Misericórdia, que lugar quente! Deviam consertar esse ar-condicionado.

Jimin e Alice bocejam.

— Que que vocês acham da noite dos casais? — Alice diz.

— Bora, boa ideia, princesa! — Jimin ri.

Essa é boa.

Noite dos casais.

Mereço.

Lali cerra os dentes. — Por que cês tão me excluindo?

— O Yoongi não vai se importar de te esperar passar as compras, né, Yoongi? — Namjoon pisca pra mim.

— É, Lali, fica pra próxima, tchau! — Rosé arrasta o carrinho na direção do caixa.

Lali olha por cima do meu ombro.

Rosna.

E se joga num banquinho.

— Cê tá com fome?

Faço que sim com a cabeça.

Lali prepara um ramyeon pra mim e outro pra ela.

Mexo nas correntes do meu uniforme enquanto espero.

Ao comer, Lali bate seu recorde e não diz nada por pelo menos um minuto.

Até que ela solta:

— Foi aqui que a gente brigou pela primeira vez. Cê lembra?

Controlo o engasgo, tossindo.

Tomo um gole do Bong Bong de maçã verde.

— Eu não considero briga — gaguejo —, mas ok.

— Eu te falei muita coisa pesada naquele dia. Desculpa.

— Desculpa também.

A gente volta a comer.

— Sua prima falou comigo na festa.

— Prima?

— A Nina. Ela falou que o Jimin disse pra ela que a gente namorava.

Fecho as mãos ao redor da cintura. — Ela é assim porque comia lixo no lugar do arroz e feijão quando a gente era criança. Abstrai, abstrai!

Lali pende a cabeça pra trás. — Eu vou falar pra ela, tá? A gente pegou o WhatsApp uma da outra!

— Era só isso que tava faltando.

Ando pela Hong’s Mart com dois pacotes de Pepero na cesta.

Lali enche seu carrinho com Melona de banana e manga. Bala de mirtilo. Até sorvete de pêssego e de milho ela enfia no compartimento inferior.

Ela divide comigo no caminho.

— Lali… onde gente tá indo onde mesmo?

— Não sei — digo.

— Cê vai fantasiado de quê no Halloween do Solaris?

— Não sei ainda.

— Tem que ser uma coisa bem assustadora. — Lali faz sinal de vampiro.

— Já sei: vou de bolo. Aí você pode ser o granulado.

— Granulado? Eu sou bonita demais pra ser só isso! Eu tenho que ser a cobertura completa! O glacê! As velas! Os enfeites! Tudo!

Seguro a risada.

— Então… De time? Vou colocar minha camisa do Botafogo!

— Ah, não, não vale! É assustador? É! Mas não tem graça!

— Você tá falando mal do meu time?

— Tô!

— E você tem alguma moral? Você é tricolor, Lali! Que que pode ser pior que isso?

— Ahn… Torcer pro Botafogo?

Cruzo os braços.

— Você tinha que ir de Batman, Yoongi!

— Batman?

— Sim. E eu iria de Mulher Gato.

— Nossa. Jamais passou pela minha cabeça que a pessoa que chamava todo mundo de gato ia vestida desse jeito, acredita?

Lali coloca um pé na frente pra eu tropeçar. — Cala a boca!

Simulo um tropeço e a gente gargalha.

— E que tal… Mônica e Cebolinha?

Imagino uma fantasia impossível de respirar e 70 vezes maior do que a minha cabeça.

— Não.

— Visconde e Emília?

Lali diz “meu sabuguinho” na minha mente.

— Não.

Ela sugere Boto-cor-de-rosa e Iara e só de imaginar meus ombros doem.

— Então… Sol e Lua?

Glitter e mais glitter. Lali me obrigando a tirar 490 fotos. Me chamando de “luazinha”. Me beijando no escuro.

Pra quê você só tá sugerindo fantasia em dupla?

Raspo a garganta. — Sol e lua.

Casamento de viúva. — Lali canta.

Mas não era pra ser “Sol e chuva?”

Lali faz sinal pra eu ficar quieto. — Chuva e sol, casamento de anzol!

— É de espanhol.

Ela entrelaça nossos braços, saltitando pelos paralelepípedos. O cheiro do mar se intensifica e o vento bate forte na nossa pele. Demoro uns segundos pra piscar.

Estamos na frente da pracinha da Camélia.

Como eu vim parar aqui?

— Me empurra no balanço?

Lali sai tonta.

— Me empurra no gira-gira?

Lali sai mais tonta ainda.

Ela tenta subir a escalada e descer pelo escorregador, mas gruda no ferro no meio do percurso.

— Aff! Não dá mais pra brincar direito. Esses brinquedos são tudo sem graça. Sem vida! Eu hein! O Ricardinho devia reformar logo! Eu nem dou pé direito!

— É…Tá tudo enferrujado mesmo — diminuo o tom —, ou talvez você só não seja mais o público alvo mesmo, né?

— Quê? — Ela grita, tentando descer no escorregador de novo. — Não entendi! Fala mais alto!

— Nada!

— Bora na gangorra?

— Tá, né?

Deixo ela presa no alto por quase um minuto.

— Você é um idiota! Me deixa descer!

Eu a solto.

Lali afunda pra trás na areia. Por um segundo, eu acredito na encenação de que ela está mesmo desmaiada, mas ela dá risada e se levanta.

— Cê se machucou de verdade?

— Machuquei! Agora você vai me pagar!

Ela joga areia pra cima.

Escondo o rosto com o antebraço.

— Ai! Ai! Ai!

— Pegou no seu olho?

— Aham!

Lali me segura pelas bochechas. Quase caio pra trás. Seu perfume me faz prender o ar.

— Até quando eu não quero eu te machuco, gatinho.

— E-eu falei brincando.

— Mas eu não.

Antes que eu processe o que ela falou, Lali gargalha. — Canta aquela música do Bruno & Marrone pra mim, gatinho. Eu esqueci a letra.

— É melhor a gente voltar logo pro Solaris.

Lali se senta num banco de frente pro meu.

Para de sorrir.

E diz algo tão baixo que eu juro que é só o barulho do mar por um instante.

— Cê falou alguma coisa?

— Não.

Ela enxuga o rosto e abraça os joelhos.

A gente trava o olhar na areia ao mesmo tempo.

— Gatinho…

— Fala — eu sussurro de volta.

— Cê vai sentir saudade de mim, não vai?

— Vou.

— Eu… eu sei que eu só te machuco, eu… eu só faço merda… Me perdoa… de verdade…

— Acho que eu que era pra tá te falando isso…

— Eu… eu devia ter me controlado melhor, gatinho… Falei muita coisa da boca pra fora… Forcei várias situações só pra você prestar atenção em mim… Mesmo você falando que não queria mais nada comigo… Eu perdi você por burrice… Eu sei que eu vou continuar fazendo merda… Esse é o problema… Por minha culpa, você vai continuar afastado de mim… Eu queria que tudo fosse diferente… Que você me esperasse voltar… Que a gente ficasse junto de novo… Que você ainda gostasse de mim… Porque eu… eu ainda gosto de você, gatinho…

Respira fundo. Devagar. VAI!

— Eu não tava certo, Lali… mas eu também não gostei do jeito que você falou comigo na última vez que a gente discutiu. Eu… eu nunca quis usar você… eu só…

Lali corre pra me esmagar num abraço. Eu a seguro pela cintura, rindo enquanto a minha voz quebra.

— Eu falei que eu sabia como tudo ia acabar sem nem ter acontecido, Lali… Mas se for pra acabar… eu quero que acabe com… com você junto comigo…

— S-sério?

— Eu disse que não queria nada de você, mas… a verdade é que eu quero tudo… Tudo… Mesmo…

Lali esfrega os olhos. Coça os joelhos. Boceja.

E se engatinha na minha direção.

Eu a abraço, rindo baixo.

Lali faz carinho no meu cabelo.

Eu a beijo. Devagar. Rápido. Rápido. Devagar. Tem gosto de sal e caipirinha.

Lali morde meu lábio inferior. Me deixa com o cheiro dela e com o estômago doendo pra caramba. Ela está quente. Tremendo que nem eu.

— Gatinho… — Lali roça nossos narizes.

Sorrio contra o ombro dela.

— Você não tá mais com medo, gatinho? Não… não liga mais se alguém ver a gente? V-você quer ficar comigo de verdade? Voc—

Seco o rosto dela. — Claro que eu quero ficar com você, e claro que eu também tenho medo!

— Você sabe que eu também…

— A gente… a gente pode tentar… Eu… eu quero… arriscar… Eu… eu decidi parar de querer decidir o nosso futuro por você… Eu só tava enxergando o meu lado… Me… me desculpa, Lali…

Ela me abraça, soluçando contra a minha clavícula.

— Ah, Lali… Se você soubesse o quanto me custou pra conseguir te falar isso tudo sem desmaiar, cê não ia tá me sujando todo de base igual cê tá fazendo agora.

Ela me dá um selinho. — O que eu vou sujar vai ser a sua boca de gloss: se prepara!

Lali me deixa sem ar de novo de tanto beijo seguido.

Aperto a cintura dela.

Grudo as costas no banco gelado.

Ela me puxa pelo paletó.

E se separa de mim com a boca vermelha. — Eu prometo que vou te ligar de vídeo sempre que der. Vou até dormir com o seu perfume. Eu não vou te esquecer nunca! Nunca! Você… você vai me esperar mesmo?

Meu sorriso se abre várias vezes. — Vou.

— Promete?

— Prometo.

Lali me rouba um beijo rápido. — Você… sentiu isso com a Caroline?

— Não…

— Nem tem ninguém igual a você, gatinho. Você tem o melhor beijo do mundo!

Mexo uma sobrancelha, prendendo a risada. — Ah, é? Então você já experimentou? Você não tem medo dos germes?

— NÃO!

Ela faz a gente quase cair na areia, me beijando e rindo. — Bora pro nosso lugar, gatinho?

— Agora? É quase duas da manhã!

— É.

— No meio do mato, Lali?

— Leva uma mochila com coberta e travesseiro.

— Pra quê?

Lali faz “shh”. — Leva repelente também. E alguma comida que você gosta. Canga. Vai com uma roupa confortável. Vou levar vinho e minha câmera de Polaroid.

— B-beleza…

— Toma um banho e me espera na recepção, gatinho.

— Tá…

Separo meu cobertor mais grosso e o travesseiro mais macio que eu tenho, uma máscara de dormir pra ela não acordar com os olhos doendo de manhã. Repelente. Carregador portátil. Identidade.

Prenso tudo dentro da mochila e saio.

A bolsa da Lali está quase explodindo de tanta bebida. Até um balde de pipoca com calabresa ela inventa de comprar na sala de jogos.

Lali pede o Uber e cheira meu cabelo. O dela está mais ondulado e molhado do que mais cedo. Brinco com o laço rosa do sobretudo dela.

O Uber estaciona em frente ao Parque Costarenho. Os postes piscam forte. Os grilos cantam.

O caminho até o topo do morro parece interminável nesse frio que trinca a pele. Lali não para de tremer, mesmo colada em mim.

A grama e as pedras estão mais irregulares do que eu me lembrava.

— Cê acha que ainda é uma boa ideia a gente dormir aqui? Amanhã a gente vai acordar sem sentir as costas.

— Eu faço uma massagem em você.

— Vai fazer frio.

— Eu te esquento.

— E aqui de cima é muito alto, Lali. De dia, tudo bem. De noite fica mais perigoso. A gente pode acabar rolando e caindo lá embaixo. Alguém pode aparecer e denunciar a gente por atentado ao pu—

— Você é muito pessimista, gatinho. Relaxa um pouco!

A vista das casas, do mar e do céu me arranca uma risada. — Não dá pra ver nada direito agora, Lali. Acho que não foi uma boa ideia ter vindo aqui. Vamo voltar?

— Não tem?

Lali tira o sobretudo.

Seu vestido é rosa e laranja. Muito rosa. Muito laranja. Tem flores grandes no peito. Babados. Barriga à mostra.

Lali desfaz o nó e o tecido cai como uma cauda longa e meio torta.

A cicatriz no umbigo dela está menor. Menos vermelha.

Abro um sorriso.

— Feliz aniversário adiantado, gatinho. Eu tava guardando esse vestido pra usar numa data especial e surgiu essa oportunidade. Você gostou?

— Sim… Brigado…

— É bonito?

— É.

— Cê faz ideia de quanto eu gastei de tecido? Se eu fosse cobrar de algum cliente, ia ser tipo… 1000 reais! Eu sei que ele ficou meio fubanga, mas você tinha que falar que ele era ex-ce-len-te!

Fubanga? Quê isso?

— Excelente. Esplêndido. Maravilhoso. Perfeito. Deslumbran—

Lali beija meu queixo. — É tudo pra você. Só pra você, meu amor.

Sorrio, coçando a nuca.

Lali monta a canga com travesseiros, cobertor e doces e vinho.

Ela me entrega uma taça cheia até o talo. — Um brinde.

— Brinde de quê?

— Não sei… Eu só queria brindar mesmo! Ai, eu sempre quis falar tim-tim!

Gargalho. — Tim-tim!

Lali passa um dedo pela cicatriz do umbigo dela. — Cê achou feia, né? Cê tá olhando há mó tempão!

— É só que… é legal que cê não tá mais tampando…

Nos deitamos de lado. Quase não tem estrelas no céu. Está bem frio. E Lali está quente demais. Fazia tempo que minha pele não se arrepiava desse jeito. E que meu estômago não doía por causa dessas borboletas malditas.

— Gatinho, eu sou o presente que você sempre quis?

— É.

Lali pula no meu colo e me beija, derrubando as taças e derramando vinho na canga.

Nossas risadas ecoam pelo nosso lugar.

O céu fica mais escuro e o vento mais gelado.

A mancha de vinho ainda está na canga e nossas taças e roupas estão do lado das mochilas.

Lali cheira à melancia, limão e álcool. Quente. Respira devagar e ronca baixo.

Minhas pernas estão dormentes, e ao mesmo tempo, parece que eu dormi por umas 300 horas seguidas.

Me espreguiço em silêncio, me virando pro outro lado.

Lali xinga baixo em italiano e tateia o ar.

Rio.

Ela rola pela grama e gruda a cabeça no meu peito. Seu cabelo está cheio de tufos, nós e folhas que me fazem rir ao tirar.

Ela procura minha mão debaixo da coberta, sem abrir os olhos.

— Bom dia, gatinho.

— Bom dia, gatinha.

Lali aponta pra grama e pras pedras ao redor. — Eu tô quebrada, acho que dormir aqui foi uma péssima ideia.

Me seguro pra não rir.

Ela entrelaça nossos dedos.

Me dá um selinho.

E puxa a coberta mais pra cima.

— Tá frio, gatinho.

— Eu sei. Seu pé tá quase me congelando.

Lali ri.

— Vamo embora, gatinha?

— Ainda não.

— Então tá…

Lali me ajuda a vestir regata e o moletom.

— Deixa eu ver seu celular, gatinho?

— P-pra quê?

— Rapidinho, vai!

Bufo, desbloqueando a tela.

Lali abre a lista de contatos e procura por “Lali”.

Beijo o topo da cabeça dela.

— Aff, cadê?

Ela busca “Chata”. “Tagarela.” “Laranja”.

— Procura na letra G.

— G? Garota? Genial? Gostosa? Ah, não é possível! É o que eu tô pensando?

Lali desce a tela. — Gatinha? Emoji de coração? Ai, que tudo! Quando foi que você mudou?

— Desde… o dia que eu descobri que gostava de você… Em… Brasília…

— Ah! — Lali fica vermelha. — Acho que… que eu percebi que gostava de você quando eu conheci o Duri…

— Sério?

— Aham.

— E o meu nome tá como? — Bagunço o cabelo dela. — Aposto que é alguma coisa com “Insuportável” no meio.

— Nada a ver!

Lali me entrega o celular desbloqueado, mais vermelha do que antes.

Estalo a língua. — Sabia! “Gerente Babaca do Solaris?”

— Desculpa… eu tava com raiva… Vou mudar…

— Tá bom…

Lali altera meu contato pra “애기” e um emoji gato preto.

Ela morde meu mindinho. — Troca o meu também!

— Ai, tá bom! — Configuro o contato dela como “Amore” e um coração laranja.

— Então agora a gente tá junto de verdade? — Lali ri.

— Se você quiser, sim… Eu ainda não tive tempo de comprar o anel, mas…

Lali faz cosquinha na minha barriga. — Finalmente!

— …eu tenho uma outra coisa…

Lali bate palmas, se ajoelhando. — O quê? Cadê? Deixa eu ver!

Tiro o par de chaveiros de maracujá de crochê da mochila.

— Ahn?

— Eu fui no Museu das Sementes um dia desses e… Nem sei porque eu comprei, mas… Acho que no fundo… Eu tinha a expectativa de que—

Lali me abraça.

Se afasta de mim.

E ri. — Eu também comprei!

— Comprou?

— Eu… acho que eu também tinha essa mesma esperança que você, gatinho…

— Desculpa ter jogado tudo fora… A máscara de gato que você costurou pra mim… As fotos… Tudo…

— Desculpa eu por não ter devolvido a sua Havaiana.

Gargalho. — Isso eu não vou perdoar! Eu usava elas em todo lugar e fiquei sem poder usar por sua culpa!

— Cê não vai me perdoar?

Lali me dá vários selinhos até a gente cair de lado.

— Tá, tá. Eu perdoo!

— Olha o lado bom, gatinho: agora a gente tem quatro chaveiros, e pode tirar mil fotos! Você pode me dar outro buquê. Um anel. E muitos, muitos beijos pra compensar!

Lali rola comigo pela grama, mordendo minha bochecha e enchendo meu cabelo de folhas e terra. Tudo que eu faço é rir e beijar ela de volta.

— Agora me fala suas condições!

— Condições?

— É! Não é possível que você não vai reclamar de nada!

Bufo. — Acabou a minha paz, Senhor.

Lali tira um caderno da mochila e me entrega uma caneta vermelha.

— Pra quê isso?

— Pra você escrever!

— Tá… Deixa eu pensar…

— Não vale bizoiar o meu! — Lali esconde o caderno com um cotovelo.

— Eu nem olhei!

— Sei…

Depois de meia hora, Lali lê as minhas condições:

“Não quero discutir coisa séria pelo telefone.”

“Não gosto de dormir brigado.”

“Quero tomar café da manhã com você todo dia, mesmo se a gente tiver brigado um com o outro.”

Ela levanta a cabeça. — Por quê?

— Ah… é que… eu queria fazer alguma coisa diferente…

— Dos seus pais?

Engulo a seco.

Lali continua lendo:

“Não visite a minha família sem me avisar bem antes.”

“Não mexa nas minhas coisas sem eu saber.”

“Não poste vídeos ou fotos de mim sem me avisar.”

— Avisar. Avisar. Avisar! Aff! Isso é medo da sua família gostar mais de mim do que de você? Ou… medo de ficar feio na foto? Fica tranquilo: eu uso filtro! Se bem que você nem precisa, né, gatinho?

Paro de piscar.

Lali lê, rindo:

“Não faça festas surpresas pra mim.”

Ela quase assopra a folha do caderno. — Ah, não! Que saco!

— Termina de ler, Lali!

“Não espere eu adivinhar o que você tá pensando ou sentindo. Me diga.”

— Olha quem fala!

— Foi justamente por isso que eu escrevi.

“Não faça planos malucos sem me avisar.”

— Oops. — Ela aponta pra canga cheia de doces.

“Não fique brava se eu sumir por uns dias. Eu provavelmente tô estudando ou trabalhando demais. Ou só quero ficar na minha.”

Lali deixa o caderno em cima da canga. — Aff! Era pra ser passeio romântico de barco com champanhe e um buquê enorme… saltar de paraquedas juntos… deixar eu usar a sua blusa no frio… ter um Instagram de fotos fofas de casal… Você tirou toda a graça de namorar!

Aperto as bochechas dela, rindo. — Então termina comigo!

Lali me mostra a língua.

Dou um selinho nela. — Agora eu vou ler as suas.

Paro a cada dois segundos pra corrigir mentalmente os erros de escrita dela:

“A gente vai viajar pelo menos uma vez por ano.”

— Ahn? Uma vez por ano?

— É! Continua lendo!

— Mas com que dinheiro?

— Não precisa ser pra fora do Brasil, gatinho! Pode ser pra alguma cidade aqui perto tipo Guarapari!

— Perto? Guarapari é umas 12 horas daqui, Lali! No mínimo!

— Foi pra lá que… que os meus pais viajaram um mês antes de eu nascer… Tinha várias fotos deles no meu carro… Se eu não tivesse perdido ele… ia poder te mostrar agora…

Deslizo uma mão pelo cabelo dela.

— Eu queria ir lá só uma vez… nem que fosse só pra tirar uma foto e voltar… Sabia que com ID Jovem é tipo uns 30 reais?

Solto o ar devagar. — Tá bom. Viagem todo ano. Eu aceito. Mas só se a gente se organizar financeiramente bem antes.

— Ok. Agora para de enrolar.

“Se a gente começar a ver uma série junto, tem que terminar junto”.

“Não pode esconder comida um do outro.”

Rio da próxima condição:

“A gente vai beijar na boca todo dia”.

— Mas se a gente tá namorando… isso não é óbvio, Lali?

— Tem casal que para depois de um tempo.

É. Realmente.

— …pelo menos é o que eu vi nas novelas.

“A gente vai cozinhar um pro outro pelo menos uma vez no mês.”

— Quê? Não! Essa condição eu não aceito, Lali!

— Por quê?

— Você cozinha mal demais!

— Cozinho nada!

— Cozinha sim!

— Então eu vou fazer o quê?

— Troca essa condição por outra.

— Mas qual?

— Talvez… ir uma vez por mês comer num restaurante diferente?

Lali bate palmas. — Ai, eu amei! Uma vez você paga e na outra eu! Aí uma vez é um lugar caro e o outro barato e—

— Tá bom, Lali!

— Falando nisso… Você me deu uma ideia! A gente tem que encontrar um lugar só nosso em cada viagem!

— Quê? Eu não vou ficar subindo morro, Lali!

— Pode ser só uma padaria, sei lá! Aí você toma seu café sem açúcar em paz!

Faço cócegas na barriga dela. — Chega, né?

— Faltou só a última condição que eu não escrevi.

— Qual?

— Fazer uma lista de quem vai limpar o quê.

— Como assim?

— Deixa pra lá. Vai demorar ainda!

— Fala. — Volto a fazer cócegas nela.

— É pra… pra quando a gente for morar junto, gatinho!

Arregalo os olhos. — M-morar junto?

— É. A gente vai casar um dia, né? Eu acho…

— Cê tá me zoando, né? Tem dois minutos que a gente começou a namorar, Lali!

— Eu vou casar com você daqui a uns… sete anos, gatinho.

— Sete?

— É… Você… toparia morar comigo? Eu… quero morar com você numa cidade grande… tipo São Paulo… A gente já vai ter se formado na faculdade… Você vai ter o seu escritório… E eu o meu ateliê… Vou levar matchá dia pro trabalho e fazer café pra você… Engasgar com a fumaça da rua… Reclamar do metrô lotado… Adotar um irmão pro Duri… Comprar um Gol… E depois… depois a gente vai vendo…

Lali boceja.

— Mas não era você que não gostava de planejar nada, Lali?

— É, mas agora eu quero porque é com você!

Minha cara arde.

— Cê nunca tinha imaginado nada do que eu falei?

— Não.

— Como você é mentiroso, Yoongi! Eu duvido! Logo você? Que pensa demais?

Fico por cima dela, fingindo que vou começar um beijo. — Pra quê eu ia mentir?

Lali olha pra minha boca e circula os dedos nos meus bíceps.

Minha cara queima de novo, e eu volto pro lado dela.

Lali estica a coberta. — Amore…

— Ahn…

— Se o Solaris não existisse, qual era a chance da gente ter se conhecido?

— Não sei.

— Você acredita em destino?

— Não.

— E em coincidência?

— Depende.

— Você ia ser a minha!

— Sua?

— É… Porque mesmo se… mesmo se eu não tivesse te conhecido no Solaris… eu… eu ia esbarrar em você numa balada…

— Eu quase não vou em balada, Lali. Então a probabilidade ia ser menos de 1%.

— Deixa eu terminar!

— Tá…

— Ou eu ia sentar do seu lado no 636 mesmo se tivesse vazio!

— Isso é inconveniente pra caramba, cê sabe disso, né? Se tinha um monte de cadeira vazia, pra quê você ia fazer iss—

— Mas eu ia!

— Eu ia ter levantado porque você fala demais!

— Mesmo assim!

— Por quê?

— Sei lá… Acho que… é porque ia continuar sendo você… Eu ia te ver e te perguntar se você tinha roubado toda a beleza de Costaré…

Rio pelo nariz. — Você me chamou de gato na primeira vez que a gente se viu. E olha que você tava inconsciente. Então não me choca.

— Mas pra quê quê que eu ia mentir? Você é gato, ué!

Bato os dedos na calça.

— Eu amei dormir aqui com você no nosso lugar, gatinho.

— É. Eu, você e os pernilongos. Foi excelente. Maravilhoso. Incrível. Deslumbrante. Esplêndi—

— Cê vai ficar me zoando agora, garoto? — Lali cutuca minhas costelas.

A gente ri.

— Me empresta seu celular, gatinho!

— Ih, começou!

— É rapidinho.

Ela tira uma selfie sozinha, jogando beijo pra câmera. — Linda sua namorada, né? Pode colocar no seu papel de parede e na tela de bloqueio.

— Não.

— Você nunca vai aprender a brincar, Yoongi.

Respiro fundo.

— Deixa pelo menos eu mudar a bio do seu Instagram então! Não precisa colocar meu nome, só um cadeado e uma aliança!

— Isso é brega demais.

— Então eu vou ser cafona com orgulho! — Lali ri.

Ela coloca um emoji de gato preto na bio dela seguido de um cadeado e uma aliança.

— Pronto.

Lali deita no meu colo e seus fios dourados brilham contra o meu rosto.

A respiração dela está pesada de novo, e ela solta no meio de um bocejo:

— Mesmo se eu comesse todas as graviolas do mundo, como eu poderia saber se elas não iriam me engasgar? Quero ser sua agulha, me dê seu coração de linho puro e o seu verdadeiro amor!

— Cê não mudou nada, né?

Rio pelo nariz. — Jagiya…

Coloco uma foto dela dormindo no meu colo como papel de parede e tela de bloqueio.

Um emoji de coração laranja na bio do meu Instagram.

E fecho os olhos.

Estou no 13° sono.

Meu celular apita.

Minhas mãos tremem.

O brasão de Costaré brilha na foto de perfil.

Desço os olhos pela mensagem.

O CPF da Lali.

O endereço da Delegacia do Centro.

O número de identificação do carro roubado.

“ESSA MENSAGEM É AUTOMÁTICA.

POR FAVOR, NÃO A RESPONDA.

Prezada, LALI CARVALHO BERGAMASCHI,

seu veículo foi localizado e recuperado e encontra-se disponível para restituição no PÁTIO DO DETRAN-COS. Para informações complementares sobre a restituição ao portador, compareça à Delegacia de Polícia responsável pela ocorrência, munida de documento de identificação com foto.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.