Antologia

1 Capítulo 01 - Eu não aprendi a viver sem você


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=uCYG5LG9axw

O dia tinha amanhecido acinzentado, nuvens cobriam maior parte do céu e o sol podia ser visto enquanto seguia pela avenida, o rádio do carro estava desligado, também não sentia vontade de ouvir qualquer música do pen-drive plugado no aparelho de som e as notícias já tinha noção de quais estavam sendo difundidas.

Apertou com força o volante e respirou fundo antes de ligar a seta para a direita e estacionar o carro numa das vagas em frente ao posto de conveniência sentindo novamente o coração acelerado a tal ponto que os seios doíam e depois de parar o carro um pouco torto colocou a cabeça sobre o volante se deixando novamente ser vencida pelas lágrimas.

"Seu idiota. Eu sempre disse que deveria ser a primeira a morrer. Você não me ensinou a viver sem você." Violeta pensava batendo a cabeça no volante sem se importar com a buzina tocando e chamando atenção dos frentistas e pessoas que passavam por lá.

A dor de perder Vicente a maltratava, o homem há quem disse sim sem pensar duas vezes quando foi perguntada pelo padre Anselmo e depois gritou que todos continuassem calados, ninguém ia impedir que continuassem juntos.

Quase quarenta anos juntos, perdoou o vício em apostas, as dívidas, perder quase tudo ele a perdoou quando conheceu Nero e por vários anos achou que o amou e teve um filho aos cinquenta anos que Vicente cuidou como um filho, o filho deles, tantos erros, tantos beijos, tantos gatos que criaram, comidas que experimentaram e agora se sentia só, sem os filhos, sem o neto e principalmente sem Vicente.

Uma morte tão repentina, quase não acreditou, a promessa de que deveria deixar uma carta a ensinando a viver só não foi cumprida, na mesa onde trabalhou vinte anos onde estava a foto dos dois não tinha a última instrução nem na geladeira, o ímã não estava a preso há um recado.

Violeta levantou o rosto assustada quando bateram no vidro da janela, secou o rosto, mas, os olhos fundos arrodeados de manchas escuras não diminuíam, as bolsas maiores, a pele branca enrugada com rugas estava descuidada.

"Mais um para me irritar." Pensou voltando ao semblante sério e abaixou o vidro para olhar nos olhos o jovem com a farda do local, blusa e boné vermelhos, havia uma estrela dourada no peito direito e tentava parecer amável, mas, no fundo, só queria que utilizasse um dos serviços ou fosse embora.

— Estou atrapalhando algo? – Violeta perguntou e olhou do lado dele, não tinha nenhum carro torto na outra vaga por sua causa e ignorou o olhar da vendedora no caixa do posto de conveniência lhe olhando.

— A senhora estava buzinando. – O frentista avisou e continuou a olhando ignorando a resposta irritada. – Quer que ligue para alguém? Eu posso pedir para lhe buscar. – Sugeriu.

Violeta respirou fundo antes de tirar a mão dele de sua janela e apertou novamente para o vidro subir, ligou a seta para a esquerda, abaixou o freio-de-mão e deu ré no carro antes de seguir em direção a rua e entrar sem olhar para o lado escutando o motorista buzinar alto e seguiu o caminho para o aeroporto.

"Meu marido me deixou, foi embora me deixando com nossos gatos, nossas dívidas, nossa casa, suportando o olhar acusador das pessoas sozinha por que não sei ser polida." Pensou e deu um sorriso triste, Vicente a amava desse jeito, rude, opiniosa, talvez, dominadora, mas, também o amava sem desconhecer o que era limite.

Sentia-se nervosa imaginando como seria recebida, o medo de tirar os pés tão fincados ao chão e voar por uma hora ou menos, ainda a assustava, já se sentia sem chão, porque não voar e era a chance de entender os motivos que fizeram elas se afastarem.

"Ele passou a andar de óculos escuros em todos os lugares, só eu sabia o quanto sofria por que nos sentíamos da mesma forma." Lembrou e engoliu o choro novamente, perder Nico para a doença, agora entendia a dor da filha, perder um bebê, havia encontrado os sapatinhos de tricô, eram castanhos como imaginava que seriam os olhos de Vicente Neto, puxados como o do pai e do irmão mais velho Yuri, seria pardo como ela e sorridente.

Violeta gritou, as janelas estavam fechadas e o ar-condicionado abafaram, ninguém precisa ter piedade, precisava viver o luto, viver sem Vicente, sem sua última anotação, sem seu último boa noite, sem o beijo doce antes de dormir.

Depois de passar ao lado do viaduto entrou na avenida do Aeroporto, não tinha mais como fugir da oportunidade, não havia marcado data para volta, não queria voltar, não queria viver em uma casa que a lembrava de Vicente, de Nico, da vida com sua família e jogar todos os copos e pratos contra as paredes com raiva, detestava o silêncio que a solidão trazia, era perturbador estar num lugar que agora odiava.

Violeta entrou pela estrada curvilínea que lhe levava ao estacionamento e seguiu em direção aonde ia deixar o carro e Nero ia busca-lo antes do estacionamento fechar para guardá-lo na sua garagem, torcia para realmente ser como Maria lhe disse, uma chance de recomeçar e aprender a viver com as lembranças de sua vida ali, do seu querido marido idiota, do seu filho morto, da cidade onde fincou raízes e agora arrancou da terra com força para tentar enxerta-la nesse novo local.

"Será que está tudo bem, afinal?" Pensou receosa, sentia ainda o aperto no seu braço quando brigou para defender a filha uma última vez de Otávio e esta o corte perto do rim depois de rolar degraus e a perna já não era mais a mesma.

"Não está tudo bem. Eu vou viver o que a vida me deixar viver como um soldado que vem sem muito menos do que foi para a guerra." Decidiu e riu lembrando da música que o filho amava e agora não estava mais vivo para ouvir como ela seria originalmente ou lhe ensinar o que cada verso dizia sobre a vida da tal artista.

Notas finais
Escutaram? Gostaram? O que acham da próxima música com que quero escrever uma história?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!