Antigo novo amor

19 Capítulo 19 - O início do fim



O dia amanhece chuvoso, o que contribui para a programação deles que passam o tempo todo no quarto até o momento da saída do show.


— Pulinha?

— Oi! — se vira pra ele. Que lindo! — sorri. Tenho gostado de você de calça social…

— Obrigado! — sorri. O que achou dessa camisa? — mostra no cabide. Essa azul ou aquela rosa?

— Prefiro a azul!

— Ok! — pega do cabide e veste.

— A Liah vai estar mesmo?

— Pulinha, não sei! — ri. Ela havia enviado mensagem que estaria, mas eu não sei… não respondi!

— Hum… Ela enviou mensagem por onde? — se aproxima dele para ajudar a abotoar a camisa. Vou com aquele vestido! — aponta.

— Mandou pelo Instagram. Sobre o vestido, é lindo! Curto, né?

— Você achou? — ri. Pensei que ele é mais fácil pra subir, caso precise.

— Você é terrível… — a encara.

— Um pouco! — pisca. Está lindo! — o observa.

— Se troque pra irmos!


Ela termina de se arrumar e então eles saem rumo ao local do evento, se deparando com Leo e Carol logo na entrada. Se cumprimentam formalmente e então seguem para o camarim de Vitor.


— Carol está super sem graça, percebeu?

— Ela tem que estar é arrependida pelo que te falou! — abre as panelas.

— Vou falar com ela para resolver isso.

— Paula, não acho uma boa. Ela pode querer te ofender novamente, sei lá… não faz isso! Vou tentar resolver depois. Tem frango aqui, quer?

— Não! — ri. Eu não quero que você resolva… Eu quero conversar com ela, de igual para igual sem você se envolver.

— Vou comer! — pega um prato. Sobre a Carol, o problema dela é comigo, por isso não quero você se envolvendo!


Ela se acomoda em um sofá que há no camarim enquanto ele come até serem interrompidos pelo produtor da dupla, informando que receberão o anfitrião da festa para dar boas vindas.


— Já irei… — limpa a boca. Me dá uns 15 minutos?

— Sim, pode comer. Oi Paula! — a cumprimenta.

— Tudo bem, Pedro?

— Estou bem, feliz em ver você!

— Obrigada, digo o mesmo! — sorri.

— Tem pessoas para atender no camarim?

— Até então não… Mas, parece que há algumas pessoas conhecidas aí hoje e provavelmente vão procurar… libero?

— Acho que sim, confirma com Leo!

— Ok! — se retira.

— Você não vai comer?

— Estou sem fome! — pega o celular. Essas pessoas conhecidas inclui a Liah, né?

— Você está com hiperfoco nela sem necessidade!

— Vamos ver se é sem necessidade mesmo… Deixe ela entrar no camarim e não fale de mim.

— E o que acontecerá? Eu pularei nela?

— Você não. Meu medo não é você, meu medo é elas!

— Pare com isso, amor… — se aproxima dela.

— Vai dizer que você não vê?

— Claro que vejo. — acaricia o rosto dela. E não dou corda…

— Mas eu acho desrespeitoso… Jamais faria isso, independente do homem ser comprometido ou não.

— Sei que não. Mas, nem toda pessoa tem essa consciência, Paula… e não podemos nos abalar por isso.

— Ok! Você tem razão.

— Vamos então?

— Vamos! — beija ele e saem rumo ao camarim de Leo.


Chegam ao camarim de Leo, onde recebem todo os convidados para os cumprimentos. Paula se senta em um sofá no canto, juntamente com Carol e se dispersa no celular para evitar contato e constrangimento até que uma pessoa específica adentra a sala.



— Olá! — sorri. Que cheirosos! — adentra a sala com uma amiga. Estou trazendo mais fãs para Victor e Leo! — abraça Leo enquanto a amiga cumprimenta Vitor.


Paula observa a interação, quieta. Vitor cumprimenta Liah e agradece a presença, até que anuncia a presença de Paula também.


— Amor, vem aqui… — chama. Vamos tirar todos juntos!

— Meu Deus, Paula! — ri. Não te vi aí — vai até ela cumprimentar. Como você está linda! — sorri.

— Obrigada! — sorri.

— Vocês estão juntos? Parece que ouvi um amor… — olha para Vitor.

— Sempre! — pisca.

— Que legal! Isso é muito legal… — fica sem graça. Fico feliz por vocês! — acaricia o braço dele.

— Vamos fazer a foto? — traz Paula para perto.

— Claro, vamos! — se posiciona ao lado direito dele, enquanto Paula permanece entre ele e Leo.


A foto é tirada e elas logo saem da sala, agradecendo o atendimento. Paula volta para o sofá, encarando Vitor que segue falando com o produtor como se nada tivesse acontecido. Leo observa tudo, mas permanece em silêncio.

Finalizam os atendimentos e então Paula e Carol são levadas para um espaço ao lado do palco, enquanto eles começam a se preparar.


— Quer ajuda? — oferece, ao ver ele se atrapalhando ao colocar o fone.

— Obrigado!

— O que houve? — observa o pescoço dele.

— O que?

— O que houve aqui? — aperta.

— Caramba, Leo! — afasta a mão dele, com dor. Que isso? Que loucura, vai apertando assim… — coloca a mão para aliviar.

— Estranhei… achei que era só uma mancha! — ri.

— Está rindo de que? — pergunta, nervoso.

— Nada! — ri ainda mais. É bonitinho demais ver vocês dois virando adolescentes… no auge da terceira idade! — bate nas costas dele.

— Você vai descobrir o que é terceira idade! — afasta a mão dele.

— Vamos logo! — sai rindo.


O show acontece, grandioso e iluminado, com direito ao casal da noite em cima do palco brindando mais um ano de casados. Vitor respeita a vontade de Paula de não ser chamada ao palco e durante a apresentação a presenteia com sorrisos e olhares.

No fim do show, ela se retira antes dele deixar o palco e o aguarda no camarim.


— Oi! — sorri. Fiquei te procurando quando sai! — abre os botões da camisa.

— Quis vir antes para não ter tumulto! — vai até ele. Foi lindo! — sorri. Tinha tanto tempo que eu não via um show seu, o quanto você fica ainda mais lindo em cima de um palco.

— Complicado isso! — a envolve. Vou ter que ficar em cima de um palco o tempo todo para você me achar bonito?

— Ah… claro! — ri. Eu não te acho lindo normalmente… só em cima de um palco mesmo!

— Vou ter que providenciar uma forma te agradar. — acaricia o rosto dela.

— Vamos pro hotel? — olha-o. Eu sei uma forma disso acontecer… Você está incrivelmente atraente e eu não estou me segurando! — ele gargalha.

— Leo viu a mancha no meu pescoço e tirou sarro… disse que estamos sendo adolescentes no auge da terceira idade.

— Que infeliz! — riem. Não sou velha!

— Não, você não é velha! Mas mesmo quando for, vai continuar gostosa.

— Você eu nem preciso dizer… já é velho e é um gostoso! — pisca.

— Como encaro isso? Uma crítica ou um elogio?

— Sempre elogio! — sorri.


Eles se encaram por um instante a mais do que o necessário. O riso ainda paira no ar, leve, cúmplice. Ele se aproxima devagar, como quem pede permissão sem usar palavras.


O beijo começa tímido, quase uma continuação da conversa, curto, suave, com aquele cuidado de quem conhece o outro o bastante para não ter pressa. Ela sorri contra os lábios dele, e isso faz o beijo se alongar um pouco mais, ganhar confiança. As mãos se encontram sem alarde, dedos entrelaçados como se sempre tivessem pertencido ali.


Não há urgência, nem espetáculo. Só a certeza tranquila de que, apesar das piadas e do tempo que passa, ainda existe ali o mesmo encantamento: dois sorrisos que se reconhecem e um beijo que confirma o elogio dito antes.


— Está tudo bem? — acaricia os braços dela.

— Sim! — ri. Estou muito bem e feliz!

— Vou me trocar e nós vamos pro hotel… estou todo suado e fedendo! — se afasta dela.


Enquanto ele troca de roupa e organiza suas coisas, Paula o aguarda, observando atentamente. Ter assistido ao show a fez revisitar todas as memórias dos momentos em que ela presenciou isso sem ser quem era agora. Dos bares, dos restaurantes que o acompanhava quando tudo que vivem hoje era só um sonho distante. Ver onde chegaram e o quanto tudo mudou, ao mesmo tempo que o amor que sente por ele ainda está ali, não mais como antes, depois de tantos altos e baixos e de ter até desistido de pensar nisso; mas, tão forte e intenso quanto.


— Paula? — a olha pensativa.

— Oi! — presta atenção.

— O que está havendo? Você ficou reflexiva…

— Nada! — ri. Só estava lembrando dos bares… esqueceu que eu ainda não tinha visto você de volta aos palcos? Mexeu comigo. — se aproxima.

— Está com saudade de casa?

— Um pouco! — sorri. Mas, eu estou amando esses dias só com você. Sem contar que quando voltarmos você já vai embora… — faz bico.

— Serão poucos dias longe e estaremos juntos novamente!



Seguem para o hotel e no outro dia, logo pela manhã, retornam a Belo Horizonte onde são recepcionados pelas crianças e pelas mães.

Vitor passa mais dois dias na chácara e então vai embora.


O tempo vai passando e com ele a relação vai caminhando e apresentando as primeiras fissuras.


— Vitor, você me ligou cinco vezes! O que houve? — pergunta apreensiva.

— Você não me respondia… eu que pergunto o que houve.

— Eu sai e esqueci o telefone. Te avisei que o Juan estava na cidade, passou a tarde na chácara e a noite saímos todos para jantar.

— Não entendi ainda o que ele foi fazer aí.

— Ele é um amigo, está fazendo show próximo a BH e perguntou se poderia passar aqui.

— Um amigo igual o marido da sua amiga te ligando de madrugada aquela vez?

— O que você quer insinuar? Fale abertamente e evitamos esse jogo cansativo.

— Só fiz uma pergunta, não estou…

— Você está sim — o interrompe — e já passamos dessa fase, então pare por favor. — respira fundo. Como você está? Como as crianças estão? — muda de assunto.

— Bem. Todos bem.

— Não deu mais febre?

— Não, já parou. Você está bem, né? Se saiu para jantar já está bem.

— É sério que você está agindo assim? Isso é tão cansativo… Você sabe quem é o Juan e ainda que não soubesse, não te dou motivos para isso. Já é a terceira vez só esse mês que você toma essas posturas ciumentas sem sentido nenhum.

— Fico feliz que esteja bem! Caso sinta algo mais, ligue pro médico que te falei, ela já está avisado para te atender. Preciso desligar, durma bem! — desliga.


Paula encara o telefone por alguns minutos e se deixa abater pelo misto de sentimentos, incrédula que mesmo após anos ele voltaria agir exatamente igual.


Ao receber a notícia que fecharia contrato com uma grande operadora de shows e que partir desse momento sua carreira tomaria outros rumos, ela e Vitor decidiram fazer uma viagem com as crianças para aproveitarem o tempo livre.

Aos retornarem descobriram terem contraído uma infeção alimentar e enquanto ele seguiu para Campinas para devolver os filhos, ela resolveu ficar em BH.

Ao mesmo tempo que recebeu a grande notícia, também veio o baque de que nada é perfeito, porque ainda que tivesse consciência sobre os problemas que enfrentaria nessa relação, jamais passou pela sua cabeça que o ciúmes voltaria a ser um pedra no sapato.

Depois de fechar o contrato, ainda durante a viagem, começou a receber vários telefonemas para alinhar tudo que precisava ser feito e isso despertou em Vitor o que ela queria que nunca tivesse acordado.


Coloca o telefone sobre a cama e vai até a cozinha, encontrando sua mãe que resolveu ficar na cidade após se despedirem de Juan.



— Tudo bem? — a vê apreensiva.

— Sim! — mente.

— Paula… — olha-a com atenção.

— Vitor.

— O que houve? Ele não melhorou?

— Melhorou! — senta-se. Ele está ótimo! Ele está tão ótimo que tem tempo até para começar a alucinar.

— O que aconteceu?

— Uma crise de ciúmes, de novo! Isso está ficando tão frequente que estou ficando muito cansada e não tenho mais idade e nem saco para isso.

— Vitor está passando dos limites!

— Eu sei…

— O que vai fazer?

— Não sei! Ele é incrível na maior parte do tempo… Mas esse desgaste com ciúmes é demais para mim. Onde isso vai parar? Já lidei com isso lá atrás e agora de novo?

— É… complicado!


Passam-se dois dias e ele não entra em contato. Paula resolve mandar mensagem e percebe que ele não está recebendo. Tenta ligar e cai na caixa postal. Ao comentar a situação com Isabella, ela informa que ele pode ter bloqueado ela.


— Ele não ia ser tão baixo, não é possível… — tenta ligar novamente. Caiu de novo! — olha para tela do celular. Vou tentar falar com a Maria… — procura a enteada nas conversas do WhatsApp.



“Oi, Maria! Como vc está? Estou com saudades!”


— Não posso perguntar direto sobre o pai… Ainda mais correndo o risco da mãe dela ver! — observa Maria digitando. Ela está respondendo!


“Oi tia, estou bem e você? Tbm estou com saudades. Meu pai está com você?”


— Ela respondeu… — observa o celular e começa entrar em pânico — e perguntou se Vitor está comigo! — olha para Isabella.

— Então ele te bloqueou…


“Ele não está comigo, Maria… João está bem?”


Espera a enteada responder e enquanto isso vai na conversa com Vitor.


“Vitor, o que você está fazendo? Você me bloqueou? Não é possível que você vai agir assim!”


— Não chega a mensagem! — diz aflita. E se alguma coisa aconteceu?

— Mas o que? Ele teria avisado, não?

— Eu não sei! E se ele foi assaltado, se perdeu o telefone…

— Mas ele não entraria em contato com você por outro meio? Tem o Instagram!

— Verdade! — vai até o instagram e vê que ele não a bloqueou por lá. Por aqui está normal! — vê a notificação da conversa da Maria.


“O João está bem, quer ir ver a capivaras de novo.”

“Logo, logo vocês retornam para gente ver. Por que perguntou se seu pai estava comigo? — resolve perguntar a ela.”

“Porque quero falar com ele. Mandei mensagem ontem e ele disse que depois me ligava para gente conversar, mas não ligou ainda. Deve estar ocupado”

“Você conseguiu falar com ele ontem?”

“Consegui. A gente conversou por aqui.”


— Maria falou com ele ontem… — senta na cama. Vitor não tem idade para isso mais… Por que ele está fazendo isso comigo?

— Espera um pouco… Ás vezes pode ser o celular descarregado também. Tenta mais tarde!

— Vou mandar mensagem no instagram.

— Paula… Não seria humilhante isso? Sei lá… Espera pra ver.



Ela ignora o comentário e envia uma mensagem.


“O que você está fazendo? Não consigo me comunicar com você. As mensagens não chegam, seu telefone só cai na caixa postal… Não quero acreditar que você me bloqueou. Você some por dois dias, não me manda notícias, me deixa aflita com toda essa situação. Tudo isso porque? Seu ciúmes ainda vai matar a gente de novo! Me responda, por favor…”.


Ela passa o dia inquieta, ainda sem acreditar que ele foi capaz disso. No fim da noite compartilha com a mãe a situação e ela orienta ter calma e aguardar.


— Tem alguma coisa errada! — encara o celular.

— Ele ainda não retornou?

— Não! E nem visualizou no Instagram. Seria ruim eu enviar mensagem para Ana Paula? O maior problema é que talvez isso abriria margem pra especulação… Imagina eu mandando mensagem para assessora perguntando dele?

— Não seria bom mesmo, filha.

— A Marisa está me ligando!

— Atenda!



“Oi Marisa, tudo bem!?”

“Oi querida… Como você está? Melhorou da virose?”

“Melhorei sim, obrigada!”

“Que bom… Paula, estou ligando para saber se você tem notícias do Vitor. Ele está aí com você?”

“Marisa… — sente o coração apertar — ele não está comigo e eu não consigo falar com ele!”

“Ontem a noite eu conversei com ele, me disse que estava bem, só um pouco fraco. O médico dele pediu que ele fosse tomar uma medicação. Quando foi hoje ele não me respondeu mais!”

“Você sabe quem é o médico?”

“Não sei… Não perguntei a ele!”

“Nós nos desentendemos no domingo — resolve explicar pra sogra — e desde então não conversamos. Hoje resolvi enviar mensagem e não chega, não atende telefonema… pensei que ele havia me bloqueado.”

“Sinto muito, Paula… Ele comentou comigo, por cima. Mas eu pensei que já tivessem se resolvido. Perdão.”

“Imagina… — se levanta. Vou dar um jeito de ir pra Campinas hoje ainda. Vou ver o que houve e te telefono! Se ele não está atendendo você, alguma coisa aconteceu.”

“Ele é desatento com o celular, pode estar descarregado! Vá com calma e me telefone assim que souber de algo.”


Finaliza a chamada com a sogra e corre organizar uma mala enquanto Isabella compra uma passagem.


— Você tem certeza que não quer que eu vá?

— Tenho! — fecha a mala. Está tudo bem! Só preciso saber onde ele se enfiou e porque não avisou nem a própria mãe.

— Tenha calma, Paula!

— Estou calma, mãe! Um poço de calmaria. O orgulho dele está levando ele e a mim pro fundo do poço. — puxa a mala.


Ildo se oferece para levá-la até o aeroporto. No trajeto ela resolve mandar mensagem pra assessora dele, perguntando se ele entrou em contato com ela nas últimas 24 horas, explicando que nem ela e nem a mãe dele conseguem contato. Prontamente ela responde que não, mas informa que recebeu uma notificação do dia anterior sobre o uso do cartão dele em uma clínica médica. Paula pega todas as informações e ao pousar em Campinas, já na manhã, segue pra casa dele.


Consegue entrar no imóvel por meio da biometria e ao ver que o carro não está na garagem, constada que ele não está em casa. Telefona para sogra e informa o que conseguiu pegar com a Ana Paula. Na hora Marisa se lembra quem é o médico dessa clínica e passa o contato para Paula.


— Vou dar um jeito de ir para aí.

— Está tudo bem, Marisa… Não se desespere! Ele deve estar internado ou algo do tipo e não deu tempo de nos avisar.

— E se não for isso?

— A essa altura já saberíamos! Fica calma… Vou já telefonar para esse médico.

— Ok, vou ficar aguardando aqui! — desliga.


Disca o número que a sogra enviou, mas não atendem. Se recorda da Daniela, a vizinha dele. Resolve ir até a casa dela e por sorte a encontra no jardim.


— Bom dia! — sorri.

— Oi Paula, que surpresa boa! — a cumprimenta. Como você está?

— Bem… Um pouco nervosa, não vou mentir! Vim até aqui para saber se você sabe sobre Vitor. Eu e a mãe dele estamos há dois dias sem contato.

— Sério? — desliga a mangueira. Como assim?

— Marisa disse que anteontem falou com ele. Que ele disse que estava ainda um pouco fraco da virose, mas que estava bem. Depois não deu mais notícias. Falei com a Ana Paula e ela me disse que ele esteve em uma clínica. Tento falar com esse médico e ele não me atende! — mostra a foto.

— É o Dr. Leônidas! — vê. Vou já trocar de roupa e nós vamos até a clínica. Vem, entra aqui para me aguardar! — a leva pra dentro.


Se arruma o mais rápido possível e no caminho tenta tranquilizar Paula. Ao chegarem na clínica, Daniela pede para falar com o médico.


— É algo particular e urgente! — explica para a atendente.

— Ok, vou informar ao Dr. — telefona para o médico que autoriza a entrada de Daniela.

— Venha Paula! — a chama e adentram o consultório. Olá, Dr.! — o cumprimenta.

— Bom dia! Fiquei preocupado, o que é tão urgente?

— Olá! — o cumprimenta. Bom, sei que isso pode ser estranho Dr., mas eu precisava muito saber sobre o Vitor Chaves. Soube que o senhor atendeu ele anteontem. — observa o médico olhar ela com cautela. — Eu sou a namorada dele! Há três dias perdi o contato com ele. Eu e a mãe dele.

— Não é comum que eu fale sobre pacientes!

— Nos entendemos, Leônidas! Acontece que Vitor mora sozinho aqui em Campinas. Ele não responde as mensagens da família desde que saiu da clínica.

— Ok! Vitor esteve aqui com um quadro de desidratação, aplicamos uma medicação, mas ele teve uma reação e está em observação no hospital. Ele não informou a família?

— Não! — olha para Daniela. E o celular deve ter descarregado!

— Bem provável que sim! Mas, ele está bem. Só não recebeu alta ainda porque preciso observar ele por 48 horas e ainda não deu.

— Qual hospital ele está?

— Vera Cruz. Sigam para lá que eu vou ligar pada liberarem a entrada de vocês.

— Obrigada! — sorri.


No caminho até o hospital Paula avisa a sogra e a mãe.


— Você está bem? — observa ela em silêncio.

— Estou apreensiva e incrédula que um homem daquela idade não se deu ao trabalho de avisar a família que não estava bem. Isso me deixa nervosa.

— Você o conhece mais do que eu!

— Sim e ele super faria isso… Como se não tivesse pessoas o suficiente para ficarem preocupadas com ele.


Ao chegarem são encaminhadas até o quarto que ele está. Quando Vitor a vê fica surpreso.


— Oi! — coloca a bolsa sobre uma poltrona. Quando você me avisaria que estava internado?

— Pulinha…

— Como você se interna sem comunicar ninguém da sua família? Sua mãe, coitada, ficou super nervosa tentando falar com você. Eu achei que você tivesse me bloqueado!

— Te bloqueado?

— Sim! No WhatsApp. Sai mandando mensagem que nem uma maluca.

— Me desculpe! Meu celular descarregou.

— Você não é um homem solitário! Você tem uma família. Que tipo de hospital é esse também que deixa alguém ser internado sem acompanhante? Ainda mais alguém como você.

— Eu passei mal ainda na clínica, ninguém teve essa opção de encontrar um familiar para então avisar… estou dormindo desde que me colocaram essa mediação, só percebi agora de manhã que meu celular está sem bateria.

— Você não fala comigo desde domingo! Você nem me falou que estava mal.

— Nós vamos discutir? Estou muito cansado, só quero ir para minha casa.

— Você se alimentou direito nos últimos dias? — senta-se na poltrona, ainda nervosa com a situação. Não é normal ainda estar assim!

— Não sou mais um novinho, Paula! — fecha os olhos.


Ela tenta controlar a irritação com toda a situação assim que vê Daniela. No meio do nervosismo pelo momento, esqueceu-se da presença. Aproveita para agradece-la pela ajuda e garante que ficará com ele. Daniela então se despede e os deixa a sós.


Vitor cai em sono profundo novamente e ela aproveita para falar com Marisa, não escondendo seu descontentamento com o que houve. Mesmo que soubesse que ele poderia não ter culpa, lembra do fato dele ter evitado contato desde a última crise de ciúmes. O observa e toma uma decisão de conversar sobre isso com ele, de forma definitiva, assim que ele saísse do hospital.


Pelas próximas três horas ele segue dormindo até que desperta com a presença do médico que garante que ele está melhor e pode voltar pra casa. Paula organiza as questões com o plano de saúde no financeiro do hospital, pega o carro dele no estacionamento e o leva finalmente embora.


— Coloque o celular para carregar, sua mãe quer falar com você. — fecha a porta da entrada. O quer comer? Vou preparar algo.

— Não se preocupe. — sobe as escadas.

— Onde você vai? — o segue.

— Colocar para carregar, tomar um banho… — entra no seu quarto e ela o segue.

— Ok… Vou ficar aqui, caso precise. — senta na cama.

— Eu estou bem, Paula. Só tive alergia a um medicamento!

— E você sabia que isso poderia ter te matado?

— Mas, não matou! — retira a camiseta.

— Você só pode estar brincando, né? Você está falando de uma forma, como se isso fosse pouca coisa. Como se ter me evitado fosse normal. Me escondido que estava mal fosse normal. Não ter avisado NINGUÉM sobre sua situação fosse normal.

— Você quer que eu faça o que? — a encara.

— O que? — olha para ele confusa.

— É! O que você quer que eu faça? Não posso voltar lá atrás e eu não quero brigar.

— E eu nem estou me reconhecendo mais… brigas, discussões me esgotam. Não suporto mais essas situações, não suporto mais suas crises de ciúmes.

— Paula…

— Não! — o interrompe. Eu estou falando agora! Olha para nós dois… não somos dois adolescentes. Você já tem idade suficiente para saber que se eu quiser outro homem, eu fico com outro homem sem precisar enganar ninguém. Nós temos uma história, uma vida inteira de histórias. Ter retomado nosso relacionamento foi surpreendente pra mim, principalmente porque eu acreditei que estávamos prontos até você começar a ter essas atitudes. Eu não te dou motivos e não permito que você desconfie de mim!

— Não desconfio de você!

— E o que você faz então? Você fala com ironia sobre isso e depois simplesmente some…

— Não queria brigar. Só quis evitar o que está ocorrendo agora!

— E achou que ficando sem falar comigo isso seria bom. Ok. — se levanta. Não sei onde isso vai parar, Vitor… Mas não será em um bom lugar se continuar assim. Estou esgotada, cansada e ferida com isso tudo! — se retira.



Vitor fica sozinho no quarto, o som distante da casa preenchendo um silêncio que parecia pesado demais. Sentou-se à beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, o rosto enterrado nas mãos. As palavras dela ecoavam sem piedade: esgotada, cansada, ferida. Ele sempre achara que estava se protegendo, evitando conflitos, adiando conversas… mas, pela primeira vez, enxergou com clareza: cada silêncio seu era mais uma ferida nela. Cada sumiço, cada ironia, cada tentativa de “evitar briga” era, na verdade, uma forma de machucá-la lentamente.


Ergueu o olhar para o quarto vazio, sentindo um aperto no peito que não vinha do medo de perdê-la, mas da certeza de já estar perdendo. Ele a amava — disso não restava dúvida —, e justamente por isso percebeu o quanto estava sendo injusto. Amar não podia significar desgaste constante, nem transformar cuidado em dor.

Toma seu banho, regado a lágrimas e dor. Ao sair, pega seu celular e responde a mãe, garantindo estar bem e se desculpando pelo susto. Telefona para o piloto do jato e agenda uma viagem para Belo Horizonte no próximo dia pela manhã.

Ao descer a encontra deitada no sofá, mexendo no celular.


— Vou pedir comida japonesa! Quer algo em especial?

— Não sei se cairia bem você comer comida japonesa agora. — o olha.

— Estou bem… — sorri.

— Ok… — levanta. Nada de especial… Vou tomar um banho! — sobe para o quarto.


O jantar chegou rápido demais para quem não tinha apetite algum. As embalagens foram colocadas sobre a mesa com um cuidado quase cerimonial, como se qualquer ruído pudesse romper algo frágil demais para ser tocado. Eles se sentaram frente a frente, separados não pela mesa, mas por um silêncio denso, estranho, novo. Pela primeira vez desde que haviam retomado a relação, não havia provocações, nem comentários soltos, nem aquele esforço quase automático de preencher os espaços vazios com palavras. Só o som dos hashis tocando a embalagem, o farfalhar do papel, a respiração contida dos dois.


Vitor comeu devagar, mais por hábito do que por vontade, sentindo o gosto da comida se misturar a um nó constante na garganta. Evitava encará-la, não por desinteresse, mas porque sabia que qualquer olhar poderia fazê-lo recuar da decisão que amadurecia em silêncio. Paula, por sua vez, mantinha os olhos baixos, mastigando sem pressa, como se aquele momento exigisse respeito, um luto antecipado por algo que ainda não havia sido dito, mas já se fazia presente.

O silêncio entre eles não era confortável, tampouco hostil. Era definitivo. Um silêncio que não pedia explicações, nem desculpas, nem promessas. Pela primeira vez, não estavam brigando, não estavam se defendendo, não estavam tentando se entender. Estavam apenas ali, compartilhando uma última refeição como quem sabe, sem precisar dizer, que certas histórias não terminam com gritos, mas com a ausência de palavras.

Após o jantar, recolheram as embalagens quase em silêncio, com uma coordenação estranha, mecânica, como duas pessoas que já sabiam exatamente onde não tocar. A televisão foi ligada e um documentário qualquer começou a rodar imagens bonitas, uma narração calma, fatos curiosos que em outros tempos renderiam comentários longos, risadas baixas, discordâncias bobas. Dessa vez, não.

Sentaram-se no sofá deixando um espaço visível entre os corpos. Um espaço que nunca existira antes. Vitor ficou com os braços apoiados nas pernas, o olhar preso à tela sem realmente enxergar. Paula se acomodou com as pernas recolhidas, abraçando uma almofada, como se precisasse de algo para ocupar o lugar que antes era dele. De vez em quando, um comentário surgia.


— Interessante isso… — Vitor observa.

— É… eu não sabia.


E morria ali. As palavras não criavam pontes, apenas confirmavam o estranhamento. O documentário avançava, mas a sensação era de que ambos estavam fora de sincronia, como se aquele sofá não fosse mais o território seguro de tantas noites compartilhadas. A intimidade, antes tão natural, agora parecia um gesto ensaiado que ninguém ousava repetir.

Quando decidiram ir dormir, não houve convite, nem toque, nem aquele costumeiro “vem”. Apenas se levantaram, apagaram a televisão e seguiram para o quarto em silêncio. A cama, que sempre os acolhera em enroscos quase automáticos, tornou-se larga demais. Cada um ocupou seu lado, respeitando uma divisão invisível, rígida. Nenhum braço atravessou o limite, nenhum pé buscou o calor do outro.

As luzes se apagaram, mas o sono demorou. O quarto estava cheio de pensamentos não ditos, de decisões prestes a ganhar forma. Deitados de costas um para o outro, sentiam, talvez pela primeira vez, não era a distância física que mais doía, mas a certeza incômoda de que algo essencial entre eles já havia mudado, silenciosamente, sem volta.

A manhã nasceu clara demais para o peso que pairava entre eles. Vitor acordou antes, ficou alguns minutos sentado na beira da cama, observando Paula ainda deitada, o rosto cansado mesmo em repouso. Aquela imagem foi o empurrão final para fazer o que precisava ser feito. Não podia continuar fingindo normalidade.

Ela despertou pouco depois, ainda silenciosa, indo direto ao banheiro. Quando voltou, já arrumada de forma simples, encontrou Vitor em pé, perto da janela, como se estivesse ensaiando as palavras desde o amanhecer.


— Paula… — disse baixo, chamando sua atenção. — Eu já organizei tudo. Vou te levar para Belo Horizonte hoje.

Ela franziu levemente a testa, confusa, mas não interrompeu.

— Não quero que você perca seus compromissos por minha causa. — continuou, com a voz firme, embora o olhar denunciasse o esforço. — Vamos no meu jato. Assim você chega rápido e com segurança. Sei que você está sem escolta agora… e eu não ficaria em paz se não garantisse isso.


Paula o encarou por alguns segundos longos, tentando entender não apenas o que ele dizia, mas o que estava por trás daquelas palavras. Não havia urgência, nem controle, nem tentativa de aproximação. Havia cuidado. E despedida.

— É o melhor a se fazer. — concluiu ele, respirando fundo. — Pelo menos nisso, eu ainda posso te poupar de mais problemas.

Ela assentiu devagar, sentindo um aperto no peito difícil de nomear. Aquele gesto, tão responsável e tão distante ao mesmo tempo, deixava claro o quanto algo entre eles já havia se deslocado do lugar. Vitor não estava apenas organizando uma viagem. Estava, à sua maneira, começando a se afastar, garantindo que ela seguisse em frente ilesa, mesmo que isso significasse deixá-la ir.


Ele preparou o café da manhã. Tudo simples, do jeito que ela gostava: o café forte, a fruta cortada com cuidado, o pão levemente aquecido. Vitor se movia devagar, como se quisesse alongar aquele tempo, gravar cada gesto. Quando Paula desceu e viu a mesa como ele sempre fez, sorriu. Mas, comeram quase sem falar, trocando apenas olhares breves, gentis demais para aquela hora da manhã.

Na saída, ele pegou a bolsa dela antes que ela pudesse fazê-lo. Trancou a porta com calma, respirou fundo, e a acompanhou até o carro. O caminho até o aeroporto foi marcado por um silêncio diferente do da noite anterior: menos tenso, mais denso. A cidade acordava do lado de fora, indiferente ao que se desfazia ali dentro. Ele mantinha os olhos na estrada; ela, na paisagem que passava rápido demais.

No hangar, o jato já os esperava. Tudo parecia excessivamente organizado, como se o mundo conspirasse para que aquela partida acontecesse sem obstáculos. Antes de embarcarem, ele parou. Segurou o rosto dela com as duas mãos, demorando um segundo a mais do que o habitual, um segundo que carregava intenção. O beijo foi calmo, profundo, sem pressa. Não houve promessa, nem pedido, nem explicação. Apenas a entrega silenciosa de quem sabe que aquele gesto precisava dizer tudo o que as palavras não dariam conta.

Ela sentiu o coração apertar, mas ainda assim sorriu ao se afastar, acreditando que era apenas mais uma despedida provisória. Ele retribuiu o sorriso, contido, como quem guarda um segredo doloroso.

Durante o voo até Belo Horizonte, o céu estava limpo. Ele permaneceu quieto, atento a cada movimento dela, garantindo conforto, segurança, presença. Paula fechou os olhos por alguns instantes, tentando descansar, tentando acreditar que aquele cuidado era só amor e não um anúncio. Vitor, em silêncio, sabia: aquele trajeto não era apenas uma viagem. Era o último gesto de amor que ele podia oferecer sem continuar machucando os dois.

O barulho constante da aeronave preenchia os espaços entre uma palavra e outra, como se desse coragem ao que nenhum dos dois sabia exatamente como dizer.

— Você dormiu mal… — Vitor comentou, olhando de lado, a voz baixa.

— Um pouco. — Paula respondeu, ajeitando o cinto. — Acho que foi a noite estranha.

Ele assentiu, sem insistir.

— Também não dormi muito.

Ela observou o interior do jato, depois voltou o olhar para ele.

— Obrigada por isso… por me levar assim. Sei que não era obrigação sua. Acabei vindo ontem sem segurança, precisava te achar!

— Era o mínimo. — respondeu rápido demais.

Paula respirou fundo, como se estivesse escolhendo cada palavra.

— A gente anda diferente desde ontem…

— Anda. — ele concordou, sem desviar o olhar.

— Mas passa. — ela completou, quase num sussurro, mais como esperança do que afirmação.


Vitor demorou alguns segundos para responder.

— Você sempre acredita nisso. — disse, com um meio sorriso triste.

— Porque eu quero acreditar. — respondeu ela. — Sempre quis. — sorri e ele sente a dor por saber que não veria mais esse sorriso.


Ele fechou os olhos por um instante, como quem segura algo por dentro.

— Você merece leveza, Paula.

Ela franziu a testa, incomodada com o tom.

— E você acha que eu não sei escolher o que eu mereço?


Ele a encarou então, com cuidado, com carinho demais para aquele momento.

— Acho que você aguenta mais do que deveria.


Ela não respondeu. Apenas desviou o olhar para a janela, vendo as nuvens passarem lentamente. O diálogo morreu ali, suspenso no ar junto com tudo o que ainda não tinha nome. Mas, mesmo sem dizer, algo pesado se acomodou entre eles, a sensação de que aquela conversa não era só sobre o voo, nem sobre aquela manhã. Era sobre um ponto de chegada que apenas um dos dois já enxergava.