Antes do fim

5 O segredo no papel


O dia posterior amanheceu com um céu claro e bastante azul, os moradores de Baixa Estação seguiram com sua rotina normalmente e todo o local funcionava perfeitamente tendo em vista que o acontecimento anterior pareceu não afetar nada ao redor. Ana continuava acordada devido a uma insônia que a consumiu no resto da noite, fazendo a menina observar o nascer do sol e falar para si que tudo de fato ficaria bem, mesmo sabendo que no fundo ela se questionava bastante se deveria ou não confiar nos seus instintos. Algo estava errado, mas ela preferia acreditar que não.

Em seu segundo dia de férias, a menina se pôs de pé e deu uma olhada no seu quadro de cronograma lilás que ocupava uma boa parte da sua parede. Era possível ver algumas anotações como "prova de inglês" "data para inscrição do vestibular" e "último dia de aula", mas logo abaixo na aba de obrigações, estava escrito em vermelho "natação", esporte que ela havia começado a praticar no segundo semestre do ano para que não ficasse tão sedentária já que gostava de ficar em casa assistindo ou estudando.

Ana olhou para trás e encarou a sua cama que bagunçada já que havia rolado de um lado para o outro durante horas atrás do sono que estava começando a aparecer.

"É, acho que finalmente consigo dormir." — Falou para si mesma.

* * *

Pedro abriu os olhos devagar captando tudo ao seu redor e observou no relógio a parede de que já eram dez da manhã e que provavelmente perderia a sua aula de guitarra, já que seu pai havia ordenado de que ele desenvolvesse ou praticasse algum hobbie para que não ficasse tão ocioso nos próximos dias em casa. O menino se lembrou novamente do acontecido da noite passada e se sentou a cama assustado, mas percebeu em alguns segundos de que as vidas ao redor e a rotina seguia normalmente. Ele se levantou, estendeu os braços se espreguiçando e puxou a cortina da sua janela, vendo que a janela da amiga vizinha estava fechada. O menino deduziu de que ela provavelmente estava cansada, mas ele se lembrou de questiona-la mais tarde sobre o que havia acontecido antes de vê-la correr em batida para fora da casa enquanto conversava com a prima do Bruno.

O garoto se encarou ao espelho em sua frente que ia do teto ao chão, seus cabelos negros bagunçados lhe davam uma aparência rebelde e uma pequena barba prestes a nascer marcava o seu maxilar perfeitamente desenhado. Ele tomou um banho rápido, vestiu uma regata tendo em vista o calor que fazia lá fora, colocou uma calça skinny e apanhou sua guitarra azul púrpura.

O manhã na cidade parecia estar calma, na medida em que o garoto caminhava com seu instrumento grudado a capa em suas costas, ele cumprimentava alguns vizinhos que estavam em seus jardins e procurava no seu celular a playlist que havia montado com novas músicas que gostaria de aprender a tocar. Enquanto terminava os passos para que chegasse a tempo na parada de ônibus, o garoto viu o mesmo dobrar a esquina e estendeu a mão, com um sorriso de vitória surgindo aos poucos em seus lábios.

"Bem no tempo." — Ele pensou consigo mesmo.

Após chegar a única escola de música da cidade, ele se dirigiu a sala de aula e pediu licença ao professor, verificando as horas para se certificar de que não estava chegando atrasado. O menino se acomodou na primeira carteira da fileira encostada a parede e assistiu o professor se apresentar, conhecer os alunos e em seguida lecionar as diferenças sobre os instrumentos presentes e suas devidas notas.

***

Ana acordou por volta das duas da tarde, mas pelo menos havia descansado o sono que havia perdido. A menina lembrou de que ás quatro horas era a sua aula de natação e bateu em disparada para cozinha a fim de comer algo já que a fome gritava em seu estômago. Enquanto estava sentada a mesa, como de costume, assistia tranquila uma animação que havia transmitido do seu celular para a TV. Enquanto o entardecer não chegava, a menina aproveitou para arrumar o quarto e recolher toda a bagunça que havia sido espalhada enquanto estudava para as provas que fechariam a sua média.

Haviam muitas folhas rabiscadas, livros jogados ao chão, calculadoras espalhadas ao redor e em questão de vinte minutos, o quarto da menina estava um brilho de tão arrumado. A cama devidamente forrada, o chão limpo e varrido, o tapete próximo a porta bem posicionado, a TV colocada a parede sem poeira em suas medidas e os pôsteres de séries que a menina grudava a parede estavam incrivelmente fixados. Ana apanhou o cesto de folhas rabiscadas e pôs em cima da cama, próximo a janela para que pudesse descer com eles e tomar um banho.

Sem que esperasse, uma rajada de vento adentrou o quarto da garota espalhando e derrubando alguns desses papeis. Algumas dessas folhas eram do seu próprio diário que havia sido escrito dois anos atrás, quando ainda se considerava menininha e guardava todos os seus segredos nele. Ana não percebeu que eles voaram com o vento em direção a casa vizinha, apenas fechou a janela e seguiu com seus planos, jogando tudo no lixo e tomando banho para ir ao Water Park, o clube de piscinas de Baixa Estação.

Enquanto observava o entardecer com sua mochila nas costas e esperando o táxi que a levaria, a menina pôde ver Pedro chegar em casa, mas antes que pudesse falar com ele, apenas deu um aceno amigável e entrou no carro, para que não pudesse atrasar nenhum minuto tendo em vista que seu professor era totalmente intolerante com o horário.

Pedro observou o carro levar a menina ao seu destino e antes que se virasse para entrar em casa, viu que um papel usado e rasgado estava preso em um dos galhos das rosas que ficavam próximas a porta, enfeitando o seu jardim. Ele se aproximou devagar e puxou o papel, o desamassando e em seguida lendo o que estava escrito.

"Será mesmo que um dia deixarei de gostar de ti? Queria te revelar tudo o que sinto, mas não quero estar sozinha nesse barco. Se soubesse o quanto te admiro e amo as suas covinhas quando você ri para mim, talvez pudesse me olhar com outros olhos. Espero que um dia eu possa ser a sua Ana, não apenas uma amiga, mas de fato, a sua amada."