Antes do fim
9 Viagem a Alta Granada
Na volta pra casa, por volta das seis e quinze, os meninos apostavam corrida em meio as ruas brilhantes e os bares abertos dando um novo toque a noite de Baixa Estação permitindo que a diversão tomasse conta do lugar. Descendo ladeiras em velocidade e rindo atoa, os amigos pararam próximo ao centro da cidade para descansar e conversar um pouco.
Clara se sentou próximo a Ana e os meninos se acomodaram no banco a frente um pouco espremidos. Pedro as vezes entreolhava para Ana sempre se surpreendendo com sua beleza e o fazendo se lembrar da música que havia escrito pra ela. Ele sentia que precisava encontrar um momento certo para que pudesse apresentá-la a menina.
— Alguma ideia do que podemos fazer nessas últimas semanas de férias? — Guto se pronunciou encarando as amigas.
— Poderíamos fazer uma noite do cinema. Que tal? — Clara respondeu.
— Acho uma boa ideia, mas não tem nada melhor do que viajar. — Bruno falou.
— Da última vez que combinamos de viajar você deixou com que sua prima afetasse a sua cabeça e cancelasse a nossa viagem. — Pedro retrucou.
Naquele momento, Ana voltou no tempo em sua cabeça e se lembrou da cena que a fez correr da festa que havia ido. Foi como se antes daqueles exatos segundos, o seu mundo tivesse saído de orbita alterando a ordem de tudo que nele habita. A menina voltou a realidade, ajustando a sua postura, fingindo naturalidade para que não percebessem o seu desconforto.
— Por falar em prima... — Clara falou. — Vocês ficaram naquela noite? — Ela olhou para Pedro.
— Ela? Comigo? — Ele falou. — Bem, ela quis...
Ana levantou o olhar de leve para o menino prestando atenção.
— Mas eu não quis. — Pedro continuou. — Ela é muito soberba, não faz o meu tipo, e além do mais, não tenho interesse nenhum nela.
Após aquelas palavras, Ana sentiu um peso sair do seu peito e amenizar a dor que sentia por achar que eles realmente tivessem se beijado naquela noite.
— Dessa vez eu não preciso chamá-la, então. — Bruno falou. — Posso pegar o carro do meu pai, ele vai viajar no próximo fim de semana e vou ter ele e a casa só pra mim.
— Não temos idade para dirigir um carro estrada a fora, gente. E se a polícia nos pega? — Ana falou.
— Ah, quase todo mundo aqui tem dezoito anos, relaxa. É como se fosse um pré-maior. — Ele respondeu.
— Bom, eu topo. — Pedro falou de imediato. Ele precisava de qualquer momento a sós com Ana e pensou consigo de que uma viagem poderia fazer com que ele pudesse seguir os planos.
— Eu também. — Clara se prontificou.
— Pode apostar que eu vou. — Guto falou.
— Bem, então eu não tenho escolha, né? — Ana respondeu encarando os amigos que estavam com ar de vitoriosos. — Com um acordo. Não podemos ir a lugares longe daqui.
— Podemos fazer uma trilha na floresta de Alta Granada. — Bruno sugeriu. — Certeza que vocês vão gostar.
Os amigos se entreolharam e pareceram chegar em um consenso.
— Fechado então? — Bruno perguntou.
— Fechado! — Todos responderam de uma só vez, mas Ana ainda estava querendo relutar a decisão.
***
A viagem ficou marcada para o fim de semana, onde todos iriam se encontrar na frente da casa do Bruno e partiriam para a floresta ás onze da manhã. Seriam quase duas horas de viagem e provavelmente retornariam ás sete horas da noite para que não deixassem ninguém preocupado.
Ana conversou com seus pais sobre a pequena viagem e eles aprovaram, apesar de ter omitido de que alguém de maior iria com eles. Pedro alertou ao seu pai e o mesmo consentiu, dando então, uma força para que os pais de Clara e Guto também aprovassem a viagem já que eles retornariam no mesmo dia e a trilha já era conhecida pelos moradores por ser um local perto e fazer parte da área de turismo da cidade.
Mediante os dias na semana que se passavam, os amigos esperavam ansiosos pela chegada do sábado. Ana seguiu sua rotina indo a natação e praticando língua inglesa, Pedro continuou indo as aulas de música, Clara aproveitou as férias para fazer alguns cursos online sobre marketing, já que a mesma queria cursar Publicidade e Propaganda na faculdade, Guto trabalhou tranquilamente na recepção da Clínica Veterinária dos seus pais e Bruno gastava seu tempo jogando online ou em seu XBOX quando ficava entediado. Os amigos se encontravam esporadicamente para falarem sobre o que precisavam levar, o melhor caminho para chegar ou até mesmo a criação de uma playlist colaborativa para que pudessem aproveitar ao máximo o dia que estava prestes a chegar.
Na noite da sexta, Ana passou algumas horas da sua noite conversando em sua varanda com Pedro. A menina estava com algumas roupas leves devido ao calor, chamando a atenção do garoto a sua frente que as vezes se perdia em sua mente de tanto observar a pele morena e os cabelos grandes e castanhos da menina a sua frente. Eles jogaram conversa fora durante um tempo até que decidiram entrar para descansar e se encontrar amanhã para irem juntos a casa do Bruno.
Por volta das sete da manhã, os meninos começaram a se comunicar e todos estavam incrivelmente dispostos a aproveitarem da melhor maneira aquele dia em suas férias de verão. Ana aproveitou o tempo livre para arrumar a sua bolsa e verificar tudo o que tinha que levar. Pedro acordou em meio a sua guitarra e o notebook solto em seu colo, percebendo que havia dormido enquanto finalizava a sua música.
Nos dias anteriores, o menino estudou sobre alguns aplicativos que o permitiram criar uma música online com o sintonizador, mesclando a sua voz com o grave da guitarra, para reproduzir em algum aparelho que aceitasse o arquivo do som. Pedro sempre teve vontade de ser um grande artista, daqueles que se apresentam em grandes estádios e corre de fãs malucos que acompanham o seu carro enquanto gritam o seu nome no meio da rua. O garoto tinha o dom artístico em suas veias, mas escondia em segredo para todos que desde o início da sua pré-adolescência havia aprendido a compor e cantar ajustando toda a qualidade musical junto ao seu timbre.
Mas agora ele não tinha barreiras que o impediam de contar para a menina tudo que sentia. Algumas vezes ele se perguntava o porquê da garota não chegar no assunto em várias conversas que tiveram na semana. Talvez ela estivesse com medo ou estava resistindo, pensando que provavelmente ele pudesse renegá-la. — Pensou consigo mesmo.
Todos os amigos se encontraram por volta das dez para os onze, exalando sorrisos e uma felicidade imensa. Era possível ver que eles esperavam ansiosos a partida, então Bruno fechou a sua casa, jogou a bolsa da vans para dentro do carro e fez sinal para que fizessem o mesmo. Seus pais eram donos da Roupas & Cia, uma das melhores roupas de vestimenta da cidade, por isso sempre estavam viajando para regularizar o estoque devido a grande quantidade de vendas que realizavam, deixando o menino com o carro e casa sempre livre.
Guto se sentou a frente com o amigo, liberando espaço atrás para que Pedro, Ana e Clara pudessem se acomodar e seguir com a viagem.
— Todos prontos? — Bruno perguntou.
Pedro sentiu um nervosismo de imediato e Ana por outro lado estava feliz por poder passar um bom tempo com o garoto, sem que nada pudesse atrapalha-los e longe de toda e qualquer distração.
— Estamos prontos. — Clara respondeu. — Que seja o melhor dia de nossas férias!
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