Antes do fim
3 Indício
Pedro fitou a menina bem no fundo dos seus olhos após as suas palavras, mas simplesmente lançou um sorriso de meia boca e acelerou o carro os levando rua a dentro até a casa do Bruno, que ficava cerca de três quarteirões de distância. Até que chegasse ao endereço, Ana encarava as luzes da cidade através da janela blindada em sua frente. A menina voltou a olhar para o garoto e em seguida notou o rádio próximo de si e o ligou sem que pensasse duas vezes.
Ecoando pelos altos falantes, How Long da Tove Lo havia começado a tocar.
A cidade estava mais movimentada com o fim do ano, datas festivas como Natal e Ano Novo sempre atraiam pelo menos um terço da população total que habitava o município ao redor, gerando uma economia melhor para os empreendedores e deixando o local mais conhecido. As luzes que brilhavam a frente dos garotos lhe davam uma sensação de prazer misturado com euforia, como se eles tivessem todo o tempo do mundo bem em sua frente e soubessem como aproveitar cada segundo dele.
— Eu sei que fiquei meio distante essas duas últimas semanas. — Pedro começou a falar. — Acabei indo para final em quatro matérias, precisei me dedicar ao máximo.
— Por que você não me falou? — A garota o encarava incrédula. — Eu poderia ter te ajudado.
— Você já me ajuda demais, Ana. Eu vi que você queria me passar cola na prova de física, mas a professora já estava de olho, não podia te ferrar.
— Eu não me importo. — Ela respondeu previamente.
— Mas eu, sim. Você sempre será minha prioridade. — Ele devolveu a resposta no mesmo tom.
Ana as vezes se perguntava em certos momentos, por um milésimo de segundo que seja, se ele já havia cogitado beijá-la, pois era tudo o que ela queria fazer naquele momento.
— É recíproco. — Ana falou num quase sussurro.
Na medida em que o carro adentrava a rua que estavam a ir, eles visualizaram de imediato a frente da casa do Bruno que estava cercada com entorno de quarenta pessoas, todas elas espalhadas na calçada. Algumas delas bebiam e conversavam, outras dividiam salgados de queijo e compartilhavam goles de vodka, e o restante aproveitava para dançar a música que estrondava o local, tendo em vista que a casa por dentro já estava lotada.
Enquanto estacionava o carro, o garoto deu uma última olhada para Ana, sinalizando para que os dois saíssem do carro. — Eles estão ali. — Em seguida apontou para os seus três amigos que estavam a sua espera.
Guto, Clara e Bruno estavam apoiados em uma espécie de mesa americana, muito usada em reuniões feitas em quintais, como vemos nos filmes, por trás deles haviam um fardo de cerveja e uma caixa de pizza aberta com três fatias e meias ainda a serem comidas.
— Pensei que não chegariam! — Bruno os recebeu dando um enorme abraço em conjunto. — Espero que se divirtam.
— Quanta gente você convidou? — Ana perguntou, abraçando seu corpo devido a uma brisa fria que percorria as ruas aquela noite.
— No total, foram dez, mas esses dez chamaram mais outros dez e você sabe como é a nossa cidade... — Ele piscou o olho. — Aceitam cerveja?
Ana olhou para os amigos e em seguida afirmou com a cabeça, pegando uma Budweiser e dando um gole grande na bebida, fazendo com que quase engasgasse.
— Você está bem? — Pedro perguntou passando a mão nas costas da menina.
— Sim, tudo certo. — Ana tossiu tentando voltar a respirar e se lembrou de que beber não era bem um dos seus hábitos, mas estava disposta a se divertir nas próximas horas.
— Vou deixar vocês a vontade. — Bruno respondeu, dando dois passos para trás sinalizando de que se afastaria.
O menino que media um metro e oitenta, vestido com uma regata preta e dreads até o ombro, arrastava o all star de cano médio na areia enquanto observava outras pessoas chegarem para recebê-las.
A residência do garoto era de primeiro andar, com paredes brancas e uma sacada gourmet onde era possível avistar alguns colegas de turma conversarem, que também estava coberta por luzes neon que ficavam indo e voltando por todo o jardim, gerando um clima divertido.
Clara encarava alguns garotos que passavam e Guto estava entretido no celular, aparentemente lendo uma enorme matéria em algum site qualquer. Pedro se encostou a mesa, junto aos amigos e em seguida os convidou para entrar, fazendo com que todos eles se espremessem diante os jovens que se apertavam para que pudessem dançar um tecno que ficava cada vez mais alto na medida em que entravam na sala de estar.
Eles encontraram um canto bem próximo a parede e aproveitaram para se mover um pouco enquanto bebiam a cerveja para que não ficasse quente. O tempo passava sem que percebessem, rindo e colocando a conversa em dia, os amigos dançavam sincronizados na melodia da música.
Ana estava vestida com um vestido preto que modelava todo o seu corpo, seus cabelos castanhos estavam presos em um coque perfeitamente seguro e em seus lábios um batom vermelho dava a ela a aparência de uma modelo. Clara vestia um cropped branco de manga longas com um short apertado dando formas a suas coxas, enquanto seus cabelos loiros e ondulados pulavam junto a ela. Guto portava uma blusa de gola alta, com uma calça que também era preta, dando vida ao rosto do garoto e seus olhos de cor âmbar.
Pedro sinalizou com a cabeça de que pegaria mais bebida em uma mesa que estava próxima a eles com uma bacia de vidro e um líquido vermelho dentro, Ana assentiu e se juntou mais aos amigos para guardar o lugar do menino. A música parecia ecoar nas veias da menina, fazendo com que ela se movesse com leveza, sentindo-se feliz como nunca havia se sentido antes.
Enquanto aproveitava para beber mais um pouco, Clara observava meio sem entender uma cena que acontecia por trás da amiga. Ana notou o seu olhar e resolveu se virar para checar o que estava acontecendo. O seu olhar rondou todo o local tomando conhecimento de todos até que parou imediatamente onde Pedro estava, fazendo com que a menina ficasse tonta por um segundo.
— Você sabia que eles estavam juntos? — Guto falou próximo ao ouvido da menina.
Ana estava parada, com os punhos quase cerrados, sem expressão alguma, encarando seu amigo conversar com uma garota que estava claramente com segundas intenções. A menina estava encostada na mesa conversando com um canudo na boca, presas aos olhos de Pedro, enquanto ele, desconcertado, só fazia balançar a cabeça.
— Eles não estão juntos. — Clara falou. — Não até onde eu sei.
Ana sentiu que suas pernas estavam prestes a bambolear e não sabia diferenciar se era por nervosismo ou se provavelmente estava bêbada. O espaço ao redor pareceu se fechar, como se as paredes estivessem prestes a esmagar todo mundo. Ela decidiu que não ficaria mais um segundo ali observando a cena em sua frente.
— Vocês sabem quem ela é? — Guto fez outra pergunta a amiga.
— Parece a prima do Bruno, aquela que ficou de viajar conosco no ano passado e fez ele cancelar a viagem só porque ela não foi. — Clara rebateu.
— Eu vou tomar um pouco de ar. — Ana falou, apressando aos passos para se despistar dos amigos.
Enquanto ela ia se distanciando e ouvindo seus amigos a chamarem, a garota resolveu olhar mais uma vez para Pedro, que estava prestes a beijar a menina em sua frente, de repente, o tempo ao redor pareceu se passar em segundos, dando a menina uma vista privilegiada dos dois se aproximando cada vez mais e quase juntando seus lábios, mas antes que pudesse fazer qualquer ação, um grande apagão repentino tomou conta do local fazendo com que as luzes e qualquer aparelho que necessitasse de energia parasse imediatamente.
Perdida em meio a escuridão, ela tampou os ouvidos para amenizar a vaia coletiva que emergia ao seu redor. Algumas pessoas aproveitavam para ligar os flashes dos celulares e no pouco caminho que enxergava, Ana decidiu tentar caminhar para fora, mas antes que pudesse pisar na grama do jardim, vislumbrou a colisão de dois carros a sua frente, deixando toda aquela cena ainda mais caótica.
— Ana? — A menina pôde ouvir seus amigos procurarem por ela no meio de vários nomes que eram falados em voz alta.
A garota correu para a calçada a fim de tentar ajudar de alguma forma, mas notou que toda a cidade estava rendida a escuridão e aparentemente todos os vizinhos decidiram sair e procurar entender a situação.
— Alguém pode me dizer o que está acontecendo? — Uma voz surgiu por trás dos seus ombros.
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