Antipático
1 Dois vizinho e um cão E não esqueça do vinho
Notas iniciais
Já perdi as contas de quantas milhares de vezes tentei colocar tudo isso no papel, mas tenho a sensação de que dessa vez vai dar certo.
Sabe que não sou muito bom com palavras, principalmente quando o assunto é tão grudento e melado. Ok, vou tentar não ser eu mesmo, pelo menos nesta carta. E tentar não ser tão simplório.
Mas você me conhece né? Sabe que nunca fui de fazer grandes discursos, muito menos gosto de falar com as pessoas. Odeio ter que socializar, e você sempre foi o contrário, e sempre reclamava de como eu era grosso com nossos queridos vizinhos
Porém o mais estranho foi que naquele dia em que você chegou, eu fui falar com você, tentar ser, ao menos uma vez, simpático. E o engraçado foi que a grossa, foi você, querida.
No dia seguinte, não é que você me aparece na minha porta as 7 da manhã de um domingo com uma cestinha de doces caseiros? Eu juro que quis fechar a porta na sua cara, pra tomar do seu próprio veneno. Mas os seus olhos castanhos sem graça, como você mesma costumava dizer, não me deixaram fazer isso.
E logo foi entrando e falando. Falou da bagunça que era aquele apartamento (Hoje vejo que estava certa), falou do como não tinha nada na geladeira, falou da sua infância difícil no orfanato e de como eu era simpático. Isso realmente me comoveu.
Não posso esquecer de falar do seu sorriso. Branquinho e pequeno, aquele que você costumava dar de manhã. Aliás, tenho que te dizer que você nunca me acordou, eu sempre acordava antes e observava você dormir. Como era bom acordar do seu lado, todos os dias. Até mesmo quando você estava naqueles dias.
E quando conseguimos colocar mais um membro na nossa pequena família? Aquele cachorro que num belo dia de chuva você trouxe pra cá. Era enorme e fazia você parecer uma anã. Como você o chamou mesmo? Vênus. “Por que me lembra aquele vinho que a gente tomou no nosso primeiro jantar”
Meu Deus, querida, como você sempre foi estranha! Cabelo curto, num tom de vinho mais claro, não sei explicar. Acho seu cabelo castanho mais bonito, mas você não.Fazer o quê né? Suas manias sempre me irritaram. E quando enfiava uma idéia na cabeça? Insuportável! Com o Vênus foi assim, ou quando você achou que devia emagrecer e resolveu fazer ioga. Ok, nunca foste uma miss Brasil, mas não precisava, eu achava que não.
Quando meus pais te conheceram, adoraram-te! Mamãe se deu muito bem contigo e lhe ensinou milhares de receitas que ela fazia para mim. Mas querida, você é um desastre na cozinha! Desculpe dizer.
Acho que tudo isso contribuiu para a gente se separar, apesar de eu nunca ter me conformado ou entendido. O Vênus aqui do meu lado também não. Bom, acho que você deve ter se sentido melhor sem seus pesadelos noturnos ou aquelas cartas de um cara com o mesmo sobrenome que o seu. Como pediu, nunca fui atrás dele. Mas vontade não falta.
Faz tempo, eu sei. Estou meio atrasado. Mas por quê deixar a gente? Deixei o banheiro daquele mesmo tom de vermelho que você deixou quando se foi. Me mudei. Fui para uma fazenda, ao menos nosso moleque canino se diverte mais correndo atrás das galinhas.
Bom, tua carta dizendo que me ama foi o que me fez continuar, apesar de tudo. Ela ta comigo ainda e sempre estará. E não esqueci que você me disse que iria me esperar.
Só quero dizer que sinto sua falta, ok? Te amo, querida. E Vênus manda um “beijo”.
Do teu vizinho,amigo e amante. Aquele simpático que odeia pessoas, exceto você.
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