Notas iniciais
Olá, pessoal! Tudo bem? Comigo está ótimo. Fiquei tão empolgada com a recepção da nova short - ainda mais porque faz um bom tempo que não escrevo uma história colegial - que resolvi adiantar o novo capítulo para hoje. Espero que gostem e aos que não acompanham, deem uma chance, juro que não vão se arrepender.

Burley, Idaho – 2016

A primeira coisa que fiz quando desembarquei foi respirar fundo. A princípio fiz isso para tomar coragem para executar meus próximos passos, mas fui tomada pela nostalgia que o cheiro de cidade pequena trazia. Era como grama recém cortada ao invés da fumaça de carro e o calor escaldante da cidade grande. Sentei-me em um banco, ainda um pouco abalada por ter executado a ideia que tinha jurado que nunca faria, ainda relevando tudo o que havia deixado para trás – tanto há cinco anos quanto naquele momento. Botei a mão em meu peito, sentindo meu saudoso coração se acelerando, no entanto sem ter a mínima certeza para que ele estava batendo.

Contragosto, levantei-me e fui atrás de minha mala passando por pessoas conhecidas e algumas que achava que tinham me reconhecido. Não estava surpresa com isso, já que em cinco anos, o máximo que havia mudado tinha sido o comprimento dos meus cabelos castanhos claros. Bati o pé contra o chão, esperando que minha mala aparecesse e a peguei seguindo para a saída. Acabei optando por pegar um táxi, por mais que estive mais acostumada com o sacolejar dos ônibus. Não queria admitir, mas estava evitando qualquer chance de cruzar com alguém conhecido. Não, não qualquer alguém. Não queria cruzar com ele.

Encostei minha cabeça na janela e passei o endereço ao motorista – que por sorte não me reconheceu – e fiquei recordando de minhas memórias em bares e lanchonetes que cruzamos pelo caminho. A viagem durou um pouco mais do que vinte minutos e fui educada ao deixar uma gorjeta para o motorista antes de seguir em direção a minha casa.

Ao virar-me totalmente para a rua, tomei um solavanco sobressaltada com as mudanças que a urbanização tinha trago. Antes, todas as casas eram pequenas com quintais e jardim deslumbrantes que todos gostavam de esbanjar ou elogiar. No entanto, o que eu encarava era uma rua asfaltada e sem nenhum vestígio de natureza que não fosse sintético.

Quando eu morava ali, tinha uma bela cerejeira que minha madrasta cuidava com unhas e dentes, sempre comentando com os vizinhos como era difícil mantê-la, por mais que valesse a pena. Todos tinham inveja daquela árvore, até mesmo Jade. Só que não havia nenhum sinal dela quando passei meus olhos pelas casas milimetricamente similares. Parecia uma piada de mau gosto, mas eu não sabia o caminho de casa. Depois de olhar o endereço mais duas vezes parei na porta que julgava ser a certa e apertei a campainha.

— Cassandra! — Misty exclamou fingindo estar surpresa – por mais que ela tivesse total consciência de que eu chegaria naquele dia. — Pensei que chegaria de noite. — expôs sua confusão. Dei um sorriso educado, esperando para ser convidada para entrar na minha casa. — Vamos, entre. Seu pai está deitado lá em cima. Você não mudou nada, menina. — ela gracejou dando uma risada.

Novamente respondi com um sorriso educado.

— Stanford não dá brecha para horas no salão. — alfinetei. Ela pigarreou, parecendo um tanto sem graça com a minha colocação o que me levou a pensar que seus antigos hábitos não haviam mudado tanto. Suspirei, focando no assunto que importava. O verdadeiro motivo para eu ter voltado a Burley. — Como ele está? — indaguei em voz baixa.

Misty abaixou os olhos por um segundo, respirando fundo como se estivesse cansada de escutar aquela pergunta. Por um lado, eu entendia o quanto deveria ser difícil lidar com um marido com câncer que se recusava a fazer os tratamentos que poderiam salvar a sua vida. Esse tinha sido o motivo para que Misty me ligasse: eu era a carta coringa nesse jogo.

— Fraco — murmurou quase inaudível. Larguei minha mala e me aproximei dela para poder escutar melhor. — Eu já tentei de tudo, Cassandra. Até ameacei largá-lo e sabe o que ele disse? Talvez seja melhor, assim você não precisa me ver ficar imprestável e morrer aos poucos. — tentou imitar a voz dele, tendo a sua carregada de tristeza.

Sem jeito, aproximei-me a pus uma mão em seu ombro como um consolo. Ela respirou fundo mais algumas vezes, quase como para reprimir o choro que estava vindo. Não podia dizer que não estava impressionada com o modo como Misty estava segurando a barra. Na minha concepção, encontrá-la-ia e Jade entregando-me uma lista de afazeres enquanto recolhiam suas coisas para uma de suas famosas voltas no shopping, deixando meu pai jogado e em seus últimos suspiros.

Fui enganada por lembranças antigas e recriminava-me por ter julgado tão precocemente o comportamento de Misty. Próxima, pude perceber alguns sinais de que suas mudanças também tinha sido físicas, como o destrato com o cabelo loiro que estava ressacado e a raiz preta aparecendo, além das profundas olheiras embaixo dos olhos. Quando ela pôs uma mão por cima da minha, reparei que estavam ressacadas e ásperas. Aquela não era, nem de longe, a Misty de cinco anos atrás.

— Vou conversar com ele — prometi.

— Obrigada, Cassandra — ela disse e deu um pequeno sorriso. — Ele ficou mais alegre quando contei que você estava vindo para cá. Fez com que arrumássemos seu quarto para tirar a poeira. — seguimos para o fundo da casa na direção dos quarto. — Não tocamos em nada além dos lençóis nesses últimos cinco anos. — garantiu abrindo a porta do quarto.

Minha boca se abriu acompanhando meus olhos arregalados por ter o meu quarto arrumado do mesmo jeito que deixei há cinco anos. Jurava que no momento em que saísse da cidade, Jade transformaria aquilo no seu novo closet. Entre devagar, sentindo a atmosfera me rondando e sentei-me na cama, tocando com suavidade nos lençóis.

Em um movimento quase automático, abri a primeira gaveta da minha mesa de cabeceira e peguei uma palheta que guardava do primeiro show que tinha ido com Jessie. Fechei os olhos e sorri. No meio das lembranças ruins, existiam algumas que não queria ter me desapegado. Levantei-me antes de me dar ao luxo de chorar na frente de minha madrasta e coloquei a mala dentro do armário.

— Vamos ver meu pai.

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— Não acredito que perdi os cinco melhores anos da sua vida — meu pai lamentou pela terceira vez e tentou se ajeitar na cama. Misty correu para auxiliá-lo, por mais que fosse óbvio que ele queria fazer sozinho. Seu rosto se retorceu de dor por conta do câncer que se espalhava, porém foi firme não querendo mostrar seu sofrimento na minha frente. — E já se formou em Stanford?

— Consegui me formar antes — relatei vendo os seus olhos brilhando em um evidente orgulho. Pena que ele não sabia que fui obrigada a me formar antes, por conta de outras prioridades. — Estou começando em um pequeno escritório em San Diego. Minha chefe é um pouco carrasco, mas todo ensinamento vale a pena. — toquei em sua mão. — Queria que pudesse ter ido me visitar, tem tanta coisa que queria te mostrar. — e contar.

— Sinto muito, querida. — ele lamentou.

Quando fui embora, meu pai ficou bem chateado e atribuí àquela chateação ao fato de não ter ido me visitar todos esses anos. Por um lado, foi uma coisa boa. Tive tempo para preparar um bom discurso de explicações. Só que naquele momento, vendo o quanto seus cabelos tinham caído, o quanto gemia de dor e tinha emagrecido. Como Misty tinha feito na sala, abaixei os olhos reprimindo a forte vontade de chorar. Sentia-me culpada por ter perdido tantos anos preciosos com rancor e não ter mostrado o quanto minha vida tinha se iluminado nesses anos.

— Não fique assim, querida. — meu pai pediu limpando uma solitária lágrima que tinha deslizado por meu rosto. Seus dedos estavam ressacados e ele não foi capaz de manter a mão levantada por muito tempo. — Logo esse sofrimento vai acabar para todos nós.

No instante em que pus os pés do lado de fora do quarto, desabei em lágrimas. Misty ficou alguns centímetros afastada, como se cogitasse se tínhamos intimidade o suficiente para que ela me consolasse. Fiquei mergulhada nessa tristeza por alguns segundos antes de levantar a cabeça e perceber que ficar chorando pelos cantos não melhoria a situação.

Encarei Misty.

— Acho que sei como fazê-lo mudar de ideia. — eu disse pegando o meu telefone e ligando para a minha tia Lilian.

********

Demorou menos de três horas para perceber que o mundo tinha dado uma volta de cento e oitenta graus especificamente em Burley. Lugares boêmios que abrigaram inúmeros estudantes com suas identidades falsas, havia se tornado pequenas boates que disputavam a atenção dos jovens adultos. Crianças que por muitas vezes tinha sido babá se tornando jovens inteligentes e com fortes opiniões que nem eram postas em pautas antigamente. A urbanização tinha chegado a outras áreas além da rua do meu pai e juntamente com a tecnologia estavam dominando a cidade. Isso não deveria me incomodar, mas destruía a imagem que tinha preservado por tantos anos em minha mente.

Contudo, não foi nenhuma dessas mudanças que me deixou mais abismada e sim as das pessoas mais próximas a mim. Tinha acabado de ligar para minha tia, recitando o plano recém armado na minha cabeça e garantido para Misty que meu pai mudaria de ideia, quando a porta foi aberta dando passagem para as gargalhadas de Jessie e Jade. Eu congelei, sem saber o que dizer com aquela cena. E pelo espanto em suas expressões, nem elas mesmas sabiam o que dizer.

— Cass? É você mesma ou estou delirando? — Jessie questionou. Só deu tempo de piscar antes que eu estivesse presa no círculo de seus braços em um abraço de urso. — Meu Deus! Não acredito que você está em Burley. — ela se afastou segurando-me pelos ombros. — Olha só para você! Não mudou nada.

Por mais que Jessie estivesse feliz em me ver, deu para perceber o seu desconforto. Não somente o seu, mas o de todos os presentes naquela sala. Eu não sabia o que dizer, Jade estava quieta em um canto apenas observando e Misty tinha sumido em direção a cozinha. Fechei os olhos por um segundo antes de enfrentar de vez aquela situação – e não pensar que era um pesadelo.

Mas era um pesadelo. Só que dos reais.

— Pode me explicar como isso aconteceu? — questionei tomando um gole da minha bebida.

Jessie insistiu para que fôssemos para outro lugar para que nós pudéssemos conversar melhor – ou seja, para que ela me contasse tudo. Jade nos seguir entendendo o convite como aberto, mas manteve-se em silêncio durante todo o trajeto até um dos poucos bares remanescentes da cidade.

Durante o curto tempo dentro do carro, notei os pequenos sinais que transformaram a volta de cento e trinta e cinco graus em uma de cento e oitenta. Jessie e Jade trocavam sorriso cúmplices esporadicamente, retendo-se quando ameaçavam ter qualquer tipo de contato carinhoso. Nos sentamos em uma mesa do fundo e eu respirei fundo reunindo toda a minha coragem para fazer a pergunta fatídica para elas.

Jade corou deixando que Jessie assumisse as rédeas da narração.

— Depois que você foi embora, eu arrumei emprego na joalheria da senhora Matarazzo, lembra dela? — perguntou querendo mais um tempo para formar sua história. Assenti lentamente. — Então, Jade fez o mesmo para pagar os estudos da faculdade. No começo não nos aguentávamos. A senhora Matarazzo pensou em demitir uma de nós duas para que não corrêssemos o risco de quebrar uma de suas vitrines. — riu um pouco ainda sem graça. — Quando as aulas na faculdade começaram descobrimos que éramos da mesma sala de Serviço Social, o que me surpreendeu bastante, pois a única vez que imaginei Jade com uma criança tinha trabalho escravo envolvido. — Jade trombou o ombro contra o de Jessie por conta da implicância, mas isso não fez com que minha amiga parasse. — Acabamos nos aproximando com o tempo, por conta dos trabalhos em grupo e tudo mais. Uma coisa levou a outra e aqui estamos. — ela entrelaçou sua mão na de Jade e a ergueu, como se estivesse exibindo a vencedora de uma luta.

Cocei meu couro cabeludo, confusa.

— Pensei que vocês se odiavam! — ressaltei.

— Era tesão reprimido. — Jessie deu de ombros.

— Na verdade — Jade tomou a palavras me sobressaltando mais ainda. — a culpa foi toda minha. Eu era confusa com os meus sentimentos e sentia muito ciúmes de você. Acho que por isso quis puxar seu tapete tantas vezes. Sinto muito, Cassandra.

Passei as mãos por meu rosto, ainda se acreditar no que meus olhos e ouvidos estavam me mostrando. As duas permaneceram em silêncio esperando por uma reação minha, mas tudo o que eu conseguia pensar era em questionar Jessie sobre o seu terceiro mamilo. Tomei o último gole de minha cerveja e percebi que depois desse dia precisava de algo mais forte.

— Preciso de uma bebida. — eu disse levantando-me.

Ninguém tentou me impedir durante o meu caminho até o bar, o que foi um alívio. Esparramei-me no balcão sinalizando para o atendente que queria um copo de uísque e ele me trouxe em uma velocidade invejável. Virei o copo de uma vez, pedindo a segunda dose em uma chance de protelar antes de voltar para a mesa e enfrentar a realidade da situação. A realidade em que minha melhor amiga estava namorando minha meia-irmã. Não conseguia enxergar opções para que aquele dia piorasse.

Alguém parou ao meu lado no bar e pediu a mesma coisa que eu. Preparei-me para fazer uma piada, perguntando se seu dia estava tão merda quanto o meu, mas quando meus olhos esquadrinharam seu rosto, todo o ar que restava em meus pulmões me abandonou. Com o soar alto de meu arfar, ele fixou os olhos em mim e seus olhos se arregalaram como se ele estivesse vendo um fantasma.

— Caleb?