Antigo novo amor

29 CAPÍTULO 29 - Novas capivaras


Três semanas se passaram.


A rotina voltou a ocupar os dias de Paula quase completamente. Em Belo Horizonte, o estúdio virou novamente o centro de tudo: gravações, reuniões, decisões sobre repertório, entrevistas rápidas e os últimos ajustes no álbum que em breve seria lançado. O trabalho sempre foi um lugar seguro para ela e agora, mais do que nunca, precisava disso.


Instrumentos sendo afinados, técnicos andando de um lado para o outro, vozes atravessando o corredor entre uma gravação e outra. Paula estava sentada no sofá da sala de gravação ouvindo uma das mixagens enquanto mexia distraidamente no celular.


A notificação apareceu: Maria. O sorriso veio antes mesmo de abrir a conversa.


Era uma foto. Um desenho. Três capivaras. Uma grande e duas pequenas ao lado.


A mensagem dizia: “Esses são os bebês da capivara Vitor.”


Paula soltou uma risada baixa.


Isabella, que organizava algumas anotações na mesa próxima, levantou os olhos.


— O que foi?

— Maria.


Ela virou o celular para Isabella ver. Isabella se aproximou.


— Essa menina vai dominar o mundo! Que desenho fofo.


Paula digitou de volta.


“Eles estão lindos. Já escolheram nomes?”


A resposta veio quase instantânea.


“Sim. Um chama João e o outro Maria.”


Paula riu de novo.


— Claro que chama.


Mandou um áudio.


“— Então agora você tem duas capivaras na família.”


Alguns segundos depois o áudio de Maria chegou, cheio de empolgação.


“— Mas você tem que mandar foto todo dia! Porque filhote cresce rápido!”


Paula ficou alguns segundos olhando para o celular depois de ouvir. O sorriso ainda estava ali. Mas mais quieto.


— Vamos gravar? — chamou o técnico do outro lado do vidro.


Ela assentiu e se levantou. Caminhou até o microfone, colocou os fones e a música começou.


A primeira tomada saiu perfeita. Na segunda, porém, Paula interrompeu.


— Espera.


Tirou os fones. Passou a mão pela testa.


— Está tudo bem? — perguntou Isabella.

— Está calor aqui dentro.


Pegou a garrafa de água e bebeu um gole longo.


— Vamos de novo.


A gravação seguiu. Mas quando terminou a música, Paula se sentou novamente no sofá. Mais cansada do que deveria.


Isabella abriu um pacote de biscoitos que estava sobre a mesa.


— Come alguma coisa.


Paula pegou um. Deu uma mordida pequena. Ficou alguns segundos mastigando. Depois colocou o resto de volta.


— Não quero.


Isabella estreitou os olhos.


— Desde quando você recusa comida?


Paula deu de ombros.


— Desde hoje.

— Você está estranha.

— Só estou cansada… essa rotina está exaustiva.


Isabella a observou por alguns segundos, mas deixou passar.


— Terminamos por hoje. Vamos embora?


Paula assentiu. Alguns minutos depois as duas estavam no estacionamento do estúdio.


Ela parou ao lado do carro e entregou a chave para Isabella, que no mesmo instante franziu a testa.


— Ué.

— Dirige hoje.

— Desde quando você não dirige? E melhor, desde quando você me dá sua RAM para dirigir?


Paula abriu a porta do passageiro.


— Desde agora.

— Paula…

— Isabella.


Ela suspirou.


— Eu só estou cansada. Você tem visto o quanto tenho trabalhado… hoje bateu.


Isabella ainda ficou alguns segundos olhando para ela antes de entrar no carro.


— Está bem.


O trânsito de Belo Horizonte estava pesado no fim da tarde. O rádio tocava baixo enquanto os carros avançavam devagar entre os sinais.


Paula estava encostada na porta, olhando distraidamente pela janela. Durante alguns minutos nenhuma das duas falou.


— Você está muito quieta hoje — comentou Isabella.

— Estou?

— Está.


Paula deu de ombros.


— Deve ser essa sensação de cansaço, esse calor. Não tem quem aguente isso!


Isabella olhou rapidamente para ela.


— Você vive cansada ultimamente.

— Obrigada pelo diagnóstico.

— Não é diagnóstico.


O sinal fechou e Isabella freou o carro.


— É observação.


Paula soltou um pequeno suspiro e ajeitou o cinto.


— Foi uma semana longa.

— Hoje é terça.


Paula virou o rosto devagar.


— Isabella!

— O quê?

— Não ajuda.


Isabella riu.


— Só estou dizendo.


O sinal abriu. O carro voltou a andar. Alguns minutos depois Paula abriu a bolsa e pegou uma bala de hortelã. Colocou na boca.


— Você nem gosta dessas balas — comentou Isabella.

— Hoje eu gosto.

— Você sempre odiou hortelã.

— Hoje eu não odeio. Posso fazer alguma coisa sem que você me questione?


Isabella levantou uma sobrancelha, mas deixou passar.


— Maria mandou mais alguma coisa? — perguntou.


Paula pegou o celular novamente.


— Mandou.

— Sobre as capivaras?

— Sempre sobre as capivaras.


Isabella sorriu.


— Ela ama você.


Paula ficou alguns segundos olhando para a tela.


— Eu amo ela também.


A resposta saiu mais baixa. Mais sincera do que talvez ela pretendesse.


Isabella percebeu. Mas não comentou.


Quando o carro entrou na rua do prédio de Paula, Isabella estacionou na garagem.


Paula ficou sentada por um instante antes de sair. Levou a mão discretamente ao estômago. Um gesto rápido. Quase automático e Isabella percebeu de canto de olho.


— Está tudo bem?


Paula tirou a mão imediatamente.


— Está. Acabei tomando leite hoje de manhã… Sabia que não devia.


Pegou a bolsa. Saiu do carro.


— E você vê tudo também, né?


Isabella riu.


— É meu trabalho.


Paula fechou a porta.


— Então vai trabalhar.


Virou-se e caminhou em direção ao elevador. Enquanto Isabella a observava sem saber exatamente por quê, mas com a sensação incômoda de que alguma coisa estava… errada.


Em Campinas, os dias de Vitor seguiam organizados como sempre. A rotina era o que mantinha tudo no lugar.


Acordava cedo, resolvia compromissos da agenda, passava pelo estúdio, falava com a equipe, cuidava da casa e, naquela semana, dividia o tempo com João e Maria, que estavam com ele.


A casa ganhava outro ritmo quando as crianças estavam ali. Mais barulho. Mais movimento. Mais vida.


No fim das tardes, ele buscava os dois na escola e voltavam juntos para casa, quase sempre com Maria falando sem parar sobre o dia inteiro enquanto João participava apenas quando julgava necessário.


Os jantares eram simples. Os três sentados à mesa da cozinha, conversando entre garfadas e histórias atropeladas. E foi ali que o nome de Paula continuou aparecendo com naturalidade.


Maria falava dela como se nada tivesse mudado. Às vezes mostrava fotos que Paula mandava da chácara. Principalmente das capivaras.


Mais filhotes tinham nascido algumas semanas antes e a menina parecia absolutamente convencida de que fazia parte da vida deles.


— Eu que dei os nomes — contou em uma dessas noites, orgulhosa, estendendo o celular para o pai.


Na tela, a capivara grande deitada perto da água e dois filhotes pequenos ao lado.


— Esse é o João e esse sou eu.


João levantou os olhos do prato imediatamente.


— Eu não quero ser capivara.


Maria revirou os olhos.


— Não é você.

— Você acabou de falar que sou eu.

— É o filhote.


João voltou a comer.


— Tanto faz.


Vitor não conseguiu evitar o pequeno sorriso. Maria continuava olhando as fotos.


— A Paula disse que eles já estão correndo lá pela chácara dela.


Depois de alguns segundos acrescentou, distraída:


— Ela perguntou de você.


Vitor levantou os olhos.


— Perguntou?

— Uhum.

— O que você falou?


Maria deu de ombros.


— Que você está bem.


Ela continuou mexendo no celular.


— Você está bem, né?


Vitor respondeu como sempre respondia.


— Estou.


Maria aceitava aquela resposta sem questionar. Voltava para o celular, para algum desenho ou para qualquer outro assunto que surgisse, mas Vitor quase sempre ficava alguns segundos a mais em silêncio depois dessas conversas.


Porque, de uma forma curiosamente tranquila, Paula continuava atravessando os dias daquela casa. Nas fotos que Maria mostrava. Nos áudios que ela mandava contando histórias da chácara. Ou simplesmente no modo como o nome dela ainda aparecia na mesa do jantar, como se nunca tivesse ido embora.


Naquela noite, depois de colocar as crianças para dormir, Vitor subiu para o quarto.


A casa finalmente estava em silêncio. Ele entrou no quarto procurando uma camiseta que costumava deixar na cômoda.


Abriu uma das gavetas e começou a mexer entre as roupas dobradas. Foi quando viu o pijama, dobrado ali entre as outras peças.


Ele parou por um instante. A lembrança da fazenda veio imediata demais.


A chuva.

A varanda.

O modo como ela tinha ficado parada ali enquanto ele entrava na casa.


Vitor passou os dedos pelo tecido por um segundo antes de perceber a pequena caixa preta ao lado. A mesma que Paula tinha mostrado a ele pela primeira vez em uma viagem a Campos do Jordão, cheia de coisas que ela tinha comprado com um misto de curiosidade e vergonha e que tinha se tornado um segredo deles que volta e meia aparecia na cama.


Ele fechou a gaveta devagar. Sem pegar nada, mas demorou alguns segundos a mais ali parado antes de apagar a luz do quarto sabendo que algumas lembranças insistiam em aparecer justamente quando o dia terminava.


No fim de semana, Paula foi para a chácara. Às vezes precisava daquele silêncio. Da terra, do cheiro de mato, da rotina simples que parecia existir fora do ritmo da cidade.


A mãe e o padrasto estavam lá quando ela chegou. A casa tinha aquele movimento tranquilo de interior: café passado no fogão, portas abertas, o barulho do vento passando pelas árvores.


Isabella tinha ido passar o fim de semana com a própria família, então Paula aproveitou para desacelerar um pouco.


Naquela manhã o sol estava forte e o céu completamente limpo.


Depois de cavalgar um pouco pelos campos, Paula desmontou perto do lago e se sentou no gramado, escorada no tronco de uma árvore que ficava de frente para a água.


Ali estavam as capivaras. A grande deitada perto da margem e os dois filhotes andando pela grama com aquele jeito desajeitado de quem ainda está aprendendo o mundo.


Paula tirou o celular do bolso e gravou um pequeno vídeo.


— Olha aqui, Maria…


A voz saiu baixa, quase como se estivesse falando diretamente com a menina.


Ela aproximou a câmera.


Os filhotes se mexiam curiosos enquanto a capivara maior permanecia completamente tranquila.


Paula enviou o vídeo. Mal teve tempo de bloquear o celular e a chamada de vídeo apareceu na tela: Maria. Ela riu e atendeu.


— Oi.


A câmera abriu direto no rosto animado da menina.


— Deixa eu ver!


Paula virou o celular novamente para o lago.


— Eles estão ali.

— Aaaah! — Maria comemorou do outro lado.

— Olha o João!

— Esse aqui? — da zoom.

— Não, o outro!


Paula riu enquanto ajustava a câmera. Maria ficou observando a tela por alguns segundos. Então perguntou de repente:


— Paula… como você está?


A pergunta pegou Paula completamente de surpresa. Maria nunca tinha entrado naquele tipo de assunto.


Ela riu, surpresa com a espontaneidade da menina.


— Eu estou bem.


Maria virou imediatamente para dentro da casa e gritou:


— PAAAI! A Paula respondeu que está bem!


Paula riu, entendendo na hora de onde tinha vindo a pergunta. Então aproveitou:


— E por aí? Está todo mundo bem também? Você, o João… seu pai?


Maria já virou de novo para dentro da casa.


— PAAAI! A Paula quer saber se você está bem!


A voz de Vitor veio do fundo da sala:


— Maria, para de gritar!


Maria voltou para a câmera com uma expressão séria.


— Ele mandou eu parar de gritar.


Paula segurou o riso.


— Eu ouvi… Ele detesta gritos!


Maria pensou por um segundo. De repente se levantou.


— Já sei.


A imagem começou a balançar enquanto ela atravessava a sala com o celular na mão.


— Pai, então responde você — disse, chegando perto dele.


Vitor estava sentado no sofá da sala. De óculos. Um livro aberto nas mãos. O cabelo recém cortado. A barba feita.


Maria praticamente enfiou o celular no rosto dele.


— Pai, a Paula quer saber se você está bem!


Sem nem olhar direito para a tela, Vitor respondeu automaticamente:


— Estou bem, Maria.


Ele afastou o celular um pouco para conseguir continuar lendo. Foi só nesse movimento que percebeu: Na tela, Paula.


Por um instante ele ficou parado. Os olhos ainda atrás dos óculos, tentando entender o que estava vendo.


Do outro lado da tela, Paula também tinha congelado um pouco. A surpresa atravessou os dois ao mesmo tempo.


Maria continuava segurando o celular entre os dois, orgulhosa da própria solução.


Vitor ainda estava olhando para a tela: Para Paula. Por um segundo ele parecia ter esquecido completamente do livro nas mãos.


Foi Maria quem quebrou o silêncio.


— Mostra eles de novo.


Paula ajustou o celular, inclinando um pouco a câmera para o lago.


Os dois filhotes estavam agora mais perto da margem, andando pela grama enquanto a capivara maior permanecia deitada perto da água.


— Olha! — disse Maria, animada. — Esse aqui é o João.


Paula aproximou um pouco mais a câmera. Vitor se inclinou levemente para enxergar melhor.


— Qual deles?

— Esse! — respondeu Maria, apontando para a tela como se os dois pudessem ver o gesto.


Vitor observou por um instante.


— E por que esse é o João?


Maria respondeu com a naturalidade absoluta de quem tinha certeza da própria lógica.


— Porque ele é mais quietinho… e fica comendo o tempo todo.


Por um segundo houve silêncio. Então Paula começou a rir. Vitor também.


— Faz sentido — disse ele.


Maria ficou satisfeita com a reação.


— E aquele ali sou eu.


Ela apontou novamente para a tela. O outro filhote naquele momento corria desajeitado pela grama.


— Porque ele não para quieto.


Paula ainda sorria.


— Isso também faz bastante sentido.


Ela manteve a câmera voltada para o lago por mais alguns segundos. Então comentou, quase distraída:


— Inclusive… acho que a mãe deles está grávida de novo.


Maria arregalou os olhos do outro lado da tela.


— De novo?


Paula apontou um pouco com o celular.


— Olha a barriga dela… está enorme.


Vitor observou também. A capivara realmente parecia mais arredondada do que antes. Maria parecia fascinada.


— Então vão nascer mais capivaras?


Paula riu.


— Provavelmente.


Maria ficou em silêncio por um instante, processando a informação. Depois abriu um sorriso enorme.


— A gente vai ter uma fazenda de capivaras! João vai amar…


Vitor balançou a cabeça, rindo baixo.


— Pelo jeito sim.


Enquanto Maria continuava falando animadamente sobre quantos nomes ainda poderia inventar para novos filhotes, Paula voltou a aparecer mais na câmera.


E por um breve momento, os olhos dela e de Vitor se encontraram de novo pela tela.


Dessa vez com um silêncio diferente entre eles. Pequeno. Mas carregado de coisas que nenhum dos dois dizia.


Maria continuava falando animadamente sobre quantos nomes ainda poderia inventar para os próximos filhotes quando Vitor finalmente interveio.


— Maria… — disse ele, com aquele tom paciente de quem já conhecia bem o ritmo da filha. — Deixa a Paula aproveitar o passeio dela.


A menina fez uma pequena careta.


— Tá bom.


Voltou o celular para o próprio rosto.


— Depois você me manda mais vídeo.

— Mando — respondeu Paula, sorrindo.


Maria parecia satisfeita.


— Tchau.

— Tchau, Maria.


A menina já estava prestes a desligar quando Vitor disse:


— Espera um segundo.


Maria segurou o celular novamente na direção dele. Dessa vez ele já estava olhando para a tela.

Para Paula. O silêncio durou um segundo. Talvez dois, como se ele estivesse decidindo se falaria algo ou não.


— Bom fim de semana — disse ele.


A voz saiu calma, simples. Mas Paula sentiu.


— Para você também — respondeu.


Maria então apertou o botão e a chamada se encerrou.


O silêncio voltou ao campo. Paula abaixou o celular devagar. O lago estava tranquilo, com pequenas ondas se formando perto da margem onde as capivaras continuavam espalhadas pela grama.


Ela ainda ficou ali sentada, encostada na árvore, observando os filhotes correndo de um lado para o outro.


Por alguns minutos não pensou em nada. Só ouviu o vento passando pelas folhas. Depois apoiou as mãos no chão para se levantar. Foi nesse momento que sentiu uma leve tontura. Apenas aquela sensação rápida de que o corpo demorou meio segundo a acompanhar o movimento.


Paula ficou parada. Respirou fundo. Esperou passar. Quando a sensação desapareceu, caminhou devagar até o cavalo que estava amarrado perto da cerca. Montou novamente e seguiu pelo caminho de volta para a casa.


A mãe estava na varanda quando ela chegou.


— Demorou — comentou, olhando por cima dos óculos de leitura.


Paula desmontou.


— Fiquei no lago.

— Viu suas capivaras?


Paula sorriu.


— Vi.


Ela começou a subir os degraus da varanda quando a mãe a observou melhor.


— Você está pálida.


Paula passou a mão pelo rosto, quase automaticamente.


— Calor.

— Não está calor.

— Andei a cavalo… Estou morrendo de calor! — se abana.


A mãe ainda a observou por alguns segundos. Depois voltou para o livro que estava lendo.


— Vai beber alguma coisa que passa!


Paula entrou na casa. O cheiro de bolo assando estava no ar, misturado ao cheiro de terra que vinha do quintal.


Ela pegou um copo de água na cozinha e bebeu devagar. A tontura já tinha passado completamente e, para ela, aquilo significava que ela precisava descansar, diminuir o ritmo de trabalho de uma vez por todas.


Em Campinas Maria ainda segurava o celular com aquela expressão satisfeita.


— Viu, pai? — disse ela.


Vitor tirou os óculos por um instante e a encarou.


— Maria…


Ela já conhecia aquele tom.


— O quê?

— Primeiro: não precisa gritar a casa inteira.

— Mas você estava longe.

— Mesmo assim.


Ele pegou o celular da mão dela e colocou sobre a mesa de centro.


— E segundo: não coloca o telefone no rosto das pessoas sem avisar.


Maria fez uma pequena careta.


— Eu avisei.

— Você avisou depois que já estava no meu nariz.


Ela cruzou os braços, ainda convencida da própria lógica.


— Mas funcionou.


Vitor suspirou, sem conseguir segurar um pequeno sorriso.


— Funcionou.


Maria se jogou no sofá ao lado dele.


— Você viu a barriga da capivara?

— Vi.

— Então vão nascer mais.

— Pelo jeito…


A menina parecia genuinamente fascinada com aquela possibilidade.


— A gente vai ter muitas.

— A gente não — corrigiu Vitor, tranquilo. — A Paula.

— Mas eu que dei os nomes.

— Isso é verdade.


Nesse momento João apareceu no corredor, com o cabelo ainda úmido da toalha que tinha jogado sobre os ombros.


— Do que vocês estão falando?


Maria virou para ele imediatamente.


— Das capivaras!

— Que capivaras?

— A Paula me ligou!


João parou no meio da sala.


— Ligou agora?

— Uhum!


Ele olhou para o pai.


— E você não me chamou?

— Você estava no banho — respondeu Vitor.


Maria já pegava o celular de novo.


— Olha o vídeo.


Ela abriu a conversa e mostrou para o irmão o vídeo que Paula tinha enviado. João assistiu em silêncio.


— Esse aqui é você — explicou Maria, apontando para um dos filhotes.


— Eu não quero ser capivara, já te falei!

— Você é porque esse fica comendo o tempo todo.


João deu de ombros.


— Então tá.


Maria continuou empolgada.


— E a barriga da mãe deles está enorme.

— Então vão nascer mais — concluiu João.

— Eu falei isso!


Vitor observava os dois discutindo os possíveis nomes para futuros filhotes enquanto voltava a colocar os óculos e pegava o livro novamente.


A casa retomava o ritmo normal da noite. Mas por um instante, enquanto os dois continuavam discutindo sobre capivaras, ele ainda tinha na cabeça a imagem que tinha visto na tela minutos antes: Paula sentada no gramado. Escorada na árvore.


Ele piscou devagar, voltando ao livro.


— Maria.

— Hm?

— Se você gritar da próxima vez, eu volto a tirar o celular de você.

— Tá bom.

— E sem colocar celular no meu rosto também!


Ela ficou em silêncio por dois segundos.


— Mas se for a Paula eu posso?


Vitor abaixou o livro. Olhou para ela e acabou rindo.


— A gente negocia isso depois. E chega de capivaras por hoje… Não aguento mais!


Ele se levanta e encerra aquele assunto que se estendia sempre para além do que ele queria.


Algumas semanas se passaram.


Paula já não estava mais no apartamento de Vitor. Quando decidiu sair de vez, fez isso sem alarde: juntou o que ainda restava das coisas dela, organizou algumas caixas e fechou a porta, mandando o irmão cuidar de devolver a chave ao corretor. O apartamento novo ainda estava em reforma, com pedreiros entrando e saindo todos os dias, então acabou voltando para a chácara por um tempo.


Naquela manhã, a casa estava tranquila. A mesa da cozinha ainda guardava restos de um café da manhã demorado: xícaras de chá, um prato com pedaços de bolo e o jornal dobrado ao lado da cadeira de Dulce.


Paula estava sentada à mesa com o celular nas mãos, olhando a agenda da semana enquanto Isabella anotava algumas coisas em um caderno.


— Segunda você tem a reunião com a gravadora às nove — disse Isabella. — Depois tem aquela entrevista no início da tarde.


Paula assentiu, passando o dedo pela tela.


— E terça?

— Ensaio.

— De manhã?

— Dez horas.


Dulce observava as duas em silêncio por alguns instantes enquanto mexia devagar na xícara de chá.


— Você não para nunca — comentou, por fim.


Paula levantou os olhos.


— Eu paro.

— Quando?


Isabella respondeu antes dela.


— Quando eu consigo obrigar.


Dulce sorriu de lado, mas o olhar voltou para a filha com um pouco mais de atenção.


— Você anda muito cansada, Paula. Chega dos compromissos e capota no quarto!


Paula recostou na cadeira.


— E o trabalho.

— Não é só isso.


Ela pegou o prato de bolo e empurrou na direção da filha.


— Come um pouco.


Paula pegou um pedaço pequeno, mais por educação do que por vontade.


— Estou comendo.


Dulce continuou observando.


— Mesmo assim, acho que você devia ir fazer uns exames.


Paula franziu a testa.


— Exames? De novo? Fizemos não tem quatro meses.

— Exames de rotina é bom fazer sempre.


Ela deu de ombros.


— Às vezes é só vitamina baixa. Ferro, B12… essas coisas.


Isabella levantou os olhos do caderno.


— Na verdade não seria uma má ideia.


Paula mastigou o pedaço de bolo devagar.


— Agora vocês duas resolveram virar médicas?


Dulce ignorou a provocação.


— Você vive dizendo que anda cansada.

— Todo mundo anda cansado e infelizmente não tenho mais vinte anos, estou com o organismo repleto de alergias… Não tenho mais o pique de antes.

— Nem todo mundo com essa cara.


Isabella riu baixo.


— Ela tem um ponto.


Paula terminou o pedaço de bolo e pegou a xícara de chá.


— Está todo mundo conspirando contra mim hoje.

— Não — respondeu Dulce com calma. — Só estou dizendo que às vezes é bom olhar as coisas antes que virem problema.


Paula ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o próprio chá. Depois deu de ombros.


— Depois eu marco.

— Marca mesmo — disse Isabella, já voltando para a agenda. — Antes que a gente tenha que te arrastar.


A conversa voltou naturalmente para os horários da semana, enquanto do lado de fora o vento passava pelas árvores da chácara e o dia seguia tranquilo como qualquer outro.


A sexta daquela semana começou cedo. Ainda com o dia clareando, Paula já estava no carro com Isabella, descendo para Belo Horizonte. A estrada seguia tranquila, mas o dia já vinha cheio antes mesmo de começar.


No aeroporto, tudo aconteceu rápido. Check-in, embarque, um café tomado no caminho, mais por hábito do que por vontade. Durante o voo, Isabella revisava horários e alinhava detalhes enquanto Paula ficava mais quieta, olhando pela janela, acompanhando o movimento das nuvens sem realmente prestar atenção.


Quando pousaram, já havia carro esperando. Do aeroporto direto para o hotel. Do hotel direto para o local do show.


Sem pausa.


O camarim estava pronto quando chegaram. Roupas organizadas, maquiagem separada, uma mesa com opções de comida, frutas, sanduíches, água… e alguns doces.


Paula deixou a bolsa sobre a cadeira e foi direto até a mesa. Olhou rápido. Pegou uma fruta. Deu uma mordida.bParou. Fez uma careta leve. Olhou de novo.


— Tem alguma coisa doce?


Isabella levantou os olhos do celular.


— Tem.


Apontou com a cabeça. Paula pegou um doce. Comeu. Depois outro. Ficou um segundo parada, olhando para a própria mão.


— Eu não devia estar fazendo isso.

— Não devia mesmo — respondeu Isabella, automática.


Paula soltou um pequeno suspiro.


— Eu não tenho comido assim.


Sentou na cadeira.


— Esses dias eu estou completamente fora do padrão.


Isabella agora olhou para ela.


— Fora como?

— Comendo errado. Ou como muito do que não devia ou não como nada. Dormindo pouco e cansada.


Mais do que o normal. Isabella não respondeu de imediato. Paula continuou, mais baixa:


— Eu sei como meu corpo funciona… isso aqui não é normal.


Ela terminou o doce e limpou os dedos no guardanapo.


— Está tudo muito acelerado.


Olhou rapidamente para Isabella.


— Talvez eu precise falar com a Opus.

— Sobre?

— Agenda.


Isabella franziu levemente a testa.


— Você quer reduzir?

— Não sei se reduzir… mas organizar melhor.


Paula respirou fundo.


— Eu estou mais cansada do que deveria estar.


E aquilo não soava como reclamação. Soava como constatação.


— Se eu não ajustar agora, vai virar problema — completou.


Isabella assentiu, prática.


— A gente olha isso semana que vem.


Paula concordou. Levantou.


— Vamos trocar.


No espelho, a rotina de sempre. Cabelo. Maquiagem. Aquela concentração automática antes do palco.


Paula vestiu o figurino com naturalidade. Virou de costas.


— Pode fechar.


Isabella puxou o espartilho. Parou. Ajustou. Tentou de novo.


— Espera.


Puxou com mais firmeza. Nada.


— Paula…

— Hm?

— Não vai fechar.


Ela virou de frente, pegando a peça. Tentou puxar sozinha. Sem sucesso.


Ficou em silêncio por um instante, olhando o próprio reflexo.


Passou a mão pela lateral do corpo.


— Eu estou inchada.


Dessa vez, a frase veio mais direta. Sem surpresa. Quase como confirmação do que já vinha sentindo.


— Está vendo?


Olhou para Isabella pelo espelho.


— Eu falei.


Isabella cruzou os braços.


— Você está fora da sua rotina.


Paula assentiu.


— Totalmente.


Soltou o ar.


— Meu organismo está sobrecarregado.


E não havia drama na voz. Só certeza. Isabella já puxava outra roupa.


— Troca.


Paula assentiu. Vestiu o novo figurino. Dessa vez, sem dificuldade.


Ajustou. Olhou no espelho. Agora sim.


— Eu vou refazer aqueles exames — disse, já pegando um brinco sobre a bancada. Antes que isso piore!

— Faz. Faz tempo que você não volta no nutrólogo também. Seria bom.


Alguém bateu na porta.


— Cinco minutos!


Paula respirou fundo. Endireitou a postura e saiu.


Com a mesma presença de sempre. Mas, dessa vez, levando com ela a certeza de que precisava parar um pouco e olhar para si.


No interior de São Paulo, Vitor também seguia sua agenda, sua vida.


O camarim ainda estava em ritmo de chegada. Equipe entrando e saindo, alguém ajustando microfone no corredor, vozes se cruzando enquanto o som do público começava a crescer do lado de fora.


Vitor já estava ali há alguns minutos. Violão encostado ao lado do sofá, camisa aberta no pescoço, comendo sem muita cerimônia um sanduíche que tinham deixado sobre a mesa.


Esses minutos antes do show eram sempre iguais. Comida rápida. Alguma conversa atravessada. E, quase sempre, alguém batendo na porta para puxar assunto que não tinha nada a ver com música.


A porta abriu. Leo entrou, já com aquele meio sorriso de quem vinha com notícia.


— Vieram falar comigo lá fora.


Vitor nem levantou os olhos.


— Hm.

— Imprensa.

— Sempre.


Leo se encostou na parede.


— Mas hoje não estão querendo saber de show.


Vitor mastigou devagar.


— Nunca estão.


Leo cruzou os braços.


— Querem saber da sua vida.


Agora Vitor levantou os olhos.


— Que vida?

— A que você não conta.


Vitor soltou um riso curto.


— Então não tem o que falar.


Leo deu um passo para dentro do camarim.


— Estão perguntando de você… e da Paula. Querendo saber se acho que tem volta entre vocês!


O nome caiu ali no meio, sem esforço. Vitor voltou a olhar para o sanduíche nas mãos. Terminou de mastigar. Engoliu.


— Normal. Todo mundo quer dar pitaco na vida de todo mundo.

— Normal nada — respondeu Léo. — Estão insistindo.


Vitor pegou o copo de café.bDeu um gole.


— E você respondeu o quê?

— Que você não fala sobre isso.

— E não falo.

— E que eu só estou aqui para torcer pela sua felicidade.


Um silêncio curto. Léo observou ele por um instante antes de perguntar, mais direto:


— Você sabe dela?


Vitor apoiou o copo na mesa.


— O que a Maria conta.


Léo arqueou a sobrancelha.


— E ela ainda fala com a Maria?


Vitor riu, dessa vez de verdade.


— Fala mais com ela do que comigo.


Léo soltou um riso baixo.


— Imagino.


Vitor passou a mão pelo cabelo, ajeitando de leve.


— Todo dia tem alguma novidade.

— Tipo?

— Capivara. Não aguento mais! Não vejo a hora de terem outro foco, em outro bicho.


Léo riu.


— Capivara?

— É… Ficam querendo saber sobre capivaras que nascem no condomínio da Paula. E agora parece que tem mais vindo por aí, então nem tão cedo esse assunto vai ter fim.


Léo balançou a cabeça.


— Imagino!


O ambiente ficou leve por um segundo. Mas não durou.


— E você? — insistiu Léo. — Não fala com ela?


Vitor pegou o violão, ajustando a correia no ombro.


— Não.


Resposta simples. Direta. Encerrada. Léo assentiu devagar. Sem pressionar mais.


— Tá bom.


Alguém bateu na porta.


— Dois minutos!


Vitor respirou fundo. Aquele ajuste interno de sempre antes de subir no palco.


— Vamos.


E saiu do camarim. Deixando o resto, como sempre, para depois. Ou para nunca.


Os dias seguiram no ritmo de sempre. Um compromisso emendando no outro, cidades diferentes, horários apertados. No meio disso tudo, Paula fez o que precisava fazer — sem drama, sem anúncio, como resolvia qualquer coisa da própria vida.


A clínica era silenciosa, organizada demais. Paula estava sentada, a manga da blusa levemente puxada, observando a profissional preparar a coleta. Nada ali chamava atenção. Nada era novidade.


— Pode fechar a mão pra mim.


Ela fechou. O elástico apertou o braço. O celular vibrou dentro da bolsa ao lado, mas ela nem olhou.


— Só uma picadinha.


A agulha entrou, rápida. Paula manteve o olhar neutro, acostumada.


— Pronto.

— Obrigada.


Ela puxou a manga de volta, pegou a bolsa e saiu, já abrindo o celular enquanto caminhava pelo corredor. Um áudio: Maria. Paula apertou play ainda andando.


“— Paulaaaa! Eu ouvi sua música no shopping!”


A voz vinha animada, atropelada, cheia de descoberta.


“— Eu tava com a minha mãe e começou a tocar e eu falei “é a Paula!” e ela nem sabia quem era!”


Paula sorriu sozinha, empurrando a porta da clínica.


“— Eu queria te ligar, mas meu pai não deixou, ele falou que podia te incomodar… então eu mandei áudio.”


Ela encostou de leve no carro, rindo baixo, e respondeu.


“— Oi, Maria… qual música?”


Na casa de Vitor, o fim de tarde seguia simples. Na cozinha, ele mexia uma panela com calma, provando o tempero, ajustando sal, totalmente concentrado no que fazia. O cheiro já tomava o ambiente.


Na sala, João estava no sofá, mergulhado em um livro. Maria, sentada de qualquer jeito no tapete, olhava o celular com expectativa.


— Ela respondeu!

— Eu ouvi — disse Vitor, sem se virar.

— Posso mandar áudio?


Agora ele virou o rosto, apoiando a colher na borda da panela.


— Pode. Mas sem ficar mandando um atrás do outro… e nada de incomodar.

— Tá…


Maria nem esperou mais.


“— Amar de Novo!”


Pausa curta.


“— É diferente ouvir na loja… e ouvir você cantar aqui.”


Na cozinha, Vitor voltou a mexer a panela, mas o movimento já não era tão automático.


O celular vibrou de novo. Maria abriu na hora. Paula respondeu rindo.


“— Eu também acho estranho quando toca em algum lugar…”


Maria já emendou, sem pensar muito:


“— Você tá na chácara? Dá pra mandar foto das capivaras?”

“— Não estou.”

“— Por quê?”

“— Porque eu tive que sair resolver umas coisas de gente adulta.”


Maria franziu a testa.


“— Que coisas?”


— Maria — a voz de Vitor veio firme da cozinha — não precisa perguntar tudo.

— Eu só perguntei!


Paula riu do outro lado.


“— Eu fui fazer alguns exames.”


O movimento da colher parou por um segundo. Quase imperceptível.


Paula já mudou o rumo:


“— Maria, você acredita que os coelhos lá da chácara simplesmente se multiplicaram?”


Maria abriu um sorriso.


“— Sério?!”


“— Sério.”


“— Tem filhote?”


“— Tem.”


“— Pequeno?”


“— Super pequenos.”


“— Igual os da capivara?”


“— Menor ainda! Vou te mandar fotos. — ri.”


João, sem tirar os olhos do livro, comentou:


— Coelho é assim mesmo.

— Eu sei — respondeu Maria.


Na cozinha, Vitor voltou a mexer a panela. Mas agora mais devagar. Mais atento ao que tinha ouvido.


O jantar seguiu como qualquer outro. Mesa posta de forma simples, pratos servidos, conversas soltas entre uma garfada e outra. João falava sobre a escola, Maria emendava histórias que nem sempre tinham começo ou fim muito claros.


Vitor escutava. Ou fingia escutar. Respondia no tempo certo, sorria quando precisava, participava… mas por dentro, algo tinha ficado preso desde o fim da tarde: Exames.


A palavra voltava, insistente, mesmo sem motivo real para ganhar tanto espaço. Ele apoiou os cotovelos de leve na mesa, olhando para o prato por um instante antes de levantar os olhos para Maria.


— Ela comentou se estava bem?


Maria parou de mastigar.


— Quem?

— A Paula.

— Ah…


Ela pensou, tentando lembrar.


— Não… ela estava normal.


Normal. Vitor assentiu devagar.


— E ela falou por que estava fazendo exame?


Maria deu de ombros.


— Não.


E já completou, como quem resolve fácil:


— Posso perguntar.


Ela nem esperou resposta. Já estava pegando o celular ao lado do prato.


— Não.


A resposta veio rápida. Mais rápida do que ele gostaria. Maria olhou, surpresa.


— Ué…


Vitor já esticava a mão, pegando o celular antes que ela desbloqueasse.


— Não precisa perguntar isso.


Maria franziu a testa.


— Mas é só perguntar…


Ele respirou fundo, controlando o tom. Devolveu o celular para ela.


— Eu sei. Mas não pergunta.

— Por quê?


A pergunta veio direta. Simples. Como só criança consegue fazer. Vitor passou a mão pelo queixo por um segundo.


— Porque não é assunto seu, filha.


Maria ficou olhando para ele, tentando entender. Mas não insistiu. Deu de ombros.


— Tá.


E voltou a comer. João nem levantou o olhar, alheio àquilo.


A conversa seguiu. Outro assunto. Outra história.

Como se nada tivesse acontecido. Mas, para Vitor, não passou. Ele levou o garfo à boca, mastigou sem perceber o gosto.


O olhar perdido por um instante além da mesa.

Talvez os exames fosse só rotina. Provavelmente era. Mas, ainda assim, algo não encaixava completamente.


E ele sabia. Sabia que, se dependesse dele, já teria perguntado.


Direto. Sem rodeio. Mas não dependia. Então ficou ali. Com a dúvida.


Os próximos três dias seguiram sem grandes mudanças, encaixados entre compromissos, ajustes de agenda e uma rotina que Paula já conhecia bem, dividindo o tempo entre a cidade e a chácara, entre o trabalho e os pequenos momentos de silêncio que ainda conseguia preservar. Naquela tarde, ela estava na sala, sentada no sofá com o notebook aberto, revisando alguns detalhes do álbum enquanto deixava uma música tocar baixo ao fundo, mais como companhia do que como foco. O celular vibrou ao lado, mas ela não olhou de imediato; terminou o que estava fazendo, salvou o arquivo e só então esticou a mão para pegar o aparelho.


Era uma notificação da clínica informando que os resultados estavam disponíveis. Paula abriu o aplicativo sem expectativa, descendo pelos exames com a atenção prática de quem só quer confirmar que está tudo certo. Hemograma, vitaminas, ferro… tudo dentro do esperado. Quando chegou ao último item, leu o nome com um leve franzir de testa, mais por hábito do que por preocupação. Abriu. O número apareceu na tela e ela leu uma vez, depois outra, com calma, como quem apenas confere um dado técnico.


Positivo.


Não houve reação imediata, nenhum sobressalto ou expressão marcada, apenas um pequeno ajuste no corpo, como se ela tivesse entendido o que estava ali, mas ainda não tivesse atribuído significado. Olhou novamente, conferindo o valor, a referência, como se em algum ponto aquilo pudesse se reorganizar em outra coisa mais lógica.


Mas não se reorganizou.


Paula apoiou o celular por um instante sobre a própria perna e pensou, e a primeira resposta que veio não foi emocional, foi prática: aquilo não fazia sentido. Não daquele jeito. Não com ela. A ideia de engravidar nunca ocupou aquele lugar de possibilidade espontânea na vida dela; se algum dia acontecesse, seria planejado, acompanhado, com intervenção médica. Não seria assim, no meio de uma rotina corrida, sem qualquer preparação.


Pegou o celular novamente e leu mais uma vez, com a mesma calma quase teimosa.


Positivo.


Antes que qualquer outra linha de raciocínio se formasse, o celular vibrou novamente, agora com uma ligação. Número da clínica. Ela atendeu, ainda olhando para a tela.


— Paula?

— Sim.

— Aqui é da clínica, tudo bem?

— Tudo.

— Estamos entrando em contato porque tivemos uma instabilidade no sistema hoje e alguns exames podem ter sido liberados com inconsistência.

Ela ficou em silêncio por um segundo, o olhar ainda preso naquele resultado.

— Como assim?

— Alguns resultados podem não corresponder ao laudo final. A equipe já está revisando tudo e vamos reenviar os exames corrigidos em breve. Por segurança, pedimos que desconsidere o que foi liberado agora.

Paula desviou o olhar da tela por um instante, processando.

— Todos os exames?

— Não, apenas alguns específicos. Mas orientamos desconsiderar o acesso anterior até a atualização.

— Certo…

— Assim que estiver corrigido, a senhora recebe uma nova notificação.

— Obrigada.

— Nós que agradecemos, qualquer dúvida estamos à disposição.


A ligação foi encerrada.


Paula permaneceu alguns segundos com o celular na mão, olhando para a tela ainda aberta, para aquele único exame que destoava de todo o resto. Depois bloqueou o aparelho e o deixou ao lado, encostando no sofá enquanto soltava o ar devagar.


Claro.


A explicação era simples, coerente, confortável. Muito mais coerente do que qualquer outra possibilidade que sequer chegava a se formar completamente dentro dela.


E, ainda assim, alguma coisa não acompanhou esse alívio.


Ficou ali. Quieta. Quase imperceptível. Mas presente.


Como se a informação tivesse chegado… e, mesmo assim, ainda não tivesse terminado de se instalar.


Ela mal se levantou do sofá e o celular vibrou novamente.


Um e-mail. A clínica detalhava a instabilidade no sistema, pedia desculpas pelo ocorrido e reforçava que os resultados disponibilizados deveriam ser desconsiderados, informando que os exames corrigidos seriam enviados em até três dias.


Paula leu, soltando um pequeno riso pelo nariz.

Bloqueou o celular e seguiu até a cozinha, onde Dulce organizava algumas coisas enquanto Isabella mexia no celular encostada na bancada.


— Vocês não vão acreditar.


As duas olharam.


— Deu um problema com meus exames!


Isabella ergueu os olhos.


— Como assim?


Paula apoiou o celular na bancada.


— Sistema da clínica deu problema… liberaram resultado errado.


Dulce franziu levemente a testa.


— Mas errado em quê?


Paula respondeu já com um riso leve:


— Não sei ao certo… Mas no meu veio um positivo de gravidez.


Um segundo de silêncio. E então Isabella riu.


— Não.

— Pois é.


Paula balançou a cabeça.


— Imagina.


Isabella riu mais, apoiando os braços na bancada.


— Isso é ótimo.

— Porque assim… se você estivesse grávida…


Ela fez uma pausa curta, organizando a conta.


— Você já estaria de uns quatro, cinco meses.


Paula assentiu, tranquila.


— Exatamente.


Isabella então estreitou os olhos, analisando.


— A não ser que…


Fez uma pausa, meio desconfiada, meio brincando:


— Você tenha saído com alguém e não contou pra ninguém.


Paula soltou um riso curto.


— Claro.

— Eu estou falando sério.


Isabella continuou, agora olhando direto para ela.


— Não tem como você estar grávida de cinco meses e ninguém saber.


Dulce observava em silêncio.


— Você andou saindo com alguém?


Paula negou com a cabeça, simples.


— Não. Como se também eu fosse engravidar assim né… Com essa facilidade toda.


Isabella deu de ombros.


— Então pronto.

— Pronto — repetiu Paula.


E completou, ainda no mesmo tom leve:


— Última pessoa foi o Vitor.

— Exatamente — respondeu Isabella.


E foi nesse instante que a frase deixou de ser só lógica. A última pessoa foi o Vitor.


O sorriso de Paula permaneceu por um segundo a mais. Pequeno. Quase imperceptível. Mas não sustentado Porque, no instante seguinte, algo mudou de lugar.


A lembrança veio inteira:


A fazenda.

A chuva.

O quarto.

O toque.

O corpo.


Um detalhe que, até então, não tinha sido revisitado com esse tipo de atenção. Não com esse tipo de consequência.


O ar pareceu mudar de temperatura por um instante. Paula não falou nada. Não reagiu de forma evidente. Mas o olhar desviou. Rápido. Como quem reorganiza algo por dentro antes que escape para fora.


E, pela primeira vez, a ideia não foi automaticamente descartada. Ela não cresceu.

Não virou certeza. Mas também não sumiu. Ficou ali. Silenciosa. Inconveniente. E completamente nova.