Notas iniciais
Olá, pessoal. Sei que o dia de postar seria sexta, mas amanhã é aniversário da minha mamis, por isso vou estar o dia todo dando carinho e atenção para ela. O lado bom é que já tinha os capítulos adiantados, por isso não foi nenhum problema postar. Espero que gostem, pois estamos na reta final.

Burley, Idaho – 2016

Era como se nem um dia tivesse se passado para Caleb. Obviamente o tempo tinha passado e mostrado sutis sinais por seu rosto e seu porte, no entanto, nos olhos da jovial Cassandra era como se visse o mesmo garoto de dezoito anos que tinha posto um buquê em seu pulso. Senti a pressão de ser observada por seus olhos escuros sobressaindo o desprezo que sua expressão reproduzia. Não poderia culpá-lo. Tinha caído de paraquedas na sua frente depois de longos cinco anos. Esperançosa, dei um passo na sua direção pensando que talvez ele apenas não tivesse me reconhecido – se bem que depois de tudo o que meus conhecidos me disseram, achava um tanto improvável.

— Caleb, sou eu — murmurei e o vi recuando cauteloso para manter uma bela distância entre nós.

— Eu sei — seu rosto se contorceu um pouco, como se sentisse dor e ele passou as mãos por seus cabelos. — O que está fazendo aqui?

Durante meus longos anos da Califórnia ensaiei esse reencontro, ainda mais depois que recebi a ligação de Misty e a certeza do meu retorno, toda a minha coragem esvaiu-se. Recordei-me de quando senti aquela ambigüidade por conta do convite de Caleb, tendo-a novamente: ao mesmo tempo em que não me continha de emoção, queria me encolher e tremer feito um chihuahua. Passei as palmas das mãos suadas por minha calça e o suor escorreu por minha nuca. Era como se a temperatura tivesse aumentado uns dez graus por conta do batimento acelerados.

Ele sustentou meu olhar, aguardando por uma resposta – e por Deus, que fosse convincente – e por mais que a tivesse, não conseguia pronunciar. Meus lábios pareciam pesar toneladas e meus pés tinham imãs que cismavam em se arrastar na sua direção. Aos poucos, fui capaz de destoar o Caleb de dezoito do de vinte e três. As nuances eram mínimas, como o cabelo um pouco maior e bagunçado, o rastro de barba que enfeitava seu maxilar e a mágoa em seu olhar.

— Tive que voltar — respondi sem saber o que falar. A situação do meu pai não era algo que eu queria expor aos quatro ventos. Ele ficou parado, esperando que eu prolongasse a minha resposta, algo que não iria acontecer. Pigarreei e cocei minha nuca, expondo o meu nervosismo. — Como você está?

Algo no lento estreitar de olhos dele sugeriu que a resposta não seria tão acolhedora quanto eu gostaria, mas Caleb não foi capaz de dá-la, pois foi interrompido bruscamente por uma morena esbelta. Ele parecia tão surpreso quanto eu, só que durou menos tempo do que minha cara de tacho. Ela se enroscou no corpo dele e beijo seu pescoço, encarando-me em seguida com os olhos escuros mais venenosos que já vi em toda a vida. Eu não iria culpá-la. Se alguém estivesse encarando o meu namorado do jeito que eu estava, também iria querer uma satisfação.

— Está tudo bem? — ela questionou alternando seu olhar de Caleb para mim.

Isso foi o bastante para que Caleb se recompusesse. Estufou o peito, encarando-me altivo e sem o mínimo de emoção positiva, quase como se houvesse apenas mágoa entre nós, o que não era mentira. Dei um passo para trás, cruzando as mãos em minhas costas.

— Está tudo ótimo. — Caleb disse entrelaçando as mãos nas dela. Retive a vontade de fechar os meus olhos e engolir as dores. — Vamos.

Observei-os se afastando até a saída do bar antes de recuperar todo o ar que tinha perdido. Quando ele sumiu das minhas vistas, quis dar um tapa em meu rosto por ter agido como uma adolescente na frente dele. Havíamos crescido e tínhamos que lidar com consequências. Essa tinha sido a minha pelas decisões que tomei.

Arrastei os meus pés até a mesa em que Jessie e Jade estavam sentadas. Todo o choque de saber sobre o seu relacionamento tinha se dissipado totalmente. Pelas suas expressões cabisbaixas, elas tinham presenciado o pequeno show do reencontro. Tomei minha bebida, ganhando tempo antes que elas me bombardeassem de informações ou perguntas desconfortáveis, apreciando aqueles segundos para repassar tudo o que havia acontecido.

— Não se preocupe, Cass — Jessie disse assim que larguei o copo. — Caleb mudou bastante depois da sua partida. Deve ser síndrome do coração partido. Ele é o sintoma e o hospedeiro.

Franzi o cenho não compreendendo a ambigüidade nas palavras de Jessie.

— Como assim?

Jessie gargalhou um pouco.

— Caleb virou um cafajeste depois que você se foi. Destroçando corações pela cidade inteira e dos turistas também.

— Minha prima veio me visitar mês passado e ele a chamou para sair. — Jade relatou em um tom baixo de voz, como se estivesse temerosa em se incluir na conversa. — Eles ficaram juntos uma noite e depois ele nem olhava mais na cara dela. Eu quis explicar que talvez ele tivesse se lembrado de você, mas acho que pioraria as coisas. — pigarreou ao sentir que eu e Jessie tínhamos toda a atenção centrada nela. Ao invés de continuar se retraindo, respirou fundo e levantou a cabeça para nos encarar de igual para igual. — Ele e o tio abriram uma oficina e estão levando os negócios assim por um tempo.

Ela finalizou a narração e mais um silêncio constrangedor nos abateu. Eu queria saber mais informações, porém retive essa vontade para não assumir novamente o manto dos meus dezoito anos. Jessie foi, novamente, o meu bote salva-vidas. Esticou-se na minha direção e segurou em minha mão com os olhos escuros brilhando de empolgação.

— Falamos demais dos homens quando estamos em maior número. Vamos falar de você. — soltou-se e deu um grande sorriso. — Conte-me de sua vida glamorosa vida californiana.

Alternei o meu olhar entre o rosto de ambas, vendo a expectativa preenchendo as suas expressões. Esperavam histórias de noite adentro com o pessoal da faculdade em que talvez eu tivesse vivido um romântico típico de livros Best seller. Fiquei com pena de decepcioná-las e trocar as belas histórias por um drama inacabado. Cruzei as mãos na frente do meu rosto e soltei um longo suspiro. Seus sorrisos se dissolveram aos poucos e tomei como uma abertura para começar meu relato dos últimos cinco anos.

— Tem uma coisa que tenho que contar para vocês. — introduzi a história. — Quando me mudei para a Califórnia...

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Dormi foi uma tarefa que exigiu a minha mais avançada habilidade de adaptação, equiparando-me a um camaleão. Aquele quarto estava coberto de lembranças que eram bem vindas, mas que eu queria bloquear por tempo indeterminado de minha mente, até me acostumar com tudo o que se passava atualmente. Era como um choque entre duas realidades paralelas e ficar presa na errada. Pensei em ligar para minha tia diversas vezes, mas já estava tarde. Meu coração se apertou, saudoso com tudo o que tinha deixado na Califórnia. Manteve-me forte. Era apenas uma barreira que tinha que atravessar.

Levantei-me no dia seguinte com o som de panelas caindo pela cozinha. Pensando ter a ver com alguma tentativa corajosa do meu pai de continuar com sua vida normal, corri quase tropeçando nos meus pés e vi Misty recolhendo tudo com lágrimas deslizando por seu rosto. Se eu me achava acabada com as olheiras de uma noite sem dormir, era por não ter visto o estado de minha madrasta antes. Cautelosa, aproximei-me e ajudei a recolher as tampas, pondo-as na bancada. Ela passou o dorso da mão por suas bochechas e deu um sorriso fraco.

— Percebeu que ainda sou um fracasso na cozinha — gracejou.

— O que houve, Misty? — toquei em seu ombro com cuidado. Ela aceitou o contato e suspirou, como se aquilo tirasse um pouco do peso de seus ombros.

— Seu pai disse que quer voltar a trabalhar — ela balançou a cabeça com força e meus olhos arregalaram com as ideias de meu pai. — Ele acha que por você estar de volta, vamos ter mais dificuldade para nos manter. Eu entrei de licença no meu trabalho administrativo no restaurante para poder dar suporte ao seu pai, então estou recebendo pouco. Quem está praticamente mantendo as coisas aqui é Jade e tenho medo que não dure por muito tempo.

Pressionei os lábios, sentindo-me um pouco incomodada por não ter enviado nenhuma ajuda financeira para a família, por mais que tivesse um bom motivo para aquilo. Mexi minhas mãos, nervosa e pensando em uma solução que favorecesse a todos.

— Misty, eu posso ficar por aqui por quanto tempo for necessário. — murmurei com lentidão, pesando minhas palavras. — Com algumas ressalvas que precisamos conversar. De qualquer modo, eu vim para ajudar. Você pode voltar ao trabalho que eu cuido do papai.

Por um segundo, tive a impressão que Misty começaria a chorar novamente. Seu rosto ficou rígido e com uma tonalidade avermelhada, acompanhando o tremer de seus lábios. Todavia, contrariando o esperado, ela levantou a cabeça e respirou fundo retomando o controle de seu corpo. Admirei essa atitude, sabendo que ela teve bastante tempo para treiná-la por conta do meu pai.

— Muito obrigada. — agradeceu com a voz emocionada. Uma solitária lágrima deslizou por seu rosto e ela limpou rapidamente. Olhou ao redor, exaltada em me dar uma tarefa medindo quais eram as mais importantes naquele momento. Encarou-me. — Meu carro está fazendo um barulho estranho há alguns dias. Eu não tive tempo de levá-lo ao mecânico e Jade está sempre fazendo turnos duplos e quando tenta ir está fechado. Pode fazer esse favor para mim?

Mordi meu lábio inferior hesitando alguns segundos antes de assentir e ver o rosto de Misty se iluminando. Aquilo era como uma faca de dois gumes: iria ajudar na casa, mas não ajudaria o meu coração. Misty passou o endereço e esperou que eu me arrumasse antes de me estender a chave. Indicou que eu dirigisse devagar com medo que meu motor morresse no meio do caminho – por mais que fosse apenas quinze minutos até a oficina.

Não ignorei os seus conselhos, porém por motivos próprios. Além da minha insegurança em dirigir, tinham os solavancos do carro que se balanceavam com os do meu coração. Como antes de pegar o avião, repassei as palavras que deveria dizer auxiliada por meu reflexo do espelho. Respirei fundo evitando um ataque de ansiedade que estava desenvolvendo gradativamente. Foram quinze minutos que valeram por cinco e quando dei por mim, estava estacionando dentro do estabelecimento pertencente a Caleb e ao seu tio, Harold, que, por acaso e alívio, foi quem me atendeu.

— Cassandra Sherwood? — indagou como se seus olhos não lhe estivessem sendo fiéis. Dei um sorriso suave e assenti. — Menina, quase não acreditei que fosse você. Finalmente se cansou da Califórnia e voltou a morar com os caipiras?

Ri fraco.

— Estou aqui por causa do meu pai, Harold. Estavam precisando de mim. — encolhi os ombros, não sabendo quem da cidade estava ciente da situação da minha casa. Pela remanescência do sorriso de Harold, achei que não. — Misty pediu para que eu trouxesse o carro. O motor está fazendo alguns barulhos estranhos. — fiz uma careta com a falta de explicação que eu estava dando.

Para o meu alívio, ele mexeu a cabeça como se soubesse exatamente do que eu estava me referindo. Abriu a capota do carro e analisou tudo, murmurando coisas desconexas. Cruzei os braços, ficando em um lugar que não atrapalhasse o seu trabalho. Depois de uns cinco minutos, ele abaixou a capota e me encarou.

— Bom, posso resolver isso rapidamente para você. — garantiu dando outro grande sorriso. — Se quiser esperar, minha casa fica atrás dessa porta. — apontou para uma porta no fundo do galpão. — Assim você não precisa ficar no meio da fumaça e do óleo.

Agradeci, aceitando a proposta e segui na direção que me foi orientado. Apenas quando pus a mão na maçaneta percebi que estava tremendo um pouco. Imitando os movimentos de minha madrasta, ergui a cabeça e respirei fundo, querendo retomar o controle do meu corpo. Quando as batidas do meu coração desaceleram consideravelmente, empurrei a porta e entrei na casa.

Percebi que aquela era a entrada lateral da cozinha, vendo a bancada e o restante do ambiente a poucos centímetros de mim. Mais a frente, pude ver dois sofás cinza posicionados em frente a uma bela televisão. As paredes eram brancas e simples, quase como se tivesse caprichado nos móveis e não dessem valor ao restante. Arrastei os meus pés até a bancada da cozinha e sentei-me em um dos bancos. Tirei o celular do bolso para avisar Misty que o carro estava sendo consertado, mas vi uma ligação perdida da tia Lilian e fiquei apreensiva.

Ela atendeu no segundo toque com a sua jovial saudação, o que me aliviou um pouco.

— Cassandra, querida. — cumprimentou e escutei uns murmúrios no fundo que me fizeram sorrir. Escutei-a se afastando um pouco. — Calma que você vai falar com ela. Espere um pouco.

Escutei um bufo.

— Você disse isso antes.

— Foi a menos de dez minutos, Lucas.

— Eu quero falar com ela! — reclamou.

Escutei a voz de tia Lilian ficando perto novamente.

— Já percebeu o porquê de eu ter ligado tão cedo. — gracejou e deu uma leve risada. — Ele não consegue parar de falar em você. Vocês ficam grudados quase o dia todo e basta um dia longe para que ele pire.

— Ah, tia. — murmurei sem saber como me defender, pois ela tinha razão. — Passe o telefone para ele. Estou morrendo de saudades. — ela fez prontamente o que eu pedi e meu sorriso se ampliou ao ouvir a voz dele. Suspirei como se tirassem o peso do Titanic dos meus ombros. — Como você está, meu amor? — perguntei ouvindo sua resposta. Recostei-me na bancada com a expressão boba no rosto e esquecendo-me da situação em que me encontrava. — Também estou morrendo de saudades, mas em breve vamos nos ver, você sabe disso. Desculpe não ter ligado quando acordei, tive algumas coisas para resolver. — ele respondeu um pouco magoado e fazendo charme. Ri. — Você vai adorar a cidade. Podemos passear por todos os lugares que você quiser. — animou-se.

Por mais que fosse sutil, meus olhos captaram um movimento no canto da cozinha. Virei minha cabeça rapidamente escutando o estalo do meu pescoço e encarei Caleb parado no batente olhando para mim. Esqueci-me que estava no telefone e também de que deveria respirar. Seus olhos eram intensos e estreitos, como se estivessem desconfiados – ou como se tivesse a confirmação das suas suspeitas.

— Meu amor, depois te ligo, tudo bem? Tenho que resolver uma coisa. — respondi com a voz aérea. Lucas reclamou um pouco, mas aceitou quando a tia Lilian interveio. — Prometo ligar mais tarde. — Lucas concordou desanimado.

Desliguei o telefone, pronta para encarar a conversa mais difícil e que mais tinha evitado nos meus últimos anos.