Antes do nascer do sol.
10 Teresa - Eles serão sempre Renato.
Abril de 2018.
— Não se esqueçam do trabalho sobre a influência da revolução francesa na política atual, para semana que vem! — falo alto e depressa, tentando competir com o sinal e o barulho dos alunos deixando a sala de aula, apressados.
Abaixo a cabeça para fazer algumas anotações, mas pressinto uma presença na sala vazia, olho para cima e encontro Lucas parado, diante da minha mesa.
— Posso ajudá-lo, Lucas? — pergunto, de modo sério, disfarçando o efeito que aquele garoto causava sobre mim. Havia algo nele, seu jeito, sua aparência, seu sorriso, que me remetia a um outro tempo, a um outro garoto, ao meu coração partido.
— É que estou com uma certa dificuldade a respeito desse trabalho — ele explica, sem jeito.
— Que tipo de dificuldade?
— Esse negócio de Revolução Francesa. Os tais jacobinos e girondinos, essas coisas.
— Não há muito para ter dúvidas, aquele foi um período de intensa agitação política e social na França, que teve um impacto duradouro na história do país e, mais amplamente, em todo o continente europeu. Está tudo no seu livro ou na internet, é só pesquisar, depois, tente enxergar o que você aprendeu no mundo de hoje.
O garoto me dá um sorriso torto, malicioso, eu conhecia muito bem os homens, sendo assim desconfiava que o motivo de ele estar ali não tinha nada a ver com o trabalho de escola. Para mim, era uma tentação, mas não podia ceder, por mais que gostasse de homens dessa idade, fogosos e intempestivos, com as emoções à flor da pele, contudo, não podia pôr em risco o meu emprego e a minha reputação.
— Eu sei, mas juntar tudo isso é bem complicado, poderia me ajudar, professora? Preciso tirar uma boa nota, porque levei bomba na prova.
Talvez, estive errada, o garoto só quisesse uma ajuda de verdade, mas não era o que seus olhos me dizem.
— Sim, eu sei, Lucas. Está bem prepare o trabalho e traga para eu revisar, discutiremos os pontos fracos e os erros — mantenho o tom sério e uma certa distância.
— Obrigado, professora — Um tanto relutante, ele sai e me deixa sozinha.
Por um instante, fechei os olhos e voltei para aquelas praias, o mar e a brisa fresca, o calor do sol e de Sam, a mão dele sobre sua pele, o sexo ardente todas as noites, como se fosse a última, senti um arrepio subir pela minha espinha e espalhar pelo meu corpo, pois aquelas férias eram o que me faziam superar o tédio do resto do ano, a saia comprida e os cabelos preso, o corpo escondido e entorpecido, esperando um outro verão e um novo jovem amante, que me fizesse sentir viva mais uma vez, longe toda aquela opressão e mentiras.
Levei um susto quando o meu telefone tocou, olho para tela e deparo com o nome de Mariana. Estranho, pois, já faz algum tempo que nós não nos falamos, apesar de termos sido muito amigas no passado, talvez, com receio das recordações.
— Mariana?
— Teresa, como vai?
— Bem, aconteceu algo?
— Você sabe como eu sou, então, vou direto ao assunto. Outro dia, uma moça veio me procurar, queria saber a respeito do Renato.
Ao ouvir aquele nome, senti um aperto no meu coração, uma imensa nostalgia.
— Por quê?
— Porque ela disse que recebeu o coração dele.
— O coração do Renato? — Fiquei sem folego.
— Sim, eu havia escutado essa história de doação dos órgãos dele, mas nunca mais soube de nada ao certo. Então, essa garota aparece do nada, querendo conversar conosco.
— Isso é tão estranho. Eu não sei se quero falar com ela, se quero recordar todo aquilo, depois, de tanto tempo.
— Olhe, eu vou dar o telefone dela para você, então, pense bem no que quer fazer.
— E como foi para você?
— Estranho, eu acabei confessando a ela, algo que sempre trazia escondido, não sei se foi bom ou não.
— Eu já superei.
— Superou? Eu me lembro que você sofreu à beça, porque gostava dele, talvez, só Joaquim tenha sofrido mais — Mariana foi direta, não adiantava negar.
— Tem notícias dele, do Joaquim?
— Não, desde aquele dia, em que eu o atendi, não tive mais coragem de falar com ele. Quando a garota apareceu, tentei ligar, mas não consegui falar, estou com medo — Pressenti a fragilidade de Mariana.
— Se é assim, por que não vai procurá-lo, quem sabe, ele precise de uma amiga? Você mais do que ninguém deveria estar ao lado dele.
— Aquilo foi só uma paixonite da adolescência, que já passou.
— Você é quem sabe. Passe o telefone da tal garota, vou ver o que eu decido. Podemos combinar um almoço ou jantar qualquer dia desses?
— Sim, podemos. Até mais, Tetê.
— Até mais, Mari.
Engraçado, há quanto tempo nós não nos tratávamos desse jeito.
Fiquei imaginando o que sentiria diante daquela garota, que carregava o coração de Renato. Renato. Ainda penso muito nele, o meu amor não correspondido dos tempos da inocência, com a cabeça cheia de sonhos românticos. Imagino o que teria acontecido, naquela festa, se eu tivesse indo até ele o convidasse para dançar. Será que aceitaria ou riria na minha cara, achando engraçado? Pois assim ele era, sempre se divertindo, acho que eu era atraída por esse lado leve e despreocupado dele, aquele jeito bonachão, de estar tudo bem.
Naquele alvorecer dentro do carro, deveria ter insistido para ele ficar lá atrás junto a mim, poderia grudar minha coxa na dele, sentir o seu calor contra o meu corpo. O meu amado Renato, meu amor da adolescência, que nunca envelhecerá, permanecerá para sempre com dezoito anos nas minhas memórias, que eu procuro em outros corpos, revivendo verão após verão, em outros braços, o romance que nunca aconteceu, os beijos nunca dados, o sexo jamais consumado. Longe daqui, sou outra vez a adolescente que se apaixona por um rapaz, e não importa como eles se chamam: Sam, Tom ou Lucas, eles serão sempre Renato.
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