Notas iniciais
Espero que me perdoem por essa demora toda! Estava muito atolada de coisas da faculdade, enfim, aqui estou, espero que gostem! ♥

Woodstock até seria uma cidade legal, bem legal mesmo, mas só se eu ainda fosse aquela garotinha interiorana, se o meu pai não fosse um completo idiota, e o câncer e a maldita Katie não existissem. Eu odeio tudo isso, odeio, odeio todo esse mato ao meu redor, odeio essa estrada cheia de curvas, a música country idiota que meu pai pôs pra tocar, odeio a ridícula da Katie tentando cantar a música sem saber a letra só pra impressionar meu pai, odeio o sorriso imbecil dos dois ao olhar no retrovisor da BMW e ver os malditos caminhões com a nossa mudança, eu sinceramente não sei o que passa na cabeça oca da minha avó pra aceitar isso, onde já se viu? A nova namorada do genro dela morar na fazenda que era o lugar mais importante para a filha mais nova dela, isso é uma completa falta de juízo, desde que avisei Margo dessa tragédia e entrei nesse carro, rezo para que o verdadeiro plano da vovó seja colocar essa demônia Katie junto das vacas no curral. Vovó sempre foi uma pessoa super positiva e aberta, apesar de ter se separado do meu avô ainda bem jovem e ver minha mãe ser levada por uma doença maldita, minha avó sempre foi uma mulher forte, e nunca abaixou a cabeça pra nada, admiro muito isso nela, mas a maior qualidade de minha avó é a justiça, ela sempre é justa com as pessoas, apesar das situações, e isso com certeza vai ser um problema pra mim, já vejo ela dizendo o quanto o meu pai tem o direito de ser feliz, mesmo que não seja com a minha mãe e mesmo eu não gostando disso, não que eu queira que meu pai seja infeliz, pelo contrario, eu só queria que ele aceitasse as coisas como são e me incluísse na felicidade dele. Mas, colocando a minha coroa de rainha do drama de lado (por enquanto), confesso que já tentei fazer uma lista mental dos pontos positivos nessa mudança repentina, e o resultado foi: nada. Absolutamente nada. Não vejo nada como ponto positivo em voltar a morar na fazenda da vovó.

— Quantos malditos quilômetros ainda faltam? — cuspi friamente

— Fica quieta e curte a música Rosie! — Katie anunciou sem nenhum tom de maldade, mas não foi isso que meu cérebro processou.

— Desde quando essa vagabunda acha que pode me mandar fazer alguma coisa? — falei me dirigindo a meu pai e a ignorando. Imediatamente dois rostos furiosos me olharam.

— Se não se lembrar dos bons modos e do respeito que tinha pelos mais velhos nos próximos cinco segundos eu te deixo aqui mesmo. — meu pai falou sério. Recoloquei os fones de ouvido e voltei a olhar para os campos de milho e outras porcarias que beiravam a estrada até o infinito. Pareceram horas, mas o relógio afirmava que só haviam se passado meia hora desde que levei a última bronca de meu pai. O sol já estava se pondo ao oeste. Tudo estava exatamente como a quatro anos atrás. A casa grande branca, com colunas de ferro azuis e espirais em forma de flores, as árvores ficaram maiores com o passar do tempo e beiravam toda a varanda casa de minha avó, que nos esperava sentada em uma cadeira de balanço na enorme varanda decorada com todos os tipos de flores imagináveis. Meu pai e Katie fizeram a frente e cumprimentaram vovó. Papai falou com uma animação considerada normal para duas pessoas que já se conheciam há tempos e Katie, idiota como sempre, cumprimentou minha avó como se elas fossem melhores amigas desde a vida passada, sendo que era a primeira vez que elas se viam. Uma coisa é certa, ou Katie gostava mesmo do meu pai, ou o dinheiro dele era mesmo muito valioso pra ela, pois mudar de vida, de cidade, largar tudo em Nova Iorque pra morar numa fazenda com o namorado, sem sombra de dúvida é coisa de gente que não gira bem. Desci do carro com a famosa cara de paisagem, as folhas secas no chão estalavam na sola da minha sapatilha delicada a cada passo meu.

— Ai meu Deus!!! Como ela está linda! E crescida. — vovó falou entusiasmada, usando o ela como se eu não estivesse ali. Ela me abraçou com força e eu retribuí, a saudade que eu tinha dela era enorme, e ela não tem culpa de nada, é só a minha avó, a velha e doce Vovó Mary, não era culpa dela minha mãe ter morrido cedo demais, meu pai ter enlouquecido, e não era culpa dela se Katie não tinha noção ao decidir vir morar aqui. Não é que eu odeie essa fazenda, eu odeio mesmo é o fato de ter que morar aqui sem a minha mãe, e ainda por cima com a maldita Katie. Disse baixinho um "obrigada vovó, você está ótima" e me sentei na cadeira mais próxima.

— Vou esperar aqui enquanto vocês arrumam a vidinha perfeita de vocês. — falei colocando os dois braços atrás da cabeça e fazendo carão. Katie soltou umas risadinhas baixinho e logo quando eu iria perguntar que graça tinha papai começou:

— Se você pensa que se mudou de volta pra cá pra continuar sendo mimada, egoísta e paparicada sem fazer nada, está muito enganada mocinha, levanta essa bunda daí, pegue suas malas, suba até o seu antigo quarto, e nem vou falar pra dormir cedo, já que aqui você vai ficar sem internet. Amanhã você começa a ajudar nas tarefas diárias da fazenda. E só depois poderá arrumar suas coisas no quarto.

Antes mesmo que eu pudesse pensar em protestar, vovó colocou uma das mãos em meu ombro e apertou. Eu sabia o que significava: Cale a boca e obedeça. Passei reto pelo casal vinte, peguei minha mala e subi as escadas emburrada. Joguei a mala no chão e me deitei na antiga cama que rangia acada movimento meu. O quarto estava o mesmo. A janela enorme que tinha a vista coberta por um ipê roxo. O assento abaixo da janela continuava impecável no espaço entre as paredes. A penteadeira antiga que era de minha mãe foi colocada na parede ao lado direito da janela. Algumas prateleiras de livros estavam cobertas de poeira, uma câmera polaroide fazia volume em cima de uma das prateleiras, coberta com poeira e provavelmente alguns insetos mortos. Levantei pra pegar um cobertor na mala e me deparei com uma foto em um porta retrato em cima da cômoda velha de madeira. Na foto se via meu pai, e minha mãe, felizes, vendo o por do sol. Segurei uma lágrima e coloquei a foto virada pra baixo. Um ruído estranho soou pelo quarto assim que me deitei novamente na cama, que assim como a de Nova Iorque, também tinha colunas e uma cortina rosa de borboletas por cima. Mexi a cabeça no travesseiro e tentei não imaginar o que meu pai e Katie estariam fazendo no quarto de cima. Meus pensamentos voltaram a Nova Iorque, que é o meu lugar. Não aqui. E se tem uma coisa que eu vou fazer, essa coisa é convencer meu pai que as minhas origens ainda estão aqui em algum lugar dentro de mim, mesmo que no fundo não estejam. Eu tenho que escapar desse lugar, e antes que o verão acabe eu vou conseguir.

As cinco da manhã, um maldito galo inventou de cantar no galho do meu ipê roxo, olhei para o sol ainda nascendo e me perguntei se isso realmente estava acontecendo. Demorei alguns minutos para me tocar que eu tinha menos de quatro meses para salvar a minha pele. Saltei da cama e vi que as minhas coisas já haviam sido colocadas no quarto, desisti da ideia de arrumar tudo e procurei a roupa mais caipira que eu teria em meio a tantas outras. Tomei um banho quente, penteei os cabelos e os prendi em uma trança embutida. Passei um pouco de rímel e um batom de cor nude, se meu pai reclamasse de maquiagem, com certeza estaria exagerando. Desci as escadas com meu macacão jeans de calça, uma blusa xadrez vermelha e branca e umas botas pretas que vinham somente até o tornozelo, eu não poderia estar mais caipira. Quando pus os pés na cozinha enorme e cheia de coisas, avistei papai com um chapéu de couro, botas, e Katie na garupa de um dos seus cavalos favoritos, e sim, Katie também usava um maldito chapéu. Vovó me esperava sentada em uma das enormes cadeiras de madeira maciça tricotando alguma coisa com uma lã amarela.

— Bom dia! — vovó falou animada — Senta aqui, estava te esperando pra tomar café.

— Que gentileza vó — falei com um sorrisinho. Tomamos café juntas, colhemos verduras e legumes da horta para o almoço, tiramos leite de uma vaca para fazer um doce de sobremesa e finalmente voltamos à cozinha. Enquanto Katie voltava de seu passeio romântico e papai me fuzilava com o olhar enquanto vovó lavava a louça pra mim. Ele fez sinal para mim e entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Fui ao encontro dele pronta pra mais uma bronca.

— Tá, já sei. Eu deveria estar lavando a louça. Mas antes de qualquer coisa, vovó que insistiu.

— Se esforce mais. — ele cuspiu, e quando eu finalmente tinha passe livre para voltar para os braços protetores da vovó papai me chamou novamente — Antes vá no celeiro e pegue dois pares de ferraduras em uma daquelas caixas. Black Jack precisa de novas.

Fui pisando fundo até o celeiro pintado de vermelho que fica à uns vinte passos do curral onde ordenhamos a vaca. Peguei as ferraduras e ao cruzar o caminho da porta bati com tudo em alguém.

— Ai! — uma voz masculina falou. E quando finalmente meus olhos recuperaram o foco pude ver bem ali na minha frente, cabelos loiros por baixo de um chapéu de couro, olhos azuis, maçãs do rosto avermelhadas, uma fivela enorme no cinto, e botas de couro de segunda mão. Kyle Campbell. Minha antiga paixão platônica, mas para todos os defeitos, meu melhor amigo de infância.

— Bom dia, Flor do dia! — ele falou assim que levantei e comecei a limpar o feno das pernas. Dei uma risada sem graça. Ninguém nunca mais tinha me chamado assim. — Você está maravilhosa — ele falou em tom de brincadeira — Já superou aquela quedinha por mim?

— Arrrg! — bufei — Fica longe de mim Kyle, eu to falando sério, finge que eu não to aqui. — cuspi e ele riu de lado. Acho que a resposta certa depois de encontrá-lo assim e deixar todas as lembranças virem a tona era: Não, não superei. Balancei a cabeça pros lados, revirei os olhos e joguei uma das ferraduras no pé desse maldito Kyle. Os pais dele trabalhavam para a minha avó desde que me entendo por gente, mas eu sinceramente não esperava vê-lo aqui. Enquanto ele pulava para tentar amenizar a dor, eu sai o mais rápido possível dali e fui ao encontro de papai.

— Cadê a quarta? ele perguntou assim que percebeu a falta.

— Está aqui! -Kyle gritou alguns metros atrás de mim. Ele passou por mim e parou ao lado de meu pai com um sorriso sarcástico no rosto. — Quer ajuda? — ele disse olhando pra mim com um tom provocativo.

E aí eu tive a certeza, esse vai ser um longo verão.

Notas finais
Me contem o que acharam, e o que vocês querem que aconteça nos próximos capítulos!