Antes do fim
15 Efeito Borboleta
Naquele momento, parecia como se toda a cidade tivesse parado para observar aquela bola de fogo no céu devido ao imenso silêncio que tomou conta do lugar. Apesar de ter apenas os cinco amigos nas redondezas do rio, era possível ouvir um som que nenhum deles jamais ouvira. As labaredas de fogo que davam luz naquele ponto acima deles emitiam um barulho impressionante ao mesmo tempo em que assustador.
Ana se levantou e tirou os óculos para que pudesse observa-la melhor. Pedro se colocou ao seu lado observando que Guto e Clara estavam saindo da água para se juntarem a eles. Bruno ainda estava estático, beirando a ideia do hipnotismo. Os amigos agora estavam bem próximos, tomados pelo medo do desconhecido, tentando entender o que estava acontecendo naquele exato momento.
— Você realmente acha que está vindo em nossa direção? – Pedro se virou para Ana.
— Parece tão próximo ao mesmo tempo em que sabemos que está tão longe... – A menina respondeu.
— É apenas um cometa. – Clara respondeu, talvez mentindo até para si mesma.
— Mas me assusta a ideia de que podemos ver tão bem a olho nu. – Guto falou em um breve sussurro.
— Acho que está indo para o outro lado. – Bruno apareceu se aproximando de todos eles. – Afinal, isso deve acontecer em várias partes do mundo, todos os dias.
— Também acho. – Pedro falou. – Todos nós, todos os dias, somos pessoas diferentes vendo a mesma estrela e fazendo os mesmos questionamentos.
Ana passou a encarar o menino devido a sua fala. Ela sempre se encantava com a forma que ele tentava apaziguar as situações. Eram as palavras certas no momento certo.
— Eu gostaria de não me preocupar, mas as coisas por essa cidade andam tão estranhas que acho tudo questionável. – Guto falou.
— Você acha que isso tem alguma coisa a ver com tudo que tem acontecido? – Clara perguntou, passando a conversar apenas com o menino e deixando que os amigos escutassem.
Guto era extremamente inteligente, sempre tinha respostas para todas as perguntas e de todos, era o mais atualizado. Sempre lia notícias, filmes, livros e fazia pesquisas constantes na medida do possível.
— Sim, acho que isso tudo pode ser um efeito borboleta. – Ele comentou.
— Efeito borboleta?
— Sim, explicando resumidamente...é como se uma borboleta batesse asas aqui ao redor e a força dessa batida causasse uma explosão em um outro lugar longe daqui. É como se tudo fosse um ataque e contra-ataque.
— Então quer dizer que... – Ana se pôs na conversa. – Os corvos, o calor, a queda de energia, o exército...isso tudo pode estar ligado aquela bola de fogo?
— Eu creio que sim. – Guto respondeu, meio inquieto. – Não quero deixar vocês confusos. Não sou um astrônomo.
Os amigos voltaram a ficar em silêncio enquanto encaravam novamente o cometa que passava no céu azul. As vezes parecia longe, em outras, próximo demais, mas em questão de alguns minutos, a luz parecia estar se dissipando, como se ele realmente estivesse indo para outra parte do mundo.
O medo de cada um foi indo embora de acordo com a falência da luz das chamas do fogo que chamava tanta atenção. Bruno começou a rir meio despreocupado, dizendo que por um momento, achou que talvez todos fossem mesmo morrer. Pedro respirou aliviado e Ana voltou a se deitar na canga em que estava. Guto e Clara voltaram para o Rio e deram um mergulho profundo, talvez para espairecer a mente devido a tanta informação num curto espaço de tempo.
O restante da tarde foi preenchido por muitas risadas, um piquenique extremamente calórico e várias fotos para marcar aquele dia antes que as aulas pudessem começar. O calendário escolar havia marcado o início das atividades para a primeira semana de janeiro, ou seja, a partir da próxima semana a rotina de todos passaria a ser mais puxada e os amigos passavam a se entreolhar com um ar de despedida, já que seria o último ano juntos e cada um iria para um canto diferente a fim de seguir a vida acadêmica ou qualquer outra justificativa que seja. Nenhum adolescente de Baixa Estação gostaria de crescer na cidade, apenas retornar em um momento de férias ou em uma possível aposentadoria para aproveitarem o restante de suas vidas rindo e sendo felizes como eles estavam naquele momento na beira do Rio Azul.
O clube dos cinco aproveitaram como podiam, apostaram corrida, nadaram, conversaram sobre suas vidas e o ponto mais importante aconteceu: Ana e Pedro revelaram que estavam juntos. Houve um momento de silêncio, mas os amigos de imediato protestaram afirmando que sempre souberam. Era fácil olhar para os dois e saber que se gostavam.
— É tão genuíno e inocente isso entre vocês. Estava literalmente na cara. – Clara falou.
— Vocês nunca pararam para observar a situação? Pedro, você nunca se interessou por nenhuma menina por que você só sabia falar da Ana. – Guto falou.
— E Ana, você já observou a forma que olha para Pedro? – Bruno comentou sua opinião. – Vocês são o típico casal de comédia romântica.
Os amigos voltaram a rir deixando o casal um pouco corado e sem palavras, mas no fundo, eles sabiam que não podiam discordar. O amor deles chegava a transbordar por todos os lados, deixando com que qualquer um percebesse o que estava acontecendo entre os dois. Mesmo que tentassem esconder durante anos, aquele momento já estava predestinado a acontecer e ambos já sabiam disso. O coração nunca mente.
O fim da tarde chegou deixando com que o sol descansasse um pouco, permitindo que uma ventania fria começasse a perambular pela cidade. Ainda era véspera de Natal e alguns deles possuíam compromisso no início da noite, sendo assim, precisaram se despedir e em questões de alguns minutos, o Rio Azul ficou outra vez sozinho, sendo um palco de memórias felizes que foram registradas mais um dia na cidade.
Pedro dirigia devagar pelas ruas pequenas e estreitas ainda observando que o movimento continuava o mesmo. A noite estava linda, com luzes extremamente brilhantes e cartazes de Feliz Natal por todos os lados. Haviam músicas em cada esquina, pessoas vestidas de papai noel e até um coro estava se apresentando na praça da cidade.
Ana estava encostada no banco do passageiro observando pela sua janela todo aquele burburinho. A menina estava um pouco cansada, mas bastante feliz. Seus cabelos molhados davam a ela uma impressão um pouco rebelde, mas seus olhos de cor verde acabavam ganhando bem mais destaque, fazendo com que toda vez que Pedro olhasse para a menina, acabasse se apaixonando ainda mais.
— É como se você soubesse conversar apenas com o olhar. – Ele falou, quebrando o silêncio.
— É como se você sempre soubesse o que dizer. – Ela respondeu abrindo um sorriso meio tímido.
— Eu poderia te beijar agora mesmo e nunca mais te soltar.
— O que te impede?
Pedro deslizou o carro devagar na esquina da rua que dava para suas respectivas casas, mas desejou que estivesse bem longe para fazer o que estava com vontade.
— Talvez eu tenha que te soltar, aliás, quero te ver amanhã, jantar com seus pais, te mandar uma mensagem de boa noite e poder olhar seus olhos novamente.
— Você sempre me deixa sem palavras. – Ana respondeu, soltando o cinto e partindo para cima do menino o entregando um beijo que provavelmente o deixaria sem fôlego.
E naquela noite, sob as luzes das estrelas e da lua, o cometa voltava a aparecer sorrateiramente sem que ninguém percebesse. Afinal, a maioria das famílias estavam em casa, sendo felizes diante um enorme e farto jantar, talvez distraídos demais para notar que algo no lá fora estava errado.
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