Notas iniciais
Espero que goste, boa leitura!

Primeiro quarto, dia 20.

Havia chegado aquele dia tão esperado na vida de muitos, ou talvez todos os jovens: o Mhaestrado, onde os recém-formados escolhiam a carreira a qual seguiriam, esperava-se, para o resto de suas vidas. Também é aquele dia onde 99,9% dos pais ficam tristes e ressentidos de verem suas crias indo encarar o mundo de frente, sem a certeza de que se sairiam bem. E não seria diferente com Helena.

Primeiro quarto, dia 18.

- Você promete que me manda uma carta? Você lembra o endereço da pensão? E da escola? Cuidado com as amizades, foque nos seus estudos...

- Mãe..! Não se preocupe... Mandarei a carta, anotei ambos endereços e pode deixar, eu tomarei conta de mim mesma. Serei a maga dos seus sonhos, e você terá muito orgulho de mim.

- Eu acho bom. E vê se não acha namoradinho não, ta? Não ta na hora dessas coisas não.

- Ta bom, pai, ta bom. Amo vocês.

Primeiro quarto, dia 20.

Depois de uma longa e exaustiva viagem de trem, lá estava a garota, em frente aos portões da Escola Watcheriana de Magia. Uma escola com mais de 400 anos de tradição, conhecida por sua rígida, porém eficiente disciplina.

A moça dos longos cabelos pretos sentia seus olhos castanhos reluzindo como estrelas no céu noturno no momento em que cruzou os enormes portões, que estavam abertos para a recepção dos novos futuros magos. Andava, segurando sua bolsa, criando links das historias que ouvia com a realidade que presenciava, em sua mente.

- Os livros dizem que foi supostamente nessa área em que o Watcher desceu à terra quando tudo eram trevas e catástrofes, por isso, decidiram fundar a escola em homenagem ao seu ato de nos salvar de um futuro negro e catastróf.. – nesse instante a garota foi interrompida por algum obstáculo no caminho, o que fez que bambeasse e se desligasse de seus pensamentos.

- Olha por onde anda, garota. – dizia ríspido um garoto de cabelos longos e igualmente negros, que logo saíra andando.

Helena sentiu vergonha de si mesma. Respirou levemente e continuou rumo ao prédio tão almejado. Ao encontrar-se dentro do recinto, admirou aquela multidão de jovens que, assim como ela, tinham sonhos dos mais diversos. Mas, chega de enrolação! Ela precisava ir até a secretaria, pegar seus horários, ver suas classes, etc.

Parou no balcão da secretaria. As três atendentes estavam loucas, pegando, assinando, explicando e entregando papéis. Eram gêmeas. Ruivas, do cabelo preso, andando apressadamente em um par de saltos rosa cada uma. Definitivamente eram gêmeas. Suspirou. Aquilo iria demorar. Na esperança de se distrair, olhou para os lados, para cima, para todo canto. Quando voltou a olhar para frente, uma das moças vinha em sua direção com vários papéis na mão. Pensou serem os seus, mas era do garoto ao lado.

O mesmo garoto de minutos atrás.

Helena olhava-o fixa enquanto ouvia a moça falando com o mesmo:

­- ... Suas aulas estão nessa tabela, com suas salas e horários respectivos. Já nesse outro, estão a descrição de cada disciplina, e os professores. Aqui nesse é o horário das aulas extra-curriculares e horários de funcionamento do refeitório e da biblioteca. Acho que é isso, Ci.. Cri.. Cih..

- Cirith. – disse o rapaz. – Cirith Zelphon.

Nome estranho.” Pensou a menina, quando deu uma risadinha sem querer. Nisso sentiu o olhar fuzilante do dito cujo, que ouvira seu riso. Olhou-a de cima a baixo, com uma expressão de repreensão, e saiu com seus milhares de papéis na mão.

Helena abaixou a cabeça.

Pouco depois outra moça, ou era a mesma que tinha visto a segundos atrás, veio falar com ela. Mostrou-lhe os papéis, disse o discurso da anterior, que parecia decorado pelas três, e se despediu. A primeira aula era de Introdução à Magia. Essa era uma matéria cujas aulas só eram ministradas na primeira semana de aula, sendo as outras matérias apresentadas aos alunos na segunda semana de aulas.

A aula começaria às 11h. Eram 10h20. Tinha 40 minutos para explorar o local.

Juntou sua bolsa e começou sua caminhada. Visitou a piscina, que de acordo com o panfleto, serviria para treinamentos que envolvessem água e para exercícios. Próximo à piscina, encontrava-se o refeitório. As salas de aulas eram todas nos andares de cima, e o próximo lugar localizado no térreo era a biblioteca. A jovem abriu a porta e espiou: Um longo cômodo com centenas de estantes lotadas de livros, grossos e pequenos, coloridos ou não, separados por várias mesas e cadeiras destinadas à leituras silenciosas e estudos em grupo.

Olhou no relógio pendurado na parede. Eram 10h48. Decidiu subir para a sala de aula.

- 21, 22.. 23-A! É aqui.

Entrou. Sentou-se em uma das primeiras carteiras e esperou os demais chegarem. Aos poucos, vários outros alunos foram entrando: Um loirinho sorridente, uma outra bem alta, e um ruivinho, que sentou na mesa ao lado, já puxando assunto:

- Olá!

- Oi! – respondeu Helena, simpática

- Sou Hugo, prazer.

— Helena.

— Belo nome! – Hugo disse, sorrindo

— Obrigada!

Passaram algum tempo em silêncio. Mais alunos iam entrando. Helena olhou para baixo de relance e viu uma peça metálica nos pés do garoto. Ele notou, e deu sua explicação:

— Meu pai é ferreiro.

— Hm?

— A perna.

— Não entendi.

O garoto respirou.

— Meu pai é ferreiro, sempre foi. Tínhamos ,e temos ainda, uma loja de ferragens. Espadas, ferramentas, tudo que você imaginar! Fabricação própria... – Helena ainda olhava sem entender — ... Eu gostava muito, quando mais novo, de ajudar ele na oficina, na confecção das coisas e tudo mais... E um dia ele me pediu para ficar de olho em um caldeirão com ferro derretido, e eu me pendurei na borda.

— E ai?! – Helena estava assustada.

— O caldeirão virou nas minhas pernas. Uma conseguiu salvar, já a outra...

O menino mexeu suas articulações férreas. A garota olhava com um tom de perplexidade e espanto.

— E seu pai?!

— Até hoje ele não me deixa mais entrar na oficina.

Helena sorriu com pesar. O garoto demonstrava tristeza no olhar, apesar dos lábios sorridentes.

— Bom! Já falei de mim! Fale de você!

— Ah... – a garota pôs uma mecha de seu enorme capelo preto para trás da orelha – Eu vim de uma cidadezinha próxima à Ghiteos. Meus pais são comerciantes... Padeiros!

— Que delicia! – o garoto riu.

— Sim! O cheirinho é irresistível!

Papo vai, papo vem, um senhor robusto, de cabelos brancos metodicamente penteados, entra arrumando seu paletó e senta-se na cadeira principal, de professor.

— Bom dia, novatos. – sua voz era grossa e imponente. – Meu nome é Rudolf, e serei vosso professor essa semana de Introdução à Magia e, no restante do ano, serei seu professor de Ética e Sociedade. Quero que gravem bem uma frase em vossas mentes.

O professor andou como um lorde até o fim da sala, onde puxou os pés de um aluno da carteira. Helena olhou.

— Exijo MODOS em minhas aulas. Caso contrário, terei o prazer de retirar-lhe daqui, senhor...

— Cirith.

Ele.

Helena corou.

O rapaz tirou os pés da mesa e sentou-se “corretamente”. O professor voltou à sua mesa:

- Antes de começarmos a aula, farei uma breve chamada, para tentar gravar vossos rostinhos.

E assim foi. Nome por nome, de A até Z. Ao terminar, o professor fechou seu caderno e foi até a lousa, sendo interrompido por batidas na porta. Todos viraram-se. O professor proferiu um “entre” e a porta se abriu. Uma garota, alta, de enormes e cacheados cabelos de uma cor indefinida. Variava entre o rosa, o vermelho e o vinho. Seus olhos eram verdes escuros, imperceptíveis por tal escuridão. Vestia botas marrons, uma calça preta e uma camisa branca de mangas longas. Segurava os tradicionais papéis e só. Todos encaravam aquela beleza estonteante, que proferiu, quase sussurrando, suas palavras:

- Desculpe a interrupção, professor.

- Tudo bem. Qual seu nome? Para eu anotar na chamada?

- Meria.

Todos a olhavam, inclusive Helena. A garota sentou-se em uma cadeira próxima à porta, e por ali ficou. O professor rabiscou levemente o caderno de chamadas, e voltou à lousa, escrevendo com seu giz branco, em letras grandes e sublimemente redondas: “Magia.”

- O que é magia? – disse o professor, indagando retoricamente os alunos. – Todos sabem, certo? Mas.. Como é magia? – Os alunos olhavam-se, confusos. – Magia é a transformação da mais abundante matéria prima existente em avanços, ataques, tecnologia ou até em maldade, por que não? – retoricamente, o professor continuou – Mas... O que é essa matéria prima?

- ENERGIA! – uma voz ecoou pela sala silenciosa.

- Energia... – O professor repetiu, desapontado por ter sido interrompido. – Qual seu nome, jovem?

- Adam, senhor. – o menino dizia, com um sorriso no rosto e brilho nos olhos.

- Certo, Adam... – o professor pôs a mão no queixo – Só peço que não me interrompa, tudo bem?

- Claro. Perdão, senhor. – o garoto não perdia o entusiasmo. Parecia aqueles cachorros bobos e babões com a língua para fora da boca.

O professor continuou.

- Energia. Algo indescritivelmente presente em nossas vidas. Para vocês nascerem, vocês precisaram dela. Para morrer, também precisarão. Essa matéria, tão incrível e fascinante, é a base para a magia. Para todas as áreas da magia, desde os elementais, até os guerreiros mágicos, todos a utilizam. A magia é uma das bases da nossa sociedade. E vocês verão suas atuações agora.

O homem se dirigiu ao quadro, escrevendo alguns nomes, em formato de lista. Largou o giz, e virou novamente a seus alunos.

- Existem oito “tipos” de magos, que nós consideramos. Começaremos pelo clássico, a Alquimia. – os olhos de Helena brilharam. – Os alquimistas são magos que, unindo energia e elementos encontrados naturalmente em nosso meio, criam poções e elixires fantásticos e de vital importância. — Ele pegou um papel em sua mesa e voltou a falar. – As aulas sobre alquimia serão ministradas às terças. – Inspirou e continuou. – Outro tipo de magos, também focado na relação com o meio, são os druidas. Seu contato é mais direto, e promovem melhorias, cultivos e reparos especialmente nas plantas. Seu contato é muito íntimo, e dependendo de seu poder, é capaz de dar consciência e racionalizar um vegetal. E não se impressionem, não farão isso tão cedo. – Alguns rostos esboçaram desapontamento. – As aulas serão às segundas, junto com as aulas de Domagem, um outro tipo de magia, só que dessa vez voltada aos animais. É capaz de invocar e controlar animais das mais diversas espécies. Pode não parecer, mas essa magia existe um forte preparo físico. – Ninguém pareceu se interessar. – Existem também os guerreiros mágicos! São similares aos nossos ironicamente – queridos militares, porém suas armaduras e armas são encantadas, fornecendo bênçãos e artifícios bônus. As aulas são às sextas. – Muitos rostos se alegraram. – Também temos os Clérigos, que chamamos, de acordo com a lenda, de filhos de Watcher. – A lenda, ensinada desde criança a todos, dizia que Watcher enviava à terra, todos os anos, almas formadas com parte de seu espírito para que façam o bem, e essas crianças estão destinadas a se tornarem clérigos. – As aulas são mais teóricas, e serão às terças. – Muitos não se animaram. – Existem também os Ilusionistas. São ótimos persuasores e são magos fortíssimos, porém exige muita habilidade. São conhecedores dos mais obscuros segredos da psique humana. As aulas são às quartas. – O professor tossiu, tomou um gole d’agua do copo que estava em cima de sua mesa, e prosseguiu. – Por último, temos os magos negros. São mágicos sujos e sem escrúpulos. Não seguem leis e foram banidos da sociedade... São, basicamente, os Chimeri. Obviamente não terão aula disso.

Chimeri eram os renegados da sociedade. Por não concordarem com os atos de Watcher, e seguirem fielmente os mandamentos dos antigos espíritos que vagavam na terra, cujo nome não pode sequer ser mencionado, a nobreza e a monarquia decidiram banir, para o bem dos justos. São nômades, e não são aceitos nas cidades. Não possuem direitos perante à lei, e são desprezados caso sejam vistos.

- Bom.. Por hoje acho que é isso. – disse o professor, sentando-se na cadeira. – Podem sair.

Enquanto os alunos saíam, o homem juntou seus papéis, colocou-os dentro de sua maleta e saiu também.

Helena saíra conversando com o mais novo amigo, Hugo. Era hora do almoço. Foram até o refeitório, onde estava sendo servido um banquete de boas vindas aos novos alunos. Sentaram-se, após pegarem seus pratos, e foram comer. Helena admirava o ambiente ao seu redor, levando lentamente suas garfadas à boca, enquanto Hugo comia como se não houvesse amanhã. Após alguns minutos, uma garota, de cabelos loiros e olhos incrivelmente brilhantes sentou-se em frente aos dois.

- Olá! – sua voz era suave e... fofa

Helena olhou para a mesma, enquanto Hugo continuava comendo.

- Olá!

- Também são novatos?

- Sim!

- Meu nome é Isis, oi! – ela era extrovertida e sorridente

- Eu sou Helena. E esse é Hugo. – ela sorriu, simpática. – Hugo. – complementou, cutucando o garoto.

- Hm? – o rapaz olhou ao seu redor, com a boca suja de molho. – Ah, oi. – era possível ver a comida dando voltas em sua boca.

As duas moças se olharam e riram. Acabaram criando uma certa amizade. Helena, em meio às conversas com a colega, descobrira algo interessante: Ela era nobre.

- E o que você ta fazendo aqui?!

- Ah.. Meus pais queriam escolher um marido pra mim mas.. Eu não queria, ai fizemos um acordo. Eu viria estudar e deixaria eles escolherem um marido.

O pensamento de Helena provavelmente foi o mesmo que o seu. “Que motivo de merda para vir estudar.”

O resto do dia fora de introdução à matérias e “tours” pelo prédio. Os alunos acabaram sendo liberados duas horas antes do pôr-do-sol, o que fez com que Helena pudesse se organizar com mais calma em sua nova casa: A Pensão da Madame Goulart. Era famosa por alugar quartos para, em sua maioria, estudantes. Ficava a cinco quadras da escola, uma distância razoavelmente curta.

Após a liberação, a jovem andou calmamente até a pensão. Perto de chegar, olhou para trás: o tal rapaz. Aquele, da trombada, dos papéis e dos pés na mesa. Ele andava sério, e parecia seguir o mesmo caminho que Helena. Ela deu de ombros e continuou seu caminho. Ao chegar, abriu a porta e encontrou a simpática senhora que dava nome à pensão:

- Olá... – Ela fez uma pausa, e prosseguiu – Helisa!

- Helena!

- Ah, foi quase! — ela riu – As suas malas já estão no quarto ok? Está com as chaves?

- Estou sim. – respondeu a garota.

A porta se abriu e a sineta sobre ela tocou.

- Cibério!

- Cirith. – corrigiu o rapaz. Aquele rapaz.

- Você... Também está hospedado aqui? – Ela perguntou, desacreditada de tamanha coincidência.

- Não, só resolvi entrar pra ver a cor das paredes.

Helena corou e fechou a cara. Que grosseria!

O rapaz trocou poucas palavras com a senhora no balcão, pegou um molho de chaves e subiu as escadas. Helena também subiu.

- Não.. Não é possível. Ele não vai morar ai. – pensava a garota, enquanto o via adentrando no quarto ao lado.

A porta se fechou, e o trinco rangeu. Helena bateu o pé.

- MAS QUE MERDA!

O trinco rangeu de volta, e a porta se abriu.

- Se for pra xingar, xinga lá dentro. – ele disse – Não sou obrigado a ouvir sua revolta com sei lá o que.

E a porta se fechou.

Helena correu para dentro de seu quarto e trancou a porta. Suas bochechas queimavam. Ter topado com aquele rapaz pelo menos quatro vezes em um dia só lhe fez sentir-se diferente. Talvez só estivesse impressionada com as maravilhas da sua nova rotina, e deixou-se levar por emoções fajutas e errôneas.

Arrumou seu quarto, pôs suas roupas no armário, tomou um banho e desceu para jantar. A refeição era servida pontualmente às 20h. Comeu, subiu, escovou os dentes e deitou-se para dormir. Estava exausta, então adormecera logo, e não ouvira os ruídos no quarto ao lado.

-

Haviam roupas, livros, papéis e sapatos por todo o chão. Cirith estava sentado inerte encostado na parede. Olhava fixamente para um ponto aleatório na parede.

- É. – suspirou – Hoje... Tudo muda.

Levantou-se. Arrumou sua bagunça rapidamente, porém com calma. Recolheu os livros e os papéis e colocou-os na mesa ao lado da cama. Do meio de um dos livros, tirou uma foto. Nela estava retratada uma bela moça. Sorridente, segurava em seus braços um garoto, quase um bebê, igualmente sorridente. O rapaz colou a foto em uma das paredes do quarto. Recostou sua testa na foto, e murmurou:

- Eles vão pagar. – uma lágrima desceu por sua maçã do rosto. – E com sangue.

Parou no meio do quarto.

- Eu serei o mais forte. Eu serei o vencedor.

Ficou mais um tempo parado. Tirou seus sapatos, deitou-se e dormiu.

Primeiro quarto, dia 21.

Notas finais
E então, o que achou? Eu vou adorar saber sua opinião! (fora que sempre dá um animo a mais para escrever u3u)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.