Antes que o Verão Acabe
7 Uma nova amiga
Notas iniciais
Acordei com a gritaria do meu pai para que eu não me atrasasse para a escola, pois hoje, ele faria questão de me levar pessoalmente até lá e garantir que eu iria comparecer as aulas. Corri para casa assim que Kile também foi para a dele, para minha sorte todos ainda estavam dormindo e não tive que explicar pra ninguém o motivo de ter dormido abraçada com Kile no gramado atrás do celeiro. Assim que entrei em casa, tomei um banho quente, troquei as roupas e me deitei em minha cama apenas para fingir que tinha passado a noite aqui.
Enquanto desço as escadas para tomar café com a mochila que trouxe comigo de Nova Iorque nas costas, a lembrança dos braços fortes de Kile me segurando e do cheiro de madeira e hortelã que ele tem me fazem corar as bochechas, e provavelmente ficar parecendo um tomate. Assim que ponho os pés na cozinha, onde todos estavam à minha espera para tomar café da manhã, afasto esses pensamentos, eu não podia pensar no Kile dessa maneira, primeiro porque eu não gostava dele, o garoto infeliz me dá nos nervos, tudo bem que ofereci uma trégua hoje pela manhã, mas posso confessar que o momento ajudou bastante, e nosso acordo de tentar uma amizade não anula os sentimentos provocativos que ele tem sobre mim, segundo, Kile e eu mantínhamos uma certa amizade apenas para nos ajudar e conseguir que eu volte para Nova Iorque, e ele e sua amada cidade tenham a paz que tinham antes da minha volta, e terceiro porque nunca, em hipótese alguma haveria a chance de Rosie Crawford se apaixonar por um caipira. Balanço a cabeça negativamente somente para afastar o pensamento e finalmente me sento a mesa junto com os outros Crawfords falidos e a agregada do meu pai.
— Bom dia minha flor do dia! — vovó me cumprimenta e eu dou um sorrisinho falso para fingir que não odeio meu apelido de infância, não porque eu simplesmente odeio, mas porque me faz lembrar de como as coisas eram antes da minha mãe morrer e toda a minha vida desandar, e principalmente porque a "Flor do dia" não existia mais há muito tempo.
— Bom dia vovó! — comecei amorosa — Bom dia ao Crawford falido e também para sua agregada. — conclui com o tom mais debochado que consegui fazer e automaticamente meu pai abriu a boca, provavelmente muito puto com o meu atrevimento, mas vovó como sempre estava pronta para salvar a pátria.
— Comece a comer logo para não se atrasar Rosie, não pode dar para trás igual a uma vaca com medo de se atolar na lama novamente. — vovó usou a metáfora mais ridícula para me repreender e meu pai deu uma risadinha discreta, olhei para Katie e para papai com os olhos semicerrados e notei que meu pai fazia um misto de sobrancelhas arqueadas e um leve sorriso sarcástico. Decidi que deveria comer para ir logo até a droga de escola e acabar logo com isso, afinal eu teria assuntos sérios para tratar com Kile sobre o nosso acordo, agora que eu havia descoberto a falência da família a prioridade não era mais voltar para Nova Iorque, e sim traçar um novo plano para que um dia eu realmente pudesse voltar lá, sem a fazenda e o dinheiro da família eu nunca mais poderia nem sonhar em pisar no solo sagrado da cidade que nunca dorme, mesmo que minha relação com Kile estivesse caminhando em bons trilhos e uma quase amizade estivesse prestes a crescer, o nosso acordo foi firmado, de qualquer maneira Kile iria me ajudar a voltar para Nova Iorque e devolver a tão sonhada paz de Woodstock, e para ser sincera, tenho certeza que isso não afetaria e nem mudaria nada na vida dele, esses anos todos eu estive longe e tudo aqui se manteve na santa paz de Deus, as coisas deveriam voltar para seus lugares e era isso que eu estava disposta a fazer, a qualquer custo eu iria salvar minha família e voltar para Nova Iorque, eu só não fazia ideia de como iria fazer isso, mas aí vovó se levantou para pegar mais um pote de biscoitos que ela havia feito ontem à tarde, deu para sentir o cheiro dos biscoitos assando enquanto eu pintava o celeiro com Kile, e ela em sua infinita bondade havia levado alguns biscoitos para nós dois lancharmos, olhei para ela abrindo o pote, e imediatamente uma luz se acendeu na minha cabeça.
— Vovó! — ela me olhou assustada. — Tenho uma ideia que pode nos ajudar! — continuei entusiasmada e percebi que havia captado a atenção de todos na sala. — Eu poderia vender alguns biscoitos na escola, poderíamos fazer o dobro de biscoitos e eu me responsabilizaria pela venda de metade e depois da escola iria para a feira com você vender o restante, isso iria ajudar a ter uma renda extra, sei que isso não vai salvar a fazenda mas já é alguma coisa não é? — ela olhou para o meu pai animada e com um sorriso no rosto, e quando olhei para o meu pai poderia jurar que vi um lampejo de orgulho em seus olhos.
— Apesar de gastar um pouco mais para a confecção dos biscoitos em mais quantidade, é uma ideia maravilhosa Rosie! — Katie falou entusiasmada e pela primeira vez não revirei os olhos após uma fala dela. Ela era administradora e com certeza sabia o que estava falando — Eu poderia ajudar!
— Eu acho que você teve uma ideia e tanto mocinha! — vovó falou se levantando e passando os dedos pelos meus cabelos, preferi deixá-los soltos hoje, apenas para combinar com o vestido vermelho que havia escolhido para o meu primeiro dia na escola. — Vou colocar os potinhos de biscoitos agora mesmo em uma cestinha para você levar, Daniel, não acha que Rosie foi esperta? — minha avó falou na tentativa de fazer o meu pai me elogiar pelo menos uma vez na vida.
— Sim Mary, Rosie foi bem esperta e inovadora — eu estava chocada, dois elogios em uma mesma sentença. — Com certeza herdou as habilidades da Sophie — ele falou e pude ver em seus olhos a tristeza ao tocar no nome da mamãe. Automaticamente me levantei, coloquei a mochila nas costas e peguei a cesta com os biscoitos da mão de minha avó.
— Ótimo. Agora precisamos ir. — falei apressadamente para mudar de assunto, se meu pai não gostava de falar dela, eu gostava muito menos lembrar dela com tristeza.
No caminho para a escola meu pai não falou uma palavra comigo, parecia que ele tentava me evitar ao máximo, o tempo todo, mesmo que um dia eu quisesse, não teria nem uma brecha para tentar ter alguma relação perto do que tínhamos antes, mas no momento, isso não importava.
Assim que coloquei os pés dentro da escola, todos me olharam surpresos. Que as pessoas daqui eram curiosas eu já sabia, mas não sabia que eram tão indiscretas, não sei se foi só porque Rosie Crawford estava de volta à escola desse fim de mundo, ou se o fato de eu estar carregando uma cesta cheia de potes de biscoitos amanteigados estava influenciando em alguma coisa, na verdade eu tinha certeza de que era um misto dos dois. Segui pelos corredores e parei um pouco colocando a cesta de biscoitos em um banquinho perto do pátio para poder pegar meus horários na mochila.
— Olá, vi que você está com essa cesta de biscoitos deliciosos que a dona Mary faz. — uma garota de cabelos castanhos e óculos com uma blusa da rainha má da branca de neve falou. — Está vendendo? — ela perguntou e com o silêncio que ficou no ar após a sua fala me toquei que ela estava falando comigo.
— Ah, oi. — comecei. — Sim, estou vendendo. — continuei um pouco envergonhada, era a primeira vez que eu precisava vender alguma coisa e não sabia nenhum pouquinho como fazer isso direito.
— Que falta de educação a minha. Me chamo Lavínia. — ela respondeu. — Lavínia Sanders. E queria um desses potinhos. — ela falou com um sorriso simpático no rosto.
— Sou Rosie Crawford, é um prazer Lavínia. — respondi não só para ser educada mas sim porque simpatizei com a garota. — Estou vendendo os biscoitos para a minha avó. — falei. — Custam três dólares.
— Só três dólares por esse sonho de biscoito? — ela falou animada estendendo a mão com o dinheiro para mim e eu ri enquanto pegava o dinheiro e entregava o biscoito pra ela.
— A propósito, você sabe me dizer onde fica a sala de gramática três? — perguntei quando finalmente me lembrei que teria aula daqui a cinco minutos.
— Claro! — ela respondeu. — Eu estou indo pra lá agora mesmo, me segue! — ela falou enquanto saia em direção a sala de aula, com seus cabelos voando, peguei a cesta e a segui. Entrei na sala e me sentei em uma carteira atrás da dela, se era pra terminar o ensino médio em Woodstock, não faria mal algum ter uma amiga, e pra falar a verdade, Lavínia era muito simpática e eu gostei dela.
Passei o dia todo seguindo Lavínia pelos corredores da Central High School, a garota era um pouco falante e pra ser bem sincera eu gostei disso, ter alguém para conversar nesse fim de mundo era muito bom, o tempo do almoço foi suficiente para Lavínia me contar toda a vida dela, morava com a mãe em Woodstock desde o ano passado, tinha a mesma idade que eu, gostava de gatos, de livros e da Taylor Swift. Depois do almoço ela me ajudou a vender todos os biscoitos e como o tempo que passamos juntas me ajudou a saber mais sobre ela, acabei descobrindo que na verdade nós somos muito parecidas e isso com certeza iria contribuir para o crescimento de uma amizade, no fundo eu sentia isso.
— Poderíamos tomar um café e comer uma torta da Dona Agnes. — ela falou assim que saímos da aula. — Por minha conta. — ela falou, provavelmente com pena de me fazer gastar o dinheiro que eu não posso gastar.
— Acho que é melhor eu não ir. Fiz uma bagunça lá ontem. — falei me lembrando da confusão com Carmen.
— Ah por favor Rosie, não seja tão imatura. — ela falou e eu arregalei os olhos. — Você não pode se dar por vencida por uma simples briga com torta. Aliás, adorei a maneira que você enfrentou aquela bruxa. — ela continuou e aí eu tive certeza de se seríamos boas amigas, ela tinha toda razão, eu não poderia me esconder das pessoas dessa cidade por conta disso.
— Então o que estamos esperando? — falei após mandar uma mensagem para o meu pai avisando, e depois puxando ela pelos portões da escola e seguindo para a lanchonete.
— Não estou querendo ser curiosa demais nem nada, mas como era a sua vida em Nova Iorque? — Lavínia falou assim que nos sentamos em uma mesa no canto.
— Minha vida era bem diferente. — comecei. — Garotos, festas, compras. A não ser por um natal quando eu e meu pai tivemos uma curta temporada de bem um com o outro. — continuei e ela se mostrava interessada em cada palavra minha. — Andamos a cavalo na cidade grande, um haras decidiu fazer um passeio para os moradores de Nova Iorque, você poderia ser levado em uma carroça com um dos funcionários conduzindo, ou andar você mesmo no cavalo que escolhesse.
— Nossa! Que legal, deve ter sido uma coisa e tanto para as pessoas de lá. — ela falou entusiasmada.
— É, foi sim. — falei com um sorriso nostálgico ao me lembrar dessa época.
— Sabe de uma coisa? — ela começou quando viu que eu tinha ficado meio sem assunto pela primeira vez no dia. — Você poderia ir na minha festa de aniversário hoje a noite.
— Ah meu Deus! — exclamei. — Hoje é o seu aniversário? Por que não me contou antes? Parabéns!
— Me desculpe, eu falo tanto que acabei esquecendo esse detalhe. — ela falou rindo. — Vai ser uma festa no celeiro! — ela explicou e eu fiquei meio apreensiva, o que diabos seria uma festa no celeiro?
— Uma festa no celeiro? — perguntei. — Como assim?
— Vestimos nossos melhores macacões e dançamos com os bichos da fazenda. — ela falou.
— Isso é sério? — falei sem acreditar no que estava ouvindo.
— Por que não passa lá para ver? — ela perguntou. — Além de ser o aniversário da sua mais nova amiga, é uma ótima maneira de conhecer gente nova, e além do mais, o que mais você teria para fazer? — ela tinha toda razão, eu não teria mais nada para fazer, e eu gostei da Lavínia, se ir ao aniversário dela era importante, eu iria.
— Tudo bem, eu vou. — falei. — Tome aqui metade do dinheiro para te ajudar a pagar a conta, temos que nos despedir agora, meu pai acabou de mandar uma mensagem dizendo que está me esperando, e mais importante ainda, eu preciso de uma roupa e de um presente para você.
— Não se incomode com isso — ela disse recusando o dinheiro, com certeza já sabia da minha condição financeira atual e quis ser legal. — E muito menos se incomode com presentes. — ela falou. — Só a sua presença já serve. Sabe Rosie, todos falam de você por ai, e na maioria das vezes não são só coisas boas, mas eles estão totalmente enganados, você é sim uma pessoa boa, e eu adorei conhecer você. — fiquei sem saber o que dizer após ouvir as palavras dela, era a primeira vez que alguém me via além da capa de garota má que eu criei.
— Muito obrigada Lavínia. — falei enquanto nos levantávamos, e dei um abraço nela. — Eu também adorei te conhecer.
Nos despedimos com dois beijinhos, um em cada lado do rosto e acenei para ela que agora pagava a conta, enquanto eu saia pela porta da lanchonete, para encontrar meu pai.
— Que bom que já fez amigos Rosie. — Katie falou assim que entrei no carro.
— Eu não fiz amigos Katie. — falei. — Não no plural. Foi apenas uma amiga, e a propósito, hoje é o aniversário dela, gostaria de perguntar ao senhor mal humor se eu poderia comparecer. — me dirigi ao meu pai que já havia acelerado o carro.
— Não sei não Rosie. — meu pai falou e automaticamente meu coração se despedaçou, eu queria muito ir a festa de Lavínia. — Você e festas não são a melhor combinação.
— Daniel, por favor, você que Rosie criasse raízes aqui novamente, ela está se esforçando, tem que dar um crédito a ela. — Katie falou e eu fiz uma cara de espanto, ela estava mesmo me defendendo? Ela queria se fazer de boazinha e me ajudar para me fazer gostar dela, muito espertinha, mas mesmo assim, não consegui conter um sorriso.
— Pelo menos alguém vê isso! — exclamei.
— Tudo bem então. — meu pai disse. — Mas quero saber quem é essa garota e quem são os pais dela.
— Ela falou que o sobrenome é Sanders. — respondi.
— Ah meu Deus! — meu pai exclamou! — Julie Sanders era a melhor amiga da sua mãe.
— Não, não pode ser. Só existe uma família Sanders em Woodstock? — falei incrédula. — Lavínia me falou que se mudou para cá no ano passado, como isso seria possível?
— Esqueceu que mora em uma cidade pequena agora? Sim só existe uma família Sanders em Woodstock. — ele começou. — Sophie e Julie cresceram juntas. — meu pai explicou. — Mas enquanto sua mãe foi fazer faculdade, Julie encontrou um cowboy e se mudou de Woodstock. Agora ela está de volta, e você conheceu a filha dela. Quanta coincidência. — ele falou enquanto colocava o cotovelo na janela aberta do carro.
— É o destino Rosie. — Katie falou, não me dei o trabalho de olhar para ela enquanto falávamos da minha mãe, mas ela parecia encantada com a história. — Vocês tinham mesmo que se encontrar e ser amigas.
— É, talvez. — falei em um tom desinteressado apenas para fingir que eu não estava explodindo de alegria com essa informação, nossas mães foram melhores amigas, e agora eu sabia que não foi por acaso que aquela garota maluquinha quis comprar meus biscoitos.
Quando cheguei em casa, procurei Kile por toda parte e não o encontrei em lugar algum, mas eu também não iria perguntar para vovó, e nem para qualquer outra pessoa onde ele estava, então passei o dia todo ajudando vovó com os biscoitos, e pensando em que roupa usar na festa.
Cheguei na festa de Lavínia vinte minutos depois do horário combinado, minha avó me ajudou a fazer uma trança embutida e eu vestia uma saia de couro preta, uma blusa preta com algumas lantejoulas coberta com uma jaqueta de couro, e claro, as botas que vovó me deu. A festa já estava bombando, ou qualquer outro adjetivo que eles usassem por aqui para dizer que a festa já estava começando a animar.
— Acho que estou muito arrumada não é? — falei assim que Lavínia veio me receber na porta do celeiro.
— Que parte de festa no celeiro você não entendeu? — Lavínia respondeu rindo.
— Em minha defesa — comecei. — É a minha primeira festa no celeiro.
Nós duas rimos enquanto pegávamos docinhos da mesa.
— Já que vamos ser melhores amigas, não vou te zoar por parecer uma cantora pop num celeiro — ela disse com um sorriso no rosto. — Porque se você ainda não sabe, nos conhecer e nos darmos bem foi um golpe bem dado do destino.
— Meu pai me contou. — falei entusiasmada. — Não acredito que nossas mães foram melhores amigas.
— Nem eu! É uma loucura. — ela falou. — Mas eu adoro loucuras.
— Nem preciso dizer nada né? — falei rindo enquanto ela me puxava pelo celeiro de braços dados comigo, finalmente ter uma amiga me fez começar a ver Woodstock de uma forma não tão horrível quanto eu via nos primeiros dias.
Havia um menino com chapéu de cowboy atrás de uma mesa de som tocando músicas country, luzinhas espalhadas por todo o celeiro, uma mesa para o bolo e comidinhas, e uma decoração totalmente rústica que eu estranhamente adorei. Todos os garotos usavam chapéus, e quase todas as garotas estavam de botas, looks típicos, vamos assim dizer.
— Então, quem é quem? — perguntei assim que nos misturamos com as outras pessoas.
— Aquela ali é a Brooke. — ela falou apontando para uma menina ruiva sentada com um copo de ponche na mão. — O DJ lá atrás é o Jeremy. E o resto deixo pra você escolher quem quer conhecer e quem não.
— Ah é? — falei rindo. — E porque me dizer só o nome de duas pessoas? — perguntei provocando.
— Brooke é minha prima, e Jeremy é um velho amigo. — ela respondeu e percebi que Jeremy na verdade era mais que isso.
— Você e o Jeremy já ficaram? — perguntei e percebi que o garoto olhava em nossa direção.
— O que? Não. — ela disse desconcertada. — Somos só amigos.
— Sei. — falei rindo e ela riu também enquanto olhava diretamente para Jeremy com certeza viajando em pensamentos. — Quer ir logo falar com ele? Está na cara que você quer.
— Está tão na cara assim? — ela respondeu quando saiu de seu devaneio.
— Só para os humanos. Os cavalos ainda não notaram. — falei rindo.
— Calada. — ela disse me empurrando e rindo.
— Vai logo! — encorajei.
— Está bem! — ela falou indo em direção ao garoto.
Observei Lavínia indo em direção a Jeremy por alguns segundos e depois caminhei até a mesa para pegar uma bebida. Peguei um copo vermelho de plástico e enchi com a bebida mais forte que achei, dei um gole e acabei me atrapalhando com o celular que carregava na mão e acabou caindo, me abaixei para pegar e bato a cabeça com tudo em alguém quando levanto, olho pra cima e dou de cara com Kile e sua camisa branca toda molhada com o ponche que derramei nele.
— Só podia ser você Rosie Crawford.
— Ah meu Deus! Me desculpa, eu não vi você aí.
— É. Eu percebi. — ele disse enquanto tentava limpar a camisa, e falhava miseravelmente.
— Você também não devia chegar como um fantasma do meu lado. — falei em minha defesa.
— Tem razão, não se deve chegar de mansinho perto de um furacão. — ele disse com uma expressão brincalhona demais para a situação.
— Como posso te ajudar? — perguntei com sinceridade, não queria estragar a noite de ninguém.
— Não se preocupa, acho que tenho alguma camisa no carro. — ele começou. — Dia de lavanderia.
— Você é muito sortudo. — falei. — Se fosse comigo eu só iria ter uma roupa limpa do outro lado do planeta. — ele riu.
— A sorte sempre anda ao meu lado. — ele disse olhando em meus olhos e eu tive a certeza que minhas bochechas estavam da mesma cor que um tomate. — Eu já volto. — ele falou e logo depois saiu pela porta do celeiro em direção ao carro. Como eu posso ser tão desastrada? Incrível como essas coisas só acontecem comigo. Olhei na direção de Lavínia e Jeremy, que havia colocado um substituto em seu lugar e agora dançava uma música lenta com Lavínia no que seria a pista de dança, ela percebeu que eu olhava para eles e deu um sorriso tímido. Eles formavam um casal lindo, ela com a pele morena e cabelos castanhos longos, e ele bronzeado, olhos cor de mel e cabelos castanhos bem cortados, olhando pros dois, eu já tinha criado uma fanfic inteira na minha cabeça. Olho para a porta e vejo Kile voltando com uma camisa vermelha novinha em folha. Ele sorri pra mim e abre os braços como alguém que diz "Está vendo? Eu sempre dou um jeito." Sorrio de volta e ficamos nos olhando por alguns segundos até alguém ficar na frente e tampar o campo de visão.
— Quer dançar? — um garoto de cabelos pretos e chapéu marrom brota do chão na minha frente e fala.
— Hã... — falo surpresa e sem saber o que dizer. — Na verdade... — ah meu Deus, eu não sei como enrolar o garoto sem ser grossa e dizer que não quero, e é aí que vejo Kile se aproximando como quem me procurava. — Ah! Até que enfim. Estava te procurando por toda parte! — falo para Kile e vejo que ele se concentra para não ter uma crise de risos.
— Estava cuidando daquele assunto. Você sabe. — ele fala entre risos e o garoto nos olha desentendido e sai sem dizer nada. — E ele se foi. — Kile diz rindo.
— Salvou a pátria. Obrigada.
— Sei que não parece grande coisa, mas... Quer dançar? — ele pergunta e eu automaticamente arregalo os olhos. — Pelo menos para fingir que não somos dois péssimos mentirosos.
Eu rio com as bochechas provavelmente coradas e demoro um pouco para responder. Kile queria mesmo só fingir ou estava inventando desculpas para dançar comigo? Olho pra ele e vejo que suas sobrancelhas estão arqueadas esperando uma resposta.
— Adoraria dançar. — falo com um sorriso no rosto e com estranhas borboletas na barriga.
Kile pega a minha mão e assim que colocamos os pés na pista de dança ele faz uma gracinha me rodopiando e passando os braços por cima de mim antes dos nossos corpos se encaixarem e nós dois cairmos na gargalhada. Ele segura a minha cintura com mãos firmes enquanto eu seguro sua mão. Começa a tocar Beautiful Crazy do cantor country Luke Combs que eu estranhamente sei o nome porque escutei na rádio outro dia com vovó e ela disse que gostava muito.
— Onde você estava hoje? — perguntei quebrando o gelo enquanto ainda dançávamos.
— Tive que resolver umas coisas com a minha mãe. — ele respondeu. — Por que? Estava com saudades?
— Claro que não seu idiota. — falei soltando a mão dele para dar um tapinha em seu ombro. — Temos que conversar sobre o nosso acordo já que tudo mudou agora que descobri a falência.
— Tem razão. — ele falou. — Mas vamos deixar isso pra depois, eu já passo muito tempo na fazenda da sua avó. — ele diz brincando e percebo que realmente não tem nada a ver falar disso agora.
— Já foi para Nova Iorque? — pergunto apenas para mudar de assunto.
— Não. — ele fala meio sem entender a minha pergunta.
— Já teve vontade de ir para Nova Iorque? — reformulei a pergunta e percebi que deveria ter mudado de assunto já que esse com certeza não ia fluir.
— Você tá querendo me levar ou o que? — ele respondeu rindo.
— Ninguém disse isso. — falei entre risos.
— Bom, se você me levar, eu irei à Nova Iorque. — nós dois rimos e continuamos a dança calados, Kile fez a gracinha de me rodopiar mais umas duas vezes e nós apenas nos olhamos e rimos. Olhei para o lado e Lavínia havia se sentado com Jeremy em um dos banquinhos rústicos com luzinhas ao redor, ele havia passado o braço disfarçadamente pelo ombro dela e os dois conversavam bastante, ela me olhou e deu uma piscadela.
— Então, é assim que é uma festa no celeiro? — pergunto quando a música acaba e Kile me conduz até a parte menos movimentada da festa, e percebo que quase todo mundo já estava se dissipando e a festa estava praticamente no fim.
— Acho que sim. — ele responde. — Não vou a muitas festas para saber dizer com certeza.
— Está brincando comigo. — falei rindo e fazendo uma cara de desentendida. — Achei que fosse sempre.
Ele apenas dá de ombros e faz uma cara estranha. Ok. Entendi que Kile Campbell não é muito fã de festas.
— Bom.. É legal. — admito.
— Para uma garota da cidade grande, até que você não é tão ruim. — ele diz sarcasticamente.
Dou um peteleco no chapéu dele.
— Ia dizer a mesma coisa de um caipira como você.
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