É hoje. Tem que ser hoje.

Hitoshi nunca escondeu como é determinado. As pessoas podem olhar para seu rosto e não enxergarem sua obstinação em correr atrás do que deseja, considerando-o preguiçoso e relapso, mas basta uma olhada para tudo que fez para chegar até o curso de heróis, e fica claro como ele não hesita em relação ao que quer conquistar.

É irônico, então, que ao alcançar seu grande objetivo de entrar na rota para se tornar um herói, Hitoshi tenha acabado descobrindo um caminho alternativo e inesperado. Ele foi colocado na turma A, cheia de talentos estelares e, dentre eles, estava ela: Uraraka Ochako. A diferença dela para o Midoriya, o Bakugou e o Todoroki, é a forma como se destaca de maneira modesta, se é que isso faz sentido. Ela não esfrega suas habilidades impressionantes na cara de ninguém, não cria um circo cada vez que está em ação, Uraraka só está ali fazendo o dela, indo com calma, ajudando quando pode, recebendo ajuda quando precisa, e sem necessidade nenhuma, é a pessoa mais doce e gentil que ele já conheceu na vida, inclusive com ele, que não costumava se mostrar muito aberto a essa ideia de fazer amigos no começo, mas acabou tendo que ceder. Que bom que cedeu.

Hitoshi não só se tornou amigo dela como, em algum momento, apaixonou-se. Ele tentou mesmo evitar isso, queria muito acreditar que não estava confundindo as coisas, mas foram muitas as noites em que Uraraka apareceu em seus sonhos, foram muitas as vezes em que ele se pegou observando-a na aula, e foram muitas, mas muitas mesmo, as vezes em que seu coração palpitou mais forte quando recebeu um sorriso dela ou teve seu nome chamado pela manipuladora de gravidade.

Estar na presença da Uraraka é sempre muito bom, mas Hitoshi começou a se perceber meio incomodado com tudo isso. Apaixonar-se não fazia parte de seus planos, e certos sentimentos que acompanham isso só fazem atrapalhar. Ele não gosta de se sentir enciumado quando ela conversa com o Midoriya ou outros garotos, não gosta de como se preocupa quando a vê nos exercícios de combate, mesmo sabendo que a garota tem todas as condições para se virar muito bem sozinha numa luta contra qualquer um, ele simplesmente não gosta de como se sente bobo perto dela. É uma batalha constante em sua mente entre uma parte racional, que vive lhe dizendo o quanto tá sendo estúpido, e a parte estúpida em si, que fica revisitando constantemente qualquer mínima interação que tenha havido com Uraraka e como foi bom, de modo geral.

O Eraserhead deve ter percebido sua distração nos últimos tempos e o questionou. Sabendo que não teria de quem receber conselhos melhores — as únicas outras pessoas com quem se sentiria confortável pra falar sobre isso seriam o Kaminari, o Monoma ou… a Uraraka, a última não era uma opção por motivos óbvios, os outros dois só são... impossíveis mesmo — ele contou ao mestre sobre seu interesse na Uraraka, o professor lhe ouviu com o máximo de paciência que consegue, e disse: “Acho estupidez você ficar se remoendo e fantasiando. Se quer algo concreto, independente do resultado ser bom ou ruim para você, faça algo concreto e pare de se distrair.” Um ótimo conselho em todo seu realismo, pois já pressupunha que haveria um resultado negativo, nesse caso, a Uraraka não retribuir seus sentimentos.

E sim, é negativo, mas não chegaria a ser surpreendente. Uraraka não é legal só com ele, é assim com todo mundo. E ele sabe, ou pelo menos imagina, que existem outros garotos por aí que combinariam muito melhor com ela. Um cara meio introvertido e mau-humorado que nem ele nem deve entrar no radar de alguém tão solar e divertida como ela. Então sim, as chances de ser correspondido são poucas, quase nulas, e ele deveria só deixar isso pra lá e continuar vivendo sua vida contentando-se com a amizade dela. Mas Hitoshi não gosta de ter dúvidas, ele prefere o que é concreto, como o Eraserhead apontou. Então a conclusão a que chegou é: ele precisa se declarar logo para ser rejeitado logo e poder ter sossego.

Mesmo que soubesse o que fazer, não quer dizer que foi fácil decidir quando fazer. Todos os momentos pareciam errados ou inoportunos, então Hitoshi foi levando, protelando acidentalmente até que chegou o fim do ano. E em certo dia, quando eles estavam reunidos em seu grupinho na biblioteca para estudar, Uraraka comentou que seu aniversário era no domingo, dia 27. Na mesma hora, a Ashido retrucou que se ela achou que a data passaria em branco, estava muito errada, e que a festa já estava em processo de organização.

A festa. Domingo. Antes de eles se retirarem para o recesso de Ano Novo. Ele pode chamá-la para dar um parabéns e seu presente e já aproveitar o ensejo, tendo aí uma semana do recesso para assimilar o fora que tomará e voltando às aulas na semana seguinte com mais tranquilidade e agindo normalmente para não deixá-la se sentindo mal. Perfeito. Não vai ter dia melhor.

Foi o que Hitoshi pensou, e foi o que se mostrou uma enorme mentira quando o domingo chegou. Assim que o dia, bem como os preparativos pra festa, começaram, falar com a Uraraka se tornou impossível! Sempre tinha alguém junto dela.

Sua primeira tentativa foi quando estava organizando a decoração da sala junto dos outros encarregados dessa tarefa, a aniversariante não queria ficar sem fazer nada enquanto os outros cuidavam de tudo, então estava ajudando também. Hitoshi estava pendurando a faixa com “FELIZ ANIVERSÁRIO” escrito em letras cor de rosa vibrante, e ela estava ali, segurando a escada pra ele.

— Tem certeza que não quer que eu flutue e pendure a faixa?

— Não me entenda mal, mas você nem precisava estar aqui trabalhando, então não precisa se esforçar. Só segura a escada e não me deixa cair.

— Poxa, Shinsou-kun, mas eu te pegaria antes de você cair.

Ele tossiu, constrangido diante do comentário e da total inocência dela em dizer algo assim tão casualmente.

— Não duvido. Mas fica firme aí, por favor. Eu não… não ia querer dar trabalho para a aniversariante caindo e precisando ser salvo.

— Não seria trabalho nenhum, mas… é, não ia querer que algo atrapalhasse você participar da festa mesmo…

— É, então. — ele respondeu bobamente, na falta de saber o que responder, então engoliu em seco e se preparou — Uraraka?

— Hum?

— Tem uma coisa que eu queria te falar já tem um tempo, eu… eu g-

— PUTA QUE PARIU, DEKU! ARRUMA ESSA MERDA DIREITO! — a voz do Bakugou ecoa pela sala, e Hitoshi vê lá do alto o loiro xingando e crescendo pra cima do Midoriya com um pedaço do planeta de isopor que eles compraram para compor a decoração da festa.

— Kacchan, fica calmo! Eu só tava soltando um pedaço pra ficar mais fácil de mon-

— Você tá quebrando, idiota! Não serve nem pra organizar uma festa e quer ser o número 1? VAI SE FODER! — ele continua proferindo insultos, e Hitoshi imagina que o pedaço de isopor logo irá ser atirado contra o Midoriya, a Uraraka tem o mesmo pressentimento e corre para apaziguar os ânimos, perguntando ao Bakugou se ele não prefere ajudar na cozinha, já que é o melhor nisso. O loiro explosivo reclama mais um pouco, mas acaba saindo, o rubor nas bochechas dele funcionando como um alerta: Hitoshi não é o único que não resiste aos encantos dela.

Ele precisa se declarar logo pra parar de se preocupar com coisas assim.

***

A segunda chance surgiu na hora de montar a mesa com as comidas disponíveis. Novamente lá estava ele ajudando no que podia, e a aniversariante também estava ali por perto.

— Shinsou-kun, posso…? — ela segurou no ombro dele, olhando ao redor como se estivesse procurando por alguém — Posso pegar um docinho? — e apontou para a bandeja que ele segurava.

— Não vejo porque não, é seu aniversário, você pode fazer o que quiser.

— O Bakugou-kun não concorda, ele me expulsou da cozinha, acredita?

— Acredito, sim. Anda, pega um, vou olhar pro lado e fingir que não vi. Mas só um, senão quem vai ouvir um monte sou eu. — ele virou o rosto na direção oposta dela, tentando não pensar muito no fato de que Uraraka ainda estava segurando seu ombro. Quando ele se virou, notou que dois docinhos tinham sumido — Ei, Uraraka, você não-

— Um é pra você, por ser meu cúmplice. — ela puxou uma das mãos dele e colocou o docinho ali, sorrindo. Hitoshi tem certeza que seu rosto ficou no mesmo tom de cor de rosa da bolinha colorida em sua mão. Tem que ser agora, ele precisa falar.

— Ei, Uraraka. Sobre o que eu tava tentando te falar mais cedo, eu queria que você soubesse que-

— AHÁ, ACHEI! — a voz estridente da Ashido surge por detrás deles, fazendo ambos darem um pulinho — Longe de mim atrapalhar esse climinha entre vocês, mas eu preciso levar a aniversariante pra se arrumar.

— M-M-Mina-chan, c-cli-climinha? Que… que climinha? — Uraraka cora agressivamente, ficando muito sem graça com o comentário. Quem não ficaria quando não tá rolando climinha nenhum? Pelo menos não por parte dela — N-não é isso, a gente só tava-

— Aham, eu sei. Vamos logo ou eu vou contar pro Bakugou que vocês tavam roubando docinho! — isso a faz largar o ombro dele e ir com a Ashido. Uraraka lança um olhar desculposo na direção dele antes de ser puxada para o elevador.

E ele acabou ouvindo mesmo um sermão do Bakugou. Que droga!

***

Na terceira tentativa, Hitoshi já estava pronto pra que desse errado, então só revirou os olhos quando foi interrompido mais uma vez, agora pelo Kaminari e pela Jirou, que saíram do cantinho onde estavam, achando que não teria ninguém próximo ao corredor que dá para a lavanderia, mas ele e Uraraka estavam ali, esbarraram-se quando voltavam do banheiro e, mesmo não sendo o melhor lugar, Hitoshi acreditou ser o melhor momento. Mas claro, não foi.

— A gente tava só… tava só conversando. — a Jirou começou a se explicar.

— Aham, usamos um montão a boca e tal. — o loiro deu uma piscadinha para Hitoshi, que desviou o olhar pra não se envolver nisso.

— Fica quieto, Denki! — a garota dos plugues corou e deu um tapa no ombro do Kaminari — Ochako, você- você pode vir comigo pra que ninguém… sabe… ninguém suspeitar?

— Claro, Kyoka-chan! Vamos lá!

— Certeza? Não tô atrapalhando nada aí? — ela o mediu de cima a baixo.

— Não está. Vão lá. — ele respondeu pela Uraraka, que apenas concordou com a cabeça e se afastou junto da outra garota.

— Ahhh mano, foi mal! Não rolou de você se confessar pra ela ainda?

As duas já estavam longe, mas o Kaminari falou um pouco alto. Hitoshi apenas o repreendeu com o olhar, sem saber se ela poderia ter ouvido.

Não que fizesse diferença. Não faz.

***

A festa acabou, e ele já está em seu quarto preparando-se pra dormir e sabendo que não vai tão cedo, não enquanto ficar remoendo e tentando se lembrar se teve outras chances de estar sozinho com ela e só falar logo. Que ideia idiota querer se declarar no aniversário dela! Lógico que seria impossível, é o dia dela, toda a atenção estaria ao redor da Uraraka e… parando pra pensar melhor, não seria legal estragar um dia que é pra celebrar o aniversário dela com uma confissão. Imagina, você tá lá só querendo festejar e chega um esquisitão com essa cara que ele tem dizendo que gosta de você? É de cortar qualquer clima bom mesmo. Idiota!

Então ele ouve batidas à sua porta. Deve ser o Kaminari querendo se gabar do que quer que estivesse fazendo com a Jirou na lavanderia. Ouvir outro idiota apaixonado não é bem o que vai animá-lo, mas o loiro é insistente e não irá embora se não tiver a certeza que ele tá dormindo, e já que as luzes tão acesas, não tem como disfarçar mesmo.

Hitoshi abre a porta e descobre que não é o Kaminari.

— Oi. — Uraraka cumprimenta, sorrindo e mexendo os dedos de um jeito que parece indicar nervosismo.

— Oi, e aí?

— Ah, nada! É que… hã… parecia que você queria falar comigo hoje, mas alguém sempre aparecia na hora, né?

— É, mas não era nada demais. — ele leva a mão à nuca, desviando o olhar do dela.

— Ah… é que você tentou algumas vezes, então… então achei que seria importante… mas se não era nada demais, então… então tudo bem.

— Não, era… — ele suspira — Bom, hã… acho que eu não te desejei “Feliz Aniversário” ainda, né? Então… Feliz Aniversário.

— Oh, muito obrigada! — ela ri, e é tão linda que a vontade dele é não falar nada e só puxá-la pra si, mas… não teria como isso acabar bem.

— Tinha outra coisa também. Eu quero te falar isso já tem um tempo, eu… Uraraka, talvez você tenha percebido que eu… gosto, assim, gosto muito de você. — ela fica olhando-o em expectativa — É isso, eu gosto de você. — nossa, que porcaria.

— Ah, eu… meio que percebi, sim. Mas eu… sei lá, achei que tava vendo só o que eu queria ver. — ela dá um sorriso sem graça.

— Você o quê?

— E-eu… talvez você tenha percebido também… que eu… gosto de você também.

Silêncio. E é como se o Monoma estivesse por perto, copiando a individualidade dele e ordenando-o a ficar com a cara mais idiota possível. Ele faz isso às vezes.

— Não percebi, não.

— Não? Ah… é… a Mina-chan disse que parecia que você não sabia mesmo. — ela dá uma risada sem graça — Então, eu… é isso, eu gosto de você também, Shinsou-kun.

Hitoshi é determinado, por mais que não pareça. Ele está sempre disposto a ir atrás do que deseja, nem que custe muito esforço mental e físico. Mas agora, que algo tão bom lhe aconteceu tão fácil, ele não sabe o que fazer. Parece um sonho.

— Você… — ele limpa a garganta — Por quê?

— Eu poderia te perguntar a mesma coisa, você é tão… diferente de mim, é tão maduro, calmo e inteligente, achei que você me acharia irritante e só me aceitava como sua amiga por causa do Dek-

Ele não vai permitir que ela diga coisas assim sobre si mesma. De jeito nenhum. Interromper não é legal, e ele com certeza deveria ser mais delicado, mas é o que o Eraserhead disse: se quer um resultado concreto, faça algo concreto. No momento, ele só quer beijar a garota que gosta, sabendo que pode já que ela gosta dele também. Então é exatamente o que ele faz.

É um beijo meio atrapalhado, dentes aparecem no lugar errado na hora errada, mas quando a abraça por completo, sentindo cada parte do corpo dela se pressionar contra o seu, não importa muito. Ela o envolve pelos ombros, e Hitoshi não resiste, apenas a apoia contra o umbral da porta e aprofunda o beijo, sua respiração se misturando à dela, seus corações batendo juntos… é empolgante. Ele pode não ser o maior fã de competições, mas adora a sensação de vitória, e agora ele não poderia se sentir mais vencedor.

— Não quero você falando assim de si mesma em nenhum dia, muito menos hoje, que é seu aniversário.

— Mas não é mais meu aniversário, já passou da meia noite.

— Pra mim, o dia não acaba se eu não fui dormir. — ela dá risada, apoiando a cabeça no ombro dele.

— Eu também penso assim, sabia?

— Que bom que a gente concorda.

E quando a puxa para si novamente, Hitoshi percebe que não poderia estar mais errado sobre como esse dia poderia ter terminado. O aniversário dela pode até já ter passado, não quer dizer que eles não podem celebrar a companhia um do outro ao máximo, por quantos dias forem necessários.

Notas finais
Oi oi! Essa é minha fanfic com o Ochabowl Project pro tema bimestral que é CELEBRAÇÃO. Dentre todas as datas comemorativas que a gente tem agora nesse período, minha favorita é, claro, o aniversário da Ocha, comemorado hoje, dia 27. Pensei muito em quem seria o parzinho dela nessa data tão especial, e fui de Shinsou pois ele é um personagem que me divirto muito escrevendo hjdhjksdjs

Agradeço à ma pela betagem e á OchakOmochi por essa linda capa! Creio que essa é minha última atualização do ano, então só queria agradecer a você, que parou pra ler minhas histórias. 2020 foi um ano horrível mesmo, não tem como dizer que não foi, mas poder escrever fanfics e partilhar minhas ideias com as pessoas com certeza aliviou muito do peso de tudo, então só tenho a agradecer a todes. Feliz Ano Novo e que 2021 seja melhor!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!