Antonella
1 Antonella
Dizem que quando estamos perto da morte, nos lembramos de cada um dos momentos mais importantes da nossa vida e que nos levaram até ali. O que não contaram é como esses momentos são vistos. Eu estava num corredor com várias pinturas ao longo dele, logo que eu vi a primeira eu sabia que aquele era como eu veria esses momentos da minha vida. Eu passei o que pareceu um pedaço da eternidade na primeira foto, eu não conseguia me lembrar daquele momento, mas estava ali como a minha primeira memória. Na imagem minha mãe me olhava com ternura e meu pai com curiosidade. Desejei ver mais daquele momento, e no mesmo instante a sala mudou de forma, o que antes era uma pintura como em um museu, agora havia se tornado uma sala com pequenos vídeos.
—Você é tão linda. – disse minha mãe para mim. — Vou chamá-la de Antonella.
—Antonella? – disse meu pai olhando com curiosidade para minha mãe. Ela ainda olhando meus olhos esverdeados, os mesmos olhos dela, disse: — Porque Antonella é aquela que é valiosa demais para se determinar.
O vídeo acabou e eu fiquei olhando mesmo por alguns minutos para aquela cena. Ali eu me senti por aquele instante que eu fui o fruto de um grande amor. A luz se apagou e a tela que eu olhava também, esse era o sinal que eu deveria seguir em frente e não podia ficar ali todo o tempo do mundo.
O próximo vídeo foi quando eu dei meus primeiros passos com um ano, meu pai me olhava com ternura. E dizia:
—Venha Antonella, venha para o papai. – disse ele. – Aquele bebê caminhavam com os passos incertos olhando para o pai como se nele encontrasse seu ponto seguro. Minha mãe não aparecia naquela lembrança, ela não participará durante muitos momentos na minha vida, eu apenas não lembrava que ela havia me deixado a tanto tempo assim. O que havia acontecido com aquela mulher doce que me olhava com tanta ternura e havia me nomeado nas minhas primeiras horas de vida? A luz se apagou e me obrigou a dar mais um passo.
A próxima imagem se passou alguns anos depois, quando eu tinha quatro ou cinco anos, não me lembrava exatamente, foi um dos poucos momentos da minha infância que eu lembrava da minha mãe presente em uma peça que eu apresentei na escola, eu estava vestida como uma margarida e sorria pela alegria de ver minha mãe ali na plateia, mesmo que ela não prestasse atenção e parecia seria demais como se apenas estivesse ali de corpo.
Até aquele momento eu não sabia do que estava por vir, mas ela estava pensando na melhor forma de me dizer que meu pai havia ido embora, que ele não voltaria e naquele momento seria apenas eu e ela. O que posso dizer que depois de ter me dado um milk-shake de morango favorito ela apenas disse essas palavras que descrevi acima e me proibiu de perguntar mais sobre isso, como se o que ela tivesse dito fosse explicação mais do que o suficiente. Eu nunca tive a chance de dizer adeus para ele, um dia que ele estava ali me colocando para dormir, no outro não estava mais.
As luzes se apagaram de novo e eu sabia que meu tempo com aquela lembrança havia acabado. Ao contrário das anteriores a próxima lembrança não estava a um passo de distância e sim alguns metros, eu segui pensando sobre como minha mãe esteve presente nos dois dias seguintes que meu pai não estava mais comigo e no terceiro dia ela me apresentou a babá e começou sua vida novamente no escritório como diretora de revista de moda.
Muitos anos se passaram entre aquela lembrança e a que seguiu. Eu estava com 17 anos e havia descoberto que havia sido aprovada no vestibular de medicina, eu não podia estar mais feliz com essa notícia, com lagrimas nos olhos eu liguei para mim mãe, ela era a primeira pessoa que eu queria contar sobre isso, mas ela apenas disse que não tinha tempo naquele momento, estava entrando em uma reunião e que conversaria comigo mais tarde. E como uma bolha de sabão, toda aquela animação se foi e eu sai como um zumbi sem emoções entre aquela multidão que tentava ver seu nome na lista dos aprovados.
Meu cérebro pensava só havia um pensamento: Se era realmente uma grande coisa ou se era apenas para mim. Pensei em quem mais eu poderia contar, mas não havia ninguém. Sem amigos ou namorado que eu pudesse compartilhar isso. Você que lê isso deve pensar que eu sou uma das daquelas garotas problemáticas com problemas de relacionamento, mas a verdade é que funcionava bem para mim ser invisível na turma e manter o mínimo de contato já era o suficiente. E por isso não me considerava com problemas de relacionamento, talvez de confiança. A luz se apagou se acedendo mais à frente.
Já estava um pouco além do meio do corredor e eu ainda não o número de momentos importantes na minha vida deveria ser o menor de tantas pessoas que haviam passado naquele corredor para ver suas lembranças. E eu sabia que parte disso era minha culpa, por não acreditar muito naquele clichê de viver cada minuto como se fosse o último. Isso não se aplicava muito para mim.
Na faculdade minha dificuldade de me relacionar com outras pessoas melhorou um pouco, em partes porque ali precisávamos um dos outros para ter esperança de sair dali e no penúltimo ano do meu curso eu conheci o Iago. Deus, porque ele tinha que ser aquele tipo de cara que toda menina sonha em ter na sua vida? Aquele tipo que demonstra num olhar quando você está distraída ou no toque leve e quente que você é aquela pequena luz em seu universo. Iago tinha desejo por viver e queria salvar vidas pelo mundo com esse seu desejo que contagiava todos e isso me inclui.
A imagem da minha frente foi da primeira vez que fomos no cinema. Eu não consegui dizer não quando aqueles olhos heterocromáticos me pediram isso e naquela sessão enquanto assistíamos um dos filmes da Disney nos beijamos. E até o beijo dele era especial, era o tipo de beijo cheio de desejo e que você desejava mais. Com ele, eu conheci um mundo que ainda era desconhecido para mim como mulher. Mas como tudo na vida tem um fim, o nosso conto de fadas também teve e ao final do curso, Iago recebeu uma proposta para ser interno na Itália.
Ele me pediu para esperar por ele e como sinal da sua promessa ele me entregou um anel. Lagrimas caíram dos meus olhos ao ver ele ajoelhado na minha frente com aquele anel. Eu apenas balancei a cabeça e coloquei o anel. Prometemos que contaríamos sobre isso aos nossos pais no final de semana seguinte (15 dias antes da viagem dele para Itália), antes de contarmos para outras pessoas. A lembrança acabou antes de final. Ela não falava que aquela foi a última vez que vi Iago, não contava sobre o acidente que ele sofreu ao voltar para a casa que o matou e eu me mantive em seu velório como sua namorada, não como sua noiva. Porque ele não teve a chance de contar aos seus pais sobre nosso relacionamento e muito menos eu, porque minha mãe nunca teve tempo para mim.
Em horas como essas, você se sente destruído e ao mesmo tempo um pouco confortável porque acredita que aquele é o fundo do poço e não há como ir mais fundo. Mas a vida sempre prova que você estava errado. E era exatamente sobre isso que minha lembrança seguinte falava. De quando eu acabei saindo do enterro do Iago e encontrei acabei vendo meu pai próximo ali. Eu achei que eu podia ter me enganado, mas algo no meu interior me dizia que era ele, eu me aproximei sentindo minhas pernas tremendo e meu coração palpitar. Mas alguns metros eu me contive. Ele estava abraçado a outras duas pessoas. Sua nova família. Senti uma pontada no meu coração, uma mistura de decepção e dor, mais dor do que eu imaginava que fosse possível suportar. Eu queria ir lá, confrontar ele por não lutar por mim, por me abandonar como se não tivesse nem um pouco de amor por mim. Mas eu apenas me virei e sai dali. Ele já havia ido embora há muitos anos e não me importava mais as respostas dele. Na entrada do cemitério, antes de dar o passo para a rua eu olhei para trás mais uma vez, onde eles estavam e apenas segui em frente. Terminando mais uma lembrança.
Os anos se passaram, eu fui designada a trabalhar em um hospital em Porto Alegre. E por anos eu não vi minha mãe, na verdade não mantivemos contato. Apenas poucos cartões de natal e aniversário. Tudo estava bem, eu tinha meu apartamento onde eu vivia com Chewie, minha cadela; era uma obstetra reconhecida que ajudou muitas crianças virem ao mundo, vi crianças ficarem órfãs logo ao nascimento e vi mãe voltarem para a casa com um caixão e uma dor que não se pode medir. Mas a verdade é que nenhum daqueles momentos me preparou para o momento da lembrança seguinte, quando eu recebi a ligação que minha mãe no meio de uma de uma das suas reuniões sentiu coração dar o primeiro e um único sinal de um infarto não resistindo e morrendo.
Rever aquela lembrança na terceira pessoa era estranho, ver meu rosto perder a cor, o telefone caindo da minha mão e eu saindo sem rumo certo. Andando pelos corredores do hospital vendo tantas pessoas passarem por mim e o exato momento que eu sentei no meu do hospital e comecei e apenas ficar ali até o momento que Ryan colocou a mão sobre meu ombro e seus olhos cor do céu me olhavam com conforto, como se tudo ficaria bem.
Caminhei para aquela lembrança no final do corredor, eu sabia o que ela me mostraria e eu queria voltar, não estava pronta para ver ela. Mas eu não tinha essa escolha, além disso todos os momentos me levaram até ela: O momento que eu acordei para mais um dia de trabalho, poucos meses após a morte da minha mãe e a noite que teria um encontro pela primeira vez depois do Iago.
Como o de costumes das quintas feiras eu fui a aula de natação e me exercitei por 50 minutos, mas naquele dia eu queria mais alguns minutos ali na água. Porque ali era o momento que eu podia apenas deixar meu corpo trabalhar e livrar minha mente me preparava para lidar mais um dia. Meu professor de natação já estava acostumado com esses 20 minutos a mais que eu sempre fazia e ele sempre me deixava ali, enquanto se encontrava com a turma do próximo horário. Mas na hora de sair eu acabei escorregando e batendo a cabeça na borda da piscina e voltando a água, eu queria nadar e voltar a superfície, mas eu senti minha visão escurecendo e quando acordei estava aqui. No final dessa caminhada eu tive uma certeza: A vida é uma coleção de decepções, mas o que vai te ajudar saber se valeu a pena ou não, é como você lidou com essas decepções e seguiu em frente. A luz se apagou e eu vi aquela luz alguns metros de mim, ela parecia ser tão quente, tão pacifica e eu sabia que depois que eu atravessasse ela, não haveria mais dor e isso parecia o suficiente para eu ir até ela. Mas quando eu me aproximei um pouco mais eu vi uma forma que caminhava em minha direção.
—Mãe? – disse.
— Aqui não é seu lugar minha Antonella. – disse ela prendendo uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Ainda há muito o que viver.
Ouvi os latidos de Chewie.
—Chewie. – disse.
—Ela ainda está esperando por você. – disse minha mãe, estalando os dedos e apresentando uma tela escondida. Nela Chewie estava deitada sobre o tapete com lindos filhotes.
—Você conseguiu minha amiga. – disse para ela.
—Mamãe. – disse uma voz atrás de mim. Mas a visão acabou antes que eu pudesse virar para ver a visão tinha acabado.
—Eu errei com você. – disse minha mãe para mim. – Seja melhor, não deixe que os meus erros interfiram no seu futuro. Seja extraordinária. – E quando ela beijou minha testa eu despertei no hospital, eu conhecia bem demais aqueles quartos para saber no instante que abri os olhos que estava ali. Senti uma leve pressão na minha mão. Ryan me olhava com aquele sorriso sedutor dele.
—Você ainda me deve um jantar. – disse ele.
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