Antigo novo amor

47 Capítulo 47 - Um chalé


Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio depois da conversa sobre Beatriz. Ainda emocionados. Ainda com as mãos unidas sobre a mesa. Até que Paula finalmente percebeu…


Olhou para os dedos entrelaçados. Sorriu sozinha e então retirou a mão devagar.


— Espera.


Vitor ergueu os olhos.


— Vou buscar seu presente.


Aquilo arrancou uma risada imediata dele.


— Presente?


— Sim.


— Achei que você não tinha trazido nada.


Paula levantou da cadeira.


— Eu jamais viria para o seu aniversário sem presente!


Vitor observou ela subir a escada ainda sorrindo. Poucos minutos depois, Paula voltou carregando dois embrulhos.


Ela sentou ao lado dele e entregou o primeiro. Vitor abriu sem demora. O sorriso apareceu imediatamente.


— Paula…


Ela observava em silêncio. Dentro da caixa havia um conjunto de charutos. Dos que ele gostava.

Dos bons. Dos difíceis de encontrar.


Vitor pegou um deles entre os dedos e começou a rir.


— Você comprou exatamente os que eu gosto.


— Não significa que eu aprove.


— Ah, não?


— Não.


Paula cruzou os braços.


— Continuo achando um hábito horrível.


— E mesmo assim me deu charutos…


— Porque você gosta.


Aquilo fez o sorriso dele aumentar. Porque era exatamente isso. Ela podia discordar. Reclamar.

Mas prestava atenção. Sempre prestava.


— Obrigado.


A voz saiu sincera.


— Gostou mesmo?


— Muito!


Ele passou os dedos pela caixa mais uma vez.


— Você escolheu os melhores.


Paula sorriu satisfeita e então empurrou o segundo embrulho. Vitor abriu e a risada escapou imediatamente. Ele ergueu a peça diante do corpo e balançou a cabeça.


— Não acredito que você me deu um pijama.


Paula começou a rir também.


— Eu achei apropriado.


— Apropriado?


Ela assentiu.


— Você não falou que lembra de todas as minhas roupas de dormir?


Aquilo fez o sorriso dele aumentar imediatamente.


— Eu falei… e de fato lembro!


— Pois é.


Paula apoiou o cotovelo na mesa.


— Então achei justo me dar a oportunidade de começar uma coleção de lembranças também.


Vitor abaixou os olhos para o pijama e voltou a rir porque entendeu na hora. Entendeu exatamente de onde aquilo vinha. Da conversa em que ela o acusou de ter uma perversão por lembrar de todos os pijamas que ela usava. Da forma como ele tinha admitido aquilo sem o menor constrangimento.


Ela observou ele segurando a peça por alguns segundos. O sorriso foi diminuindo devagar…

Ficando mais suave. Mais sincero. Então respirou fundo.


— Mas não foi só por isso…


Vitor ergueu os olhos. Paula sustentou o olhar dele. Sem brincadeira agora.


— Eu quero poder gravar todos os pijamas que você usar também…


O sorriso dele desapareceu devagar. Não por tristeza. Por atenção. Porque alguma coisa na voz dela tinha mudado.


Paula continuou.


— E mais do que isso…


A garganta apertou, mas ela não desviou os olhos.


— Eu quero acordar todos os dias e encontrar você do meu lado.


O silêncio caiu imediatamente entre os dois. Paula sentiu o coração disparar, mas continuou.


— Não importa qual pijama você escolha usar.


A voz saiu mais baixa. Mais vulnerável.


— Só quero que seja você…


E foi só então que Vitor entendeu… Ele permaneceu imóvel. O pijama ainda entre as mãos.


Por um instante sequer pareceu respirar. Porque a frase dela tinha atravessado todas as camadas de proteção que ele costumava usar.


“Eu quero acordar todos os dias e encontrar você do meu lado.”


Não era uma frase sobre o presente. Nem sobre o pijama. Nem sobre o aniversário. Era sobre futuro. Sobre rotina. Sobre uma escolha.


Ele abaixou os olhos para o tecido por alguns segundos antes de colocá-lo cuidadosamente sobre a mesa.


Quando voltou a encará-la, havia emoção ali, mas também havia cautela. Aquela cautela que só aparecia quando algo era importante demais.


— Paula…


A voz saiu baixa. Ela sustentou o olhar dele. Vitor respirou fundo. Os dedos se entrelaçaram sobre a mesa enquanto ele organizava as palavras.


— Eu preciso te perguntar uma coisa..


Paula assentiu.


— Pode perguntar.


Ele ficou em silêncio por um instante. Como se estivesse escolhendo cuidadosamente cada palavra.


— Você quer isso mesmo?


Ela franziu levemente a testa.


— O quê?


— Isso…


O olhar dele permaneceu nela.


— Você e eu…


A casa parecia ainda mais silenciosa agora.


— Porque eu vou estar aqui de qualquer forma.


A voz saiu calma. Honesta.


— Como pai da Beatriz… Como amigo, se for o que você quiser, mesmo que isso seja complexo…


Ele desviou os olhos por um segundo antes de voltar para ela.


— Como alguém que vai cuidar de você sempre que precisar!


Paula sentiu o coração apertar porque entendia exatamente o que ele estava perguntando.


— Mas eu preciso saber se você está falando isso por você.


A vulnerabilidade apareceu finalmente. Sem máscaras. Sem defesa.


— Ou se você acha que essa é a decisão mais certa por causa da bebê.


O silêncio caiu entre eles. Vitor sustentou o olhar dela.


— Porque são coisas diferentes.


A voz saiu quase num sussurro.


— E eu não conseguiria conviver com a ideia de que você escolheu uma vida comigo porque achou que era o melhor para ela, porque um dia eu fiz isso e foi a pior decisão que tomei…


O peito dele subiu numa respiração lenta.


— Eu só consigo aceitar isso se for o que você quer para você também!


Paula ficou olhando para ele e naquele instante percebeu que aquela era, talvez, a pergunta mais honesta que ele já tinha feito na vida.


Os olhos baixaram para a mesa. Para o pijama ainda dobrado entre eles. Para a taça de vinho. Para qualquer lugar que lhe desse alguns segundos para organizar aquilo que sentia.


Quando voltou a encará-lo, havia um sorriso pequeno em seus lábios. Não triste. Não emocionado. Só honesto.


— Eu achei que precisava de uma resposta antes de voltar para você…


Vitor permaneceu quieto. Atenção inteira nela.


— Achei que precisava ter certeza de tudo.


Ela soltou uma pequena risada pelo nariz.


— Que você não fugiria mais. Que a gente não repetiria os mesmos erros. Que eu conseguiria prever todos os problemas antes deles acontecerem.


A cabeça balançou devagar. Como quem reconhecia a própria mania de tentar controlar o incontrolável.


— E eu passei muito tempo fazendo isso.


O olhar dela suavizou.


— Tentando encontrar garantias.


O silêncio se instalou entre eles. Então Paula sorriu. Daquele jeito que aparecia quando ela finalmente admitia alguma coisa para si mesma.


— Mas aí eu cheguei aqui…


Vitor sentiu o coração acelerar sem entender exatamente por quê.


— E percebi uma coisa muito irritante!


O canto da boca dele subiu.


— Irritante?


— Muito.


Ela assentiu.


— Porque eu descobri que já tinha voltado…


A cozinha pareceu ficar ainda mais silenciosa.


— Muito antes dessa conversa. Muito antes de escolher o nome da Beatriz. Muito antes de qualquer uma dessas decisões.


Os olhos dela permaneceram nos dele. Firmes. Sem hesitação.


— Eu só estava tentando convencer a minha cabeça a chegar no mesmo lugar que meu coração já estava.


Vitor desviou os olhos por um instante. Porque aquela frase o atingiu de um jeito inesperado. Paula continuou.


— A gravidez me fez frear… Não voltar. Frear. Porque deixou de ser só sobre mim.


A voz ficou mais suave.


— E eu precisava ter certeza de que não estava colocando nossa filha numa história que machucaria ela.


Vitor assentiu quase imperceptivelmente. Entendia. Talvez pela primeira vez entendesse completamente.


— Mas a verdade é que eu nunca tive medo de você ser pai dela!


O sorriso apareceu pequeno.


— Eu sabia exatamente que tipo de pai você seria.


Ela observou as próprias mãos por um segundo.


— O que me assustava era você e eu.


A simplicidade da frase fez os dois sorrirem porque era verdade. Sempre tinha sido.


— Só que aí eu comecei a perceber uma coisa…


O olhar voltou para ele.


— Eu passava tanto tempo tentando descobrir se dava para confiar em um futuro com você… Que não percebi que já estava vivendo o presente com você!


A garganta dele apertou.


— Nas consultas. Nas ligações. Nas mensagens de madrugada. Nos dias bons. Nos dias difíceis.


Ela sorriu.


— Na forma como você me entende sem eu precisar explicar metade das coisas.


Vitor baixou os olhos por um instante porque ouvir aquilo dela era diferente.


— E então eu parei de tentar responder uma pergunta.


Ele ergueu os olhos novamente.


— Qual pergunta?


— Se vai dar certo!


A resposta saiu simples. Paula respirou fundo.


— Porque ninguém sabe. Nem eu. Nem você. Nem ninguém.


O silêncio voltou, mas era um silêncio tranquilo. Maduro.


— Eu não estou aqui porque acho que você nunca mais vai errar!


A voz dela saiu firme.


— Nem porque acho que a gente nunca mais vai se machucar.


Vitor sentiu o peito apertar porque aquela era a verdade. A verdade que ninguém costuma dizer.


— Eu estou aqui porque, mesmo sabendo de tudo isso…


Ela sorriu. Pequeno.


— Eu ainda escolho você.


Vitor não respondeu imediatamente. Na verdade, nem tentou. Permaneceu olhando para ela. Imóvel. Como se ainda estivesse absorvendo cada palavra.


Paula também não falou mais nada porque já tinha dito tudo. A verdade inteira estava ali.

Sem rodeios. Sem proteção. Sem espaço para interpretações.


Ela o escolhia. Não por causa da gravidez.

Não por causa da Beatriz. Não porque precisava dele. Ela o escolhia sabendo exatamente quem ele era e talvez fosse isso que tornasse tudo tão difícil de processar.


Vitor baixou os olhos por um instante. Passou a mão lentamente pela barba. Respirou fundo.


Uma vez.

Duas.


Quando voltou a encará-la, havia algo diferente em sua expressão. Algo que Paula raramente via… Vulnerabilidade. Não a vulnerabilidade dos grandes dramas, mas a de alguém que finalmente ficou sem defesa.


— Você faz ideia…


A voz saiu rouca. Ele parou. Balançou a cabeça.

Tentou novamente.


— Você faz ideia do quanto eu queria ouvir isso?


O coração dela apertou imediatamente. Vitor soltou uma pequena risada. Daquelas incrédulas. Como se ainda não acreditasse completamente no que tinha acabado de acontecer.


— Porque eu passei tanto tempo convencido de que a melhor versão da sua vida era uma versão sem mim…


O silêncio voltou a ocupar a cozinha. Mas dessa vez ele continuou.


— E o mais absurdo…


O sorriso apareceu pequeno. Quase sem graça.


— É que eu realmente acreditava nisso!


Os olhos dele permaneceram nos dela. Firmes.

Honestos.


— Não porque eu não te amasse.


A voz baixou.


— Mas justamente porque eu te amava muito de um jeito até insano!


Paula sentiu a garganta apertar. Vitor desviou os olhos por um segundo, observando a taça sobre a mesa antes de voltar para ela.


— Eu olhava para você e enxergava alguém que merecia alguém melhor. Alguém menos complicado. Alguém que não precisasse de tanto tempo para entender as próprias coisas.


Ele soltou o ar lentamente.


— E achava que estava fazendo a coisa certa.


A verdade daquilo atravessou os dois porque não era uma desculpa. Nunca tinha sido.

Era apenas o erro dele. Um erro enorme.


Vitor apoiou os antebraços na mesa e permaneceu alguns segundos em silêncio.

Pensando. Sentindo. Tentando organizar tudo o que ela tinha acabado de lhe entregar.


— E agora você está sentada aqui…


A voz saiu mais baixa. Mais vulnerável.


— Me dizendo que passou esse tempo todo tentando fazer sua cabeça alcançar um lugar onde seu coração já estava.


Ele soltou uma pequena risada pelo nariz. Balançando a cabeça. Como quem ainda não conseguia acreditar.


— Eu acho que nunca vou me recuperar completamente dessa informação.


Paula acabou sorrindo. Um sorriso pequeno.

Bonito. Vitor observou aquele sorriso por alguns segundos. Depois seus olhos baixaram para o pijama ainda dobrado sobre a mesa e então para a caixa dos charutos.


Os presentes. A escolha do nome da filha.

O aniversário. A conversa. Tudo. Era quase engraçado.


Ele passou anos imaginando como seria uma conversa como aquela. Criando versões.

Ensaiando respostas. Preparando defesas. E agora que ela finalmente tinha acontecido, a única coisa que conseguia sentir era paz.

Uma paz estranha. Nova. Como se alguma luta muito antiga tivesse terminado sem que ele percebesse.


Quando voltou a olhar para Paula, o sorriso dele já era diferente. Mais leve. Mais inteiro.


— Então…


A voz saiu calma.


— Isso significa que você vai mesmo precisar decorar meus pijamas ou as minhas cuecas…


Aquilo fez Paula rir imediatamente e foi justamente naquele instante que Vitor percebeu…


Aquela risada…

Aquela mulher…

Aquela vida…


Não pareciam mais algo que ele precisava imaginar. Pela primeira vez, pareciam algo que ele poderia simplesmente viver.


— Acho que consigo sobreviver a essa tarefa!


Vitor sorriu e permaneceu olhando para ela.

Não por alguns segundos. Por tempo demais. Daquele jeito que fazia Paula se perguntar se ele tinha esquecido de piscar.


O sorriso dela começou a diminuir. Não porque estivesse desconfortável… Porque reconhecia aquele olhar. Conhecia ele bem demais.


Vitor apoiou o braço sobre a mesa e passou os olhos pelo rosto dela como se estivesse tentando gravar cada detalhe.


O coque já estava meio desfeito. Algumas mechas escapavam perto da orelha. A maquiagem havia praticamente desaparecido depois de um dia inteiro. E, ainda assim, ela era a coisa mais bonita que ele tinha visto naquele dia… Talvez em muitos dias.


Paula sentiu o coração acelerar.


— O que foi?


A pergunta saiu quase num sorriso. Vitor balançou a cabeça.


— Nada.


Mas os olhos continuaram nela e aquilo fez ela rir baixo.


— Mentiroso.


O canto da boca dele subiu. Pequeno. Desarmado. Então estendeu a mão e afastou uma mecha solta do rosto dela.


Um gesto tão simples que quase doeu porque fazia muito tempo desde a última vez.


Paula parou de respirar por um instante. Os olhos dele demoraram um segundo a mais do que deveriam nos dela. Depois desceram para seus lábios e voltaram.


A pergunta estava toda ali. Sem palavras.

Sem pressa. Sem necessidade de explicar.


Paula respondeu se inclinando na direção dele. Pouco. O suficiente.


Vitor soltou uma pequena risada pelo nariz, incrédulo consigo mesmo, como quem finalmente parava de lutar contra algo que já estava decidido havia muito tempo.


Então segurou o rosto dela entre os dedos e a beijou. Devagar. Com cuidado. Como se estivesse redescobrindo um caminho que conhecia de cor.

E talvez estivesse mesmo porque não havia urgência. Nem ansiedade. Nem o medo que sempre aparecia quando achavam que poderiam se perder de novo. Só a sensação de finalmente parar de andar em círculos.


Quando se afastaram, Paula continuou perto. Tão perto que ele sentia o perfume do cabelo dela.


Vitor observou ela por alguns segundos antes de balançar a cabeça.


— Então seu plano racional finalmente foi pelos ares…


Paula riu imediatamente porque sabia exatamente do que ele estava falando.


— Foi?


— Foi.


O sorriso dele aumentou.


— Eu passei muito tempo perguntando o que aconteceria se ele falhasse.


— E eu passei muito tempo ignorando essa pergunta!


— Verdade.


Ela começou a rir.


— Você estava insuportável com isso… e eu não queria nem pensar sobre uma falha, mesmo desejando que eu falhasse logo!


— Eu estava sendo estratégico.


Os dois sorriram. Então Vitor inclinou levemente a cabeça.


— Acho que a gente finalmente descobriu o que acontece quando o plano racional falha.


Paula sustentou o olhar dele por um instante. O sorriso diminuindo devagar.


— Descobriu mesmo?


— Uhum.


O canto da boca dele subiu.


— Aparentemente termina realmente em beijo!


Paula soltou uma risada baixa. Balançou a cabeça e aproximou-se dele outra vez.


— Meu plano racional era muito bem arquitetado…


Vitor apoiou-se na mesa, observando-a.


— Então a falha dele gera muitas consequências.


Aquilo fez Vitor rir imediatamente.


— Certo…


Ele cruzou os braços.


— Estou tentando acompanhar. Que consequências seriam essas além de um beijo?


Paula baixou os olhos por um instante, claramente se divertindo com a situação.


— Consequências bem grandes.


— Estou ouvindo.


— Talvez falhar no meu plano racional traga como consequência uma massagem também…


O sorriso dele aumentou.


— Ah, é?


Paula sustentou o olhar dele.


— Na lombar.


Ela fez uma pausa proposital.


— De preferência na banheira…


Vitor passou a mão pelo queixo, fingindo analisar a proposta.


— Você está certa!


A voz saiu tranquila.


— Um plano desses, quando falha, traz consequências inimagináveis.


Paula acabou rindo. Vitor então estendeu a mão na direção dela e ela não hesitou. Os dois levantaram juntos, sem tirarem os olhos um do outro. Sorrindo. Já sabendo exatamente onde aquilo terminaria.


Vitor aproximou-se apenas o suficiente para que ela sentisse sua presença de forma mais intensa.


A mão dele encontrou o braço dela num gesto distraído, quase automático. Familiar.


Paula soltou uma pequena risada sem graça. Aquela que sempre aparecia quando ele a deixava nervosa.


Os olhos dele percorreram seu rosto por um instante antes de pousarem sobre ela com uma ternura que fez o peito de Paula apertar.


A expressão dele suavizou. Como se ainda estivesse tentando se acostumar com a ideia de que ela tinha ficado. Que tinha escolhido ficar.


Então inclinou a cabeça ligeiramente na direção dela. Perto o suficiente para que Paula fechasse os olhos por um segundo. Não porque esperasse alguma coisa, mas porque era impossível não sentir… a proximidade…. a familiaridade. A paz estranha que sempre existia quando estavam assim.


Vitor encostou a cabeça junto ao pescoço dela por um instante, e o contato inesperado a fez estremecer levemente. A barba curta roçou sua pele de forma sutil, deixando apenas a lembrança daquele momento e um arrepio difícil de ignorar.


Ele então se aproximou um pouco mais, inclinando-se para que apenas ela pudesse ouvi-lo e falou em voz baixa…


— Eu comprei uns sais de banho há alguns meses e nunca tive coragem de usar.


Paula arqueou uma sobrancelha.


— Coragem?


— Uhum.


O sorriso dele aumentou.


— Porque, na minha cabeça, aquilo só fazia sentido no dia em que você estivesse aqui…


Por um instante, Paula apenas o encarou e então começou a rir. Daquele jeito leve. Bonito. Que fazia Vitor sentir que, finalmente, estava exatamente onde deveria estar.


Subiram a escada devagar. Sem pressa. Como se a noite inteira tivesse desacelerado junto com eles.


A casa permanecia silenciosa. Apenas o som distante dos próprios passos acompanhava o caminho até o quarto.


Quando entraram, Vitor seguiu diretamente para o banheiro. A luz amarelada refletiu sobre os azulejos claros enquanto ele abria a torneira da banheira. A água começou a cair num fluxo constante, preenchendo o ambiente com aquele ruído tranquilo que sempre lembrava chuva.


Paula observou por alguns segundos da porta. Então sorriu sozinha. Havia algo estranhamente bonito na normalidade daquele momento.


Depois de tantos desencontros, tantas conversas interrompidas, tantos caminhos percorridos em direções diferentes, ali estavam eles. Sem urgência. Sem despedidas anunciadas. Sem medo do dia seguinte.


Ela retirou as sandálias e as deixou cuidadosamente ao lado da cama. Os pés afundaram levemente no tapete macio enquanto caminhava até a beirada do colchão.


Sentou-se. As mãos repousaram sobre o ventre de forma mais automática. Um gesto que já fazia sem perceber.


Então ergueu os olhos. Do quarto, conseguia vê-lo se movimentando no banheiro, organizando tudo com a atenção quase exagerada que ele colocava nas pequenas coisas.


Paula apoiou uma das mãos sobre a colcha e deixou o olhar vagar pelo quarto. Pelos livros.

Pelas fotografias. Pelas marcas discretas de uma vida inteira espalhadas naquele espaço.


Vitor apareceu na porta do banheiro com um sorriso tranquilo.


— Está pronta para receber a massagem que pediu tanto?


Paula levantou os olhos imediatamente.


— Você não faz ideia.


Ela se levantou da cama e caminhou até ele.


— Minha lombar resolveu declarar guerra contra mim nas últimas semanas.


Vitor riu.


— Exagerada…


— Não sou!


Ela apontou para a própria barriga.


— Estou carregando sua filha. Acho que mereço certos privilégios.


O sorriso dele aumentou.


— Certos privilégios?


— Sim.


Paula aproximou-se mais.


— Inclusive passei algumas noites pensando que você deveria estar lá, fazendo essa massagem em compensação.


A gargalhada dele ecoou pelo quarto.


— Vou anotar essa lógica… porque você não ficará mais sem massagem na sua vida.


Antes que ela respondesse, Vitor a puxou delicadamente para perto.


Então se posicionou atrás dela e apoiou as mãos sobre seus ombros.


— Posso?


A pergunta veio baixa. Paula assentiu. E, por um instante, apenas fechou os olhos. Sentindo a tranquilidade daquele momento.


O quarto permanecia iluminado pela luz suave que escapava do banheiro.


Vitor ajudou-a a se preparar para o banho com toda a delicadeza do mundo. Como se estivesse lidando com algo precioso. E estava.


Quando ela se virou novamente para ele, o olhar de Vitor desceu sem pressa até a curva suave da barriga.


Ele demorou mais do que imaginava para erguer os olhos. Pela primeira vez, conseguia enxergar aquilo de perto. De verdade.


Durante meses, a gravidez existira através de fotografias, exames e chamadas de vídeo. Existira nas mensagens trocadas durante a madrugada, nas consultas, nos planos, mas agora estava ali. Diante dele. Real.


Paula percebeu imediatamente. O jeito como ele olhava. O jeito como parecia quase receoso de quebrar aquele instante. Então sorriu… Porque entendia exatamente o que estava acontecendo.


Vitor nunca tinha pedido. Nunca tinha perguntado se podia tocar. Nunca tinha atravessado aquele limite e ela sabia que não era falta de vontade.


Nas poucas vezes em que mostrava para Maria e João, ela o pegava observando de longe. Discreto. Tentando não chamar atenção. Como alguém que queria participar daquele momento sem invadi-lo.


Os olhos dele permaneceram ali por mais alguns segundos. Como se estivesse tentando compreender que aquela pequena curva era a mesma menina que já tinha nome. Que já tinha um quarto sendo planejado. Que já ocupava espaço nos pensamentos dele todos os dias.


— É diferente.


A voz saiu baixa. Paula sorriu.


— Diferente como?


Vitor demorou um instante para responder.


— Eu não sei explicar.


Os olhos dele não deixaram a barriga.


— Acho que até agora ela existia muito na minha cabeça.


A garganta apertou discretamente.


— Mas agora parece real.


Paula observou a emoção tranquila no rosto dele. Não era espanto. Não era medo. Era encantamento. Daquele tipo silencioso. Profundo. Como alguém que acabou de perceber que uma parte do futuro já chegou.


Então, sem dizer nada, ela pegou a mão dele e a colocou contra a própria barriga.


O olhar de Vitor encontrou o dela imediatamente.

Surpreso. Quase emocionado demais para responder.


Paula apenas sorriu. Como se dissesse que estava tudo bem. Que ele não precisava pedir.

Que aquele momento também era dele.


Por um segundo, sentiu vontade de se ajoelhar. De permanecer naquele instante por mais tempo. De absorver cada detalhe daquela realidade que ainda parecia grande demais para caber dentro dele, mas haveria tempo.


Tempo para conversar com Beatriz. Tempo para sentir os chutes. Tempo para descobrir quem ela seria.


Naquela noite, porém, seu olhar voltou para Paula… e não continha o sorriso.


Um sorriso pequeno. Quase reverente. Como se estivesse diante de alguma coisa que ainda não conseguia nomear completamente.


Os olhos dele voltaram a percorrer o rosto dela devagar. A mesma Paula e, ao mesmo tempo, uma versão dela que ele nunca tinha conhecido.


Havia algo de sereno nela agora. Algo que lembrava o fim de uma tarde de verão depois da chuva. Como se a vida tivesse suavizado algumas arestas sem apagar sua essência.


Os cabelos caíam pelos ombros em ondas desfeitas pelo dia longo. O rosto carregava os vestígios da maquiagem, mas era justamente isso que a tornava tão bonita para ele. Não a perfeição de uma fotografia, mas a verdade.


A mulher que tinha rido com seus filhos. Que tinha escolhido o nome da filha deles. Que tinha acabado de dizer que o escolhia também.


Vitor sentiu os dedos dela ainda entre os seus e percebeu que talvez aquele fosse o momento mais próximo da felicidade que já tinha chegado.


Não havia palco. Não havia aplausos. Não havia conquista para alcançar. Só ela. Ali. A poucos centímetros de distância.


Paula sustentou o olhar dele por um instante. Então ergueu as mãos até sua camisa. Os dedos encontraram os botões e passaram a desfazê-los devagar, um a um, como quem encerrava cuidadosamente um dia longo demais.


Vitor não disse nada. Apenas a observou. Havia algo de profundamente familiar naquele momento. Algo que parecia pertencer mais às lembranças do que ao presente.


Quando ela terminou, ele retirou a camisa dos ombros e a deixou sobre uma cadeira próxima.


Depois afastou os sapatos para o canto do quarto e caminhou ao lado dela até o banheiro.


A água já preenchia boa parte da banheira. O vapor começava a suavizar os contornos do ambiente, transformando tudo numa paisagem tranquila e silenciosa.


Paula sorriu. Aquele era exatamente o tipo de cuidado que esperava dele. Talvez porque Vitor sempre tivesse sido assim. Atento aos detalhes.

Às pequenas coisas que quase ninguém percebia.


Ela retirou a lingerie, entrou primeiro na água morna e fechou os olhos por um instante. O alívio foi imediato. Como se o peso acumulado nos últimos meses finalmente encontrasse um lugar para descansar.


Quando voltou a abrir os olhos, encontrou Vitor parado próximo à borda da banheira.


Observando-a. Não com surpresa. Nem com espanto, mas com aquele encantamento silencioso que ela já tinha aprendido a reconhecer.


O mesmo olhar que aparecia quando ele observava os filhos. Quando falava da fazenda. Quando alguma coisa realmente importante atravessava suas defesas.


Paula arqueou uma sobrancelha.


— Não vai entrar?


O sorriso dele surgiu devagar. Como se estivesse voltando de algum pensamento distante.


Então retirou o que ainda vestia sob o olhar ansioso dela e aproximou-se.


A água se moveu suavemente ao redor deles enquanto ele se acomodava.


Paula não demorou a encostar a cabeça em seu ombro e, pela primeira vez naquele dia inteiro, sentiu o corpo relaxar completamente.


Lá fora, a noite seguia seu curso. Dentro daquele banheiro, porém, o tempo parecia ter diminuído o ritmo. Como se soubesse que algumas felicidades mereciam durar um pouco mais.


Vitor apoiou a cabeça sobre a dela e fechou os olhos por um instante.


E, pela primeira vez em muito tempo, ele não sentiu necessidade de pensar no amanhã. Não havia decisões para tomar. Não havia problemas para resolver. Não havia perguntas sem resposta.


Só aquele momento. Aquela paz. Aquela felicidade tão tranquila que chegava a doer.


Então uma percepção o alcançou devagar… Como certas verdades importantes costumam fazer: Ele podia tocá-la.


A simplicidade daquele pensamento quase o emocionou porque durante meses aprendera a amar aquela gravidez à distância. Através de fotografias. De exames. Dos relatos dela. Dos pequenos detalhes que recolhia como quem junta fragmentos de um mundo ao qual ainda não tinha acesso. Mas agora Paula estava ali. Entre seus braços..


Vitor deslizou a mão lentamente até a curva suave da barriga. Sem interromper o silêncio.

Sem quebrar a delicadeza daquele instante.


Os dedos repousaram ali com um cuidado quase reverente. Ele permaneceu assim por alguns segundos. Apenas sentindo. Como quem se senta à margem de um rio para observar a água correr. Sem tentar apressá-la. Sem tentar compreendê-la completamente. Apenas grato por poder testemunhar.


— Posso me acostumar com isso…


Paula murmurou de olhos fechados, sentindo as mãos dele percorrerem distraidamente sua barriga.


Vitor sorriu. Entendia perfeitamente. Porque ele também tinha imaginado. Mais vezes do que conseguiria contar. Mais vezes do que gostaria de admitir.


Por alguns instantes, apenas permaneceram ali. O calor da água. O silêncio da casa. A sensação rara de que, pela primeira vez em muito tempo, não precisavam correr para lugar algum.


— Vitor…


— Sim?


— Como vai ser?


Ele permaneceu alguns segundos em silêncio. A mão continuava repousada sobre a barriga dela enquanto observava as pequenas ondulações da água.


— Eu não sei exatamente como vai ser. Mas eu sei como eu quero que seja.


Paula abriu os olhos e virou um pouco o rosto para observá-lo.


— Eu sei que você não quer sair de Belo Horizonte e eu não pediria isso. Sua mãe está lá, suas coisas estão lá... Eu jamais gostaria que você abrisse mão dessas coisas por minha causa.


Ele respirou fundo antes de continuar.


— Então eu comecei a pensar em alternativas. Pensei em construir um chalé na chácara. Um lugar nosso. Com privacidade. Com espaço para as crianças. Com espaço para a Beatriz.


O sorriso apareceu no canto da boca dele.


— Eu continuo fazendo ponte aérea. Continuo em Campinas quando João e Maria precisarem de mim. Continuo em Belo Horizonte quando vocês precisarem de mim. E quando você quiser passar um tempo em Campinas ou em Uberlândia, a gente passa. Eu não vejo isso como um problema, Paula. Vejo só como uma questão de organizar a vida…


Ela ficou em silêncio porque ele falava daquilo como quem já tinha vivido aquela conversa sozinho muitas vezes.


— E depois?


Vitor demorou um pouco para responder.


— Depois a gente descobre onde quer construir uma vida, mas não agora. Agora existe uma menina chegando e eu não quero passar os próximos meses discutindo mudança, cidade ou endereço. Eu quero aproveitar isso. Quero acompanhar sua gravidez. Quero estar com você. Quero viver essa fase sem transformar tudo numa lista de decisões urgentes, porque agora que estamos assim, creio que posso relaxar com as decisões urgentes…


Paula observou o perfil dele por alguns segundos.


— Você pensou bastante nisso!


A risada dele foi baixa.


— Mais do que deveria.


Ela sorriu.


— Eu imaginei.


— Também pensei em outra coisa.


Paula fechou os olhos.


— Claro que pensou.


— Pensei que talvez a gente pudesse casar antes dela nascer…


Dessa vez ela se virou completamente para encará-lo.


— Vitor…


Mas ele apenas sorriu, não havia brincadeira ali.

Nem impulsividade. Só sinceridade.


— Eu sei que parece cedo e talvez realmente seja considerando que não tem nem duas horas que voltamos a dividir um banho… Mas a verdade é que eu não estou pensando nisso há só duas horas.


A expressão dela suavizou imediatamente porque entendeu. Ele continuou.


— Eu pensei nisso quando fui embora… Pensei nisso nos meses em que a gente ficou longe. Pensei nisso em todas as vezes que me peguei imaginando uma vida que eu acreditava que nunca ia acontecer, porque culpa minha. Então, para mim, essa conversa não começou hoje.


O olhar dele encontrou o dela. Calmo. Seguro.


— E eu sei que o seu plano era outro. Casamento primeiro. Depois filhos. Depois todo o resto. Eu sei porque te conheço. Sei porque você sempre gostou das coisas no lugar certo.


O sorriso dele aumentou um pouco.


— A gente bagunçou bastante a ordem dos acontecimentos!


Paula soltou uma risada.


— Bastante é uma palavra gentil…


— É…


Ele riu também. Depois a expressão suavizou novamente.


— Mas eu não acho que a gente perdeu o resto da história por causa disso. Eu acho que a gente só chegou nela por um caminho diferente.


A água continuava se movendo lentamente ao redor deles. Vitor passou o polegar pela mão dela antes de concluir:


— E, para ser sincero, quando eu penso no futuro, eu não penso se isso vai acontecer. Eu penso apenas em como vamos fazer acontecer…


Paula permaneceu alguns segundos em silêncio depois que ele terminou de falar. Não porque estivesse surpresa. Na verdade, era exatamente o contrário.


O canto da boca dela subiu devagar.


— No fundo, eu já sabia que você teria pensado em tudo.


Vitor soltou uma risada baixa.


— Eu sei.


— Claro que sabe.


Ela balançou a cabeça, divertida.


— Você é incapaz de não pensar em tudo.


Ele aceitou a acusação sem sequer tentar se defender. Paula observou a água por alguns instantes antes de continuar.


— E eu quero me casar com você!


A frase saiu simples. Natural. Como se não houvesse motivo para transformá-la em algo maior do que era. Porque, para ela, já não havia.


Vitor não falou nada, mas ela sentiu o corpo dele ficar ligeiramente mais atento atrás dela.


— Só que eu não quero pensar nisso agora.


Virou o rosto para encontrá-lo.


— Eu quero minha família presente, a sua família presente. E, sinceramente…


A risada escapou.


— Eu não tenho o menor interesse em organizar evento nenhum nesse momento.


Aquilo fez Vitor sorrir.


— Justo.


— Muito justo.


Paula afundou um pouco mais na água.


— Eu passo o dia inteiro tentando lembrar de beber água, tomar vitamina, comer direito e sobreviver aos sintomas. Não existe nenhuma versão de mim organizando casamento agora!


A gargalhada dele ecoou pelo banheiro.


— Faz sentido.


— Ótimo. Então estamos alinhados.


Ela fez uma pequena pausa.


— Sobre o chalé…


Vitor arqueou uma sobrancelha.


— Hm?


— Eu acho uma excelente ideia.


O sorriso dele apareceu imediatamente.


— Mas…


— Sempre tem um mas.


— Sempre!


Paula apontou para ele.


— Você assume absolutamente tudo.


— Tudo?


— Tudo.


— Projeto, obra, orçamento, construtora, problema, dor de cabeça!


O sorriso dela aumentou.


— Tudo!


Vitor começou a rir.


— Está delegando bastante…


— Estou sendo muito generosa, inclusive.


Ele balançou a cabeça ainda sorrindo, mas Paula continuou, agora mais séria.


— Porque eu não quero me estressar com nada disso!


A voz suavizou.


— E também não quero você se estressando.


O olhar dele encontrou o dela.


— Se essa obra virar uma fonte de preocupação… cancela.


Vitor franziu levemente a testa.


— Cancela?


— Cancela.


A resposta veio firme.


— Porque o mais importante para mim agora não é um chalé. Não é uma casa. Não é um casamento.


Ela levou a mão até a própria barriga. O gesto automático. Instintivo.


— É isso.


O silêncio que se seguiu foi tranquilo. Bonito.


— Eu quero viver essa gravidez.


A voz saiu mais baixa. Mais sincera.


— Quero viver cada pedaço dela.


Os olhos baixaram para a barriga antes de voltarem para ele.


— Porque eu passei muito tempo acreditando que essa fase da minha vida talvez nunca acontecesse.


Vitor permaneceu em silêncio. Atenção inteira nela.


— Eu não estava esperando por isso.


O sorriso apareceu pequeno.


— Não estava planejando isso. Não estava procurando isso.


A mão deslizou sobre a barriga.


— E, de repente, ela chegou.


A emoção apareceu na voz pela primeira vez. Suave. Sem drama.


— Então eu não quero passar esse tempo correndo atrás de obra, cerimônia ou qualquer outra preocupação.


O olhar encontrou o dele.


— Eu quero sentir tudo. Quero viver tudo. Quero aproveitar cada semana antes dela nascer.


O sorriso aumentou um pouco.


— Porque eu tenho a sensação de que esses meses vão passar rápido demais.


Vitor inclinou a cabeça e a beijou.


— Então é exatamente isso que vamos fazer.


Paula sorriu. Permaneceu alguns instantes observando a água se mover lentamente ao redor deles. Sentindo o calor confortável da banheira. As mãos dele repousadas sobre seu corpo. A paz daquele momento. Então suspirou.


— Posso te perguntar uma coisa?


— Você acabou de passar vinte minutos me perguntando coisas.


— Essa é importante.


Vitor abriu um dos olhos.


— Estou preocupado.


— Responde primeiro.


Ele riu.


— Tudo bem. Pergunta.


Paula mordeu o canto da boca por um instante. Como se estivesse decidindo se deveria ou não dizer aquilo em voz alta.


— Você sabe se é possível engravidar já estando grávida?


O silêncio durou exatamente dois segundos. Depois Vitor começou a rir. Não uma risada contida. Uma gargalhada sincera. Daquelas que faziam o peito vibrar.


Paula acabou rindo junto. Vitor passou a mão pelo rosto. Ainda se recuperando.


— Meu Deus, Paula…


— O quê?


— Em que momento exatamente seu cérebro chegou nesse assunto?


Ela deu de ombros.


— Agora!


— Agora?


— Sim.


— Enquanto a gente estava falando sobre o futuro da nossa família?


— Exatamente.


A gargalhada dele voltou.


— Eu só achei importante saber.


— Claro.


Ela apontou para a própria barriga.


— Eu estou grávida. Tenho o direito de fazer perguntas.


— Essa é uma regra nova?


— Acabei de criar.


— Entendi.


Vitor ainda sorria quando balançou a cabeça.


— Mas, tecnicamente…


Paula virou o rosto imediatamente.


— O quê?


— É possível.


A expressão dela congelou.


— Como é que é?


— É possível.


— Vitor…


— É raro. Muito raro. Extremamente raro. Mas pode acontecer…


Paula piscou uma vez. Depois outra. Tentando processar.


— Você está falando sério?


— Estou.


— Não é possível isso!


— Sim.


Ela levou as duas mãos ao rosto.


— Isso é um absurdo!


— Concordo.


— Quem foi a pessoa que olhou para uma gravidez e pensou “sabe o que seria uma boa ideia? Outra gravidez”.


Vitor já ria de novo.


— Não funciona assim!


Ela virou completamente para encará-lo.


— Então o que nós vamos fazer?


Ele arqueou uma sobrancelha.


— Sobre o quê?


— Sobre isso!


A mão dela apontou dramaticamente para a própria barriga.


— Sobre a possibilidade de eu engravidar enquanto estou grávida já.


Vitor tentou responder, mas a expressão genuinamente preocupada dela o fez rir outra vez.


— Você está falando sério?


— Estou!


— Meu Deus…


Ele encostou a testa no ombro dela ainda rindo.


— Eu não gostei dessa informação. Eu estava muito mais feliz cinco minutos atrás.


— Eu percebi.


— Vou perguntar para o médico.


— Claro que vai.


— Talvez para mais de um médico.


Paula suspirou dramaticamente. Como quem acabara de receber uma notícia devastadora.


A convicção dela era tão absoluta que ele precisou fechar os olhos por um instante para conter outra gargalhada.


Quando voltou a encará-la, encontrou aquele mesmo olhar que tantas vezes o desarmava. A mistura improvável de inteligência, sensibilidade e uma capacidade quase sobrenatural de transformar qualquer assunto em algo completamente inesperado.


Poucos minutos antes, estavam falando sobre casamento.


Antes disso, sobre a filha.


Antes disso, sobre a escolha de ficarem juntos.


E agora ela estava preocupada com uma hipótese raríssima que provavelmente passaria o restante da noite ocupando seus pensamentos.


Aquilo era tão Paula que chegava a ser impossível não sorrir.


— Eu gosto muito do jeito que sua cabeça funciona.


— Minha cabeça acabou de encontrar um problema gravíssimo.


— Sua cabeça acabou de encontrar um problema estatisticamente improvável.


— Continua sendo um problema.


Vitor balançou a cabeça, divertido. Então levou as mãos aos braços dela. Devagar. Acariciando-os numa tentativa silenciosa de fazê-la desacelerar. Não para encerrar a conversa, mas porque gostava daquele contato. Gostava da sensação de tê-la tão perto depois de tanto tempo. Gostaria de sentir o cheiro dela, tão característico… uma mistura adocicada de café e baunilha ao mesmo tempo que um frescor de flores brancas.


Paula acabou relaxando sob o toque tranquilo dele. Aos poucos, os pensamentos deixaram de correr em todas as direções e foram cedendo espaço a algo mais profundo. As lembranças que guardava dele surgiram uma após a outra, suaves e inevitáveis, como páginas de um livro antigo sendo abertas pelo vento.


O perfume familiar misturava-se ao aroma delicado da lavanda que pairava no ar. A presença dele, tão próxima depois de tanto tempo, parecia preencher silenciosamente todos os espaços que antes carregavam ausência.

Por alguns instantes, ela apenas permaneceu ali, permitindo-se sentir a paz daquele reencontro.


Então se virou para encará-lo.


A água morna havia deixado suas feições mais suaves. Seu rosto delicado, vermelho. Algumas mechas do cabelo caíam de forma desordenada sobre a testa, depois de ter se emaranhado em seu pescoço. Havia algo desarmado em seu olhar. Algo raro.


Paula ergueu as mãos e tocou seu rosto com delicadeza. Como quem revisita uma paisagem conhecida.Como quem encontra novamente um lugar que nunca deixou de existir dentro de si.


Seus olhos e os lábios percorreram cada traço devagar, guardando-os mais uma vez na memória. Não porque tivesse esquecido, mas porque algumas coisas merecem ser lembradas muitas vezes.


Quando encontrou os lábios dele, tudo revirou, definitivamente. Ele a invadiu sem pedir mais licença. Toda a delicadeza e cuidado que haviam dominado os últimos meses, foram embora naquela instante e os dois puderam se encontrar de uma forma que só eles sabiam.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.