Antes que o Verão Acabe
2 Cidade do pecado
Notas iniciais
Quando eu tinha quatro anos, minha mãe me deu um cavalo de presente, morávamos na fazenda da família, em Woodstock, chamei o cavalo de Buddy, e aquela foi a melhor época da minha vida. Morar na fazenda era muito importante pra mim, na época, eu adorava aquilo, a liberdade, tranquilidade, tudo, amava até o vento que balançava os galhos que batiam na janela da minha casa na arvore, eu amava tudo, sentia que lá era o meu lugar, com a minha avó, meus pais e amigos de infância, era uma vida simples, mas maravilhosa. Todos os dias de manhã cedo, minha avó fazia os melhores biscoitos amanteigados, tomávamos café da manhã todos juntos e depois mamãe e eu íamos pegar ovos no galinheiro para fazer bolos enquanto vovó começava a preparar o almoço e papai ia cavalgar com os funcionários da fazenda. No final da tarde, quando eu finalmente tinha tempo para cavalgar, eu via papai e mamãe deitados na grama observando o sol se por ao longe. Alguns casamentos se desgastavam com o passar do tempo, mas o deles não, o deles era do tipo que se fortalecia. Foram os melhores anos da minha vida, com certeza, mas isso mudou no ano em que minha mãe foi diagnosticada com câncer. Foi como se a cor de todo o meu mundo tivesse sido alterada para cinza. Os dias começaram a passar devagar. E minha mãe, que era a alegria de tudo naquela fazenda, foi ficando debilitada, como se a sua luz interior estivesse sendo apagada.
— Minha flor do dia – ela disse – não desanime – mamãe sussurrou pra mim, passei a tarde sentada ao lado da janela – eu ainda tenho fé – ela se encorajava, apesar de já saber que estava em estágio terminal. Eu segurava as lágrimas em todas as conversas que tivemos depois do diagnostico, olhar pra minha mãe e pensar que poderia ser a nossa última conversa, abraço era demais pra mim. Meu pai ficou deprimido e afastava todo mundo de si mesmo, até mesmo eu, sua filha, que só tinha quatorze anos na época e assim como ele sofria muito com tudo aquilo. Geralmente essa situação aproxima a família, mas com a nossa foi diferente, meu pai ficou frio, calado, como se mais nada pudesse alegrar a vida dele. Quatro meses depois acordei bem cedo e vi vovó chorando na porta do antigo quarto de mamãe, que seria meu quando eu fizesse dezesseis, minutos depois papai bateu a porta com força e correu pela trilha natural até o lago. Apenas fechei os olhos. Sabia o que havia acontecido. Tentei pensar nela viva, fazendo as coisas que gostava, alegrando o dia de todos, e na fé e esperança que ela mantinha, mesmo sabendo que suas chances eram bem poucas, isso com certeza era uma das muitas coisas que eu admirava em minha mãe. Meu pai não esperou um dia sequer. Assim que minha mãe foi enterrada, ele colocou todas as nossas coisas em duas malas gigantes e assim nos mudamos para Nova Iorque. Deixando a fazenda, minha avó e Buddy para trás. Um vazio enorme me preenchia. Eu não tinha disposição para fazer nada. A não ser chorar e chorar. A saudade que sentia de minha mãe era horrível. A pior coisa que eu já senti na vida. Era como se o tempo tivesse parado. E apesar de estar em uma das cidades mais agitadas do mundo, meu coração era um tremendo oceano congelado. Era sufocante. A sensação de que um buraco imenso havia sido cavado em meu peito. Que toda a minha felicidade escorria por esse buraco cada vez mais. Deixando apenas dor, sombras e feridas abertas que não cicatrizavam nunca, nem com o passar do tempo e a distância das lembranças mais vivas meu pai voltou a ser quem era, a cada vez mais ele se afastava. Me deixando sozinha, sem minha mãe do meu lado e agora sem ele também. Eu sempre me perguntava o que faria se esse buraco jamais melhorasse... Se as feridas nunca se curassem... E se essa dor fosse permanente e irreversível? E foi ai que Margo entrou na minha vida. Assim que me vi pronta pra entrar na escola, fiquei meio deslocada, mas logo Margo chegou e começou a animar os dias longos. Comecei a ir a festas. Ficar com garotos. E a me distrair mais. Com coisas fúteis eu sei, mas que eram a única forma de esquecer isso tudo. Meu pai se afogava em bebidas em casa, e quando eu saia a noite ele já estava bêbado demais pra lembrar o próprio nome. Balada. Bebidas. Drogas. Garotos. Farra. Ressaca. Tudo isso começou a fazer parte da minha vida. E é quem eu sou agora. Eu me sentia bem fazendo tudo isso. Era a única forma de escapar da lástima que minha vida se tornou. Com o tempo, meu pai foi melhorando. Começou a pegar mais no meu pé, e voltou sua atenção total para a empresa que herdou de vovô. Eu não sei bem do que se trata, mas tenho certeza de que é alguma coisa relacionada a fazenda que vovó por acaso ainda mantinha em Woodstock. Por esses anos todos meu pai não teve coragem de visitar o lugar em que vivíamos. Nem mesmo ligar para perguntar como vovó estava depois de três anos sem a sua única filha e sua única neta. Eu continuei com minha nova forma de viver. Chegando em casa poucos minutos antes da hora do colégio, bêbada demais para lembrar de qualquer coisa. As coisas finalmente iam voltando ao normal. Fiz uns exames e o médico quase me implorou para passar algum tempo sem contato com bebida alcoólica ou drogas, e eu o fiz, até o dia que conheci Katie. A nova namorada do papai. Secretária dele na empresa que fazia trabalhos extras na cama dele. Era óbvio que meu pai nunca nessa vida ia amar outra pessoa. Ele ficou desolado com a perda de mamãe. Não ia ser uma secretariazinha nova-iorquina que ia mudar os sentimentos dele.
Era sábado e eu acordei com uma gritaria horrível às sete da manhã.
— Eu não acredito que você não contou a ela! – Katie gritava. Fiquei atrás da porta da cozinha ouvindo a discussão.
— Rosie não tem que saber de cada passo meu!
— É por isso que ela não te respeita! Por isso você tem que ficar passando perrengues buscando sua filha menor de idade na delegacia todas as noites! Ela só quer atenção! Eu não acredito que você não disse Daniel!
— E o que você queria que eu fizesse? Que chegasse e jogasse na cara dela: Filha, Katie vai vir morar conosco? Ela ia surtar! Mais do que já está. – meu pai gritou irritado. É o que? Katie morando aqui em casa? Isso eu não aceito! E ainda por cima insinuar que eu sou uma rebelde sem causa, que quer a atenção do pai e mais nada?
— Apenas diga! O caminhão vai chegar aqui as seis e quarenta, nesta hora estaremos naquela loja, bem longe daqui, comprando a nova cama! Quer que Rosie fique sem saber o que fazer quando minhas coisas chegarem aqui? É isso?
— Vou tentar querida. – meu pai falou tentando acalmar as coisas. Ele poderia até tentar. Mas oportunidade eu não vou dar. Voltei para o meu quarto e me tranquei lá, meu pai batia na porta de meia em meia hora, mas eu não respondia. O que Katie pensa que é? Se mudar pra minha casa? Pode até ser, mas vai ser com um toque muito especial.
“Festa na minha casa as seis e quarenta” Mandei a mensagem em todos os grupos da escola que eu tinha no whatsapp. Essa vai ser a melhor festa que Nova Iorque e Katie Boss já viram.
Assim que os dois saíram, destranquei a porta do meu quarto e desci as escadas, Margo chegaria daqui a dez minutos para arrumarmos tudo.
Elliot já havia instalado a mesa de som, amplificadores e as luzes coloridas. A música estava bem alta e enquanto ele dava uma de DJ, Margo e eu arrumávamos as bebidas que ela e Elliot trouxeram de casa. Os copos vermelhos e balões em neon já estavam espalhados por toda a sala. Agora só faltavam os convidados e a mudança de Katie. Meu pai poderia chegar a qualquer hora, mas a presença dele e de Katie era indispensável pra mim. Contanto que chegassem depois da mudança. O pessoal começava a chegar e a sala da minha casa estava ficando lotada. Gente por todo canto. Pulando. Gritando. Bebendo. Se pegando. Isso não faltava na sala de estar da casa que papai tanto preza. Depois que eu avisei que a piscina também estava liberada, muita pegação em baixo d’água rolou. Era uma festa e tanto. Mal conseguia ouvir o que Margo gritava no meu ouvido. Eu já estava bem alterada e já havia beijado uns cinco garotos. Margo olhou pela janela e fez sinal que o caminhão havia chegado. Uma luz forte me iluminou e como combinado, Elliot baixou o som para que todos ouvissem o que eu tinha a dizer.
— Ai galera! Vamos receber a namorada do papai no melhor estilo Rosie Crawford! É tudo nosso! – gritei e automaticamente todo mundo começou a correr em direção ao caminhão onde o motorista tentava carregar uma das caixas para dentro. Todo mundo começou a abrir as caixas e rasgar algumas roupas de Katie. Uns vestiam roupas, outros jogavam livros e porta retratos para cima, quando me dei conta estava rolando no chão de rir com Margo. Um dos garotos do time usava uma calcinha fio dental de Katie como capacete. Todos os pertences dela estavam espalhados pela casa. Depois que despachei o motorista e o caminhão, entrei em casa novamente e o som estava mais alto ainda. A festa finalmente havia começado. No ápice de tudo pulei na piscina com algumas das roupas bregas de Katie e todo mundo gritou junto comigo.
— Quero que você venha aqui. Agora! – meu pai gritou em meio a música alta – A festa acabou! Vão embora! – ele disse muito irritado e todos foram saindo, resmungando, mas saindo. Menos Margo e Elliot, com certeza iam querer dividir a culpa comigo, mas como eles não tinham nada a ver com isso, fiz sinal para que eles fossem também. Tenho certeza que ninguém nunca ia esquecer essa festa. Isso foi épico. Comecei a rir ainda dentro da piscina, rir muito, e então vi a cara de espanto e raiva estampada no rosto de Katie. – Rosie Crawford! Você foi longe demais – meu pai disse em tom sério, eu tentava parar de rir, mas era impossível. – Você passou de todos os limites! – ele completou assim que saí cambaleando da piscina cheia dos pertences de Katie. Eu ria descaradamente. Não aguentava olhar nem uma vez sequer para Katie sem rir. – Você não é mais a Rosie. O que sua mãe diria se te visse desse jeito?
— Não toque no nome dela quando está ao lado dessa vadia! – gritei – Minha mãe nunca ia me ver assim! A culpa disso tudo é sua! Você me abandonou quando mais precisei de você! Eu também sofri com a morte dela se quer saber- explodi
— E é por isso que nos mudamos de volta para Woodstock no fim de semana. – papai falou, ele só podia estar de brincadeira, mas quando vi a sua expressão facial, vi que eu estava muito enganada, ele nunca tinha falado tão sério na vida. – Você se perdeu em Nova Iorque Rosie. Não sabe mais quem você é. Aguentei esse comportamento até agora porque sei que precisamos nos perder antes de encontrar quem realmente somos, mas você, você continua perdida! Vamos ver se voltar as raízes caipiras depois de uma vida conturbada em Nova Iorque te faz mudar! Terminará o colégio na cidade vizinha a fazenda, e você tem até o fim do verão para provar que sabe a importância dos seus verdadeiros valores se quiser fazer faculdade aqui! Antes que o verão acabe você tem que me mostrar quem você realmente é. Se não, fica na fazenda comigo, sua avó e Katie pelo resto dos seus dias! – ouvir aquilo me deixou desnorteada. Ele não podia me fazer vivenciar todas aquelas lembranças.
— Tá achando que voltar pra aquele lugar vai me fazer mudar? Me fazer ser como a minha mãe? – gritei enquanto ele saia – Você ao menos se lembra dela? – eu esperava que ele voltasse e dissesse o que sempre dizia após me buscar na delegacia, ou quando chegava de manhã em casa, mas ele continuou sério e decidido com Katie do lado. Iríamos mesmo voltar para Woodstock.
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