Antigo novo amor

14 Capítulo 14 - A cama de gato


O dia passa tranquilo na fazenda. Acompanham o trato dos cavalos, passeiam de bicicleta pelos pés de Ipê, atendem uma ligação de Maria, almoçam e logo pela tarde se organizam para pegar o voo. Edvaldo deixa eles no hangar e em poucas horas já estão em Campinas.


— Pulinha, vou buscar as crianças… Já estou atrasado, sei que vou ouvir! — coloca a mala perto da escada. Mais tarde levo tudo pra cima. Quer ir comigo?

— Acho melhor não… E se ela me ver? Não vai achar ruim?

— Eu não ligo para o que ela acha!

— Mas, vamos evitar… Vai que ela fala algo e as crianças escutam.

— Ok… Já volto! — beija-a e sai.



Vitor pega a chave do seu carro e sai em disparada para buscar os filhos, sabendo que ouviria reclamações já que estava atrasado. Na casa, sozinha, Paula resolve procurar algo para as crianças comerem e organiza uma mesa com pão, frutas e bolachas, colocando o presente que comprou para eles. Não demora muito e eles adentram a casa, trazendo barulho e luz.


— Oi! — sorri, indo até eles.

— Oi, tia! — abraça ela. Eu estava com saudades.

— Eu também estava, princesa! Você está enorme, comeu fermento? — riem.

— Oi, tia Paula! — se aproxima.

— Oi, pequeno! — abraça ele. Você também está gigante! — ri. Vocês crescem demais, daqui a pouco estão maiores que eu. Querem comer? — mostra a mesa.

— Sim!


Enquanto eles se sentam à mesa, Paula observa que Vitor está aparentemente nervoso.


— O que houve? — se aproxima dele.

— Preciso resolver uma coisa… Depois conversamos. Já volto, ok? Se você puder ir entretendo eles enquanto…

— Claro! — interrompe. Vai lá!


Ele sobe as escadas e deixa ela preocupada, mas não deixa isso transparecer para Maria e João. Se senta com eles e aproveita para dar os presentes, um kit de maquiagem da Dior para Maria e um lego para João.


— Minha mãe vai amar esse! — olha o blush entusiasmada.

— Que bom! — sorri. Você pode usar com ela.

— Sim! — abraça a Paula. Eu amei, obrigada!

— Você me ajuda a montar, tia Paula? Eu queria muito esse! — abre o lego sobre a mesa.

— Ajudo sim! Primeiro, vamos comer. Depois a gente senta todos juntos e montamos, ok?

— Cadê o papai? — olha em volta.

— Foi resolver uma coisa, mas já ele vem!

— Acho que ele está bravo!

— É… minha mãe gritou com ele. Você não fica brava com ela, né? Por ela ter gritado com meu pai.

— Eu? — é pega de surpresa. Maria… — pensa no que responder — vocês dois não precisam se preocupar com isso. O importante é que os pais de vocês amam vocês! — sorri. E eu também amo vocês dois. Amo muito! — olha pra eles.

— Eu gosto muito de você também. Fiquei com medo de não te ver mais! — mexe no cabelo da Paula.

— Você vai me ver sempre, fica tranquila.

— Eu adoro seu cabelo, cheio de cachinhos.

— Sim! — ri. Eu amo meus cachinhos também.

— Será que meu pai vai demorar? — olha para Paula.

— Acho que não, João! Logo ele vem.

— Você sabe o que é processar?

— Processar?

— É… Minha mãe gritou que ia processar o papai.

— E ele respondeu: processa! — imita uma voz grossa.


Nesse instante ela não sabe se ri da imitação de Maria ou se preocupa ainda mais com a situação. Paula tinha prometido a si mesma que não se envolveria em nada que envolvesse Poliana, e Vitor havia pedido isso a ela. Conversar com as crianças nesse momento estava se tornando um campo minado e Vitor não retornava para que as coisas tomassem outro rumo.


— Não se preocupe com isso, João! — sorri, tentando confortar ele. É coisa de adulto!

— Eu não quero que meu pai brigue com a minha mãe.

— Mas foi a mamãe que brigou com ele primeiro, João! — Maria intervém.

— Porque ele demorou para pegar a gente.

— Ele explicou que estava no avião e atrasou!

— Ela não tem culpa.

— Nem o papai tem, João!

— Crianças… — interrompe eles. Tenho certeza que seja lá o que for que aconteceu, seus pais vão resolver e vocês não precisam ficar tristes com isso, tudo bem? — se levanta. Vamos brincar?

— Brincar de que?

— Vocês sabem onde tem barbante?

— Acho que ali! — aponta a gaveta do armário.

— Boa! — acha o barbante. Agora preciso da ajuda de vocês… — puxa as cadeiras, enfileirando uma do lado da outra. Vamos brincar de cama de gato e quem ganhar vai ter direito a escolher o que quer comer amanhã.


Paula passa o barbante entre as cadeiras e as maçanetas das portas que dão entrada para área da piscina. As crianças demonstram curiosidade com a brincadeira e ela mostra a eles como brincar.


— Quem conseguir chegar aqui — passa o última trama de barbante — em menos tempo, vence! Ufa… — ri — consegui. Se derrubar a cadeira ou tirar o barbante do lugar, tem que começar de novo! Entendido? — eles assentem. Ótimo, quem começa?

— EU! — ergue os braços.

— Ok, você João…


Começam a brincadeira e mal imaginava ela que eles se divertiriam tanto ao ponto de nem notarem que Vitor chegou na cozinha, surpreso com a algazarra.


— PAI! — o vê. Eu já ganhei uma rodada!

— Que bom, filho! — ri.

— Tudo bem? — se aproxima dele. Eu precisei inventar alguma coisa… — ri. Você ia usar esse barbante? Compro outro depois.

— Está tudo bem, Pulinha! — sorri. Estou feliz que estejam entretidos. Obrigado! — se aproxima dela para beija-lá e ela recua. O que foi?

— Na frente deles? — sussurra.

— O que tem? Somos namorados e eles sabem.

— Nossa mãe tá namorando também, pai.

— Vocês escutam, né? — olha pra eles. Sempre atentos ás conversas alheias… — ri. Fico feliz que ela esteja namorando, muito, muito feliz! — ergue as mãos para o céu.

— Ele chama Daniel e tem um filho também, mas o filho dele é grande.

— Você tem filho, Paula?

— Não, João! — ri da pergunta.

— Ela vai ter com o papai e vai ser uma menina!

— Você já está grávida? — olha para Paula assustado. Você disse que ia me avisar…

— Não estou! — o tranquiliza. E fica tranquilo que se um dia eu ficar, vou te avisar! — pisca pra ele.


Vitor senta-se na única cadeira que restou para tomar o café e Paula se junta as crianças para continuarem a brincadeira até que eles se cansam e começam a montar o lego. As horas passam e por mais que tentam ocupar as crianças, Paula percebe o quanto Vitor está disperso. No início da noite, ele coloca os filhos para tomarem banho.


— Eu achei que seria aqui o jantar! — retira o barbante das cadeiras.

— Amanhã teremos um aqui, hoje será na minha vizinha.

— Me explica como são para eu saber o que vestir… São mais jovens, mais velhos? Tem filhos?

— São mais velhos e tem um casal de filhos, jovens. — ajuda ela arrumar as cadeiras. São pessoas simples, não se incomode, querem te conhecer.

— Ok! Está tudo bem? O que aconteceu? As crianças começaram a quase discutir sobre você e Poliana.

— Como assim?

— João estava preocupado que você estaria brigando com a mãe. Maria disse que ela quem começou gritando… Foi por conta do atraso?

— E por conta dos materiais escolares do ano que vem! Ela simplesmente surta. Pago a pensão, a mensalidade da escola, o plano de saúde, aulas extras para cada um e ela surta porque não pago os livros da escola… Acontece que ela tem que comprar os livros com o dinheiro da pensão, mas ela não aceita e todo ano é a mesma coisa. Eu não vou pagar os livros se já pago todo o resto, o combinado foi esse.

— Entendi… Sinto muito. Não deve ser fácil. — enrola o barbante.

— Eles ouviram tudo pelo jeito.

— É… ouviram! E você subiu lá em cima para resolver o que?

— Ligar para minha advogada conferir o acordo e entrar em contato com o dela. Podia ter deixado a cama de gato… Íamos brincar.

— Eles já cansaram. Aliás, eles cansam rápido… Haja mente criativa para inventar algo toda hora! — riem.

— Estou falando de nós dois! — se aproxima dela, segurando-a pela cintura.

— Deixa eu adivinhar… a brincadeira envolveria eu estar nua?

— Já falei que te amo hoje?

— Ainda não! — ri.

— Amo você e sim… Você acertou!

— Só se você estivesse lá na frente me esperando, nu também!

— Era isso mesmo que eu estava em mente! — pisca. Pode parar com isso de não querer me beijar na frente das crianças.

— Fico com receio… Deles falarem algo pra mãe e…

— Paula — a interrompe — esquece essa mulher, por favor. O que acontecer dentro da minha casa ou enquanto eu estiver com as crianças, não é da conta dela. E outra, somos namorados, vamos morar juntos e quando eles estiverem não vamos poder nos tocar? Você não tem que se preocupar com isso.

— Ta bom… Mas só selinho, nada de língua!

— Ok! Mas, agora pode, né?

— Agora… — olha pelas escadas — pode! — ri enquanto ele se aproxima mais e a beija. Você tem malhado bastante?

— Até mais do que gostaria… Por que?

— Esta visível. Está mais forte.

— Só não consigo a barriga trincada… — bate na barriga.

— Não precisa! — riem. Essa aí está ótima para mim!

— Que bom… Porque a trincada realmente não vai acontecer. — ri.

— A barriga é o de menos, me satisfaço com os braços, com as pernas, com outra coisa…

— Sei! — riem. Quando chegarmos do jantar te darei seu presente. Não coma e nem beba muito lá… Separei um vinho para gente tomar no estúdio hoje.

— Como quer que eu me vista?

— O mínimo possível! — pisca pra ela enquanto sobe as escadas ao ser chamado pelos filhos.

— Palhaço! — riem.


Com todos arrumados, seguem para a casa da vizinha de Vitor que ao ver Paula se espanta.