Antes do nascer do sol.

11 Lídia e Mariana — Dores do passado


Lídia

Abril 2018

Depois de dois copos de vodca, estou um tanto zonza, subo a escada com dificuldade, apoiando no corrimão. No meu quarto, coloco minha camisola de seda e renda e deito na minha cama king-size, sozinha, pois, mesmo sendo quase meia-noite, Jonathas ainda não voltou para casa, mas já estou acostumada, apesar de estar se tornando mais frequente, só espero que ele não se apaixone pela sua atual piranha. No entanto, sei que ele é um homem esperto, não cairia em uma cilada dessa, sabia muito bem o que tinha a perder.

Escuto o silêncio a minha volta, as crianças já estão dormindo há bastante tempo, fecho os olhos e tento dormir, também, mas não consigo, minha mente dá voltas, penso em tomar mais um copo de vodca, então, ouço os passos na escada e a porta se abrir, fecho os olhos e finjo que estou dormindo, assim evitarei uma situação confrangedora para os dois, com perguntas não respondidas e mentiras.

Meu marido vai direto para o closet, ao certo já tomou um banho, depois de transar com aquela puta. Logo, em seguida, percebo a cama se mexer ao meu lado, mas continuou parada, virada para o outro lado, ele beija o meu ombro nu, sinto cheiro de sabonete floral barato, meu coração acelera, porém não digo nada, por fim, adormeço.

Quanto desperto na manhã seguinte, o outro lado da cama está vazio, ele já saiu para o trabalho, fico aliviada por isso.

O motorista já levou as crianças para a escola, a mesa está posta para o meu café da manhã, omelete de claras e suco detox.

— Vou a academia — aviso a empregada, assim que termino, pegando a minha bolsa, mas meu telefone toca, levo um susto ao ver o nome na tela, talvez, esteja enganada, pode ser outra pessoa.

— Mariana?

— Sim, sou eu mesma Lídia. Há quanto tempo?

— Já faz muito tempo. Como é que você está?

— Bem, eu me formei em medicina, estou terminando a residência. E você?

— Eu me casei, tenho dois filhos, uns anjinhos. Mas que surpresa, você ter ligado!

— Eu sei, meio inesperado, não é? No entanto, aconteceu algo muito estranho, por isso achei uma boa razão para procurar os antigos amigos.

— Algo estranho?

— Sim, uma garota veio me procurar...

— Uma garota?

— Uma garota que disse que recebeu o coração de Renato.

— O coração de Renato? — Fiquei sem folego. Institivamente, levei a mão a minha cabeça, na minha cicatriz, lembrança com concussão cerebral, que me deixou apagada por várias horas, segundo, os médicos, eu tive muita sorte, bem diferente de Renato, que jamais acordou.

— E essa garota, o que quer?

— Saber como a respeito de Renato, está curiosa em relação ao dono do coração no peito dela.

— Eu não sei se quero reviver tudo aquilo, foi muito doloroso para todos nós.

— Seria uma boa razão para nós nos encontrarmos, conversamos um pouco, saber da vida de cada um.

— Tudo isso é demais para mim, preciso refleti um pouco, para saber se quero mesmo me encontrar com essa tal garota, reviver toda àquela história terrível.

— Faça o que achar melhor, Lídia, não temos nada combinado, você tem meu telefone, ligue quando quiser.

— Pode deixar, eu ligarei. Mariana, você teve notícias de Joaquim?

— Nós nos encontramos, há alguns meses atrás. No entanto, não consigo falar com ele, nos últimos tempos.

— E como ele estava?

— Da última vez, ele não parecia muito bem.

Mariana

Ouvir Lídia perguntar por Joaquim me embrulhou o estômago, era como aqueles ruins sentimentos, ciúmes, raiva, o amor não correspondido renascessem, a dor de ver o amado sofrendo por outra, saíssem das sombras, onde eu os havia escondidos, para me assombrar. Ao mesmo tempo, uma imensa preocupação por Joaquim havia se apossado de mim, a ponto de me fazer procurar pelo nome dele nos jornais, na internet, com receio de encontrar alguma má notícia. Felizmente, isso não aconteceu, mas repetir essas buscas tornou-se uma rotina comum, com a respiração suspensa e o coração em sobressalto, digitava por seu nome.

Depois de falar com Lídia, ainda, com telefone na mão, considero a possibilidade de tentar, mais uma vez, me comunicar com Joaquim, então aperto a discagem direta, ouço o sinal de chamada por várias vezes, até cair na caixa postal, como sempre.

— Joaquim, é Mariana, só queria saber como você está.

Deixo um recado sem esperança nenhuma de um retorno.

— Oi. Aí está você! — meu colega de residência Luiz mete a cabeça pela porta da sala de estudo, onde estou sozinha, tentando prestar atenção no artigo cientifico à minha frente. — Já viu o paciente do leito 2, Mariana?

— Sim, antes de vim para aqui, já fiz a prescrição, a infecção está cedendo, o aspecto da ferida está bem melhor.