Steve Rogers não era de se interessar por mulheres alheias.

Mesmo que elas tivessem cabelos ruivos de um vermelho muito forte e olhos verde-menta.

Mas aquela saia lápis de courino, com aquela camisa de sarja masculina verde-militar amarrada logo após o cós da saia, exatamente como as mulheres de sua época.

—Capitão Rogers.-Ela lhe deu um sorriso de matar com os lábios vermelhos.-Sou Marjory Prince.

Com cuidado, capturou a mão esquerda da moça, onde plantou um delicado beijo no torso.

—Prazer em conhecer.

Steve achou extremamente fofo a forma como a moça corou. Nao havia aliança na mão esquerda, mas o loiro tinha de lembrar que não estava mais em sua época.

—Sei que não é a melhor forma de conhecer um vizinho, mas eu sou uma agente do exército americano. O coronel Talbot e Nicholas Fury me pediram para ficar de olho, mas não acho que seja adequado. Prefiro me dispor a ajudar no que precisar. Eu sei bem o quão estranho é esse século.

—Eu agradeço a sua disposição, senhorita Evans. A propósito, gostaria de um café?

—Adoraria! Vou buscar a macarronada gratinando no fogo. Espero que goste de massas.

—Eu vou arrumar a mesa. A porta estará aberta. Não quer que eu vá buscar a forma quente?

—Oh, não é necessário. Chego num minuto.

•~●~•


Companheirismo.

Essa era uma palavra da qual Steve tinha saudade.

Palavra tão ligada ao universo masculino em seu tempo, e que tinha seu significado suprido por sua vizinha da porta da frente.

Ele preparava um chá gelado com frutas silvestres, enquanto esperava os suaves três toques em sua porta. Pouco antes do cheiro da tentativa culinária tomar o ambiente.

Sua vitrola tocava um blues qualquer dos anos 60, em um volume ambiente, e o capitão logo se pegou cantando. Definitivamente estava leve nos últimos tempos. Já faziam três meses que os dois haviam se apresentado e comido aquela macarronada divina em seu apartamento.

A partir dali, eles sempre conseguiam uma desculpa para tomar um café. Ultimamente, tomavam café da manhã bem cedinho no domingo, a ruiva o ajudava em algumas coisas da casa nas quais não levava muito jeito, e então iam ao mercado. Steve demonstrava seus dotes culinários. Sempre era o responsável pelo almoço.

Durante a tarde eles iam ao parque, a uma livraria, algumas vezes iam ao cinema.

Agora as coisas estavam se complicando. O Complexo seria inaugurado por Stark em duas semanas. E Rogers, definitivamente, não queria sair de seu apartamento no Brooklin.

As três batidinhas, e o cheiro de uma massa foleada pela qual Rogers estava viciado.

Deixou a jarra de vidro sobre a mesa, e foi a passadas largas até a porta.

A ruiva sorria de canto. Os lábios cheios não tinham batom algum. Steve pegou a travessa onde estavam os pequenos pastéis de massa foleada, deixando um beijo simplório na bochecha direita. Isso sempre fazia uma faixinha adorável de rubor colorir a pele branca da mulher.

—Já pedi para me avisar quando quer fazer essa massa, Marjory. Não é justo ter tanto trabalho sozinha.

A ruiva apenas riu baixinho.

—Eu senti o cheiro do meu chá favorito há alguns minutos. Achei justo fazer isso pra você. A propósito, fiz sem recheio. Vamos comer com fondue de queijo. E depois de chocolate.

—Ainda bem que comprei muitos limões.

—Oh, faça aquela sua limonada, por favor. Eu adoro.

—O que quiser, senhorita.

°~○~°

Tudo pronto, e os dois sentados à mesa. Os copos estavam servidos e o queijo terminava de derreter, espalhando seu cheiro pela casa.

As massinhas cortadas em meia lua estavam crocantes. E logo eram mergulhadas no fondue.

—Eu nunca tinha comido fondue...

—Serio? Depois que me contou o episódio com Howard Stark, achei que tivesse comido.


—Não. Nunca tive companhia para fazer isso.

—Você tem é muita timidez, Steve. Se tivesse convidado qualquer uma das agentes da SHIELD, sem dúvida teria companhia. Incluindo Maria Hill.

—Acho que não faço o estilo delas... Não que eu faça o seu, mas ao menos consegui uma grande amiga.

—Claro que faz meu tipo.-A ruiva deu um senhor gole no chá de frutas.-Eu amo esse chá. E o que você faz é maravilhoso! Vai ter de me ensinar o segredo um dia.

—Não mesmo. É a única coisa culinária que posso usar como chantagem. Não vou te ensinar.

—Então vai ter que fazer sempre pra mim.

—Vai me dar esse sorriso sempre que eu fizer?

A mulher corou, e isso fez o capitão abrir um sorriso largo. Era difícil fazer Marjory ficar constrangida.

—Você é bobo, Steve Rogers.

—E você é adorável, Marjory Prince.

°~○~°


Eles haviam afastado os móveis da sala.

E agora Marjory tentava ensinar algo de Charleston ao vingador.

—Vamos, Steve. Você consegue fazer melhor que isso.

Os dois riam, e o loiro estava ocupado tentando não pisar no pé de sua companhia. Modéstia parte, não estava tendo êxito algum.

Era alta madrugada. Os dois bebiam uma Champanhe belga que a ruiva tinha em casa. A conversa rolava solta, com Steve contando algumas coisas de sua infância e adolescência.

Ele já havia reparado que a ruiva não gostava de falar muito sobre sua vida antes da SHIELD. E como o cavalheiro que era, Rogers nunca cogitou insistir no assunto.

O comunicador deu sinal de vida. Não apenas o pertencente ao Capitão. O da ruiva recebeu exatamente a mesma mensagem.

Aparentemente, Fury não considerava descortesia incomodar alguém em plenas 3:00 da madrugada.

•~●~•


O Complexo era, assim como seu idealizador, megalomaníaca.

Mas havia uma sutileza de detalhes, algo belamente floreado. Puramente coisa de seu arquiteto. Steve Rogers tinha uma delicadeza única em perceber detalhes, e conseguia projetar essa habilidade em seus desenhos. O que fez daquela ala dos vingadores um lugar único. Compatível com todas as personalidades ali apresentes.

Graças a essa habilidade, Steve viu como a postura da mulher que o acompanhava havia mudado.

Marjory já não trajava aquelas simpáticas roupas, ou tinha aquele batom vermelho nos lábios. Usava uma roupa inteiramente negra. A calça de brim, com as barras dentro do coturno militar, a camiseta de mangas longas era de um longo mais grosso. Ela usava um sobretudo negro por cima da roupa, parecia ocultar algo com aquela terceira peça. Algo que Steve não conseguia perceber.

O rosto estava sério, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e firme.

Não parecia uma mulher moderna. Ainda tinha aquele ar meio vintage. Mas sem dúvida era uma mulher que exalava perigo.

Ela o acompanhou até a sala de reuniões, onde Fury estava junto dos demais vingadores. Por acaso, as duas vagas na mesa eram lado a lado. Entre Tony Stark e Bruce Banner.

—Capitão Rogers. Agente Prince. Bem vindos.

Um acenar de ambos, que se acomodaram à mesa. Logo começou uma explanação sobre a captação de diversas bases da HYDRA, e o suposto experimento com humanos. O que eles chamavam de Aprimorados.

—Isso é absurdo, Fury.-Todos pararam para olhar a ruiva.-Esses poderes não vem do além para os humanos. Yohan sempre soube que não é possível fabricar um gene mutante e inseri-lo em um corpo qualquer. Esses sobreviventes dos experimentos nada mais são do que filhos de mutantes. Já tem o gene adormecido. É o tipo de experimento a nível celular que é simplesmente impossível.

—Quanta segurança para afirmar isso, agente Prince.

Steve sentiu uma certa acidez no comentário de Maria Hill. Mas não deu atenção, estava mais interessado nas informações que ela parecia ter.

—Nick, isso foi testado e comprovado na segunda guerra. E nem era um experimento da HYDRA. Era do Mengele. Sabe que ele não é do tipo que dorme em serviço ou tolera falhas.

—Quem é Mengele?

O capitão perguntou baixinho, atraindo os olhos intensos da moça ao seu lado.

—Médico de Hitler. Ou Anjo da Morte. O que preferir. É o cara que revolucionou quase um século da engenharia genética em menos de uma década. Ele e Yohan Schimidt disputavam de igual para igual o posto de querido de Hitler, até a HYDRA se tornar independente do partido nazista.

Steve viu Tony abrir um sorriso de lado um tanto diferente do habitual. Eles conversaram sobre algumas atitudes a serem tomadas, mas acabou sobrando para o Capitão montar as estratégias que achasse mais conveniente. Logo estavam apenas os vingadores na mesa, aguardando JARVIS servir o jantar.

—Achei que não fosse vir me ver, madrinha.

—Não haja como um menino de oito anos, Antony. Você já passou dessa idade antes da década de 90. Aliás, vejo que ainda é fã de Ozzy Ousborn.

A cara de todos os outros era da mais absoluta de descrença. Não era possível que aquela mulher fosse madrinha de Stark. Afinal ela tinha a metade da idade dele. Certo?

—Pessoal, essa é Marjory Prince. Minha madrinha. Não se enganem com esse rosto jovem. Ela tem 98 anos. Nascida em 31 de outubro de 1920. Ela é mais de 50 anos mais velha que eu.

—Você foi deselegante. Jarvis, querido.

—Sim, senhora Prince?

—Coloque todos os whiskys do Tony no cofre do quinto andar. E ele está sem acesso até segunda ordem.-Ela retirou os óculos escuros, e franziu as sobrancelhas para o herói.-Se resmungar vai ficar um mês sem poder entrar na sua oficina. Kepler vai tirar folga e você vai ter que ir em todas as reuniões da empresa. Eu te garanto que não são poucas.

—Desculpe, madrinha. Não achei que fosse se ofender.

—Achou errado, filhote.

—Tudo bem... A propósito, vai dormir aqui no complexo?

—Vai sim.-Steve se pronunciou, ganhando um sorriso da ruiva.-Vou mostrar a acomodação onde vai ficar, Marjory.

—Obrigada, Steve.

•~●~•


—Então nós dois temos a mesma idade?

Steve estava sentado no sofá de sua pequena ala particular. Todos os vingadores tinham uma, com dois quartos de hóspedes e uma pequenina sala de convivência. Ideia do loiro, claro. Que agora ele realmente achava genial. A ruiva havia lhe roubado uma camisa de flanela mais larguinha, e usava como pijama.

—Sim. Se não me engano você é quatro meses mais velho que eu.-A ruiva trouxe duas xícaras de um docinho chá de camomila, se sentando ao lado do Capitão.-Desculpe não ter contado.

—Nada que não possa ser resolvido com nossas maravilhosas xícaras de chá. Eu tinha percebido uma tatuagem no seu antebraço. Mas só agora entendi que era o código de Auschwitz.

—Ele me mandou pra lá por mau comportamento... Consegue acreditar nisso?

—"Ele" quer dizer Yohan Schimidt?

—Infelizmente. Juro a você que preferia ter casado com o próprio Hittler e ter sido a vítima fatal da Operação Valkiria.

—Espere... Você era esposa dele?

—Infelizmente... Sabe como era a coisa na nossa época. Ou o casal dava a sorte de se amar e casar antes que o pai os vendesse, ou...

—Você foi vendida a um psicopata?

—A uma das figuras salvadora da Alemanha. Steve, entenda: os Estdos Unidos tiveram Capitão América para se meter numa guerra que sequer era deles. Uma Alemanha dizimada e faminta tinha cinco gênios loucos, encabeçando um partido com ideais humanitários. Historicamente, todo mundo trata da Alemanha como se ela estivesse em plenas condições quando a Segunda Guerra veio a tona. E não é a verdade. Goste ou não, você sabe disso. Esteve dentro do meu país. Você viu o que tinha lá.

O loiro ficou em silêncio, processando todas as informações que recebera.

Steve Rogers estava se sentindo atraído pela esposa de Caveira Vermelha.

Aquilo, com certeza, era uma brincadeira de mau gosto do universo.

—Se ele te trancou em Auschwitz por ser rebelde... Ele praticamente te deu de presente ao Mengele...

—Meu caro super soldado...-A ruiva lhe acarinhou o rosto. Apesar do tom desdenhoso, ele viu uma magoa imensamente profunda nos olhos verdes.-Eu nasci na Alemanha nazista em 1920, pouco antes do partido começar a Segunda Guerra. Eu sou a mais perfeita experiência e filha caçula bastarda de Josef Mengele.

•~●~•


Steve não dormiu aquela noite, apenas porque não costumava dormir mesmo. Então ficou na sala de seu espaço pessoal, desenhando, enquanto sua companhia estava deitada no outro sofá, lendo um livro sobre lobisomens, absurdamente quieta, mesmo que os lábios dela se movessem vez ou outra.

Em algum momento, a ruiva adormeceu com o livro sobre o colo, e Rogers se deu um momento para observar todos os detalhes daquela cena, enquanto fazia um rascunho simplório de disforme da mesma.

Deixou seu bloco de desenhos sobre o sofá e foi pegar a mulher no colo com todo o cuidado, levando-a para a cama. Acomodou e cobriu a amiga, antes de voltar para a salinha e com calma terminou o desenho que tinha rascunhado.

O dia já tinha raiado quando a pessoa na cama levantou, tomou um banho quente e lhe deu um beijo carinhoso na testa, indo diretamente para a cozinha.

Steve decidiu fazer o mesmo, e logo ajudava a ruiva no preparo das panquecas.

O capitão assistiu Tony Stark chegar na cozinha e se agarrar na cintura da mulher.

—Madrinha...

—Tudo bem, eu faço seu leite com caramelo. Pare de dormir no meu ombro, Antony.

—Não... Você me largou sozinho, madrinha... Agora eu vou cobrar. Com juros.

—Eu disse à sua mãe que ela o mimava demais.

Tony beijou o rosto da mulher, antes de se acomodar à mesa.

—Não era minha mãe quem dormia comigo quando eu estava doente. Na verdade, você nunca dormia quando eu estava doente.

—É claro que não. Não sou formada em medicina para ficar roncando enquanto meu bebê tinha febre.

Steve observava aquela interação esquisita. Aparentemente, Antony não conseguia agir de forma muito adulta perto da madrinha. Não que a ruiva lhe desse brecha para ser babaca.

—Decididamente, seus pais souberam bem escolher a sua madrinha.

Brincou o capitão, arrancando uma risada de ambos.

—Soube mesmo. Eu tenho quase cinquenta anos... E ainda levo broncas energéticas da minha madrinha.

—Você é uma mulher realmente linha dura.

A ruiva deu uma senhora gargalhada, antes de se acomodar a mesa e os três tomarem café da manhã.

Então Steve se dispôs a reanalisar as informações das bases da HYDRA. Precisava montar as estratégias de ação. A ruiva se sentou na poltrona ao lado, e ficou fazendo as unhas.

Foi uma manhã e parte da tarde. Antony não deixou a ruiva ir embora, e ela fez o jantar. E ela dormiria na ala do Capitão outra vez.

°~○~°


—Steve...-Aquela mulher surgir com aquela camisola azul era jogo baixo. Muito baixo. A mão longa passou por seu rosto com carinho.-Vem dormir. Já faz quatro noites que você fica em claro. E sim, eu escuto quando você está acordado no apartamento.

Acabou fechando o bloco, e se levantando. Foi seguro pela mão e guiado até o quarto. Acabou tomando um banho antes de deitar também, e ficou surpreso quando a ruiva iniciou uma massagem suave em suas costas.

—Tony tem razão... A culpada pelo mimo dele é você...

—Ele tinha muita cólica quando era bebê. Então eu massageava ele todas as noites. Só que ele foi crescendo, e eu continuei com os rituais de massagem. Ajudavam ele a dormir. Tony tem crises de ansiedade desde muito novo. Culpa daquele desgraçado do Howard Stark.

—Eu consegui sentir o seu rancor na minha alma... Howard não tinha medo de você?

—Ah, tinha... Depois que Tony aprendeu a me contar que ele o maltratava... Ele só ia pra casa no dia que eu estava de plantão, chegava depois que eu saía, e ia embora antes de eu chegar. E se eu chegasse em casa e Antony estivesse chateado... Ah, eu fazia um verdadeiro inferno na vida dele. Cheguei a quebrar algumas costelas em um legítimo ataque do que Tony chama de "Mamãe Lobo".

—Maria realmente escolheu bem a madrinha do filho. Antony tem padrinho?

—O pai de Rhodes era padrinho dele. A vida dele era defender Howard de mim... Era outro brutamontes. Tive minha cota deles com o Yohan. Nunca mais tolerei nenhum comportamento masculino abusivo. Pode ver que por mais babaca que Tony seja, ele nunca distraiu mulher alguma. Ele e Rhodes foram bem criados, apenas por mulheres.

—Isso realmente faz diferença... Eu fui criado pela minha mãe. Meu pai morreu quando eu era muito novo. Minha tia dizia que ele batia na minha mãe... Eu acho que eu teria surtado se tivesse visto.

Os músculos foram relaxando um por um. E o sono foi chegando como consequência. Logo Steve estava num sono pesado.

•~●~•


Eles já estavam em posição. A temporada de invasões nas bases da HYDRA ia ter início naquele momento.

É claro que a missão teria baixas, mas foi bem sucedida. Assim como as próximas oito. O grande problema da última foram dois dos aprimorados. A HYDRA os chamava de Os Gêmeos.

°~○~°

Steve serviu o chá mate gelado com limão que havia feito, e levou para o quintal, onde havia uma quieta Marjory sentada em uma espreguiçadeira de bambu.

—Com licença, senhorita.-Ele atraiu aqueles olhos incomuns.-Eu estava procurando uma bela ruiva. Viu alguma por aqui?

Ela lhe deu um sorriso murchinho.

—Eu diria que ela está na piscina com doutor Banner.

—Oh, não.-Entregou um dos copos, se sentando na espreguiçadeira.-A ruiva que eu procuro tem cabelos longos e olhos bem verdes.


Ela riu, antes de tomar um generoso gole de chá.

—Você tem uma mão invejável para chás, Rogers.

—Ao menos alguma coisa eu tinha que saber fazer melhor que você na cozinha.

Os dois acabaram rindo baixo, antes de voltarem a admirar os jardins. A ruiva estava claramente triste com algo, e era bem provável que fosse o encontro com os gêmeos. E seja lá o que a pirralha telecinética havia feito-a ver, o capitão tinha certeza absoluta que ele próprio teria pesadelos por semanas.

—Eu tenho um problema para resolver na Rússia.-Ela comentou, vendo os outros discutirem na piscina.-Vi uma coisa nos computadores daquela base. Ela engloba, inclusive, o sargento Barnes. Vou sair hoje de madrugada. Tentem não meter mais os pés pelas mãos até eu voltar.-Os olhos verdes se fixaram nos do Capitão.-Isso não foi um pedido.

•~●~•


Quando Steve chegou em seu apartamento naquela tarde, havia uma ruiva muito brava sentada em seu sofá.

—Antony já levou a bronca hoje de manhã. Azar o seu ter que fazer os relatórios, não?

—Claro que não. Já teve a oportunidade de extravasar metade da raiva nele.

—Oh, não. Ele não tem vergonha nenhuma de chorar na minha frente, e é o único filho que eu tenho. Sabe como é o coração de mãe.-Ela se levantou, e Steve nunca a achou tão perigosa.-Agora, você não tem escapatória, Capitão. Mas não tem mesmo.

°~○~°


Que ele estava de orelha quente era uma certeza absoluta. Aquela ruiva podia ser excepcional para dar broncas.

Mas agora, com a bronca dada e o pedido feito, Steve assistia um filme de romance policial com sua namorada apoiada no peito.

Sim, Antony iria querer arrancar seu couro por estar namorando a madrinha dele. Mas não era muito preocupante.

—Se eu te perguntar o que foi fazer na Rússia... Vai me dizer ou é sigilo?

—Vou dizer, apenas, que mães tem de tomar decisões difíceis. Ah, e que Barnes está bem. Trabalhando numa oficina mecânica no Oregon. Liguei pra ele mais cedo e disse que iríamos fazer uma visita. O que acha de uma viagem de moto?

—Uma excelente ideia, querida.-Ela ergueu o rosto, beijando o queixo do Capitão.-Aliás, minha camisa fica muito indecente em você. Eu gostei.

E beijou a têmpora da ruiva, que riu baixinho de sua declaração. Ela voltou a se acomodar, e o filme logo terminou. Steve foi buscar snacks na cozinha e chá gelado, enquanto Marjory escolhia outro filme. Dessa vez era um romance meloso qualquer.

Ao que parecia, eles realmente iriam virar a noite vendo filmes.

•~●~•


Mais essa agora. Antony e seus acordos... Aquele sorriso do Secretário de Estado o estava irritando profundamente.

Bucky estava no apartamento do Brooklin, sendo vigiado de perto por Marjory.

Logo aquele secretariozinho se foi, e Steve deu um suspiro cansado, apenas se erguendo da mesa e alongando as costas.

—Rogers...

—Vou ligar pra sua madrinha vir jantar aqui. Eu ia levar ela pra jantar fora, mas você ainda quer discutir esse monte de baboseiras de novo mais tarde. Então, com licença.

°~○~°


—Você está atrasado, Steve. Tia Sarah teria algumas coisas bem feias a falar se eu dedasse você.

— Claro Que teria, vocês duas fariam amizade e se eu respirasse torto ouviria um sermão.-A voz veio brincalhona do outro lado da linha.-Está colocando a touca ou o avental, amor? Nós íamos jantar fora...

—Eu sei que íamos... Mas talvez eu pudesse te convencer a comer minha macarronada ao invés de sairmos de casa. O que Antony aprontou agora?

—Eu não vou te contar. Ele é quem vai fazer isso, caso contrário me tiram pra Cristo e falam que eu te coloquei contra o seu afiliado. Vem jantar aqui no complexo, amor. Eu peço comida oriental pra nós.

—Acaba de ganhar o direito de escolher o pijama com o qual eu vou dormir com você.

—Aquela sua camisola de seda... A verde-militar.

— Claro, aquela sem renda nenhuma.-A ruiva riu, sabendo que havia feito o capitão corar.-Tudo bem, eu chego em uns quarenta minutos.

•~●~•


Wakanda era linda. Mas naquele momento tudo o que Steve conseguia ver era a tristeza estampada nos olhos claros de sua namorada.

Enquanto conversava com Shuri, Natasha e Wanda, T'Challa se permitiu observar o casal. A forma absolutamente carinhosa com a qual Steve pegou a mão da namorada, atraindo sua atenção, antes de abraçar com cuidado os ombros da ruiva, escondendo-a em seu peito. Havia um respeito ali não muito comum em contatos físicos tão inteiros.

—Tudo bem, Marjory?

—Thor vai chegar logo. Nos não teremos muito tempo e Antony está perdido em algum lugar da galáxia... Perdi mais um filho por causa de um lunático atrás de suas pedras mágicas. Estou farta disso.

—Eu sei.-Deixou um beijo calmo no rosto da ruiva.-Eu sei.

•~●~•

Thanos viu aquela mulher vir em sua direção antes de todos. Mas a postura dela não era nada agressiva. Ela parou frente a frente com o titã.

—Qual delas é a joia da alma?

Fechou o punho, e mostrou a joia sobre seu mindinho.

—Esta, senhorita.

A mulher colocou a ponta dos dedos sobre a joia.

—Uma alma por outra... Milhões pela paz...-A mulher deu uma risada amarga.-Ninguém perdeu mais por essa mísera pedra do que eu.-A joia se acendeu, como se respondesse.-E no fim não conseguiu nem tocar nela, seu desgraçado. Até porque...-Thanos viu o laranja tomar conta dos olhos da mulher.-Ela é minha.

Por livre vontade, a joia se soltou da manopla, ficando na mão esquerda da mulher.

Todos presenciaram surgir duas crianças pequenas, de três ou quatro anos, e oito adultos, mas ou menos de 20 anos.

—Mãe? Ouve a gente, mãe.

Começou a menininha. O primeiro golpe foi certeiro contra o rosto do titã, que ficoubimensamente atordoado.

—Mãe, largue isso.

Um dos adultos, um rapaz ruivo com um olho de cada cor, pediu também. Um novo golpe, dessa vez nas costelas do titã. A perda de ar foi imediata. E tudo havia parado para ver os dois.

—Mãe...

Quase todos chamaram juntos. Apenas o menininho, que abraçava uma pequena coruja de pelúcia, permanecia em silêncio. Os olhos, iguais ao de Marjory, observavam tudo acontecer.

Com um último golpe, a ruiva arrancou a manopla, antes de cravar uma estaca de vibranium puro em sua cabeça.

O titã caiu morto, e seu exército se desfez em cinzas.

A manopla foi largada de qualquer jeito, e foi apanhada por uma das aparições, uma moça loira de olhos inteiramente negros.

A ruiva caiu de joelhos, a joia ainda brilhando como fogo em sua mão esquerda. Antony surgiu junto dos outros por um portal inexplicável, assim como todos os asgardiano que habitavam a nave fizeram do outro lado.

—Madrinha!

O garotinho deu um passo a frente, e ergueu a mão para o herói, que gelou no lugar.

Quase como se estivesse com aquela preguiclçinha de quem acabou de acordar, o pequeno foi até a ruiva, arrastando sua coruja pela asa. Ele acomodou contra Marjory, agarrado em seu pescoço. Antes de voltar a ficar em pé, e pedir a joia.

A cena toda não durou mais de três minutos, mas parecia uma eternidade.

—Eu senti saudades, mamãe...-A voz melodiosa tocou a todos.-Vamos pra casa?

A mulher abriu um sorriso em meio às suas lágrimas de dor absoluta. Então se levantou, deixando o corpo físico paralisado, e segurou a mão do garotinho. Enquanto eles caminhavam até os outros, Bucky foi alvo de um sorriso doce.

O soldado deixou sua arma ali mesmo, e Steve assistiu o corpo do melhor amigo tombar, enquanto o Bucky Barnes que conhecia surgiu envolto de luz, e foi até os outros adultos que aguardavam a ruiva.

Por fim, ela parou de andar e se virou para Steve. E todos prenderam a respiração.

—Steve, querido. Estamos atrasados. As crianças estão esperando.

A mão foi estendida, e todos ouviram o escudo cair na relva, antes de um Steve, nada mudado, envolto de luz, segurar aquela mão.

—Vamos pra casa.

E livres, pela primeira vez, adentraram uma porta iluminada, sumindo das vistas de todos o que ficaram naquele mundo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!