Anything But Ordinary

6 Às vezes eu assusto a mim mesmo


ESTOU COM AS MÃOS NO COLO HÁ 1 MINUTO.

O que a Lali quis dizer com “ter alguma coisa”?

Ela fala demais.

Mexe as mãos demais.

Não tem celular.

Tem um talento estranho pra nossa idade.

Conhece um lugar escondido em Costaré.

O que tem de errado com essa garota? E por que ela quer tanto grudar em mim? Ela… ela nunca deve ter tido um amigo! Ou talvez descarte as pessoas toda hora…

E é desse tipo de gente que eu preciso continuar mantendo distância!

Argh! Talvez ela só não seja normal mesmo!

Mas por que eu acho isso?

Debruço as mãos na bancada e descanso a cabeça por alguns segundos antes de sair.

Quando chego ao Solaris, aceno pra Alice na recepção e vou direto pro corredor.

Ajeito as cortinas do meu refúgio e me jogo no sofá.

Cada vez que respiro fundo, as paredes mudam de formato.

Grandes. Pequenas. Pequenas. Grandes.

De repente, um barulho me acorda.

Esfrego os olhos e pisco forte, me acostumando com a claridade.

— L-Lali?

Seus joelhos tremem, presos contra o peito. A terra cobre seu vestido, manchando seus braços e nariz.

Meu coração dispara. O ar pesa nos meus ombros.

Pulo do sofá e caio no chão, segurando o rosto dela. — O que aconteceu?

— Eu vi um… um estilete na bancada…

— Quê? Como assim?

— Uma hóspede… ela… ela tava… abrindo uma encomenda… e deixou jogado… na… na salinha de jogos…

— E por que você tá toda suja desse jeito?

Lali levanta a cabeça. Uma mancha marrom escorre por suas bochechas vermelhas.

Paro de respirar.

— Eu caí… quando eu tava correndo… e… e rolei na grama…

— Quer que eu te leve no hospital?

— Não! Eu consigo! Eu… eu vou ficar bem!

Enrugo a testa.

— Yoongi… você disse que… qualquer um me ajudaria, mas… só pessoas boas salvam alguém… alguém que não importa pra elas…

Minha cara arde. — Desde quando eu preciso ser uma pessoa boa pra ajudar alguém?

Lali fareja o ar, se aproximando do meu cabelo.

Minhas mãos tremem.

— Seu cabelo é muito cheiroso, Yoongi… Você… Você é todo cheiroso.

Antes que eu gagueje e responda “valeu”, Lali solta:

— A Angeline e o Jimin devem gostar muito de você, né?

Faço que sim com a cabeça, e ela prossegue:

— Como você veio parar aqui no Solaris? A Angeline é tipo a sua mãe? O Jimin é tipo o seu irmãozinho? Você tem sorte de ter ele como seu amigo, sabia? Quem me dera ter tido um irmão a igual ele!

Cê não sabe ficar quieta, não? Como consegue falar tanto depois de uma crise?

— É. Sorte. Muita sorte.

Ela me interrompe, me enchendo de mais perguntas que eu finjo prestar atenção.

Meu celular apita.

Me jogo na poltrona.

“Já que você não quer ir tentar a PUC, porque não tenta a USP, meu filho?”

“Quantas vezes eu vou ter que repetir pra você pensar melhor no seu futuro?”

“Seu pai e eu queremos o melhor pra você! Tenta entender a gente!”

Tem mais umas 30 mensagens sem resposta.

Destensiono o pescoço.

“E quantas vezes eu vou ter que repetir que eu não tenho paciência pra ver sangue?”

Fecho os olhos.

Lali continua tagarelando, virada pra janela. Sua barriga me vem à mente, fazendo minhas pernas tremerem.

É. Não tenho mesmo.

— Cê já tá melhor?

— Sim.

— Então tá ótimo. — Me levanto.

— Quê isso? — Ela aponta pro mural. — Você não me respondeu!

— É uma matéria do vestibular.

— Aristóteles? Você quer virar filósofo?

— Não. Arquiteto.

— A última vez que eu lembro de ter escutado sobre Aristóteles foi na escola. Pra quê tanta palavra difícil?

— Também queria saber.

Pela janela, ela acena pro Mateo. — É aquele carinha! Ele tava na balada ontem. Você sabe o nome dele? Ele é de onde?

— Sim. É o Mateo. De Málaga. Mora aqui faz um mês.

Lali engasga com o ar. — C-Como alguém tem tanto dinheiro pra ficar um mês aqui? Isso dá o quê? Uns… 5000 reais?

— Ele trabalha com tráfego pago, marketing de suplementos… algo assim… senão me falha a memória. A Sra. Park deu desconto pra ele. Então ele pagou metade disso.

— Não sei o que é tráfego pago, mas… combina com ele! Ele é tão lindo… tem quantos anos?

Solto o ar. — Acho que 25.

— Uau, nem parece! Achei que ele tinha uns 22. Ah! Por que cê tá me olhando desse jeito? Meu turno nem começou ainda!

— Funcionários antigos já causaram problemas por causa disso. Já te falei.

— Disso o quê?

— Ficar flertando com hóspedes.

— Eu não tô flertando.

Giro os calcanhares. O cheiro de cloro se espalha pelo ar ao passarmos pelo jardim.

— Tem quanto tempo que cê tá aqui?

— Um ano.

— E a Alice?

— Quase três.

— Uau! Então aqui é pra ficar mesmo!

— É.

Lali acena pro Mateo antes de atravessarmos a sala de jogos.

Respiro fundo. — Cê não escuta nada que eu falo, né?

Lali joga o cabelo de lado e enruga os lábios, parando no corredor. — Eu só achei ele bonito! Qual é o problema? Você só conhece gente falsa que nunca faz um elogiozinho? Eu, hein!

Meu alarme toca, me impedindo de responder “tchau!”.

Quinta-feira, 14:20.

— Quê isso?

Ô garota curiosa…

— Minha aula de taekwondo.

— Isso é uma comida?

Na dúvida entre rir ou bufar, acabo paralisando. — É uma arte marcial.

— Ah! Entendi! E você é bom nisso? Como funciona?

— Eu podia ser melhor, mas fiquei com preguiça. — Bocejo. — Pesquisa no computador da recepção que você vai entender tudo.

— Ah! Me explica! Por favor! Por favor! Por favor!

— Não posso me atrasar. Meu turno começa daqui a pouco.

— Ah, mas a gente é amigo! — Lali ri. — Você podia me levar pra assistir pra eu ver como é! Podia até me emprestar sua jaqueta um dia! Eu ia ficar ainda mais linda com ela!

Coloco uma mão na cintura. — De novo isso, Lali? Vou precisar repetir? Eu te conheço não faz nem dois dias direito! Por que é tão difícil pra você entender que a gente não é amigo? A gente é colegade trabalho e ponto final.

Lali inclina a cabeça.

Junta os lábios num bico.

E sai.

Mexo as sobrancelhas. — Ah, faça-me o favor, né?

Ando até o meu quarto.

Depois de vestir o dobok e pegar a mochila, saio antes que minha mente exploda com ideias sobre a Lali.

Quando chego na recepção, endureço o corpo.

Lali está encostada no balcão, conversando com a Alice, gesticulando depressa. Regata branca. Calça jeans. Cabelo solto e molhado. É a mesma pessoa de agora há pouco?

Sacudo a cabeça.

Rápido, Yoongi. Rápido!

O cheiro de xampu de coco do cabelo dela me atinge com tudo.

Prendo a respiração.

Lali se vira antes que eu cruze a porta. — É ele! Yoongi, vem cá! A assistente social quer te conhecer!

Aperto os olhos, me virando. Uma senhorinha loira, baixa e gorda ergue o corpo do balcão. Ela para de assinar um papel e abre um sorriso.

— Ah, rapazinho! — Seu sorriso é exagerado. — Eu me chamo Flávia! É um prazer conhecer o herói que salvou a Lali! Parabéns!

Meu rosto esquenta. — E-Eu não sou herói nenhum, senhora! Só fiz o mínimo.

— Você tá sendo um amigo incrível pra ela, rapaz!

Coro de novo. Lali entorta o pescoço e fica a um centímetro do meu ouvido.

— Desculpa, Yoongi! Eu esqueci.

Um calafrio passeia pela minha coluna.

— Você é meu colega de trabalho.

Engulo a seco.

Seu braço encosta de leve no meu, quente e úmido, me fazendo travar o maxilar.

Minhas pernas se transformam em gelo.

— Eu tenho que treinar…

Lali ri. — Você disse que não era bom nisso, mas é faixa preta? Como cê é mentiroso, hein?

— Essa é a mais básica que tem.

— Por que você gosta de… esqueci o nome!

Solto um riso curto. — Taekwondo. Eu entrei quando era criança e nunca mais saí.

— Mas você gosta? De verdade? E por quê?

O cheiro do cabelo dela deixa o ar irrespirável. Rio pelo nariz, tentando abafar o calor.

— P-Por que você não para de fazer tanta pergunta? Eu já falei que tô com pressa!

— Ignorante! — Ela range os dentes e dá um passo pra trás. — Cê me odeia?

Respiramos fundo ao mesmo tempo.

Flávia anota algo na folha, e a lembrança da Lali tremendo suja de terra me perturba.

Firmo a mochila no ombro e me aproximo do balcão. — Cê pode me fazer um favor, Alice?

Ela levanta a cabeça, sem parar de digitar no computador. — Claro!

— Imprime um comunicado dizendo “Cuidado com pertences deixados à mostra nas dependências do Solaris. É proibido o uso de objetos que possam prejudicar a integridade física de outros hóspedes.”

Alice assente. — Alguém te assustou?

— Não. Mas pode acabar assustando os outros.

Antes que eu atravesse a porta, a voz da assistente social corta o ar:

— …e aí, quando você chegar no Consulado, eles vão pedir um documento chamado comprovante de residência. Você pode solicitar pra proprietária do hostel.

Paro de caminhar. — C-Consulado?

Expulso as dúvidas de dentro de mim e caminho até o outro lado da rua. Dobro a esquina. A fachada vermelha do dojang aparece sob a luz.

Guardo a mochila no armário e trombo com Jimin.

— Porque cê não me esperou, Yoongi?

— Ué! Cê não ia hibernar hoje?

— Fiquei por um triz, não vou mentir! Mas você sabe… preciso me manter em forma. Só assim as gatinhas vão me notar!

— Gatinha… Gatinho… Gato. Gata. Gringo! Dá pra parar? Não aguento mais você e a Lali falando isso!

Jimin me dá uma cotovelada. — Tá achando ruim, é? Que foi? Tá afim dela?

Arregalo os olhos. — Cê bebeu soju com brita, né? Só pode! Pirou?

Por sorte, o Mestre Kang nos atrapalha. Fazemos uma reverência e cumprimentamos o restante do pessoal.

As mobilidades destroem meus músculos. Jimin aproveita cada vez que o Mestre ajuda um novato pra me provocar com petelecos.

Aprumo a postura. Mantenho o olhar atento e executo os golpes com o máximo de foco possível.

— Você tá colocando cada vez mais força no quadril, Jimin! Parabéns! — o elogio e ele cora, recuperando o ar.

Jimin me ajuda a levantar e ajeita a própria faixa vermelha na cintura.

Seu xampu de coco traz Lali à memória.

Consulado… Consulado… Consulado…

— AH! — grito, girando os quadris.

Dou mais um golpe. Meus calcanhares ardem.

— AH! — grito de novo.

Minha cabeça roda.

O sangue esquenta.

As canelas ardem.

Quando o Mestre Kang nos chama pros cumprimentos finais, sei que morri. Definitivamente morri. Estou prestes a cair de cara no tatame.

O Mestre Kang se aproxima de mim. Me reverencio, tremendo.

— Tava viajando hoje, Yoongi.

— Só tô cansado, Mestre.

— Não. Sua base tava boa. A cabeça não.

Engulo as sílabas de “desculpa”.

— É o vestibular, né?

— S-sim…

— Um passo de cada vez, Yoongi. Você sabe do potencial que você tem. Não joga isso fora.

Me despeço dele com o corpo instável, ardendo. Suado. A um fio de desabar.

Quando volto pro Solaris, tomo um banho e me preparo mentalmente pro turno.

24 horas.

12 horas sozinho.

Mais 12 treinando a Lali.

Como eu vou aguentar ela por tanto tempo?

A voz dela ecoa dentro da minha cabeça. Alta. Fina. Arrastada.

“Um humano… bem… gato…​”

Abro um sorriso ao aplicar o perfume.

Balanço a cabeça e conserto os botões do uniforme.

Consulado…

Beatriz…

Jacopo…

B & J!

O casal da foto!

Era lá que ela queria ir!

Atrás da… da cidadania!

Então foi por isso que ela dirigiu sem carteira! Por isso ela tinha a foto do casal com a dedicatória em italiano.

Então ela… ela nasceu aqui? Ou será que ela nasceu lá e também precisaria tirar a cidadania aqui? Como funciona?

O impulso me toma. Digito “Consulado Italiano” na internet, e as respostas me deixam com os dedos gelados: o mais perto daqui fica em São Paulo, abre somente em dias úteis e fecha cedo.

— Jus sanguinis? Ah! É Igual na Coreia… Quanto tempo demora?

Bloqueio a tela antes de ler o restante. — Não quero saber! Chega!

Solto uma risada irônica. Você nunca vai parar de pensar, né?

A maleta de costura.

O Celta.

Deve ser tudo da família dela!

Se eles forem mesmo os pais dela… Então com certeza o pai era italiano e a mãe brasileira!

Encosto o rosto na tela. Merda! Como eu não me toquei antes? Ela aceitou vir pra cá sem pensar direito! Só pra juntar dinheiro!

Atravesso a recepção e abro o fecho da bancada.

Pesquiso como é a herança de órfãos no computador.

— Inventário? Ah! Ela não tem carteira, mas o carro é herança, então faz sentido! Por isso que a diretora dirigiu pra ela!

Ela nunca mencionou se tinha algum parente vivo. Nem brasileiro. Nem italiano. Mas pela cara de elegante da maleta… o sobrenome… deve ter alguém do outro lado. Alguém esperando por ela. Alguém podre de rico!

Mas por que largaram ela aqui em Costaré? Por que ela cresceu na Casa Jovem e não na Itália?

Eles odeiam ela? Por que não ajudam ela?

Chacoalho a cabeça.

Respiro fundo e me sento atrás do balcão da recepção.

— Como eu sou idiota! Claro que ela não vai me contar nada, né? A gente não é amigo — ironizo com uma risada nasal.

Devia ter desconfiado mais!

A Lali vai… vai…

Já que ela não tem rede social… como eu vou descobrir se eu tô certo? Quero ver qual é a dessa garota!

O Jimin com certeza sabe de alguma coisa! É isso! ISSO!

No mesmo instante, Lali passa pela recepção do lado do Jimin, rindo alto.

Cê já trocou de roupa? De novo?

Prendo o riso.

Ela usa uma blusa de alças finas e uma saia curta de onça. Nem parece que o ar condicionado da recepção a incomoda. Seu cabelo está preso e seco. Suas mãos acompanham cada frase que ela fala com o Jimin.

É. Você é mesmo italiana.

— …você copiou o meu estilo sim, Lali! Fala a verdade!

— Me inspirei, não copiei!

— Como você arruma tanto tempo pra costurar se não para quieta?

Eles gargalham.

Balanço a cabeça. Eu também queria saber, Jimin.

Lali e Jimin se sentam no sofá.

Solto um pigarro. — Que tal… a gente… tomar café?

— Não tomo café com gente que eu não conheço! — Lali rebate.

Prendo a risada.

Jimin arqueia as sobrancelhas. — Que que aconteceu, gente? Perdi alguma treta?

— Nada — minto —, e relaxa, Lali: eu tava chamando o Jimin. Não você. Isso é óbvio.

Ela fica vermelha e joga os cabelos de lado.

— Bom café pra você, Jimin. Você é um ótimo amigo. — Lali dispara na direção do banheiro.

Respiro fundo.

— Que que tá pegando, mano?

Dou de ombros. — Nada. Tem gente que é complicada mesmo.

— Autocrítica?

Estalo a língua. — Você já descansou pelo visto, né?

Jimin me analisa dos pés à cabeça. — Cê tá bem?

— Ah! Essa garota me cansa. Não para de falar! Não sei como cê aguenta!

Jimin ri. — Aguento porque sou igual a ela, Yoongi.

— Sim, você também fala igual a um papagaio. Mas só de vez em quando. E você é bem menos irresponsável. Menos irritante.

— Mas ela é uma papagaia muito gata, cê não acha? — Ele afina o timbre.

Fixo os olhos no teto.

— …entendeu?

— Aham.

— Sei… Mesmo?

— Sim.

— Quanto tempo demorou pra você conseguir tomar café sem açúcar sem fazer careta?

— Ahn... Umas duas semanas, eu acho.

— Cê achou que não ia se acostumar com o gosto tipo... nunca, né?

— Achei.

— Mas você se acostumou. — Jimin pisca.

Meu nariz arde.

— Você só pode tá de sacanagem com a minha cara, Jimin! — Forço uma risada. — Que analogia idiota foi essa?

— Hoje em dia eu duvido que você conseguiria tomar café com açúcar. Doce demais não tem graça, né? Você não consegue sentir o gosto real do sabor. A sua língua pega fogo!

— Cê tá querendo me ensinar sobre café? Acha que eu sou tapado, é?

Jimin bagunça o meu cabelo. — Não se faz de idiota, mano! Eu sei do que eu tô falando porque eu já vi esse filme mil vezes!

Jimin anda na direção da cozinha.

Ninguém aqui tá bem hoje!

Continuo com as sobrancelhas arqueadas. — Tá. Isso não serviu pra nada.

Como eu vou fazer pra descobrir então?

Aff. A foto!

Preciso devolver isso primeiro!

Só vai, Yoongi!

Caminho até o quarto e tiro a foto de dentro da jaqueta.

Encontro o Jimin na cozinha.

O sorriso da Lali surge na minha mente. Ela vai pular. Chorar. Ficar gritando. Saco!

Um sorriso se abre sozinho na minha boca.

Recomponho a postura e coloco a foto sobre as mesa.

Jimin para de mastigar seu hotteok.

— Pode entregar pra Lali, mano? Mas não diz que fui eu que pedi!

Minhas pálpebras pesam duas toneladas. Encosto a cabeça no balcão da recepção e o mundo escurece.

Em segundos, meu rosto esquenta demais. Como cê saiu do quarto, Duri? Por que cê tá me lambendo?

— Ahn? — sussurro. — Duri?

Pisco com força.

Tem um par de braços ao meu redor.

Uma bochecha grudada na minha.

Uma respiração batendo no meu pescoço.

Duas mãos me sacudindo num abraço.

Arregalo os olhos. — AH!

— Obrigada! Obrigada! Obrigada! Você é um anjo, Yoongi!

Murmuro “sai” e tento desviar do abraço ou recuperar o fôlego, mas não dá. Minhas mãos formigam.

O Jimin deve ter jogado mel na fórmula desse xampu.

Não queria que ela estivesse tão perto assim de mim. Queria respirar, queria sumir, ou quem sabe desmaiar pra sempre.

— Me solta! — murmuro, entre dentes.

Ela mata os meus pensamentos antes que nasçam, me abraçando outra vez.

Um sorriso escapa de mim.

Por que você é tão chata? E também tão carinhosa? Pra quê?

— Você… você guardou a foto dos meus pais! Dos meus pais!

Prendo os ombros. — D-Desculpa por não ter te entregado antes! Foi a correria…

O estalo na minha bochecha me obriga a me pôr de pé.

Empalideço.

Tento disfarçar o sorriso, direcionando os olhos pro chão.

— Isso quer dizer que a gente é amigo?

— Amigo? Quê? Quem falou isso?

Lali me provoca cócegas.

Recuo um passo.

— Você não vai conseguir fugir de mim, gatinho! Você tá vermelho! Não mente! O Jimin me falou tudo!

— Jimin! — rosno. — Vou arrancar a língua dele fora!

— Não toca no meu amigo! Quero dizer: no nosso amigo!

Grunho, me jogando no banco. — Posso nem mais cochilar em paz?

— Claro, amigo! Inclusive, eu não te falei naquela hora porque eu tava brava, mas... você fica muito lindo de uniforme. Lindo demais!

Minhas bochechas explodem.

Que garota inconveniente. Chata. Irritante!

Outro risinho me escapa.

— Seu sorriso é muito fofo! — Ela aperta as minhas bochechas.

E eu congelo. AH!

— Já que você quer tanto me ajudar com a sua amizade, Lali, pode varrer a recepção!

— Não tô mais aqui!

Levanto o rosto. — Que tipo de amiga você é? Do tipo que foge quando as coisas ficam sérias?

Ela semicerra os olhos. — Posso pelo menos mudar essa música? Esse piano dá vontade de dormir! Coloca alguma coisa mais animada!

— Você… você não vai… colocar… o que eu tô pensando, vai?

Lali digita “Paramore” no computador.

— É. Vai.

Lali dança como se estivesse sozinha, e ao mesmo tempo, como se uma plateia a aplaudisse.

Passos embaralhados. Coluna torta. Língua de fora.

O canto da minha boca se levanta sem o meu controle.

Por que eu tô sorrindo? Tem que ter uma explicação que faça sentido!

Admite, Yoongi. Você gostou do beijo que ela te deu na bochecha. Do abraço. De tudo.

Arregalo os olhos. Quê? Claro que não! Eu não gosto de grude!

Ninguém te deixa assim tão arrepiado!

Um calor sobe pro meu rosto. Você sabe, Yoongi. Para de fingir que não!

Tomo um gole de café numa tentativa de calar o meu cérebro. Tá. Ela é uma garota. Não tem como ignorar isso. Eu não sou idiota. Tudo bem gostar de um beijo na bochecha. Não vou morrer por causa disso. Mas a Lali é só isso: uma garota!

Bufo.

Lali continua dançando. O jeito como ela mexe os ombros me arranca mais uma risada.

— Mereço… — Balanço a cabeça e volto a organizar a planilha no computador.

Ou tento, pelo menos.

Tá. Talvez eu só esteja interessado nela. Em descobrir quem ela é. Preciso ver até onde eu posso confiar nela.

— Vou te ensinar a montar um comunicado.

— Quê isso? — Lali aponta pra tela.

— A Maia acabou de me lembrar de uma coisa no grupo: ela e o Caíque quase infartaram no banheiro.

— Por quê?

— Adivinha? Os hóspedes esqueceram que estão no Brasil e jogaram papel dentro do vaso do quarto C.

— Mas se vocês colam o comunicado então por que eles continuam fazendo isso?

— Adivinha?

Lali fica vermelha.

— Eu te falei que eles eram folgados. Tem uns que até arrancam as folhas fora.

— E o que tá escrito nesse aqui? — Lali se aproxima do quadro geral.

Disfarço o suor nas mãos, apertando o mouse com força. — É… Não deixem objetos cortantes à mostra nas dependências do Solaris para não prejudicarem outros hóspedes.

Lali pisca três vezes e corre na minha direção. Ela me abraça tão apertado que eu juro que vou desmaiar. Não assimilo o que está acontecendo, focado no quão macio seu cabelo é e no cheiro de coco que sai dos seus fios, na pele quente do braço dela grudada no meu pescoço e nas batidas aceleradas do meu peito.

Dura cinco segundos, mas me deixa vermelho, suado e com as mãos trêmulas de um jeito esquisito. Extremamente esquisito.

— É… — Lali ri, secando as mãos na saia. — Você não gosta de abraço, né? Desculpa! Eu vou parar!

Comprimo os lábios pra não sorrir. — Talvez.

O barulho de rodinhas sendo arrastadas ecoa pela recepção. Dois homens altos de pele bronzeada, ternos brancos e cabelos cacheados longos entram, conversando em francês.

Welcome to Solaris! — Endireito a postura e sorrio.

Check-in, please! — um deles diz, abrindo a tela do celular e mostrando o QR Code da estadia.

Enquanto eu confirmo os dados deles, Lali os investiga com o olhar. Não é o mesmo olhar de antes, sem aquela faísca divertida de quando ela dança ou de quando flerta com as pessoas. Mas eu não sei bem o que é que ela está pensando.

— Yoongi… — ela sussurra. — Pode dizer pra eles que esses ternos são as coisas mais chiques que eu já vi na vida?

Traduzo, segurando a risada. Eles a respondem com entusiasmo, e ela tenta se comunicar com eles com gestos.

Ready? — os hóspedes perguntam.

— Me espera aqui, Lali! Ah, e anota os chaveiros na sua lista de comissão!

Ela assente, vermelha.

Atravesso o corredor com os hóspedes do meu lado. Indico a porta do quarto privativo, e eles me agradecem com acenos de cabeça.

That girl…

Concordo com a cabeça e peço desculpas por Lali ser tão falante, mas eles a chamam de “sunshine” e ao se despedirem de mim.

Rio baixo. — Sunshine?

Volto a caminhar, pronto pra finalizar as planilhas e ensinar a divulgação dos passeios pra Lali. Assim, sobra tempo pra eu repassar os deveres de história e filosofia.

Mas a cena que passa na frente dos meus olhos atrapalha os meus planos.

E dispara o meu peito.

Fico sem ar, quase tropeçando no filtro central.

Aperto os olhos pra ter certeza de que não é um delírio.

— Mas que merda é essa? — xingo em coreano, sem emitir som algum.

A luz amarela bate neles: nela arriscando um portunhol terrível que me obriga a prender o riso e nele respondendo com um português ainda pior.

Não sei qual a necessidade disso, mas o Mateo exagerou no perfume de canela. De novo. O óculos pende da regata branca dele, e bracelete marrom balança enquanto eles riem.

Pra quê usar uma calça tão apertada? E pra quê passar tanto gel no cabelo? Sinceramente, esses gringos não tem graça nenhuma!

— Mateo Del Rosario? Que nombre maravidioso! Eu também tengo três nombres, ¿sabias?

¿Verdad?

Sí! Lali Carvalho Bergamaschi!

Mateo tenta repetir, e Lali gargalha.

— Ah! Você é… mutcho guapio! Muy… gatitcho! Gatito! Vou te chamar de… garotiño porque você não tem cariña de 25 añitos...

Faço uma careta.

Mateo segura a cintura dela e a abraça, contendo uma risadinha. — Gatita! Garotiña!

Ela retribui.

Cruzo os braços. Só você mesmo pra abraçar um estranho que mal conhece, né, Lali? Desconfiômetro 0.

Eles se separam antes que eu atravesse o balcão.

La fiesta… — Mateo tira os cabelos da orelha dela. — Aproveitar… comigo! Vamonos? Hoy? Quieres?

Lali faz bico. — Tenho que trabalhar amanhã cedo! Me desculpa, gatiño!

Agora você fingir que é responsável? Chega a ser engraçado!

Mateo se aproxima da bochecha dela.

É. Agora vocês extrapolaram o limite.

Solto um pigarro.

Lali sorri pra mim e acena.

Mateo arrasta os sapatênis pra longe, com a cara queimando.

— Você endoidou? — Trago uma mão ao peito. — Meu Deus! Se a Sra. Park visse isso, ela tinha me demitido, Lali!

Lali ri. — Ah, Yoongi! Foi só um abraço! Nada demais. E ele mal mal sabe abraçar, se você quer saber! Parece que tem medo! Só fala fala e não faz! Cansei!

— Não tô nem aí! Vou falar pela última vez: se a Sra. Park descobre que você tá saindo com algum hóspede, ela vai chutar nós dois pra fora. Cê esqueceu que fui eu que te trouxe pra trabalhar e morar aqui? Principalmente tra-ba-lhar!

— Sempre bom refrescar a memória. — Lali joga um beijo no ar. — Relaxa, Yoongi. Ao contrário de você, eu sou simpática! A Angeline não vai me mandar embora porque os hóspedes já me amam!

— Se você se acha tanto, vai em frente.

— Cê tá com ciúme de mim?

Rio pelo nariz. — Ciúme? Por que eu teria ciúme de alguém? Ainda mais de você?

— Porque é uma coisa normal? Amigos sentem ciúmes! Eu também sinto ciúmes de você!

— Como assim… também? Eu não sinto. E… por quê? De quem você sente ciúmes comigo? A última coisa que eu sentiria no mundo seria isso.

Lali ri e balança os ombros. — Tá vendo só? Você me acha o máximo, Yoongi! Eu sabia! Você se importa comigo, né? Depois fala que a gente não é amigo!

— Eu me importo com o meu trabalho, Lali.

— Se você não se importasse comigo, não teria surtado agora.

— Eu não surtei. Eu só te avisei. Não mistura as coisas. Eu só não quero perder o meu emprego!

— Cê tá vermelho, Yoongi…

Presto atenção no teto.

— Você devia aproveitar que tem muitas hóspedes de olho em você.

— É. Tem um bando de malucas que acham que eu sou o chaveirinho coreano delas.

— Isso é chato, eu sei! Mas é sinal de que você tem muitas opções!

— Eu não tenho tempo pra isso! Tenho um vestibular pra passar, uma carreira pra seguir, e não vou me distrair com essas besteiras.

— Besteiras? Você… não pensa em se casar um dia?

Por que eu tô falando disso com você mesmo, hein?

Respiro fundo. — Querer eu quero. Só não vou pensar nisso agora.

— Muito menos eu! Se eu casar, vai ser daqui a uns 30 anos.

Quero rir, mas me calo.

— Quer mesmo saber a verdade, Yoongi? Você é mais bonito que todos os caras que eu já vi nessa cidade.

Do nada isso?

Minha cara arde. — V-valeu…

— Quando eu for embora, talvez eu até passe na Coreia e te mande fotos de lá.

Eu sabia!

Sabia!

Sa-bia!

Dou o meu melhor pra forjar uma expressão de surpresa. — E-Embora?

— Sim. Pra Itália. Cê achou que eu ia ficar aqui pra sempre? Claro que não, Yoongi! Meu coração não é brasileiro.

Arqueio as sobrancelhas.

As bochechas dela ficam vermelhas. — Relaxa: você nem vai sentir a minha falta. Tem muitas hóspedes mais legais do que eu pra você conversar. Fora que a Alice é linda, né? Dá uma chance pra ela! Se bem que… você é muito chatinho. Ela combina mais com o Jimin! Fui!

Entorto a cabeça, tentando acompanhar cada palavra. — Alice? Quê? Como assim, Lali? Do que que cê tá falando?

Lali sorri fraco. — Não conta pra ninguém sobre a viagem, tá?

Assinto, parado na mesma posição.

— Beijo, gatinho. Vou dormir. Te vejo às 7. Se prepara pra me treinar porque eu vou te dar trabalho, viu?

Lali sai depressa na direção do corredor.

Ela… ela vai embora.

Vai mesmo embora!