Antigo novo amor
34 Capítulo 34 - Gengibre
Vitor permaneceu em silêncio por mais alguns segundos. Não havia pressa no corpo. Mas havia decisão.
Ele levou a mão ao bolso, pegou o celular e desbloqueou a tela. A conversa com Paula ainda estava ali, parada no tempo.
O polegar pairou sobre o teclado. Parou. Apagou qualquer impulso antes mesmo de começar.
Ligar… não fazia sentido. Não daquele jeito. Guardou o celular.
— Ela está em Belo Horizonte? — perguntou, voltando o olhar para Marisa, mesmo sabendo a resposta.
— Está. Ela está morando na chácara com a mãe.
Ele assentiu. Simples. Como quem confirma um dado antes de agir. Passou a mão pelo rosto, respirando fundo, já organizando mentalmente o próximo passo.
— Eu vou até lá.
A frase não foi impulsiva. Foi lógica. Direta.
Marisa observou, sem interromper.
— Agora? — perguntou, com cuidado.
— Você disse que ela não está bem e que não deveria passar por isso sozinha. Você tem razão.
De novo, não era resposta. Era motivo. Suficiente.
Minutos depois, já do lado de fora, Vitor caminhava até o carro com passos firmes. Entrou, fechou a porta e, antes mesmo de dar partida, pegou o celular novamente.
Abriu rapidamente as opções de voo entre Uberlândia — Belo Horizonte. Horários. Conexões. Nada imediato. Nenhuma opção que atendesse o que ele precisava.
Ele soltou o ar, impaciente pela primeira vez desde que soube. Olhou o relógio. Pensou. Decidiu.
Saiu da busca e abriu outro contato. Ligou.
— Leo.
Do outro lado, a voz veio tranquila.
— Fala.
— O jato está disponível?
A pergunta foi direta. Sem explicação.
Sem rodeio.
Houve um pequeno silêncio.
— Está… por quê?
Vitor apoiou o cotovelo no volante, olhando para frente.
— Eu preciso ir pra Belo Horizonte.
Agora havia algo diferente na voz. Mais firme.
Mais urgente. Leo percebeu.
— Agora?
— Agora.
Uma pausa.
— Consegue organizar?
Do outro lado, o tom já mudou.
— Consigo.
— Quanto tempo?
— Me dá uns minutos pra falar com o pessoal.
— Tá.
Ele desligou. Sem prolongar. Sem explicar porque a cabeça já estava em outro lugar.
Enquanto aguardava o retorno de Leo, Vitor permaneceu alguns segundos dentro do carro, o celular ainda na mão, o olhar fixo à frente sem realmente enxergar nada. A informação não tinha assentado por completo, não porque ele não tivesse entendido, mas porque ainda estava se organizando dentro dele.
Paula. Grávida. E não estava bem.
Ele fechou os olhos por um instante, curto, como se aquilo ajudasse a colocar ordem no que estava acontecendo. Não ajudou. A sensação era outra, não de caos, mas de excesso. Pensamentos demais tentando ocupar o mesmo espaço.
Ele abriu a porta e voltou para dentro. Marisa ainda estava na cozinha, exatamente onde ele havia deixado. Quando o viu retornar, franziu levemente a testa, surpresa, como se esperasse que ele já tivesse ido.
— Vitor…
— Vou de jato — ele disse, antes que ela continuasse.
A voz estava calma. Mais do que antes. Mas havia algo por trás, não urgência descontrolada, e sim decisão.
— Estou esperando o Leo me confirmar o horário.
Marisa assentiu, observando o filho com mais atenção agora. Ele não estava desorganizado. Não estava perdido. Mas estava… diferente.
Mais fechado. Mais profundo.
Vitor deu alguns passos até a bancada, aproximando-se dela. Parou ali, apoiando as mãos de leve na pedra, o olhar ainda baixo por um segundo antes de levantar.
— O que você sabe?
A pergunta veio sem rodeio. Não havia mais espaço para suavidade.
— O que a Paula te disse… como você soube?
Marisa respirou fundo, sabendo que agora precisava ser precisa.
— Eu encontrei com ela na clínica — começou, com calma.
Ele franziu levemente a testa.
— Clínica?
— Eu estava com sua madrinha, acompanhando ela… E ela estava saindo de uma consulta.
Uma pausa.
— Eu não sabia de nada… mas deu pra perceber que tinha alguma coisa diferente até que a ajudando da médica que atendeu ela chegou até nos entregando uma lista de obstetras que a médica pediu para ela analisar e naquele momento eu já entendi tudo…
Vitor não interrompeu. Mas ouviu. Com atenção total.
— Depois ela me chamou pra conversar — continuou Marisa — e me contou. Em um primeiro momento eu achei que ela estivesse grávida de outra pessoa, eu não sabia sobre vocês dois na fazenda.
Ele assentiu devagar. Como se cada informação fosse sendo posicionada com cuidado dentro dele.
— Ela deve estar de 10 semanas…
— Sim… Ela me disse que seria de dois meses e meio.
Simples. Direto. Vitor passou a mão pelo rosto.
Mais uma vez. Não por nervosismo. Mas como quem tenta manter o eixo.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era carregado. Ele pensava. Na fazenda.
Naquele dia. Na conversa que não terminou.
No que foi dito… e no que não foi. E, inevitavelmente na possibilidade que agora deixava de ser hipótese para se tornar realidade.
Pai.
De novo.
A palavra não veio em voz alta.
Mas atravessou.
E, junto com ela, vieram outras coisas. Uma memória distante, da primeira vez. O susto.
A responsabilidade. A construção. Mas agora era diferente. Porque, dessa vez… havia história.
Havia sentimento. Havia algo que não estava resolvido. E havia, principalmente, o fato de que ele não soube. Não participou. Não esteve.
Ele respirou fundo. Mais lento.
— Ela não queria que eu soubesse?
A pergunta não carregava acusação. Carregava entendimento. Marisa respondeu com cuidado:
— Ela queria um tempo.
Uma pausa.
— Pra se organizar. Faz só uma semana que ela descobriu…
Ele assentiu. O olhar caiu por um instante. E ali havia algo mais. Não era raiva. Mas também não era indiferença. Era uma dor silenciosa. Daquilo que ele perdeu sem nem saber.
— Ela falou de mim?
A pergunta veio mais baixa. Mais pessoal.
Marisa sustentou:
— Falou.
Ele levantou o olhar.
— Disse que você faria parte de tudo. Que ela não era capaz de decidir nada antes de te falar. Ela nem começou o pré natal ainda…
Uma pausa leve.
— Mas disse que precisava estar um pouco mais forte pra te contar.
Vitor absorveu. Sem pressa. E, aos poucos, a confusão começou a ganhar forma. Não completamente. Mas o suficiente. Porque, no meio de tudo aquilo havia uma verdade que não dependia de explicação. Ele seria pai. De novo. E, independente de como aquilo tinha acontecido… isso mudava tudo.
O celular vibrou na mão dele. Era Léo. Vitor atendeu imediatamente.
— Fala!
— Consegui. Uma hora pra decolagem.
Ele assentiu.
— Tá. Me manda os detalhes.
Desligou. Ficou alguns segundos com o celular na mão, olhando para a tela apagada. Depois levantou o olhar para Marisa. Não havia mais dúvida ali. Nem hesitação. Só decisão.
— Eu vou até lá…
Simples. Mas carregado de tudo. Marisa assentiu devagar.
— Vai… Mas tenha paciência. Eu sei que você está ferido porque sei que gosta dela. Mas ela está assustada… principalmente com a ideia de te contar, com medo de você comparar a isso a Poliana, quando ela surgiu grávida da Maria.
Vitor se virou, já caminhando em direção à saída.
O silêncio que veio não foi leve. Foi… profundo.
Ele respirou fundo, devagar, como se organizasse a resposta antes mesmo de dizer qualquer coisa. Pensativo virou apenas o suficiente para olhar a mãe de lado.
— Eu não estou ferido.
A voz saiu baixa. Controlada. Mas não distante.
— Eu só… — ele pausou, escolhendo melhor as palavras — não estava lá.
Aquilo, sim, tinha peso. Mais do que qualquer outra coisa. Ele desviou o olhar por um segundo, absorvendo o próprio pensamento antes de continuar.
— E isso faz diferença.
Não era cobrança. Era constatação. Respirou fundo outra vez.
— Mas isso não tem nada a ver com a Poliana.
Agora o tom veio mais firme. Mais claro.
— Nada.
Ele olhou diretamente para a mãe dessa vez.
— São situações completamente diferentes.
Sem espaço para dúvida.
— E ela sabe disso.
Uma pequena pausa.
— Ou… deveria saber.
O olhar suavizou um pouco, mas ainda havia intensidade ali.
— Eu não vou chegar lá pra julgar ela.
A frase saiu simples. Mas carregada de verdade.
— Eu vou chegar lá porque ela não está bem.
E isso era o centro de tudo. Ele assentiu de leve, quase para si mesmo, como quem confirma o próprio caminho.
— O resto… a gente resolve depois. Conversar sobre ela não ter me falado vai ser inevitável em algum momento.
Sem pressa. Sem antecipação. Mas com decisão.
Vitor voltou a se virar, agora sem hesitação. E, dessa vez, não havia mais nada que o fizesse parar.
Em Belo Horizonte, o quarto de Paula estava mais silencioso do que o resto da casa.
A luz já tinha mudado completamente, mais baixa, mais suave, e o ar parecia mais parado ali dentro. Paula estava deitada, recostada nos travesseiros, o corpo ainda cansado, mas diferente de algumas horas antes.
O soro escorria nos últimos minutos. Gota a gota. Lento. Como se o tempo acompanhasse o ritmo do corpo dela.
Ela mantinha o olhar perdido no teto, sem realmente focar em nada. Mas, por dentro, tudo estava ativo demais. Pensamentos que ela tinha conseguido adiar ao longo do dia agora voltavam com força, porque o corpo tinha cedido, e a mente já não tinha mais onde se esconder: Vitor.
O nome vinha sem esforço. E não vinha sozinho.
Vinha com lembranças, com dúvidas, com medo… e com uma culpa silenciosa que ela ainda não conseguia nomear direito.
A porta abriu devagar.
Dulce entrou sem fazer barulho, como quem já sabia que encontraria aquele cenário. Caminhou até ela, olhando primeiro o soro.
— Tá acabando.
Ajustou levemente o suporte, observando.
— Como você tá?
Paula virou o rosto na direção da mãe.
— Melhor…
A voz saiu mais baixa. Mas mais estável.
Dulce assentiu, mas não relaxou completamente. Sentou na beirada da cama, ainda olhando para ela com atenção.
— Melhor o suficiente pra conversar?
Paula soltou um pequeno ar pelo nariz.
— Depende do assunto…
Dulce não desviou.
— Você precisa falar com o Vitor.
A frase veio direta. Sem preparação.
Paula fechou os olhos por um segundo, como se já esperasse por aquilo ou como se não quisesse, naquele momento, lidar com isso.
— Mãe…
— Paula.
O tom não foi duro. Mas foi firme.
— Não dá mais pra ficar esperando.
Silêncio.
Paula virou o rosto de volta para o teto.
— Eu sei.
Mas não havia decisão ali. Só consciência.
Dulce continuou, mais calma agora, mas ainda firme:
— Eu entendo você. Entendo o medo, entendo você querer se organizar antes… mas você precisa entender também que não precisa passar por isso sozinha.
Uma pausa.
— Ele podia estar aqui.
A frase ficou no ar. Simples. Mas pesada.
— Podia estar do seu lado.
Paula soltou uma pequena risada. Baixa. Quase sem humor.
— Mãe…
Virou o rosto novamente, olhando para ela.
— Eu só tô tendo enjoo.
Tentou minimizar.
— Não é nada tão grave assim pra esse nível de preocupação.
O tom era leve. Mas havia defesa ali.
— E o Vitor não teria muito o que fazer.
Dulce a encarou por um segundo. Em silêncio.
E então a expressão mudou.
— Não fala isso.
Agora o tom veio mais sério. Mais firme.
— É grave, sim.
Paula franziu levemente a testa.
— Mãe…
— Você está nos primeiros meses.
Cada palavra foi dita com clareza.
— Você está desidratando.
Uma pausa.
— Não está conseguindo comer.
Mais uma.
— E acha que isso não é grave?
O silêncio que veio depois foi diferente. Paula desviou o olhar. Não porque discordasse. Mas porque não queria sustentar aquilo.
Dulce suavizou um pouco o tom, mas manteve a verdade:
— Não é só sobre o que está acontecendo agora.
A voz ficou mais baixa.
— É sobre tudo que ainda vem.
Ela respirou fundo.
— E você não precisa passar por isso sozinha.
Dessa vez, Paula não respondeu de imediato.
Ficou sentindo. Porque, no fundo… ela sabia.
Sabia que não era só sobre o enjoo. Sabia que não era só sobre o corpo. Era sobre dividir.
E isso… era o que mais assustava.
O jato já estava pronto quando Vitor chegou. A pista iluminada cortava a noite, e tudo ali funcionava com uma precisão que não dependia dele. Equipe, procedimentos, horários. Um ritmo objetivo.
Ele não.
Entrou em silêncio, cumprimentou com um gesto breve e seguiu direto para o assento. Sentou-se e, pela primeira vez desde que saiu da casa da mãe, o corpo desacelerou.
A porta se fechou. O som externo desapareceu.
E o que restou foi só ele.
Vitor manteve o olhar fixo à frente por alguns segundos, como se ainda estivesse tentando alcançar o que tinha acabado de acontecer. Não havia desespero. Nem reação imediata. Havia… processamento. Lento. Profundo.
A Paula está grávida.
A frase voltava, não como novidade, mas como algo que ainda não tinha se acomodado completamente dentro dele.
Ele respirou fundo, mais devagar, deixando o ar sair sem pressa.
A cabeça começou a organizar. A fazenda.
A conversa que ficou pela metade. O que ele evitou. O que ela não disse. E, no meio disso, o que agora existia independente de qualquer versão: Um filho.
O pensamento veio mais claro dessa vez. E, com ele, uma sensação diferente. Não era susto.
Era consciência. Porque ele sabia exatamente o que aquilo significava. Não era a primeira vez.
Mas era a primeira vez… assim. Com ela.
O olhar desviou levemente para a janela, onde as luzes da pista começavam a se mover. O avião ganhava velocidade, e aquela transição externa parecia acompanhar o que acontecia dentro dele.
Sem ruptura. Mas sem volta.
E então veio a outra parte. Ela não está bem.
Dessa vez, o pensamento não ficou solto. Se fixou. Ele fechou os olhos por um instante, breve. E, naquele espaço silencioso, algo se alinhou.
Não era sobre o que tinha acontecido. Não era sobre o que ela não contou. Nem sobre o que ele teria feito diferente. Era sobre agora. Sobre ela.
Sozinha. Passando por aquilo.
Quando abriu os olhos, o olhar já não carregava a mesma hesitação de antes. Havia menos dúvida. E mais direção.
O corpo se ajustou no banco, não por inquietação, mas como quem assume uma posição. Como quem entende o próprio lugar dentro daquilo tudo.
Porque, no fim não importava como tinham chegado até ali. O que importava era que ele estava indo. E, dessa vez, não para entender.
Mas para estar.
Quando o jato pousou em Belo Horizonte, a noite já estava completamente instalada.
As luzes da pista se alongavam no asfalto enquanto a aeronave desacelerava, e tudo ao redor parecia seguir um ritmo próprio, técnico, preciso, impessoal.
Vitor não.
Ele permaneceu alguns segundos sentado após a parada completa, como se o corpo ainda precisasse alcançar o que a mente já tinha entendido.
Então se levantou. Desceu. O ar da noite o atingiu de imediato, mais frio do que o esperado, ou talvez só mais real.
O carro já o aguardava no hangar. Pegou as chaves, entrou e fechou a porta com um movimento contido.
Silêncio.
Foi ali, dentro daquele espaço fechado, que o detalhe finalmente se impôs com clareza: ele não tinha trazido nada. Nenhuma mala. Nenhuma troca de roupa. Nenhuma preparação.
Tinha saído de Uberlândia exatamente como estava. Sem organizar. Sem pensar. Só… saiu.
Deu partida e o carro deixou o hangar e entrou na cidade, e as luzes começaram a se mover pelo para-brisa em sequência. Mas ele não acompanhava o trajeto, a cabeça já estava em outro lugar.
No que diria. Em como diria. Em como chegaria.
Porque não havia forma certa de atravessar aquilo. Mas também não havia escolha. Ele já estava naquele caminho.
Pegou o celular, conectando no viva-voz.
— Ana.
A resposta veio rápida, ainda surpresa pelo horário.
— Vitor? Aconteceu alguma coisa?
— Desculpa te ligar agora.
Direto.
— Preciso que você compre algumas coisas pra mim e mande pra Belo Horizonte.
Uma pausa breve.
— Itens de higiene… e roupas. O básico. Pra dois dias.
— Você está em BH?
— Estou.
— Eu organizo tudo.
— Obrigado.
Ele desligou e o silêncio voltou. Mas não vazio.
Carregado demais.
O carro seguia, e aos poucos algo começou a se formar com mais clareza dentro dele. Aquele caminho… Ele já tinha feito tantas vezes. Sempre com pressa de chegar. Sempre com a cabeça ocupada nela. Na vontade. Na saudade. E a saudade ainda estava ali. Inteira. Mas agora não vinha sozinha. Vinha acompanhada. De algo mais contido. Uma mágoa silenciosa. Não explosiva. Não acusatória. Mas presente. E que, naquele momento, ele escolheu guardar. Porque não era isso que importava. Não agora.
O carro parou em um semáforo. Foi ali que a memória veio. Não como raciocínio. Mas como lembrança. Quando Maria estava para nascer, ele se lembrava das noites em que tentou entender tudo, pesquisando, lendo, tentando se antecipar ao que viria. Não só o parto, mas o início. Os sintomas. Os desconfortos. Os detalhes que, para quem via de fora, pareciam pequenos.
Mas não eram. Lembrou de uma matéria que leu, que tratava de métodos naturais para auxiliar na fase de enjoo. Gengibre. Óleos essenciais. Alimentos cítricos.
Ele pegou o celular, mais para confirmar do que para descobrir. Buscou. A matéria apareceu.
Leu rápido e confirmou. Gengibre ajudava nas náuseas. Hortelã-pimenta auxiliava no alívio. Limão ajudava a cortar o enjoo.
O sinal abriu e ele parou na primeira rede de farmácia que encontrou. Entrou. E, dessa vez, não havia dúvida. Comprou balas de gengibre.
Óleo essencial de hortelã-pimenta e picolés de limão, que inclusive eram os preferidos de Paula.
Coisas simples. Mas que carregavam intenção.
Não era sobre resolver. Era sobre chegar…
não de mãos vazias.
Voltou ao carro. Seguiu. Ainda assim, não parecia suficiente. Ele pegou o celular novamente e ligou.
— Soraya.
— Vitor? — a surpresa veio imediata. Oi, como você está?
— Estou bem!
Uma pausa breve.
— Preciso de uma indicação.
O tom mudou. Mais firme.
— Um médico que trabalhe com métodos naturais… pra auxiliar em gestação.
Silêncio do outro lado. Curto. Mas atento.
— Está tudo bem mesmo?
— Depois eu te explico.
Simples.
— Você conhece alguém?
— Conheço sim. Vou falar com ele e te retorno.
— Obrigado.
Ele desligou e seguiu.
Quando entrou na estrada do condomínio de chácaras, o ambiente mudou. Menos luz. Mais silêncio. Mais distância do resto do mundo. E foi ali que o corpo respondeu.
O coração não acelerou. Mas também não estava estável. Era outra coisa. Mais profunda. Como se cada batida acompanhasse a aproximação do que ele ainda não tinha enfrentado.
Na portaria, abaixou o vidro.
— Boa noite.
O porteiro levantou o olhar e o reconheceu na hora.
— Boa noite, Vitor.
Nem houve necessidade de explicação. O portão começou a se abrir. Ele assentiu com um gesto leve e seguiu.
A estrada interna era familiar. Conhecida demais.
Mas, naquela noite, parecia diferente. Mais longa. Ou talvez fosse só o peso do momento. Porque, quanto mais avançava, mais aquilo deixava de ser pensamento e se tornava presença.
Quando o carro parou diante da entrada da chácara, ele permaneceu alguns segundos ali. O motor ainda ligado. As mãos no volante. O olhar fixo à frente.
Ali. Era ali.
Respirou fundo. Desligou o carro.
A noite estava silenciosa. Suspensa. Ele caminhou até a porteira. Parou diante do interfone. Olhou para o botão. E, por alguns segundos, não fez nada. Como se aquele gesto simples carregasse tudo o que vinha depois.
Respirou fundo novamente e apertou. O chamado soou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Na quarta…
— Olá, boa noite! Quem é e o que gostaria?
A voz de Dulce veio do outro lado. Vitor se aproximou um pouco mais.
— Oi, Dulce… É o Vitor.
E, naquele instante, não havia mais espaço para adiamento.
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