Anti-Heróis
26 Me Beija Com Raiva
Notas iniciais
Edward Cullen
Quando vazou a notícia sobre a protagonista de Monstros, foi inevitável controlar o surto coletivo à minha volta.
— Seu filho da puta! — Irina foi a primeira.
Nós estávamos em casa, sentados assistindo televisão enquanto mexíamos no celular. Claro que não demorou para a notícia aparecer em sua tela e ela veio para cima de mim, acertando socos em minha cabeça e braços.
— Para com isso! Que porra é essa? — Segurei em seus pulsos e vi os seus olhos injetados de raiva. — Por que estou apanhando?
— Você ainda pergunta? — Ela debochou, balançando a cabeça em negação, se soltando de mim e se levantando. — Esse era o seu plano esse tempo todo? Contratar essa vagabunda para o seu filme? Agora você vai voltar a fodê-la?
— O quê? Não! — Franzi o cenho e passei as mãos pelos cabelos. — Você ficou louca? Depois de tudo o que ela fez com...
— Não me chame de louca! — Irina apontou na minha direção. — Seu mentiroso de merda!
— Amor, calma...
— Calma uma porra! — Ela andou até o corredor que levava aos nossos quartos e eu fui atrás dela.
— Irina, foi uma coincidência... O que está fazendo?
Ela estava tirando todas as minhas roupas de dentro do armário e jogando em cima da cama. Eu sabia bem o que ela queria com isso.
— Você deve achar que eu sou burra, mas eu não sou. Eu não sou mesmo, Edward Cullen. — Irina estava enlouquecida enquanto pegava uma das nossas malas de viagem para colocar as minhas roupas.
— Essa casa também é minha! — Protestei, tirando as roupas da mala enquanto ela continuava a colocar.
— Você a quer para trazer a sua putinha para cá? — Ela sibilou, olhando para mim e tirando os cabelos loiros do rosto.
Rangi os dentes e me contive para não fazer algo impensado, eu não era assim. Apesar de nutrir mágoa por Isabella, não permitia que ninguém falasse aquilo sobre a garota e seu passado. Me voltei para a mala e comecei a recolocar as roupas ali de qualquer jeito, fechando quando estava satisfeito. Era melhor eu sair dali antes que aquilo se tornasse algo pior.
— Isso mesmo! Vá embora! — Irina gritou quando eu passei pela porta.
— Quando você estiver sã e querendo conversar sobre isso, nós nos encontraremos. — Falei parando na porta antes de sair do apartamento e olhando para ela parada na porta do nosso quarto. — Cresça, Irina!
Saí dali e chamei o elevador, vendo a mulher aparecer na porta e gritar:
— Volte com os papéis do divórcio, seu cretino! — E bateu a porta em seguida.
Respirei fundo, esfreguei meu rosto e entrei no elevador, querendo ir para longe dali.
xxx
Pensei em ir para a casa da minha mãe, mas não queria ser um incômodo para ela e minha irmã. Sabia que viviam muito bem sozinhas e eu acabaria sendo um estorvo. O meu quarto também ainda guardava lembranças dolorosas demais sobre palavras poderosas que havia trocado com Isabella anos atrás.
Ainda pensei em ir até Jasper, mas o nosso antigo apartamento também guardava lembranças difíceis. Além disso, Maria sempre estava por perto e isso só traria desconforto para o meu melhor amigo. Não queria fazê-lo escolher entre mim e sua namorada.
Por isso eu fui até um hotel localizado próximo ao estúdio onde aconteceriam as gravações do meu filme. Não duraria muito tempo, eu logo estaria de volta em casa e com o perdão de Irina.
Tomei um longo banho para relaxar, vesti uma calça de moletom e me deitei na cama, deixando a televisão passando algum filme antigo. Peguei o meu celular e chequei as diversas mensagens que havia recebido da minha família e Jasper, os que conheciam toda a minha história com Isabella.
Carlisle me repreendia sobre as minhas atitudes, mas eu não falava com ele desde a descoberta da traição e não era agora que eu jogaria nele todos os seus erros. Como se ele tivesse alguma moral para falar sobre mim.
Minha mãe parecia chateada e dizia sobre o quanto aquilo não me ajudaria naquele momento. Minha irmã dizia algo parecido e pedia para eu procurar ajuda psicológica. Eu respondi para as duas dizendo apenas que estava tudo bem e ocultei o fato de ter saído de casa.
Decidi ligar para Jasper, precisava falar com alguém naquele momento e escolhi a pessoa que mais confiava. Ele me atendeu no terceiro toque.
— Edward, você enlouqueceu? Isabella, cara? Sério? — Ele estava desacreditado e enlouquecido com a minha decisão.
— Eu fiz tudo isso por ela. — Murmurei, esfregando o rosto e passando as mãos pelos cabelos. — O livro, a personagem, o filme, foi tudo para reencontrá-la. Eu sou um idiota, depois de tudo...
— Você não é idiota, Edward. Só é um pouco burro. — Meu amigo tinha pena na voz e eu odiei aquilo. — Se ainda amava Isabella, por que se casou com Irina?
— Eu não amo a Isabella. — Resmunguei, olhando para a televisão. — Só quero fazê-la sentir metade do que eu senti quando partiu.
— Edward...
— Eu não amo, Jasper.
Meu amigo suspirou longamente do outro lado da linha.
— Mas também não ama Irina.
Eu fiquei em silêncio porque não queria mentir para o meu amigo. Sabia que o sentimento maior que nutria por Isabella naquele momento era a mágoa, mas realmente não amava Irina, não como um dia amei a morena.
— Ela me expulsou de casa e disse que quer se divorciar, mas acho que foi no calor do momento. Agora tenho que morar em um hotel por alguns dias. — Comentei com o meu amigo, caminhando até o frigobar e pegando uma água.
— E como você se sentiu ao pensar no divórcio?
Eu ri e bebi um longo gole d'água.
— Você está falando como um terapeuta.
— Talvez eu esteja fazendo esse favor para você. — Brincou.
Respirei fundo e deixei a água de lado.
— Eu senti alívio por um momento, mas um divórcio antes dos trinta me assusta.
— Você vai fazer trinta ano que vem. — Jasper tentou e eu revirei os olhos, mesmo que ele não pudesse ver.
— Eu não sei, Jasper. Talvez eu consiga me acertar com Irina.
— Talvez você continue acomodado em uma vida que não quer só por causa do que aconteceu há cinco anos atrás, quando você e Isabella eram jovens demais.
— Jasper, eu...
— Pense sobre isso, OK? — Perguntou e eu murmurei em concordância. — Que tal tomarmos uma cerveja no fim de semana?
— A patroa vai liberar? — Brinquei.
— Vou convencê-la. — Disse com tom malicioso na voz.
— Eca! — Fiz sons de vômito e meu amigo gargalhou do outro lado. — Combinado. Vamos nos falando por mensagem.
— OK. Você vai ficar bem?
Respirei fundo e me joguei na cama, mirando o teto acima de mim.
— Eu sempre fico. — Declarei.
— Se precisar, não hesite em mandar mensagem ou ligar.
— Tudo bem, obrigado. Você é um ótimo amigo, Jasper.
— Eu sei. — Ele riu e eu o acompanhei. — Até mais! — Jasper finalizou a ligação.
Desliguei o celular, decidido a não ser incomodado, desliguei as luzes e a televisão, querendo ter uma boa noite de sono, mas o meu subconsciente me traiu e naquela noite eu sonhei apenas com Isabella Swan.
xxx
Um mês havia se passado e Irina não tinha permitido a minha volta, ainda mais agora que eu realmente conviveria com Isabella. Minha mãe me acolheu em sua casa porque eu aceitei após muita insistência, mas eu odiava estar em meu quarto então passava as noites em claro, dormindo no sofá da sala apenas para não ter que me deitar na cama na qual um dia troquei juras de amor com aquela... mulher.
Irina deu entrada nos papéis do divórcio e Jasper insistiu para que eu assinasse quando eles chegaram às minhas mãos, mas ela queria ficar com todos os nossos bens e isso eu não iria permitir. Recorri ao meu advogado e apontei o que deveria ser revisto com a advogado da loira.
A minha futura ex-mulher não aceitou conversar, mesmo após muita insistência, e eu não iria mais atrás, principalmente porque não fazia diferença para mim. Era o nosso fim. Para a minha surpresa, eu não estava triste pela perda da mulher que nunca amei, mas aliviado pelo peso que era carregar esse matrimônio de mentira que havíamos criado por conveniência.
Quando eu vi Isabella pela primeira vez depois de tanto tempo, senti raiva de mim, dos meus sentimentos, de tudo de bom que eu ainda nutria por ela. Por que depois desses anos todos, de me abandonar, de me deixar depois de tudo o que eu fiz por ela, eu ainda a amava? Por que a vida era tão injusta?
Decidi que não deixaria aquilo me abalar, eu seria mau, retribuiria todas as merdas que ela havia feito. Se eu era um homem amargurado, a culpa era toda de Isabella Swan.
Havia feito uma semana que havíamos iniciado as gravações e eu queria acompanhar tudo de perto, estar sempre atento para que cada personagem fosse fiel ao livro. E que inferno, Isabella era perfeita para o papel! Exatamente como eu imaginei.
No entanto, eu sempre fazia algum comentário atravessado e sabia que aquilo a abalava. Mas por que aquilo não me fazia sentir melhor? Por que eu continuava cada vez mais triste? Por que o aperto em meu peito não me abandonava?
— OK, podem parar, isso está uma droga. — Me levantei e bati palmas, interrompendo uma cena de Isabella. — Uma pausa?
Ela me olhou furiosa e saiu batendo os pés em direção ao camarim.
— Achava que eu quem era o diretor. — Aro debochou.
— Por que quis tanto essa garota se a trata dessa maneira? — Marcus perguntou.
Fiquei em silêncio, olhando com seriedade para os irmãos Volturi.
— Não faço a menor ideia, mas é melhor parar de interromper as cenas ou eu vou te expulsar do estúdio. — Aro avisou e eu arregalei os olhos.
— Você enlouqueceu? É o meu livro! — Apontei para o cenário.
— E pode deixar de ser se você não acertar qualquer merda que você tenha contra a protagonista. — Ele piscou e abriu um pequeno sorriso.
— Nós temos um contrato.
— Eu tenho advogados. Claro, e muito dinheiro. — O homem respirou fundo e deu dois tapas em meu ombro. — Cresça, filho.
Fiquei parado, apenas olhando enquanto todos se dispersavam e conversavam entre si. Aro poderia mesmo romper o meu contrato por causa da minha implicância com Isabella? Eu estava passando dos limites, devia confessar.
Olhei para o corredor que levava aos camarins e engoli em seco, respirei fundo e olhei para cima, esfregando o rosto. Era melhor que eu crescesse mesmo e fosse atrás de me acertar com Isabella.
Comecei a caminhar em direção ao camarim dela, sem saber exatamente como começar a nossa conversa, mas sabendo que ela poderia durar horas, dias, semanas... Talvez nós nunca a terminássemos, mas era importante que a iniciássemos.
Dei algumas batidas na porta e entrei, vendo a garota sentada no sofá e com uma almofada no rosto enquanto gritava. Franzi o cenho e fechei a porta atrás de mim, a despertando com o barulho. Para a minha surpresa, a mulher se levantou e veio na minha direção, apontando o dedo no meu rosto. Seus olhos estavam injetados de raiva.
— O que você quer de mim porra?! — Ela gritou.
E foi ali, olhando em seus olhos castanho chocolate, os olhos que eu tanto senti falta — mesmo que demonstrassem apenas sentimentos ruins naquele momento -, olhando aquele nariz perfeitamente desenhado, aqueles lábios macios e saborosos, que eu beijei Isabella. Depois de longos cinco anos eu segurei o seu rosto entre minhas mãos e a beijei, sendo correspondido imediatamente, mas repelido na mesma rapidez.
Com os olhos arregalados, a mulher desferiu um tapa em meu rosto, fazendo com que eu rosnasse de dor e esfregasse a região afetada. Ao olhar para Isabella, vi que ela tinha colocado as mãos em frente aos lábios e parecia assustada com o que havia feito, mas logo se recompôs e apontou na minha direção mais uma vez.
— Nunca mais faça isso, está me ouvindo? Você não tinha o meu consentimento e é um homem casado. — Ela foi até a porta e a abriu. — Sai daqui agora, seu maluco!
Eu fiquei olhando para ela por um momento, sem entender nada do que havia acontecido, mas me arrependendo amargamente da minha ação impensada. Saí dali rapidamente, indo até meu próprio camarim decidido a colocar um pouco de água fria na bochecha acertada pelo tapa.
Isabella não iria querer conversar tão cedo sobre qualquer merda do nosso passado, presente ou possível futuro.
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