Antes que novembro acabe...
15 Catorze - Uma vez amigos, sempre amigos.
Notas iniciais
Catorze – Uma vez amigos, sempre amigos.
Pelo canto de olho vi Kate se encostar no armário ao meu lado esquerdo, ela cruzou os braços e olhou pro corredor. Eu tratei de guardar os livros no meu armário e enquanto fazia isso, ela decidiu falar:
– O que vai fazer durante a tarde?
– Hum... Estudar? – soltei sem olhar pra ela. Fechei o zíper da minha mochila e depois tranquei o armário.
– Céus, você é tão nerd! – exclamou sorrindo.
– Tudo bem. – me virei para olhá-la. – O que você está planejando?
Conhecia Kate desde o primário. Sempre frequentamos as mesmas escolas internas. Ela foi a primeira amiga que fiz e logo depois dela vieram Daniel e Derek, os gêmeos mais nerds que eu já conheci e mais malucos também. Juntos, nos éramos o quarteto de ouro da escola antiga. Arrasávamos com notas altas e com nossa mesada super alta. Mas esse tipo de coisa parece que aconteceu em uma outra vida.
Observei o sorriso de Kate se alargar mais um pouco.
– Que tal saímos para conhecer a cidade? Eu, você e a turma inteira? Você pode nos mostrar como as coisas funcionam por aqui, o que tem de legal, o seu lugar favorito, sei lá... Vamos apenas sair juntos como nos velhos tempos.
Eu sabia que ela estava com saudade, afinal eu também estava. E parecia um pedido tão simples. Gazetear aula pra matar a saudade, em nome dos velhos tempos. Ponderei aquilo. Eu merecia, certo? Minha vida estava uma bosta e se não fosse pela presença inesperada de Kate, Daniel, Derek e até mesmo Bianca, eu ainda estaria no limbo total. E afinal, ninguém me queria naquela escola mesmo, todos pareciam me odiar ou sentir pena de mim e esses dois sentimentos eram tão piores quanto a invisibilidade que eu vivia. Mas havia Will. Havia a Dr. Martha. Essas duas pessoas eram as únicas que ainda me mostravam que eu existia e que minha vida social não era um fracasso total.
Sorri pra Kate.
– Tudo bem.
– Ah. Obrigada. Obrigada. – ela ergueu os braços e me abraçou ali mesmo, apertado e com a sua risada fazendo cocegas na minha orelha. Abracei de volta.
Nesse momento Will passou por mim no corredor e peguei o seu olhar irritado pra cima de mim, mas ele parecia está focando seu olhar em Kate, não em mim. Decidi ignorar isso.
– Eita. Qual o motivo da comemoração? – Derek chegou até nós e foi logo perguntando.
Ele tinha penteado seu cabelo claro para o lado, o que o deixava com uma aparência de garoto comportado. Daniel ao seu lado estava do jeito desleixado de sempre, o cabelo bagunçado e a gola da camisa amarrotada. Era apenas assim que era possível diferenciar os gêmeos: Derek era o vaidoso e estava sempre arrumado enquanto Daniel era o desleixado, que tinha uma seria dificuldade em combinar roupas.
Kate me largou e tratou de explicar o motivo aos dois:
– Vamos gazetear aula. – sempre direta.
– Aê. Finalmente um pouco de adrenalina. – Daniel se pronunciou. – Mas só depois do lanche, ne?
– Não seja um esfomeado, Daniel. – Bianca surgiu por trás de mim. – Oi, Noah.
– Oi, Bianca. – cumprimentei.
– Qual é, Bi. Você já provou o empanado daqui? É incrível! – e os olhos esverdeados dele brilharam ao passo que os olhos do irmão reviraram.
– Então, o que tanto vocês sussurram aqui? – a garota perguntou se dirigindo a mim.
Mas antes que eu abrisse a boca para responder, Will apareceu. Ele caminhou meio hesitante na minha direção, parou ao lado de Bianca e simplesmente sorriu pra mim e foi impossível não sorrir de volta.
– Oi. – falei e eu estava plenamente consciente de todos os meus amigos olhando para o loiro.
– Oi. – disse pra mim. – Preciso falar com você.
– Agora? – soltei diante do rosto sério de Will e olhei de relance para a minha turma, peguei os olhos de Kate se apertarem pra cima de mim como se uma ideia estivesse se formando na sua cabecinha castanha.
– Se possível, sim. Ou você está ocupado demais com seus amiguinhos? – e de novo aquela irritação se fez presente nele. O loiro até mesmo cruzou os braços.
E por algum motivo me senti extremamente desconcertado como se eu estivesse fazendo alguma coisa de errado.
– Er... – me virei para meus amigos. – Eu vejo vocês na hora do lanche, tenho que ir ali agora. – e dei um passo pra longe deles, coloquei a mão na nuca enquanto fazia isso.
Kate ainda estava me olhando desconfiada. Mas Derek e Daniel assentiram e Bianca apenas me lançou um olhar confuso, ela ainda parecia estar tentando entender o que estava acontecendo. Eu não podia culpa-la quando nem eu estava entendendo. Me afastei deles com um Will muito satisfeito ao meu lado. Entramos na biblioteca, ele me guiou até o fim da mesma, paramos no espaço entra a última prateleira e a parede. O cheiro de livros velhos inundando meu olfato, mas acima disso havia o cheiro da colônia de Will.
– Então, o que é? – perguntei cruzando os braços e me surpreendi com o jeito emburrado que estava.
– Isso. – então ele simplesmente deu um passo em minha direção, me segurou pelos ombros e me beijou.
Sua boca tocou a minha e eu fiquei tão assustado com isso, que simplesmente me afastei. Dei um passo pra trás, minhas costas bateram na parede e peguei o olhar azul surpreso e constrangido por trás das lentes do óculos.
– E-eu... – e foi a primeira que eu ouvia Will gaguejar. – Me desculpe. Eu só achei... Desculpa. – baixou o olhar, ficou de costas pra mim como se não suportasse o fato de eu ter me afastado dele.
Fechei os olhos, virei de frente para a parede, encostei minha testa na superfície de alvenaria e respirei fundo, numa tentativa de acalmar minha mente e meu coração. Que droga acabou de acontecer?! Minha mente gritou, ao passo que respondi: Ele me beijou. Depois de quase um mês, ele simplesmente me arrastou para a biblioteca e roubou um beijo meu. E subitamente, eu estava sorrindo e tocando meus lábios como se não pudesse acreditar que ele tivesse mesmo feito aquilo. Depois de quase um mês, ele simplesmente...
Porra, Will! Logo agora quando eu já estava apreciando sua companhia como amigo, quando as coisas entre nós estavam caminhando para uma amizade, quando paramos de brigar e começamos a nos entender, logo agora que encontramos assuntos em comum, manias em comum, gostos em comum. Por que você tem que me beijar, assim do nada e deixar minha cabeça confusa de novo? Eu já nem pensava tanto naqueles outros beijos, eu até estava afastando a confusão que você causa.
Me desencostei da parede, virei de frente pra ele, mas ele ainda estava de costas pra mim. Os ombros baixos e cabeça seguindo o mesmo exemplo.
– Will. – chamei.
– Sim? – disse baixinho, a voz frágil demais.
Fui até ele com passos cautelosos, toquei-lhe o ombro e ele olhou pra mim. Parecia realmente arrependido de ter roubado um beijo meu. Sorri pra ele, para mostrar que estava tudo bem, que eu não estava chateado. Que isso não ia estragar nossa amizade. São só beijos, afinal.
– Está tudo bem. – falei.
– Está perdoando minha burrice?
– Estou dizendo que está tudo bem.
– Você não é fácil, não é mesmo? – recobrou a sua presença de espirito.
– Nem um pouco. – sorri.
Encostei minhas costas na prateleira de livros e cruzei os braços. Will fez o mesmo. Ficamos um tempo em silêncio, fitando a parede lisa a nossa frente. Eu pensando sobre o que ele fizera e ele todo sério, parecendo estar a anos-luz daqui. Ele estava tão bonito daquele jeito, o cabelo loiro meio bagunçado e o primeiro botão da camisa aberto, os óculos perfeitamente alinhados no rosto, o azul dos olhos parecendo mais azul do que nunca e o rosto sério, quieto e sem expressão alguma. Olhar para Will ali era como olhar para uma escultura, tão bonita e tão fria, sem vida alguma. Mas ele tinha vida e tudo nele exalava calor, desde o jeito descontraído que ele sempre sorria pra mim ao jeito irritado que ele ficava quando eu o tirava do sério com alfinetadas.
Eu gostava desse garoto. Não sei como aconteceu e nem saberia explicar por que aconteceu. Era apenas um sentimento que estava aqui, permanece aqui e parece não querer sair daqui. Se eu contasse a ele sobre isso, aposto que Will ficaria mais convencido do que já é. No entanto, como eu posso guardar isso pra mim? Essa coisa leve e que me deixa risonho o tempo inteiro? Deve existir alguma lei contra esconder sentimentos tão preciosos como esse. E além do mais se eu não posso compartilhar isso com o causador disso com quem mais posso compartilhar?
São só beijos, afinal. Sim, eu realmente pensei que eram só beijos, que eram só experiências e curiosidade da parte dele. Imprudências, da minha... Deviam ser só beijos pra ele, não é? Só curiosidade.
– Will. – chamei e ele me olhou prontamente e quando seus olhos caíram sobre mim, não fui capaz de verbalizar o que estava pensando.
Meu plano era perguntar porque ele me beijou, se sentia alguma coisa ou não. Mas a coragem me abandonou assim que fitei seus olhos. Eu não aguentaria a verdade. Então em vez de dizer qualquer coisa, eu segurei o seu rosto e o beijei. No começo ele pareceu surpreso e achei que ele fosse me empurrar, mas ele não o fez. Will passou os braços a minha volta e me trouxe pra mais perto e logo sua língua estava na minha boca e nada mais importava.
Eram só beijos, afinal. O quão ruim pode ser isso quando as duas partes querem isso?
– Quer conhecer meus amigos? – perguntei quando nos separamos, minha testa encostada na dele e os braços dele ainda em volta de mim.
– Seria um prazer. – ele respondeu e voltou a me beijar, sorrir contra seus lábios.
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– Esse é o Will, galera. – apresentei-o ao meu grupo. – E Will esses são meus amigos de Los Angeles. Kate. – ela acenou pra ele. – Daniel e Derek.
– Eu sou o Derek e ele é o Daniel. – Derek se apressou em dizer.
– E Bianca. – terminei, dizendo o nome dela com cuidado. E a loira assentiu brevemente pra Will.
Então nos sentamos. Will ao meu lado esquerdo e Bianca ao meu lado direito, a nossa frente Kate, Daniel e Derek, respectivamente.
– Eu acho que te conheço. – Kate comentou e avaliou bem o rosto do loiro. – Você fez algum comercial de TV...?
– Não. – Will respondeu e comeu um pedaço do bolo de cenoura que tinha pegado.
Mas então eu lembrei.
– Ele tem um blog. Talvez você tenha visto algum vídeo dele por aí. – falei.
– Ah. Lembrei! – ela bateu a palma da mão na testa. – Você é o garoto das doações, não é?
– São para as crianças do orfanato e para o abrigo de animais. – o loiro falou.
– Orfanato? – Bianca disse.
– Will é voluntario em um orfanato e no abrigo de animais. – falei e tive vontade sorrir tamanho era o orgulho empregado em cada palavra que eu dizia sobre ele.
Quando foi que eu comecei a admirar William Moore?
– Que trabalho legal, cara. – Derek se pronunciou depois de lançar um olhar estranho pra mim. – Todo o ano mamãe nos faz doar coisas para o abrigo em LA.
– É verdade, — Daniel disse. – e Derek costuma ter muitas coisas pra doar. Não é?
O irmão revirou os olhos.
– Ainda está chateado com aquilo?
– É claro que eu ainda estou chateado com aquilo! – se irritou. – Você doou todas as minhas roupas sem a minha permissão!
– Qual é, Dan. Eu te fiz um favor. Suas roupas eram horríveis.
– Ah, cala a boca. – resmungou e ignorou o irmão completamente.
Balancei a cabeça meio sorrindo meio compartilhando do sentimento de irritação de Dan.
– Eles são sempre assim? — Will me sussurrou divertido enquanto Derek ainda estava tentando falar com Dan, mas o irmão permanecia quieto, fingindo que o gêmeo não existia.
– Alguns dias são bem piores. – sussurrei de volta.
– Will! – alguém chamou e todos viramos nossas cabeças em direção a voz como se todos nós atendêssemos por Will. Mas quem chamará era uma garota, ela se apressou em chegar na nossa mesa. Parou ao lado de Will e foi logo despejando. – Quero que saiba que a culpa não foi minha! – se defendeu e vi Will ficar muito sério.
– O que aconteceu? – ele perguntou.
Foi só quando ela estendeu a Will o jornal da escola que percebi que ela estava segurando algo. Vi o loiro pegar o jornal da mão dela e passar os olhos sobre o texto.
– Mas o que... – ele se pôs de pé, olhou para nós. – Desculpa, vou ter que ir agora. Foi um prazer conhece-los. – apertou o jornal na mão e nos deu as costas e ainda pude escutar ele dizer a garota na medida que se afastava. – Como isso aconteceu? Vocês surtaram?
Então ele se foi.
– Nossa! – Bianca comentou. – Ele é tão educado, parece aqueles personagens do século 19.
– E muito bonito também. – Kate disse e se abanou com a mão direita. – Parece tão inteligente, não é?
– Parem com isso. – Daniel disse. – Deixe para exaltar a beleza de homens quando não estivermos presentes.
– Ninguém merece ouvir esse tipo de coisa. – Derek concordou.
Eu apenas fiquei quieto. Não sabia o que dizer. Tudo que eu estava sentindo era um grande incomodo por elas estarem falando de Will desse jeito, como se ele pertencesse a elas. Isso me deixou meio irritado.
Mas como se não tivessem escutado o protesto dos gêmeos, elas continuaram.
– E que olhos! – Bianca suspirou. – Tão azuis.
– Ele fica um charme com aquele óculos... – Kate suspirou também.
Rolei os olhos e tomei um grande gole do meu suco.
– Ele tem namorada? – Bianca perguntou subitamente, segurando meu braço e Kate parecia tão avida pela resposta quanto a loira.
– É bom saber que vocês nos levam a sério. – Derek resmungou e espetou seu bolo com o garfo.
Kate revirou os olhos com isso e depois os focou em mim. Fiquei tão surpreso com a minha introdução no assunto que me afastei de Bianca. Uma hora elas estavam exaltando as qualidades de Will e agora estavam perguntando de mim se ele tinha namorada. Uma parte minha quis confessar que minutos atrás estávamos nos beijando na biblioteca para mostrar a elas que Will não queria nada com garotas. Mas a parte minha, que era amigo daquelas duas resolveu responder alguma coisa legal:
– Eu não sei. – acabei dizendo.
E me peguei pensando que eu não sabia se Will tinha alguém ou não. Nós nunca conversávamos sobre relacionamentos, garotas ou garotos. Esse era o tipo de assunto que evitávamos porque ele sempre acabava puxando o episódio do beijo e eu nunca sabia como reagir quando isso acontecia e nem Will parecia saber como reagir, ficávamos ambos constrangidos com isso. Mas será que ele tinha uma namorada? Ou um namorado fora da escola? Será que ele e Emma...? Não, não parecia que ele e Emma tivessem alguma coisa. O jeito como eles se comportavam perto um do outro mostrava que existia só sentimento fraternal ali.
– Ahhh. – Kate resmungou.
E ao longe a campainha tocou encerrando o intervalo e nunca fiquei tão grato por escutar esse barulho irritante.
– Vamos, vamos garotas e Noah. – Daniel se apressou em dizer e já estava de pé junto de Derek. – Está na hora da fuga.
Sorri ao me lembrar desse detalhe e logo estava de pé juntos deles. As garotas seguiram o nosso exemplo e logo estávamos os cinco pulando o muro da escola e caindo fora dali. As garotas riam durante o caminho e os gêmeos faziam piadas. Eu os levei pela cidade, mostrei os lugares que conhecia. Mostrei onde ficava o Publix e logo tratamos de fazer algumas compras. Kate teve a ideia de comprar mantimentos para fazer um piquenique e todos concordaram. E entre Coca-Cola e doces e salgados nós rimos e lembramos velhas histórias.
Bianca se encarregou de tirar fotos nossas com o seu celular. Foram muitas selfies e poses malucas. Era tão bom estar com eles novamente, era como se eu nunca tivesse saído de Los Angeles.
– Onde vocês estão hospedados? – perguntei.
– Num hotel no centro da cidade. – Daniel respondeu. – A nossa escola é quem está pagando.
– Saudade de lá. – pensei alto e peguei um pedaço de grama entre os dedos.
Tínhamos encontrado esse bosque abandonado durante o passei o guiado que eu os oferecia. A verdade foi que acabei fazendo a gente se perder e encontramos esse bosque enquanto tentávamos voltar pelo caminho que viemos. Mas até que aqui era agradável, sem ninguém para atrapalhar a nossa confraternização.
– Você podia voltar, sabe. – Derek disse e percebi que ele realmente queria isso. – Podia morar com a sua vó.
– Gosto de morar com meu pai. – confessei.
Mesmo que estejamos passando por uma fase ruim.
– Sem chance dele voltar? – Kate perguntou.
– Zero. – falei.
– Ei, gente! – Daniel chamou ao longe, olhamos pra onde ele estava. – Precisam ver isso.
– Venham! – Bianca exclamou.
Ela e Dan tinham ido explorar o bosque e pelo jeito que eles pareciam animados, tinham encontrado algo bacana. Nos levantamos da grama. Espanei minha calça jeans com as mãos, numa tentativa de tirar a sujeira. Derek e Kate fizeram a mesma coisa e logo estávamos indo na direção que Dan e Bi tinham ido. Nos movemos por entre as árvores e todo aquele mato. Mas assim logo esse caminho se abriu e nos vimos, os três, encarando um lago.
Ele era pequeno se comparado a outros lagos, mas ainda assim era uma graça com a água límpida e lisa como um espelho e na beira dele, se encontravam Bianca e Daniel. Eles já estavam tirando as roupas.
– O que estão fazendo? – perguntei.
– Ué, vamos dá um mergulho. – ele respondeu.
– Boa ideia. Está um calor desgraçado aqui. – Derek concordou e começou a tirar a camisa.
Bianca já estava de sutiã e calcinha e foi a primeira a pular no lago.
– Uau. – ela ofegou quando emergiu. – A água está deliciosa.
Daniel foi o segundo a cair na água seguido de Derek. Kate ao ver os amigos curtindo o lago se apressou em tirar a roupa e comecei a fazer o mesmo.
– Quem chegar por último é a mulher do padre! – falei rindo e corri a frente dela.
– Ei! – reclamou, mas eu já estava pulando no lago com os gritos de comemoração dos meus amigos a minha volta.
A água estava deliciosa do jeito que Bianca dissera. Mas assim que emergi, Kate me empurrou de volta para a água.
– Isso é por ter trapaceado. – ela disse, mas não parecia nem um pouco brava. – Seu puto. – xingou e eu empurrei a cabeça dela pra dentro da água. E quando ela voltou, ofegante, me deu uns tapas sem força no peito enquanto eu me acabava de rir dos seus olhos arregalados e da boca aberta.
Ficamos ainda muito tempo naquele lago, rindo e disputando quem ficava mais tempo submerso. Nesse quesito quem ganhou foi o Derek. Depois inventamos de brincar de quem nadava mais rápido e nesse me orgulho em dizer que ganhei. Fizemos disputas do salto mais artístico, que tinham eu e Daniel com juízes, e nesse quem ganhou foi Bianca com a sua bela performance “Bola de canhão”. Daniel propôs que fizemos disputa de rinha, onde Kate sentou nos meus ombros e Bianca nos ombros de Daniel e elas lutavam, a primeira a cair perdia. Derek era o nosso juiz. E nessa brincadeira teve empate.
Por fim, ficamos boiando naquele lago, observando o céu e criando imagens com as nuvens. Conversando sobre coisas aleatórias, ou só ficando em silêncio.
– Não quero que vocês vão embora. – falei boiando no lago depois que ficamos tempo demais em silêncio e ao longe o sol já estava se pondo.
– Não quero que esse dia acabe. – os gêmeos falaram ao mesmo tempo e todos rimos disso.
Mas ficamos em silêncio mais um pouco.
– Amo vocês. – Kate confessou. – São meus melhores amigos.
Me pus de pé no lago e todos os outros fizeram o mesmo.
– Também são os meus. – confessei a olhando e ela sorriu.
– Os meus também. – Bianca disse e me olhou com ternura.
– E os meus. – Daniel piscou para Kate e ela sorriu em resposta.
Todos olhamos para Derek e ele revirou os olhos.
– É óbvio que são os meus também, ne.
– Ahh. – Bianca tirou a atenção de Derek. – Abraço em grupo! – gritou.
E todos rimos, mas concordamos com ela. Atravessamos o lago até chegar um no outro e demos um abraço em grupo.
Eu amava essas pessoas. Sempre iria amar. Nos conhecíamos há tanto tempo e eles eram meus melhores amigos e nada nesse mundo ia mudar isso.
– Sempre amigos? – Kate perguntou quando nos separamos. Ela estendeu a mão a sua frente.
– Sempre amigos. – concordei e coloquei minha mão sobre a dela.
– Sempre. – Daniel e Derek concordaram ao mesmo tempo e colocaram suas mãos sobre a minha.
– Não importa o que aconteça. – Bianca falou e sorrindo colocou a sua mão sobre a de Derek. – Sempre amigos.
Eu lembraria daquele dia pelo resto da minha vida. Lembraria do sorriso sincero no rosto de cada um e de como a luz laranjada do sol os deixava mais adultos e mais cheios de vida ao mesmo tempo.
Seremos amigos pra sempre.
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– Onde estava? – Mike foi logo perguntando assim que entrei em casa.
– E-eu... – gaguejei.
A verdade era que eu tinha me esquecido completamente de Mike. Eu devia ter ligado pra avisar que ia demorar para chegar em casa ou inventar que ia ter que ficar até mais tarde na escola. Mas a ideia de sair e curtir com meus amigos tinha me cegado.
– Fui até a sua escola e você não estava lá. – engoli em seco. – Onde você estava, Noah?
– Pai, — comecei. – eu sai com uns amigos depois das aulas. – omiti o fato de ter burlado a aula, ele não precisava saber disso. – Meus amigos de Los Angeles. Kate, Daniel, Derek e Bianca estão na cidade. – contei. – Vieram para a competição de Decatlo.
Mike me encarou durante um tempo, mas logo suspirou, desfez a carranca e se sentou no sofá.
– Tudo bem. – disse por fim – Só avise da próxima vez, ok?
– Humrum.
Atravessei a sala e fiquei parado no pé da escada. Precisava fazer isso. Esse silêncio estava acabando comigo.
– Pai, — comecei ainda segurando o corrimão da escada e de costas pra ele. – vai voltar a falar comigo algum dia? Como antes? Ou vamos continuar nesse silêncio?
– Noah, eu só preciso de um tempo.
– Quanto tempo? – me virei para fita-lo. – Eu não aguento mais isso. – confessei de uma vez. Essa situação toda me deixava tão frustrado. – Se vai continuar me tratando assim, devia me mandar embora de uma vez.
– Acha que quero que vá embora? – ele parecia levemente indignado.
– Não parece me querer aqui.
– Noah... – ele começou, mas eu me irritei de vez. Não queria desculpas, queria que ele parasse com isso. Que me aceitasse ou me mandasse embora de uma vez. Qualquer coisa era melhor do que aquele silêncio que ele impôs.
– Que droga, pai! — exclamei e dei passo em direção a ele. – Eu sou homossexual e isso não quer dizer que sou doente. Eu estou aqui, sou seu filho. Ainda sou o mesmo Noah. E se você não consegue ver isso, me mande embora de uma vez. Porque eu não aguento mais o jeito como vem me tratando, como se eu fosse um estranho.
Papai me fitou com demasiada surpresa no seu rosto como se não pudesse acreditar que eu estava o confrontando desse jeito, que eu estivesse exigindo uma atitude quando devia está acontecendo o contrário. Ele se pôs de pé e veio até mim e quando achei que ele fosse dizer “vá embora ou suba pro seu quarto ou você vai morar com a sua avó em Los Angeles”, ele simplesmente me abraçou. Os braços dele me envolveram, me apertou contra o seu corpo e eu não me mexi, tamanha a surpresa que senti.
– Não pode dizer uma coisa dessas. – ele falou contra meu cabelo. – Não pode acreditar que quero que vá embora.
– Mas... – tentei dizer.
– Mas nada. Seu lugar é ao meu lado. Você é meu filho, Noah. Sempre vai ser e ninguém no mundo pode mudar isso.
O abracei de volta.
– Achei que não quisesse mais que eu fosse seu filho. – sussurrei contra a sua roupa.
– Eu apenas fiquei confuso. – confessou. – E depois fiquei com medo por você. A vida não vai ser fácil pra você, o mundo não é um mar de rosas. Vão estar sempre te julgando e falando pelas suas costas. E eu não vou poder ter proteger.
– Tudo bem, pai. – falei. – Não quero que a vida seja fácil, quero apenas ser eu mesmo. E não precisa me proteger, posso fazer isso sozinho. Apenas fique do meu lado, não me abandone.
– Tenho tanto orgulho de você, meu filho. – e ele me abraçou mais um pouco. – Nunca vou te abandonar. – e pelo jeito embargado que sua voz estava ficando, percebi que papai estava se esforçando para não chorar.
– Eu te amo, pai. – sussurrei pela primeira em tantos anos.
– Também te amo, filho.
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– Olha só, se não é o Noah. – Mark comentou assim que entrei no cinema de Dickson.
Era um cineminha pequeno demais para ser chamado de cinema e impossível de ser comparado com os cinemas das cidades grandes, que davam de 10 a 0 nesse. Mas era o que tínhamos nessa cidadezinha e Kate tinha convencido todos os outros de que ia ser legal assistir um filme no cinema daqui, enquanto Derek disse que nossa ida ao cinema ia contribuir para a economia da cidade. Era um bom argumento.
E Mark estava ali, fazendo o que? Eu não sei. Ele apenas estava encostado na entrada com sua habitual expressão de poucos amigos e sem ninguém com ele. Emma ou Will não estavam ali e nem mesmo Roderick estava, o que denunciava que Mark não era uma companhia tão boa assim. Não existe nada mais solitário do que assistir um filme sozinho no cinema.
– Oi pra você também, Mark. – decidi ser educado e tratei de entrar e ignora-lo de vez. Dei um passo para me afastar dele, mas o garoto se pôs a minha frente.
– Espera, espera. Vamos conversar um pouco. – ele sorriu falsamente pra mim.
– Desculpa, não posso. – falei. – Tenho que encontrar uns amigos e já estou atrasado. – e fiz menção de me afastar mais uma vez, só que dessa vez ele segurou o meu braço. – Me solta. – exigi e puxei meu braço. – Qual o seu problema?
– O que foi? Não gosta de ser tocado? – ele riu. – Ou só gosta quando o Will te toca?
Dei um passo pra trás.
– Não sei do que está falando.
Ele estalou a língua na boca e olhou pro lado.
– Tudo bem, tudo bem. Vai assistir seu filmezinho.
Lancei um último olhar cheio de raiva pra ele e lhe dei as costas.
– Bicha. – ele disse as minhas costas e então não pude me segurar. Dei meia volta.
– O que disse? – perguntei torcendo para ter escutado errado.
– É o que você é, não é? – perguntou o rosto ainda com aquele maldito sorriso no rosto. – Uma bicha.
Seus olhos castanhos estavam cheios de maldade e o jeito como ele pronunciava bicha era como se ele quisesse dizer algo pior. Então entrei no modo defesa: ergui meu punho e acertei o lado esquerdo do seu rosto. Ele foi pego de surpresa por isso o soco fez um estrago tremendo, desorientado, Mark caiu no chão.
– Me chame disso outra vez e quebrarei todos os seus dentes. – avisei e dei-lhe as costas, ao nosso redor as pessoas começaram a se reunir. Passei por elas e algumas foram ajudar Mark a se levantar.
– Isso não vai ficar assim, Grace! – o grandalhão gritou as minhas costas.
Mais à frente encontrei Kate, Daniel, Derek e Bianca. Eles estavam encostados na recepção do cinema me esperando e assim que me viram, vieram até mim.
– Belo soco. – Bianca elogiou.
– Vocês viram? – perguntei surpreso.
– Não muito. Só a parte que você deu um soco no cara. – Derek respondeu.
– Pensamos em ir lá e oferecer ajuda, mas você estava se saindo muito bem. – Daniel comentou sorrindo.
– O que aconteceu lá? – Kate se pronunciou e começamos a andar para a fila da lanchonete.
Íamos primeiro comprar as guloseimas e depois os ingressos.
Respirei fundo e contei a verdade de uma vez:
– Eu sou gay.
Todos os quatro pararam de andar. Me fitaram surpresos e depois começaram a rir.
– Qual é, Noah. Deixa de piada. – Daniel falou ainda rindo.
– Não to brincando. – me mantive sério. – Eu sou gay, gosto de garotos.
– Mas... mas... mas você namorou com a Bi. – Derek parecia o mais surpreso entre os quatro.
– Foi mais como uma experiência. – olhei para Bianca. – Desculpa. – e ela assentiu.
– Tudo bem.
– Então aquele cara era seu namorado ou algo do tipo? – Daniel perguntou.
– Não mesmo! – exclamei. – Ele é só um cara da escola que parece odiar todos os gays, bati nele porque estava me provocando.
– Esse é o Noah que eu conheço, nunca leva desaforo pra casa. – Derek disse rindo e todos acompanhamos.
Confesso que não esperava essas reações deles, mas parecia que eles estavam levando numa boa. Fiquei feliz por isso, porque essa atitude deles só mostrava que eu tinha feito uma ótima escolha ao coloca-los como meus melhores amigos. Mas Kate ainda não tinha dito nada. Olhei pra ela de sobrancelha erguida.
– Não vai dizer nada? – perguntei.
Então ela me lançou um sorrisinho mínimo e abriu os braços e veio em minha direção.
– Bem-vindo ao lado rosa da força! — falou bem alto e me abraçou.
– Que droga, agora vamos ter que aguentar eles três falando sobre homens. – Derek reclamou.
– Ninguém merece. – Daniel concordou.
Me soltei de Kate e fui até os garotos. Baguncei o cabelo de ambos.
– Não sejam reclamões.
– Meu cabelo! – Derek se exaltou e começou a ajeita-lo.
– Depois nós somos as garotas do grupo. – Bianca falou cruzando os braços.
Daniel revirou os olhos e eu segui seu exemplo. Derek as vezes era mais fresco que uma garota.
– Vamos logo assistir esse filme. – Kate disse e nós a seguimos.
Depois que compramos as guloseimas tivemos uma discussão na hora de escolher qual filme assistir, que por fim ficou decidido que ia ser um de comédia. Já que esse recebeu três votos e o de terror apenas dois. Mas o problema mesmo aconteceu quando entramos na sala de cinema. A mesma estava lotada e não tinha nenhum lugar que pudéssemos sentar todos juntos, então acabamos sendo obrigados a se separar. Bianca e eu encontramos dois lugares no centro de numa fileira com vista incrível para a tela do cinema. Kate, Derek e Daniel encontraram um lugar ao fundo do cinema. Eu e Bianca nos esgueiramos entre a fileira, pedindo licença até que conseguimos nos sentar, o balde de pipoca no colo dela.
A loira sentou ao meu lado direito enquanto eu tratei de me ajeitar na poltrona do cinema. Em algum momento acabei batendo meu cotovelo na pessoa a minha esquerda, mas também pudera aqueles assentos eram muitos juntinhos. Maldita cidade pequena, não pode nem construir um cinema decente.
– Ei, cuidado. – a pessoa disse e eu finalmente tinha conseguido me ajeitar na poltrona. Virei meu rosto para a pessoa.
– Desculpa, eu não... – mas olhei bem para a pessoa. – Will?
O loiro olhou pra mim e acabou sorrindo.
– Ah. Oi, Noah. Que coincidência. – e sorriu e sorri de volta.
– Oi, Will. – Bianca o cumprimentou se inclinando sobre mim para vê-lo. Bufei com isso. Até quando ela vai ficar se jogando pra cima dele?
– Oi, Bianca. – disse educado e logo as luzes se apagaram e Bianca se sentou novamente na sua poltrona.
– Oi, Noah! – Emma se inclinou sobre Will para me cumprimentar. Ela tinha um sorriso sincero no rosto.
– Oi, Emma. – acenei pra ela e percebi que ao lado dela Liam estava sentado. – Oi. – cumprimentei ele também e ele apenas balançou a cabeça pra mim.
O filme começou e o cinema inteiro ficou inteiro ficou em silêncio, apenas em momentos alternados as risadas surgiam. Bianca estava gostando bastante do filme e eu bem que tentei me concentrar, mas eu estava plenamente consciente do joelho de Will tocando levemente o meu e de como a mão dele estava perto de mais da minha. Mas mesmo assim não fui capaz de tira-la de lá e como numa brincadeira de toque-não-toque, eu mexi minha perna, apenas para meu joelho tocar no dele e chamar sua atenção. Will se mexeu na poltrona com isso e senti a ponta do seu dedo mindinho tocando a lateral da minha mão esquerda. Permaneci olhando para a tela, mas não estava prestando atenção em nada, eu estava com toda minha atenção voltada para isso. Esses gestos pequenos e silenciosos que ninguém podia ver. Sorri minimamente e logo todo o cinema explodiu em risadas quando o personagem principal fez uma coisa muito boba. Mas logo meu sorriso cresceu no meu rosto, pois Will tinha acabado de enlaçar o seu dedinho com o meu.
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