Anti-Heróis
33 Tua Boca Na Minha
Notas iniciais
Bella Swan
Acordei com dor no pescoço e o braço adormecido, aos poucos me lembrando do que havia acontecido. Me sentei no sofá e olhei para o lado, vendo a televisão desligada. Pelas janelas da sala era possível perceber que já havia escurecido.
Comecei a me perguntar sobre Edward, onde havia ido e se me deixou mesmo prometendo que não iria fazê-lo. Sabia que tinha sua própria vida, que não cabia à ele cuidar de mim, mas não podia evitar me sentir triste.
Eu sempre estive sozinha e, mesmo que isso tivesse mudado nos últimos anos, tinha que voltar a me acostumar e apreciar minha própria companhia. Me levantei, pretendendo descansar antes de ligar para Zafrina. Onde havia deixado o meu celular afinal de contas?
Ouvi um barulho vindo da cozinha seguido de um praguejar e me assustei. A luz do cômodo estava acesa então descartei a possibilidade de ter um maníaco na minha casa. Quer dizer, se fosse um, ele não seria burro ao ponto de acender a luz, certo?
Caminhei até lá com cuidado e encontrei Edward na pia, a mão embaixo da água corrente. Ele tinha ficado e, aparentemente, se queimou enquanto cozinhava para nós.
— Você está bem? — Perguntei, me aproximando dele.
— Ei, você acordou. — Ele sorriu e fechou a torneira. — Eu estava cozinhando algo para comermos e acabei me queimando no cabo da panela.
Eu mordi o meu sorriso e desliguei o fogo das panelas.
— Vem, vamos cuidar disso. — Falei, seguindo até o armário onde guardava os medicamentos. — Pode sentar. — Indiquei a mesa após pegar a pomada e fui até lá com ele.
Ele se sentou e eu fiquei em sua frente, tocando a sua mão. Não parecia uma queimadura grave, por isso apliquei a pomada na região avermelhada com cuidado, tentando não pensar no toque íntimo que estávamos compartilhando.
— Pronto. — Disse, indo guardar a pomada. — Não vou abafar a região porque pode ser que piore algo que não é tão grave assim.
— Obrigado.
Sorri para ele e me virei para as panelas. A comida não parecia ser das melhores, mas eu não me oporia se ele quisesse servir aquilo de bom grado.
— Quer pedir comida? — Perguntei.
— Melhor. — Ele riu e eu o olhei com um pequeno sorriso nos lábios. — O que prefere?
— Brasileira. — Eu vi seu olhar confuso sobre mim. — O quê? É muito boa.
— Incomum, mas pedirei. — Deu de ombros e voltou a atenção ao celular.
Passei a jogar fora o que ele fez, já que estava claramente queimado e o tempero não estava correto. Me perguntei como ele e Jasper sobreviveram tanto tempo sozinhos.
— Não me lembro de você cozinhar tão mal assim. — Falei e o olhei, vendo sua expressão fingidamente ofendida. — O quê? Mas é verdade.
— Eu regredi com o tempo. — Deu de ombros. — Mas também fui inventar de fazer algo diferente e acabei estragando os seus ingredientes. — Disse, se aproximando e apoiando os cotovelos na bancada que nos separava. — Me desculpa.
— Tudo bem. Se desculpe com as pessoas que passam fome na rua.
— Bella! — Resmungou frustrado e escondeu o rosto na mão boa. — Não me faça sentir pior.
— Só estou sendo realista. — Peguei um pouco de suco e coloquei em dois copos. — Então.... Você não foi embora. — Pontuei e seu olhar encontrou o meu.
— Eu prometi que não ia.
Nós ficamos em silêncio por um momento, apenas nos encarando enquanto o silêncio prevalecia.
— Como vai ser agora? — Perguntei.
— Como você quer que seja? — Devolveu a pergunta.
Suspirei longamente e afundei o rosto nas mãos, choramingando.
— Não sei, Edward. — Passei as mãos pelos cabelos. — Não posso te obrigar a morar aqui ou comprar uma casa perto, nem sei com quem você mora, como está a sua vida, é... Estranho.
— Atualmente estou morando com a minha mãe e irmã. Mais especificamente, dormindo no sofá delas. — Deu de ombros.
Seria loucura pedir para ele vir morar aqui porque eu tinha medo dos meus próprios pensamentos? Seria, muita. Mas eu não estava disposta a arriscar ficar sozinha com a minha mente.
— Você pode... Dormir em um dos quartos de hóspedes. — Umedeci os lábios e tomei um gole do suco. — Tem bastante espaço aqui, pode ser que a gente nem se veja.
— Então você quer que eu venha morar aqui? — Perguntou e eu o olhei sob os cílios, assentindo e vendo o homem abrir um pequeno sorriso.
— Prometo que não será permanente. Eu não moro em Nova York, de qualquer modo, esta é só uma das minhas casas. — Comecei a falar desenfreadamente e prendi os meus cabelos. — Mas pelo menos até as gravações do filme estarem finalizadas então te deixarei livre.
Nossos olhares se fixaram por um momento antes dele assentir, pigarreando e tomando todo o suco que eu havia colocado em seu copo. Tentei não pensar que ele havia ficado levemente abalado com a possibilidade de nos separarmos depois de um longo tempo juntos. Estava tudo na minha cabeça e eu estava louca.
— OK. Vou buscar minhas roupas hoje e me instalo em um dos quartos. Ajudarei com as despesas da casa...
— Não se preocupe com isso. — Pedi.
— Eu quero. — Me interrompeu.
— Obrigada. — Abri um pequeno sorriso.
Contornei a bancada e o abracei, sentindo os pelos do meu corpo se eriçarem com o contato de nossas peles e o seu cheiro entrando pelas minhas narinas. Edward retribuiu o abraço e beijou os meus cabelos, acariciando as minhas costas.
— O que acha de continuarmos de onde paramos? — Perguntou e eu arregalei os olhos na sua direção, vendo o homem começar a rir. — Me expressei mal: o que acha de continuarmos a assistir One Day At A Time de onde paramos?
Eu ri e senti o sangue se acumular na região das bochechas.
— O que acha de começarmos de novo já que eu esqueci tudo? — Sugeri e ele riu novamente.
— Ótima ideia. — Concordou.
Me desvencilhei do seu abraço e fui na frente, um sorriso nunca deixando o meu rosto.
xxx
Nós comemos feijoada enquanto assistíamos à série. Era uma comida pesada para ir dormir logo em seguida, por isso continuamos a assistir One Day At A Time, a série que abordava tantos temas importantes, por horas a fio.
— Nós deveríamos assistir Grey's Anatomy quando terminarmos One Day At A Time. — Ele sugeriu quando mais um episódio estava finalizado e o aplicativo tornou a nos perguntar pela terceira vez se tinha alguém assistindo.
— Acha mesmo que vamos terminar nestes últimos dois meses de gravação? — Ergui uma sobrancelha na sua direção.
Ele riu e balançou a cabeça em negação, desviando o olhar para a televisão. Queria acreditar que aquela era uma negação para a minha pergunta e não por algo a mais, não por ele querer acreditar que não nos separaríamos depois de dois meses convivendo juntos.
Eu me espreguicei e bocejei, sentindo o cansaço voltar a me tomar mesmo depois de ter dormido a tarde por horas.
— Acho melhor pararmos por hoje. — Edward sugeriu e desligou a televisão.
— O quê? Não. — Resmunguei, deitando a cabeça no encosto do sofá e olhando para ele.
— Bella, você está cansada, passou por muito hoje. — Ele disse, se levantando e esticando uma mão na minha direção. — Vamos.
— OK, papai. — Murmurei, aceitando a sua ajuda.
— Não me chame assim. — Pediu e eu jurei ter ouvido sofrimento em sua voz, por isso gargalhei. Sabia que o sofrimento era pela conotação sexual.
— Você está me tratando com um bebê, nada mais justo. — Falei enquanto subíamos para os quartos.
— Estou cuidando de você, sua mal agradecida. — Ele resmungou e eu voltei a rir.
— Você tem razão, me desculpe. — Pedi e entrei em meu quarto. — Precisa de ajuda para se instalar em um dos quarto de hóspedes?
— Não, ficarei bem. — Garantiu e passou uma mão pelos cabelos, daquele jeito que me deixava fraca. — Quer que eu te coloque na cama?
— O quê? Não, não, não... Tudo bem. — Eu ri e senti que estava corando novamente. — Já abusei demais.
— Não foi abuso nenhum. Vamos, vou te colocar na cama. — Falou, tocando as minhas costas e me guiando até a cama.
Eu ri e aceitei de bom grado, me deitando e deixando com que ele me cobrisse. Estava me sentindo feliz e ao mesmo tempo envergonhada por toda a situação. Sabia que ele deveria estar com medo após me ver no auge da minha fragilidade, que demoraria a me tratar normalmente, mas tinha certeza que nunca mais voltaria a ser o Edward grosseiro que encontrei depois de cinco anos.
— Está bem instalada na sua própria casa? — Perguntou e eu assenti com um pequeno sorriso no rosto. — Perfeito. Boa noite, Bella.
— Boa noite, Edward. — Desejei quando ele beijou a minha testa.
Toquei a sua nuca, impedindo que ele se afastasse e engolindo em seco. Nossos olhares se encontraram antes do seu nariz encostar no meu e eu fechei os olhos. Sabia que talvez não devesse me entregar, que não devesse estragar tudo mais uma vez na pessoa que estava disposta a não me deixar, que não devesse repetir os meus erros, que deveria apenas deixar ele ir para o seu quarto, mas eu havia perdido tempo demais longe daquele homem e tudo o que eu menos queria era perder oportunidades quando elas apareciam.
Nossos lábios se encontraram e eu senti alívio como não achei que sentiria. Uma de suas mãos se apoiou ao lado da minha cabeça quando o travesseiro afundou e eu ergui meu corpo quando nosso beijo se aprofundou. Enfiei os meus dedos em seus cabelos, trazendo-o para cada vez mais perto de mim. Edward sabia o que eu queria, sabia que eu queria cada vez mais, que não queria parar ali, que o queria dentro de mim, que queria preencher o meu vazio por completo.
— Não. — Edward rosnou, se afastando e eu o olhei em confusão e mágoa. — Eu quero. Porra, eu quero demais! — Enfiou os dedos em seus cabelos e começou a caminhar para longe da cama. — Mas eu não posso. — Olhou para mim e eu me sentei na cama, mordendo o lábio inferior. — Não posso fazer isso quando você está tão frágil.
Senti meu coração falhar uma batida e limpei as lágrimas que não sabia que havia derramado, engolindo em seco e assentindo. Como eu havia deixado que aquele homem escapasse por tanto tempo?
— Tudo bem. Tem razão. — Sussurrei.
Me levantei e caminhei até o banheiro, me fechando lá dentro.
— Bella... Bella? — Ele bateu na porta e eu a abri. — O que vai fazer?
— Xixi e escovar os dentes. — Dei de ombros e vi seu olhar apreensivo sobre mim. — É sério, vou ficar bem.
— Vai ficar brava se eu te esperar aqui fora?
Eu ri e recostei minha testa na porta, balançando a cabeça me negação.
— Não. Saio em um minuto. — Murmurei e fechei a porta.
Fiz a minha higiene, lavando o rosto e tentando limpar toda a vergonha dali. Por que eu estragava tudo? Por que eu tinha que ser tão impulsiva? Por que Edward tirava o pior de mim? Eu tinha que encará-lo, sair dali e ver o seu rosto pelos próximos dois meses enquanto ele me tratava como se eu fosse despedaçar ao mínimo toque dele.
Encontrei o homem sentado na minha cama e o vi se levantar de imediato, deixando o espaço livre para que eu me deitasse. Quando me ajeitei bem coberta, virei de costas e senti Edward beijar meus cabelos rapidamente, mas se manter ali e sussurrar perto da minha orelha:
— Bons sonhos.
Pressionei os lábios e fechei os olhos com força, prendendo a respiração até que a porta se fechasse.
Entendia que ele acreditava que transar comigo naquela situação era se aproveitar, mas qualquer mínimo movimento seu era uma provocação para mim e eu não era a pessoa mais resistente aos seus encantos.
Ignorei o incômodo entre minhas pernas e tentei apenas me concentrar em ter uma boa noite de sonho para voltar à realidade no dia seguinte. Não estava preparada, mas não tinha escolha, tinha que cumprir com as minhas obrigações.
Sons de mensagens em meu celular me despertaram da minha concentração e o peguei na cabeceira da cama, vendo mensagens de Tanya ali. Engoli em seco, a saudade tomando conta do meu peito. Ela havia chego na Eslováquia, já estava instalada e, aparentemente, feliz. Não sabia se deveria responder, se deveria parar de me acostumar com a presença de Tanya, se devia parar de dar falsas esperanças à ela, se deveria dar uma chance para a nossa amizade.
Para o nosso próprio bem, deixei o celular de lado e fechei os olhos. Ainda senti algumas lágrimas escorrerem por meu rosto antes de cair em um sono profundo.
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