Anything But Ordinary

23 Alguém salve a minha vida


CHECO MEU CELULAR. Nada do Yoongi me responder. Ele inventou da gente sair às 9, mas já são 8 e meia, e cadê ele?

Dou play nos meus áudios outra vez.

“Yoongi, acabei de ver um vídeo de cachorrinho muito fofo, bora adotar?”

“A gente vai usar roupa combinando hoje, né? Parte de cima laranja, jeans embaixo e tênis branco”

“Tá frio aí fora? Você acha que eu posso ir sem moletom?”

Meu celular apita quatro vezes e “애기” brilha na tela.

“Que legal”

“Não tenho dinheiro”

Tá calor”

Ele me liga. — Cadê você, amore? Tô aqui fora te esperando.

Minha barriga dói. — Ai, ainda não me acostumei com você me chamando assim, gatinho!

— Para de enrolar, Lali!

— Lali? Só de raiva, eu não vou mais!

Corro pra entrada do Solaris. Yoongi está encostado na moto, de T-shirt laranja, jaqueta de couro preta e tênis branco.

Dou passos lentos na direção dele, tentando não fazer barulho e farejando o ar. Yoongi está assistindo a uma reportagem do Bom Dia, Costaré no celular. Seu perfume me faz querer pular no colo dele, assustar ele, beijar ele.

NOVOS VEÍCULOS SÃO APREENDIDOS NA OPERAÇÃO ECO E TRAZEMOS ATUALIZAÇÕES NESTE SÁBADO, 25 DE OUTUBRO

Durante a Operação Ressonância neste sábado, 490 veículos com sinais de adulteração e restrição de furto e roubo foram identificados e apreendidos.

O Delegado da Polícia Militar de Costaré falou com a nossa equipe.

Ele aparece na tela no meio de um pátio.

— Nós fiscalizamos cerca de 560 veículos nos últimos meses com a colaboração de toda a equipe policial de Costaré e do Detran. Usamos equipamentos tecnológicos para identificar as clonagens nos chassis e nas placas. Nosso objetivo é seguir combatendo essas quadrilhas e fortalecer a segurança da nossa cidade.

— Vamos ouvir agora o depoimento do Seu Joaquim, que teve seu carro guinchado há cerca de quatro meses após deixá-lo estacionado enquanto fazia compras na Mercearia da Dona Maria, no bairro Goiabeiras, região Metropolitana de Costaré.

— É um abuso isso! Pra quê esse monte de lei e esse tanto de imposto? Chamaram o guincho pra mim e ninguém responde no WhatsApp do pátio do Detran, não te dão informações pra você conseguir recuperar o próprio carro que você levou décadas pra quitar! Eu tava indo buscar minha mulher no Pilates e deixei uns minutos na vaga de cadeirante, e daí, qual o problema? Parece que logo nesse dia a polícia resolveu trabalhar!

Yoongi bloqueia a tela do telefone.

Tapo seus olhos. — Oi, oi, é o amor da sua vida!

— Ah, eu não sabia que Star Wars era uma pessoa, achava que era uma saga!

— QUÊ?

Faço Yoongi tirar o capacete e o pendurar no guidão.

— Amor da sua vida? — Deixo Yoongi sem ar com meu beijo, puxando sua jaqueta de couro. — Pede pro amor da sua vida te deixar assim!

Yoongi põe uma mão na boca. — Meio impossível…

Forço um bico. — Eu tô brava, mas tenho que te entregar o presente mesmo assim!

— Presente?

— Não vou sair de dentro de um bolo e nem postar vídeo de você no meu TikTok, relaxa!

Yoongi prende a risada. — É o quê, então?

Tiro o quebra-cabeças da mochila.

— Um quebra-cabeças do mapa de Costaré recomendo pra crianças? Eu vou fazer 20 anos amanhã, Lali, não 12!

— Mas eu tô ajudando a promover o turismo, ué! E você tem uma coleção de quebra-cabeças no seu quarto! Eu achei que você ia gostar!

Ele guarda o presente no baú. — Obrigado.

Minha cara arde. — E… tem mais uma coisa…

— Já sei: cê vai soltar fogo de artifício com meu nome, né?

— Poxa, essa sua ideia foi melhor que a minha! Como que eu não pensei nisso?

— Anda logo, Lali!

— T-tá bom! Só… promete que não vai rir porque eu… não sei fazer isso direito ainda!

Yoongi balança a cabeça. — Prometo.

Com os dedos tremendo, ergo a cartinha pra ele.

Yoongi segura o papel rosa cheio de corações laranjas. — É pra eu abrir agora?

— Sim.

Ele lê “Feliz aniversário, Yoongi” escrito em Hangul em voz alta, sorrindo.

— Valeu.

Os olhos dele travam em “보고싶어라”.

— Gostou?

Yoongi tosse forte depois de “자기야, 너무 사랑해.”

— Cê tá bem?

Ele me abraça pela cintura com as mãos pegando fogo.

— Gatinho… Cê tá bem mesmo?

Yoongi se agacha pra abrir o baú da moto.

— Bora? — Ele raspa a garganta e me entrega o capacete.

— Cê não gostou, né? Minha caligrafia ficou ruim? Eu ainda não sei escrever direito, desculpa se ficou muito tremido!

Yoongi sorri pelo retrovisor. — Gostei. É só que… eu não tava esperando.

— Pra onde a gente vai, já que você fez questão de micar a minha festa surpresa e não me deixou escolher o lugar?

— No cemitério pra comemorar o aniversário da minha paz já que ela morreu no dia que eu te conheci.

— Ah, vai te catar! — Gargalho, afivelando os cintos no queixo. — Sua vida ficou muito melhor depois que você me conheceu, garoto!

— Garoto? Mas não era amore?

Mostro a língua pra ele.

O caminho de estrada de chão é cheio de curvas esquisitas e moitas mal-aparadas.

— Que cemitério longe, eu hein! Ou isso é um presídio?

Os carros se enfileiram na porta do que parece ser um galpão metálico azul-claro. Os muros são cheios de cercas elétricas, e têm um monte de seguranças na porta. A placa amarela diz “ESTADIA E REMOÇÃO DE VEÍCULOS”.

Yoongi atravessa o portão enferrujado. Tiro o capacete e o espero do outro lado na fila. O cheiro de ferrugem é forte, tem etiquetas penduradas em retrovisores, vidros riscados em laranja com números de telefones e nomes e sobrenomes.

— A gente veio aqui pra quê? É pra…

Yoongi segura minhas mãos e anda comigo pelo pátio. Os carros estão amontoados um em cima do outro, alguns sucateados, outros em perfeito estado, sem ordem certa. Tem pneus de motos jogados pra todo lado, funcionários ajudando pessoas a encontrarem seus veículos, policiais checando compartimentos e colocando pertences dentro de envelopes.

Meus olhos paralisam numa placa. O tom azul-esverdeado do carro está mais fraco, a tinta toda desgastada. Um dos retrovisores quebrou.

Meu coração bate tão forte que eu solto a mão do Yoongi e tropeço numa ferramenta.

— Merda.

Yoongi se agacha e toca nas minhas bochechas, secando as minhas lágrimas.

— Foi pra isso que você falou pra gente vir aqui?

Ele balança a cabeça.

Eu o abraço. — Brigada.

Yoongi beija minha bochecha e me abraça ainda mais forte.

— Eu não acredito que você fez isso, Yoongi! Você é doido! Era pra gente comemorar o seu aniversário!

Ele ri. — Mas eu nem fiz nada. Olha pra cima.

Uma figura alta sai de trás do carro e me ajuda a levantar junto com o Yoongi.

— Lali?

— T-tio Leandro?

Chuto que agora ele deve ter uns 45 pelas bolsas nos olhos, os cachos grisalhos e a pele manchada de sol. Nem parece que o Papà tinha a mesma idade dele.

Imaginar meus pais com 40 anos me faz sorrir.

O terno do Tio Leandro é o mesmo do dia em que eu saí da Casa Jovem: azul-marinho, apertado nos braços largos e meio amarrotado.

Eu o abraço. — Você conseguiu o carro do Papà de volta, Tio Leandro? Brigada! Brigada! Brigada!

— Seu pai me pediu pra lutar até o fim por isso, e foi isso que eu fiz, Lali. Ele era só um garoto, igual você é agora. Fico feliz de ter ajudado a realizar um sonho dele. Sinto muito, mas vai ter que entrar em leilão.

Meu queixo treme. — Eu já não tinha muita esperança mesmo… Mas… por quê você fez isso, Tio Leandro? Você nunca ganhou nada com isso, e eu nunca vou conseguir te pagar! Nunca!

— O Jacopo comprou esse carro logo quando casou com a Bia. Ele ia ser a sua herança. Foi a última coisa que ele conseguiu comprar com o dinheiro que ainda tinha dos pais.

— Ahn?

— É. Eu e a Amanda fomos os padrinhos deles. Foi ele que costurou o meu terno, e ele nunca me cobrou nada. Eu jamais iria cobrar um centavo sequer de alguém que fez tanto por mim.

— Mas—

— Quando a gente se conheceu naquela viagem pro Rio em 2006, eu só queria curtir. Tava frustrado que o Brasil tinha perdido e acabei encontrando o seu pai lá. Eu jurei que ia torcer pra França se ferrar muito. Ele até me chamou pra passar férias em Milão, disse que pelo menos o Brasil continuava sendo penta. Foi uma loucura aquela viagem.

Tio Leandro ri, mas seus olhos ficam vermelhos a cada palavra. Não contenho os soluços e Yoongi faz carinho nas minhas bochechas molhadas.

— E-eu não sabia de nada disso.

— Eu lembro de tudo. Até de te buscar na creche no primeiro dia de aula. Era dia 22 de fevereiro. Você subia a escada de dois em dois degraus, pulando, e quando viu o Jacopo indo embora, começou a chorar. Quando a gente foi te buscar, você disse que tinha feito quatro amigas. Continuou descendo de dois em dois degraus, pulando. Seu pai ficou com muito medo de você cair, mas você não deixava nem a gente pensar direito, falava sem parar que queria sorvete de maracujá, ir no Trombini, um vestido laranja de flores, uma Polly nova, dava “boa tarde” pra todo mundo na rua, e ria quando eu te chamava de vereadora…

Tio Leandro tira uma foto do bolso. Estou dentro do carro do Papà, no banco de trás do lado de uma mulher de pele bege-escura, cabelo liso e blusa azul da Seleção. Parece a Copa de 2014 pelos meus pompons verde e amarelos e tinta na cara.

— Você se lembra da minha esposa Amanda? Aqui você devia ter uns… 7 anos, por aí. Foi antes de… tudo. Foi ela que te deu toda a sua coleção de Polly de presente, e que te arrumava pra escola quando o seu pai não conseguia.

— Sério? Eu… juro que eu queria lembrar dela… Me desculpa por não conseguir!

Seguro a vontade de perguntar onde ela está.

— E fui eu que tirei essa foto, um pouco antes do 7x1. A gente tava indo pra Guarapari pra ver o jogo, finalmente tínhamos conseguido tirar o seu pai do quarto. Ele quase não saía. As peças dele ficaram cada vez piores, ele não conseguia mais produzir nada. A gente sabia que uma hora ou outra, ele ia… ia partir…

Um soluço escapa de mim.

— Hoje eu sinto a dor dele porque eu também perdi o amor da minha vida. A Amanda ficou muito mal depois da gente ter tentado te adotar.

— M-me adotar?

— Eu jurei que eu ia conseguir, Lali. Pela memória do meu melhor amigo e da minha amada esposa, mas a sua Tia Margot me ameaçava, dizia que não.

— Como assim?

— Ela dizia que ia me acusar de assédio se eu tentasse, jogava na minha cara que só porque eu tinha dinheiro, eu queria humilhar uma mulher pobre. Uma vez eu perdi a cabeça porque ela falou um monte de coisa, que seu pai se vitimizava, que ele nunca teve depressão, que a Amanda nunca ia ser sua mãe, e eu ameacei ela de processo. Ela gritou e disse que ia tirar a própria vida se eu tirasse o único resquício que ela ainda tinha da Beatriz: você.

Meu queixo treme de novo. — E… e você acreditou nela?

— Sim. Quando eu descobri que ela nunca nem rentou ir atras da papelada, você já tava adolescente. Eu morria de vergonha. Foi por isso que quando eu te vi no dia que você saiu da Casa Jovem, eu nem te olhava direito.

Tudo que eu faço é dar um abraço no Tio Leandro. Ele também soluça.

— Se tem uma coisa que eu tenho certeza, é que o seu pai ia ficar muito feliz, Lali. Você se tornou uma mulher linda. Trabalhadora. Cheia de sonhos. Você tem o mesmo astral dele. A mesma vontade de continuar vivendo, apesar da dor. A Beatriz também ia morrer de orgulho. Ela falava que você era a maior felicidade que ela já teve na vida.

Tio Leandro me entrega um envelope. — Tava no porta-luvas.

— As fotos de Guarapari! Tá tudo aqui! Eles… eles não roubaram, Yoongi!

— Eles levaram os estepes — Tio Leandro diz.

— Acharam eles?

— Não, eles fugiram e abandonaram o carro na BR-101. Pode entrar.

Devagar, me sento no banco do passageiro, me esticando até o do motorista. Puxo o porta-luvas. Passo os dedos pelos retrovisores. Pelos bancos. Esfrego os tênis no tapete. Respiro fundo.

— Quanto tempo eu posso ficar aqui dentro?

— 10 minutos.

— Ok.

Tio Leandro se afasta.

Yoongi se senta me puxa pro colo dele, ligando o YouTube Music no rádio. Demoro um segundo pra reconhecer a melodia de Anything But Ordinary e volto a chorar.

— Ninguém vai aparecer, Lali. Dorme.

Me deito no colo dele, recebendo seu cafuné que me faz pegar no sono.

Imagino meus pais ouvindo música enquanto viajam. Com a Tia Margot. Sozinhos. Só comigo. Na minha infância. Na adolescência. Hoje.

Como ia sido a minha vida com a Tia Amanda e o Tio Leandro? Uma vida de…

Amor?

Eu sou…

O resquício dos meus pais?

Um fragmento da dor da Tia Margot?

Eu não quero ser nada disso!

Minha língua fica ainda mais salgada e minha visão embaça.

Tudo está escuro quando surge uma escada de madeira que parece a da Casa Jovem. Estou com a mesma aparência e idade do dia que entrei lá: uniforme largo rosa-claro com borboleta lilás na manga, calça jeans e tênis branco de velcro. Cabelo lambido preso num coque que machuca a cabeça.

As vozes das crianças me seguem degrau a degrau pelas escadas. Desço devagar, e o som diminui.

Puxo a xuxinha com força. Meu cabelo cai nos ombros, dourado e suado.

Continuo descendo. Degrau a degrau.

No final da escada, tem um quarto inundado por água cor de cristal como se fosse uma piscina muito rasa.

Um homem aparece: loiro de cabelo ondulado, alto e sorridente. Ele deve ter uns 40 anos.

Um segundo depois, minha boca se abre.

— Papà? — Minha voz ecoa alta. — Sei tornato?

Piso na água e ela bate na minha barriga, mas continua só na altura dos pés dele.

— Dammi quello che è mio, figlia.

Mergulho. Tem um relógio velho agarrado na areia. Depois de algumas tentativas, volto à superfície.

Papà segura o relógio e recua um passo. Mamãe, com a pele tão dourada e roupas tão brancas quanto as dele, sorri largamente pra mim. A água bate na altura dos joelhos dela e ela está mais velha do que nas fotos.

— Me dá o que é meu, filha. — Sua expressão fica séria.

Mergulho outra vez e trago comigo uma boneca de pano até a superfície.

Mamãe a abraça.

Baixo a cabeça. — Bença, mãe. Bença, pai.

— Riposa, figlia mia. Dormi bene!

— Obrigada, filha! Agora suba devagar, meu amor!

Suas vozes fazem mais eco do que antes.

Quando me viro, meus olhos param numa máquina de costura presa no fundo da água, azul-marinho, cheia de rachaduras douradas.

Uma música toca.

Tento mergulhar, mas as notas musicais flutuam e me envolvem. Eu afundo. Meu cabelo agarra na areia.

Uma mulher me ajuda a voltar pra cima. Sou eu nos tempos atuais, sorrindo pra minha versão de nove anos.

Puxo o fôlego. — Sei tu?

— Só… respira — minha versão adulta diz.

— Sei bellissima…

Minha versão de nove anos me dá um beijo na bochecha e nada pra longe junto com os meus pais.

Chego à superfície.

Seguro a máquina e apoio o corpo no último degrau da escada.

Me levanto, seca.

A máquina não está mais rachada.

Uma borboleta laranja encosta na minha bochecha esquerda.

Subo as escadas correndo com a máquina nas mãos e os passos tortos.

Levanto do colo do Yoongi com um salto. Por um triz, não choco a testa contra o volante.

— Que foi, Lali? Cê tava até babando!

— Eu acabei de ter um sonho muito estranho…

Yoongi passa os braços pelos meus ombros e me deixa chorar no peito dele.

No Solaris, Yoongi leva o Duri pro meu quarto e eles dormem na minha cama. Tiro uma foto.

Reabro o álbum de memórias do Papà que a Nonna me enviou.

Nonno fazendo biscoitos de gengibre Natal em 1998.

Papà e Tio Leandro fazendo sinal de hang loose em Ipanema.

Papà me segurando no colo logo depois do parto.

As cartas dele me deixam sem ar.

Febbraio dodici, 2014.Descobri uma palavra nova em português essa semana. “Feitio.” Nunca foi do meu gostar de metáforas e nem de analogias. E cá estou eu, que sempre tive alergia à coisas de gente inteligente e chata, escrevendo essa carta. Acho que adquiri esta alergia ao longo dos anos. Mas foram estes anos onde eu experienciei o melhor dos amores e das belezas. Eu odeio a solidão. O que é beleza? Onde ela está, afinal? Quando finalmente irei amadurecer? Quando tudo parará de doer? Quando finalmente poderei respirar? Qual o ponto de continuar vivendo se tudo o que faço é sangrar? Qual o ponto de habitar nesta galáxia cheia de estrelas se eu vou me apaixonar pela Lua, se eu não consigo evitar todo o calor que o Sol tem pra dar? Qual o ponto de escrever todas essas palavras que minha cabeça diz que são ridículas, mas meu coração julgam bonitas, se no final eu vou virar pó? Ninguém vai ler essa porcaria.Talvez ter esperança tenha sido a forma que a minha alma encontrou de não apodrecer.

Enxugo o rosto.

Abro o exercício da Tatiane em PDF e passo as perguntas pro caderno.

Solto o ar devagar e tento escrever alguma coisa.

“Eu me pareço com os meus pais”No sorrisoNa personalidadeNos sonhos“Eu sou diferente dos meus pais”Na quantidade de amigos que eu tenho“Eu perdoo meus pais”Por eles terem ido embora“Está tudo bem eu me sentir”ConfusaPresaCom ódio“O que eu não quero mais pra minha vida é…”SofrerDesistirPensar em abandonar meus sonhosRepita em voz alta:“Eu sou uma pessoa diferente dos meus pais”“Os erros deles não me definem”“Eu vou fazer diferente”“Escreva algo que você gostaria de dizer pros seus pais e releia sempre que tiver precisando relembrar o porquê de você estar aqui.”

Meus dedos tremem. As pernas. Os olhos. Minhas vistas ficam cada vez mais embaçadas, mas eu me esforço pra continuar:

Papà,Mamãe,Me perdoem por ter sentido raiva durante todos esses anos, eu sei que não foi escolha de vocês me deixar aqui. Eu nem sei se existe um céu ou um paraíso onde a gente vai se encontrar um dia, se eu vou poder ver vocês de novo e falar isso tudo pessoalmente, mas obrigada por terem me dado a vida. Eu sempre vou honrar o nome de vocês.

Soluço tão alto que o Yoongi se mexe e resmunga “ahn?”, mas não acorda.

Duri sobe na bancada e me cheira, ronronando. Faço carinho nas orelhas dele.

Desenho um vestido engana-papai, com muitos babados e estampa que parece água de verdade com alguns detalhes dourados que imitam rachaduras.

Abro meu e-mail.

Nonna Elena, Nonno Carlo, Zio Francesco, Zia Margherita e Mattia, eu sei que talvez vocês não vão me entender. Talvez vão me odiar, mas eu preciso desabafar.Eu não vou mais pra Milano em dezembro. Eu não consigo fazer isso agora. Não dá. Não posso perder meu nome. Meu sonho. Quem eu sou. Costaré é a minha vida. Eu agradeço pelas oportunidades que vocês me ofereceram, e por todos os presentes que vocês me mandaram. Se vocês quiserem, eu até devolvo tudo. Todo o dinheiro, os tecidos, as roupas, tudo! Até pago os juros das passagens se não der pra cancelar, mesmo se precisar de parcelar! Eu vou fazer de tudo que estiver ao meu alcance pra ver vocês daqui a alguns meses, vou atrás de toda a papelada aqui do Brasil mesmo, não precisam se preocupar em me ajudar, eu me viro! Obrigada mais uma vez. Eu espero que vocês me entendam. Desculpa se aparecer algum erro aí na tradução, não me culpem, culpem o tradutor robozinho!

Beijos,

Lali.

Viro pro Yoongi, ainda roncando. Meu sorriso se alarga sozinho. Mal posso esperar pra te contar a novidade, gatinho! Meu coração é brasileiro sim! Eu vou ficar aqui!

Mordo os lábios, descendo o olhar pros tecidos Bergamaschi. Toco o cetim e o linho brancos.

Yoongi se levanta, cambaleando.

— É, Duri, até aqui você me trai, né?

Duri continua dormindo na minha bancada.

Yoongi me dá um beijo na testa e se senta do meu lado. — Você tava chorando?

— Não…

— Sei…

— Yoongi… Esse vestido ficou bonito?

Ele mexe a cabeça.

— E você acha que seria roubo usar os tecidos da minha família?

— Oxe, mas cê faz parte dela, não faz?

— Faço, mas é como se eu tivesse pegando uma coisa que não é minha sem autorização.

— Mas eles te deram de presente, então você pode usar.

— Eu também pensei nisso, mas…

— Mas? Não é roubo.

— Eu tenho medo de usar, misturar com meu estilo e ficar uma bagunça.

— Você não vai saber se não tentar. Quer que eu te espere?

— Quero.

Aproximo as cadeiras da máquina. Deixo os tecidos na bancada.

Yoongi coloca a cabeça no meu ombro.

— Esse é o seu jeito de me “esperar”?

Ele segura minha cintura e me dá vários beijos na orelha e no ombro, terminando na bochecha. Tento não sorrir, não me arrepiar e me concentrar na bancada.

— Isso não é justo, gatinho. Você tá me distraindo!

— O quê? Você é quem tá se distraindo sozinha, poxa!

Coloco as mãos na nuca dele e o encho de selinhos. — Mas eu não consigo parar de te beijar quando você tá perto de mim desse jeito.

— É só beijar, ué!

— Mas e o meu vestido? Assim eu não vou conseguir costurar nada e vou ficar só te beijando!

Ele se afasta de mim. — Então costura, não beija.

— Chato. Vai estudar que você ganha mais, garoto!

Yoongi torce o meu nariz de brincadeira. — Nem me fale, eu tô tentando aproveitar ao máximo hoje porque tudo volta ao normal amanhã.

— É. Imagina trabalhar no dia do seu aniversário, que barra!

— Eu não ligo pra isso. Tô mais preocupado com o vestibular. E também porque eu não gosto de trabalhar domingo, parece que o dia não passa nunca.

Duri mia pra nós.

— Não fica com ciúmes da mamãe, filho! — Afino a voz.

— Mamãe? E desde quando gato sente ciúme? Isso é puro instinto, Lali. Ele só tá marcando território, e faria muito mais sentido ele me marcar do que te marcar e—

Duri mia de novo, cheirando minha jaqueta. Vira de barriga pra cima depois de receber meu carinho no queixo, espalhando seu pelo preto na bancada e nos tecidos azuis-claros.

— Gato não sente ciúmes mesmo, né, filho? Você puxou o seu papai Yoongi! Você tá acabando com a seda da mamãe, mas a mamãe não vai ficar brava com o meu lindo!

Yoongi só fica rindo e me dá uma ajuda minúscula firmando os tecidos na bancada.

— Queria ir pro seu refúgio.

— A gente ainda pode ir, mas você vai ter que dividir o espaço com mais uns 350 clientes.

Faço uma careta. — Aff, seu estraga-festas, estraga-prazeres, estraga-humores!

Yoongi me faz cócegas e cai do meu lado na cama.

Bocejo. — Cê sente saudades da Angeline?

— Sinto.

— E do Solaris de antigamente?

— Também.

— E da época que a gente se conheceu e você fingia que eu era insuportável, você sente?

Ele quase fecha os olhos. — Fingia? De onde você tirou que eu só fingia?

Aperto suas bochechas.

O belisco sem colocar força.

E mordo seu cotovelo.

— AI!

— Tô marcando meu território. Vai que alguém resolve tentar roubar o meu gatinho de mim, né?

— Ninguém teria essa coragem.

Cruzo os braços. — Ainda bem que eles sabem como eu sou.

— Eu não tava falando disso, mas tudo bem.

Ele me tortura colocando Star Wars. Já estou quase dormindo no começo do segundo filme, quando Yoongi me puxa pra ficarmos de conchinha.

— Pra quem não gostava de beijo e abraço, você até que tá bem soltinho, hein?

— Isso nunca saiu da minha boca.

— Ah, é? Saiu o quê, então? Que eu sou o amor da sua vida?

Yoongi coloca a mão no peito. — Aqui jaz a minha paz.

— Até parece que você não gosta.

— Infelizmente.

— Eu tava com saudades de dormir com você.

— A gente dormiu ontem no nosso lugar, Lali.

— Não conta. Tô falando na cama.

Yoongi ri e beija minha testa.

— Você vai tá aqui no dia — ele sussurra. Tenho certeza de que o barulhinho que ele faz é de um sorriso.

— Aqui? Como assim aqui no dia?

Yoongi boceja.

— Do quê que cê tá falando?

Ai meu Deus, cê sabe que eu vou ficar? Aff, seu estraga-surpresas!

Yoongi cheira minhas palmas e brinca com meus dedos.

— Você é muito estranho.

— Até parece que você não gosta — ele imita minha voz.

— Eu gosto, na verdade eu te amo, né?

Yoongi não me responde.

Rio pelo nariz.

Duri dorme nos nossos pés.

Yoongi ronca baixo.

Dia 16 de novembro, me sento no refeitório da UDCC. Ando pelo jardim. Pelos corredores. Quase arranco a pelinha do polegar, os cabelos e as unhas fora.

Rosé me manda uma foto de roupão na frente de um espelho.

“Cheguei, Éssipê!”

— Daqui a pouco eu que vou passar mal, Alice! É a premiação da Rosé. É o TCC do Namjoon semana que vem! A prova hoje!

— Eu sei.

Toda vez que eu desbloqueio a tela do celular, o tempo congela.

— Ele falou que tava com medo da redação — digo —, ai, que gastura! Era pra eu ter contado pra ele que eu ia ficar aqui de uma vez! Aff, se ele não passar, vai parecer que eu quero chamar atenção, né? Mas se eu contasse, ele ia ficar muito afobado e—

Alice abre a boca.

Fico vermelha.

— Lali…

— Eu queria fazer surpresa e contar pra vocês só depois, Lice, mas eu não vou mais embora. É isso.

Alice para de piscar.

— Eu vou ficar aqui em Costaré. Tipo. Mesmo.

Ela tapa a boca e seus olhos se enchem de lágrimas.

— Ano que vem a gente vai se ver todo dia aqui. — Aponto pra mesa do refeitório. — Não tenho saco pra estudar e passar no vestibular igual vocês, tenho preguiça só de ver aquela lista enorme de livros obrigatórios. Eu vou pagar a mensalidade com o meu dinheiro. É uma cacetada de 2 mil reais, mas eu vou dar um jeito e—

Alice me abraça. — Você é maluca! Maluca, Lali! Por que cê não falou nada? Se eu soubesse, eu ia ter te chamado pra vir morar comigo, e—

— Eu sei que eu ia ser uma colega muito mais legal que a Rosé, mas eu vou aproveitar pra ficar no Solaris enquanto dá, Alice. É sério. Minha família ainda não me respondeu. Não vou conseguir pagar um aluguel só com o dinheiro da monetização do TikTok, não dá nem 600 reais, mesmo se eu fizer publi. Talvez nenhuma marca séria vai querer fechar comigo depois do processo contra a Kira. E também não tem garantia de que eu vou crescer, né? Isso se eu não for cancelada de novo! De que adianta ter 30 mil pessoas me seguindo se eu vou respirar e perder mais da metade por causa de uma capivara de pelúcia de novo? Não, dessa vez vai ser porque eu pintei as unhas de uma cor muito “baranga”!

— Isso tudo é ansiedade? — Alice me abraça outra vez. — Respira. Cê falou com ele da viagem?

— Eu vou contar só depois do resultado da segunda prova. Acho que até lá eu já vou ter tido um ataque, na real.

— Tendi, vai fazer mistério. — Alice pisca. — Prometo que eu não vou contar pro Jimin nem pra Rosé, senão Costaré todinha vai saber!

— O Jimin! — Bato os pés. — A Rosé! Ai, que agonia! Tô com medo dele não passar! Ele vai ficar super decepcionado, e a Rosé se esforçou tanto nos projetos!

— Relaxa. Vai dar tudo certo!

Yoongi entra no refeitório às 14:04. Meu coração dispara e eu corro na direção dele.

— A prova não era até três horas? — pergunto. — Você…

Yoongi ri baixo e retribui meu abraço, me puxando pela cintura.

Alice boceja. — Qual foi o tema da redação?

— Globalização.

— Ah, cê tá de sacanagem! Então foi muito fácil! Mas por que que o Mimi não saiu ainda?

Yoongi mexe os ombros. — Acho que ele agarrou nas questões de espanhol. Tinha a ver com Literatura. Eu chutei quase tudo nessa parte.

Yoongi está lindo de regata azul, com o cabelo platinado cheio de gel. Seu perfume é forte, os braços parecem maiores e o sorriso dispara meu coração, como se eu nunca tivesse visto ele antes.

Só volto a entender o que está acontecendo ao meu redor quando um metal estala: as correntes do Jimin.

Ele se joga no banco do refeitório.

— Que prova de merda! — Jimin esconde o rosto na mesa.

Alice faz carinho no cabelo dele. — Calma, Mimi!

— Cês já podem preparar o funeral da minha dignidade, tá? Eu li todos aqueles calhamaços pra nada, aprendi trigonometria pra nada e, olha que legal: não vou passar nem da primeira fase!

Quero me aproximar dele e contar alguma piada, mas Yoongi diz “não” com a cabeça.

— Ainda bem que a minha mãe não tá mais aqui em Costaré, imagina a cara de decepção que ela ia fazer?

— A gente não ia pra sua casa assistir o Designer+, Alice? — Yoongi aumenta seu tom de voz. — Tem daquela trufa de abacaxi lá ainda?

Jimin mostra o dedo do meio pra ele. — Isso não vai me animar. Esquece!

Jimin soluça no Uber o caminho todo.

Alice o deixa dormindo no sofá.

— Lali, liga a TV — Alice diz —, a Rosé disse que já tão transmitindo os bastidores.

“DESIGN+ ARCHITECTURE & INTERIOR NATIONAL AWARDS” brilha na tela em dourado e as categorias principais são exibidas: Designer Revelação, Designer do Ano e Obra do Ano. A logo do evento é uma escada dourada. As mesas do salão estão organizadas em círculos, tem gente de terno de linho e vestido de seda, a maioria em tons de verde-escuro e prateado. Muita maquiagem. Muita luz. Rosas pretas e vermelhas.

Uma fungada soa atrás de mim. — Eu sabia.

Jimin me mostra a tela do celular.

— Sinto muito. — Eu o puxo pelo pescoço.

Ele soluça outra vez no meu ombro. — Eu já sabia que eu ia me esforçar pra nada! Nem sei pra quê eu tentei!

Meus olhos ardem.

Ele se joga no sofá e esconde o rosto numa almofada.

— Eu só fui aprovada na minha segunda tentativa. — Alice se senta na frente dele.

— Cê tá querendo me desanimar? Eu vou demorar isso tudo pra ser aprovado? É melhor eu ir pra São Paulo de uma vez, vou me estressar bem menos! Eu não nasci pra fazer cosméticos! Eu já aceitei que nasci pra fracassar, Universo! Tá me ouvindo? Já aceitei! Eu vou desistir de Estética! Vou trabalhar no Solaris até os 70 e me aposentar! É isso! Cabou!

Alice enxuga o rosto dele com um lenço e o deixa manchar sua jardineira de base.

Rio pelo nariz. — É horrível sentir isso, Jimin. Eu te entendo. Mas vai passar, você pode tentar de novo!

— Eu odeio essa palavra. Não fala isso perto de mim!

Alice dá um tapinha no ombro do Jimin. — Desculpa ele, Lali, ele não sabe do que tá falando.

Yoongi coloca a bandeja com o bolo de fubá e café na mesinha do centro, seca as mãos num pano de prato e me puxa pra sentar do seu lado.

— Ela só tá dizendo que você tem que persistir, Jimin — Yoongi diz —, por acaso cê já ouviu falar sobre neuroplasticidade?

Ih, lá vem! Agora vai até amanhã!

— Me explica. — Jimin se joga no colchão.

Com uma mão no queixo, foco nos lábios do Yoongi. Ele fala sobre como o nosso cérebro aprende, se adapta e se familiariza conforme ganhamos experiência. Isso me faz pensar no quanto eu já me familiarizei com a beleza dele, mas se eu soltar essa piada, ele vai ficar da cor de uma beterraba e parar de explicar, e ele fica tão lindo explicando que eu não me atrevo a interromper.

— Não adianta, Yoongi. — Jimin bufa.

Balanço a cabeça e abraço meus joelhos.

— …eu não vou mais fazer faculdade!

— NÃO?

— É. E para de olhar pra mim desse jeito! Cês tão me assustando!

— Só por quê você não passou uma vez, não quer dizer que não vai passar nunca mais! — Alice diz.

— Não é isso! Eu já tava muito na dúvida sobre o que eu queria. Vou fazer Curso Técnico e abrir a Jimin Cosmetics pra valer. Eu falei da boca pra fora, eu não vou desistir do meu sonho: ele é forte demais pra eu fazer isso assim do nada…

Alice cruza os braços. — Desculpa, mas eu vou ser obrigada a discordar de você.

— Por quê?

— Porque você tá tendo a oportunidade de fazer faculdade! A sua mãe deixou dinheiro pra você, trabalhou décadas pra você não passar perrengue e agora você vai largar tudo assim do nada?

Yoongi e eu entrelaçamos os dedos, de boca aberta.

— Você tá me chamando de fraco? Ah, já saquei então! Você vai ficar com vergonha dos seus pais, né? Você, advogada sendo namorada de um Zé Ninguém que na cabeça deles é burro porque não se esforçou na vida. Como se diploma fosse tudo. Aiai!

— Não distorce o que eu tô falando, Jimin! Na minha família, eu sou a única pessoa que faz faculdade! Sabe o quanto meus pais queriam ter tido essa chance na nossa idade? Eles não conseguiram! Eles tiveram que trabalhar desde cedo, tinham que andar mais de 4km a pé todo dia pra chegar na escola, tinham que carregar o material num saco de arroz e usar prego no chinelo! Você tá falando parecendo que é o fim do mundo! Existe internet, faculdade EAD, professor particular! Olha, sinceramente: acorda!

Alice bate os pés pra área de servico e Jimin corre pra varanda. Yoongi e eu piscamos forte.

Às 18, os dois voltam pra sala, fazendo bicos um pro outro, e se deitam num colchão inflável mantendo distância.

Me levanto pra beber água. Segundos depois, Yoongi me puxa pela cintura.

— Desculpa não ter te falado parabéns — sussurro —, mas eu sabia que você ia passar, gatinho!

— Tudo bem, eu sei que você ficou triste pelo Jimin e não queria atrapalhar o momento dele. — Yoongi me dá um selinho. — Você… tava aqui hoje. Você tá aqui. Isso que importa.

Tranco o choro na garganta. — Era disso que você tava falando aquele dia?

— Sim.

Então você não vai estragar minha surpresa!

— Ai, você é muito o gatinho da minha vida! Meu lindo, meu amor! Vem aqui, vem! — Encho suas bochechas de beijos e ele fica vermelho.

Jimin assobia, entrando na cozinha. — Cês esqueceram que tem mais gente aqui?

Yoongi conserta a postura e arranca uma banana do cacho.

— Casal feliz morre cedo! — Jimin grita.

— E gente amargurada morre engasgada! — canto.

— Sou mesmo!

— Vai começar, vem! — Alice berra da sala.

Os olhos do Yoongi faíscam a cada categoria. Apoio a cabeça no ombro dele.

Os indicados na categoria de Design Revelação são apresentados. Rosé surge num quadradinho da câmera e os flashes refletem no cabelo loiro dela preso num coque cheio de glitter.

PROJETO LIVRARIA OLIVEIRA POR ELEANOR INTERIORES — Livraria/Café/Moda

— E o prêmio de Designer Revelação 2025 vai para…

A moça abre o envelope vinho.

Cruzo os dedos.

— Rosé—

Pulo do colchão.

A mulher ainda está falando o nome enquanto eu sacudo Yoongi pelos ombros. — Ela ganhou! Ela ganhou! Uhul! Eu sabia!

— …Harper-Charlotte-Eleanor-Park.

A estátua de cristal em forma de escada reflete nos olhos dela. Rosé estende os braços e berra “Costaré!” antes de se aproximar do microfone com o troféu.

Jimin e Alice se abraçam.

— Eu sabia! Eu sabia! — Alice ri no meio das lágrimas.

Jimin funga outra vez.

— Silêncio, gente — Yoongi diz —, ela vai discursar!

Rosé para no centro do palanque. O vestido me faz sorrir e lembrar do quanto ela me encheu pra sair esse resultado impecável. Os tules valorizam os ombros dela com o caimento em tomara-que-caia, e as fendas na barriga deixam o tecido furta-cor em destaque.

Ela raspa a garganta. — Tô sem palavras!

Uma salva de palmas soa.

— Quem diria que um dia eu ia conseguir ganhar um prêmio nacional?

— Você conseguiu! — grito.

Jimin me filma, rindo.

— Quero dedicar esse prêmio a todos os meus amigos bonitos. Bom, de bonito só tem o meu namorado Namjoon, mas abafa o caso! Te amo, caubói! Saudades!

Alice mostra o dedo pra câmera.

— Eu não queria ficar aqui firulando e falando de mil pessoas e blá, blá, blá, mas acho importante agradecer a todas que fizeram isso ser possível. Obrigada, pai e mãe por terem feito eu querer ir contra a vontade de vocês e ter recusado cursar Medicina. — Rosé bate de leve no microfone. — Foi querendo provar que vocês não sabiam de nada da vida que eu descobri que amava ser Design de Interiores. Obrigada, Lali Bergamaschi, minha querida amiga e estilista de baixa renda, agradeço-te por este vestido incansavelmente bafônico. Eu vou continuar do seu lado em todos os seus cancelamentos, espero que você nunca se canse das minhas mudanças de cores de cabelo e das minhas denúncias de que você escuta sertanejo escondida.

Fungo no ombro do Yoongi e ele passa uma mão no meu cabelo, soltando uma risadinha.

— Obrigada, Alice. Você é uma praga e eu odeio morar com você, mas sem o seu apoio, eu não iria ter conseguido sair da casa dos meus pais. Não teria sossego pra trabalhar. Estaria com aquela olheira enorme até agora. Você é o mais perto que eu encontrei da definição de paz até hoje. Agora eu entendo a famosa “sorte de um amor tranquilo”, talvez ele também se estenda pras amizades.

Alice também está fungando no ombro do Jimin.

— Obrigada, Jimin. Você não sabe perder apostas. E você, Yoongi, espero te encontrar aqui nos próximos anos. Tenho certeza de que você vai ser um dos melhores arquitetos desse país.

Ele fica quase roxo. — A Rosé sabe falar coisas bonitas?

Rio, beijando a bochecha dele.

— Obrigada também, Márcio, por ter me contratado. Sua suíte idêntica a do Stardoll me fez chorar igual condenada e ali eu percebi que queria ser a Designer mais icônica de Costaré. Como uma coisa pode ser tão besta e ao mesmo tempo tão triste? Eu não sei. Talvez essa seja a magia da vida, né? Tentar. Tentar. E tentar. Depois conseguir sem saber como. Chegar tão longe e ainda sentir que você tá no meio do caminho.

Rosé ergue o rosto. — Eu demorei três anos pra ter sucesso na minha área.

— Eu te falei. — Alice dá uma cotovelada no Jimin. — Falei!

— …e depois, eu jurei que ia ser a minha última tentativa ou eu ia encontrar alguma outra coisa. Mas eu não ia voltar atrás. Eu preferi ser a filha ingrata do que a filha sem palavra. Não sigam meu exemplo, a não ser que vocês queiram sofrer. Mas se quiserem sorrir muito, sigam sim. Talvez essa vida dos altos e baixos seja um caminho infinito, mas são as pessoas que você encontra que te fazem ver que ainda vale a pena viver. Criar. E te inspiram. Ai, não acredito que eu tô chorando e falando esse monte de breguice em público, acho que nunca falei frases tão sem sentido antes na vida em sequência, acho bom vocês deletarem esse vídeo! É isso! Obrigada! Ai meu Deus, tem 2000 pessoas assistindo! Apaga, moço, que mico! E aos meus concorrentes, obrigada também. Cada projeto foi tão incrível quanto o meu, só tinha um pouquinho menos de glamour!

A plateia ri, a aplaudindo.

No grupo do WhatsApp, Namjoon mandou um vídeo chorando.

“Como eu queria tá aí com você, te amo”

Jimin digita depressa:

“Finalmente vc foi assumido, mano!”

Abro o Instagram e marco a Rosé na minha selfie. “Sempre foi seu!”.

No perfil dela no TikTok, tem fãs da Kira Diniz comentando.

COMPROU O DESIGN+ AWARDS?DESIGN REVELAÇÃO DE QUÊ? CARNE DE CACHORRO?ABRE O OLHO ANTES DE SEGURAR O TROFÉUSEU NOME É DO TAMANHO DESSA SUA CARA DE PAU, XING LING!VAGABA, ROUBOU O PRÊMIO DO FÁBIO!DORMIU COM O DR. JOSÉ, FOI? SÓ ASSIM PRA VC CONSEGUIR!SEUS PAIS DEVEM TÁ MORRENDO DE VERGONHA DE VC, ERA PRA TER VIRADO MÉDICA, NÃO TER FEITO ESSE TRABALHO HORRÍVEL!NA SUA IDADE EU JÁ TINHA FILHO!

Yoongi aumenta o volume da TV e me puxa pra varanda, sem me dar tempo de xingar o pessoal.

— Ignora!

Yoongi me pega no colo e corre comigo pela sala.

Caio no colchão. — Um dia vai ser você, gatinho. Melhor arquiteto. Melhor beijo. Melhor sorriso. Melhor tudo. Meu amor.