Antes do Massacre Vermelho

1 Antes do Massacre Vermelho


— O que você acha? — Perguntei, na esperança de que ele fosse me responder seriamente.


— Acho que não vou receber um aumento no fim do ano. — John respondeu com um sorriso no rosto. Por mais preocupado que eu estivesse antes de qualquer missão, ele sempre fazia o clima se descontrair, mesmo que não fosse hora para isso.

— Do jeito que você trabalha, nós dois sabíamos que não ia acontecer.

— Ah, qual é, Anton? Achei que você ia demorar mais para pisar nos seus antigos colegas. Sabe, eu sei que você vai ser quase majestade, mas pelo menos enquanto a gente trabalha você podia ser mais humilde! — John disse isso enquanto ria e também me arrancava umas risadas. Mas no fundo aquele sentimento dele me preocupava. Ele realmente parecia chateado em relação a minha promoção.

— Eu não sei de onde você tirou que eu vou estar numa posição mais elevada que você ou o pessoal… O cargo de conselheiro da guarda real pode ter um nome chique, moedas extravagantes e tudo mais, mas lá se vai o poder que eu e você temos agora. Eu não posso mais usar meu direito de justiça e prender um rei se encontrar ele fazendo algo ilegal…

— Hahahah… Que pensamento de novato, Anton. Acho que é por esse tipo de motivo que a maioria de nós entra para a guarda de Cidrak. “ Justiça suprema”, “ Sua palavra é a lei, mesmo contra os membros reais”. Esse é o tipo de coisa que contam para todo mundo, mas me diz você, quantas histórias de guardas prendendo reis e nobres você conhece?

— Bem, nisso você tem razão.

John e eu estávamos sob nossos cavalos, rumo a uma caverna em que, supostamente, Abbadon Adrastea, um poderosíssimo lich necromante, tinha sido avistado. Nós fomos chamados para guiar outros soldados adentro da caverna, um grupo grande e que sentiu presença mágica no lugar. Se não fosse pelo fato de haver mais de cinquenta pessoas enviadas nessa missão, eu com certeza estaria bem mais preocupado.

— Como está a Andrea? — John perguntou, quase que com a mesma expressão de preocupação que ela teve comigo antes de sair.

— Mal… Ela não queria que eu saísse. Disse que Abbadon deveria ser problema de Shadowstone, não nosso.

— Você sabe que ela não tá errada.

— Eu gostaria que fosse simples assim, mas você sabe que a política diz mais nessa situação. Enquanto Shadowstone não for reconhecida por Cidrak e os outros reinos, ele infelizmente vai ser problema nosso sim.

— Por isso você resolveu atuar ao lado do rei? Dar uns conselhos sobre geopolítica durante seus intervalos?

— Gosto de pensar que ele escuta a todos.

— E quanto ao bebê? — John perguntou como se eu fosse um desnaturado.

— Não me vem você com essa também.

— Anton, me escuta. — John parou o cavalo e olhou para mim. O mesmo olhar que me dava desde que nós dois nos alistamos na guarda de Cidrak e ele achava que eu estava fazendo besteira. Eu achava bom no início, mas de lá para cá parece que ele quer viver a minha vida por mim. — Você não vai deixar aquela criança órfã.

— Eu não vou deixar ela passar fome também. Por isso nós vamos terminar essa droga de missão, eu vou aceitar minha promoção e vai ficar tudo bem.

— Sempre com uma resposta na ponta da língua… Haha… Não vamos deixar aquele necromante desgraçado frustrar seus planos, amigo. — John disse, enquanto eu me virava e continuava a seguir o caminho.

O resto da estrada foi mais tranquilo. O sol se escondia em nuvens que pareciam carregadas de chuva, mas que até aquele momento não tinham despejado seu conteúdo. Os cavalos trotavam e eu e John não trocamos muitas palavras depois de nossa discussão.

Nossa história é antiga. De melhores amigos cadetes até parceiros e irmãos. Esse é um jeito de definir minha relação com John. Mas Solum sabe que irmãos cometem erros, e conosco não é diferente.

Ele se preocupava comigo, com minha mulher e meu filho que estava por vir, mas as vezes parecia que se importava mais com essas coisas do que comigo. Antes que eu pudesse pensar em ter algum tipo de revelação fantástica sobre minha relação com John, nós chegamos até a caverna. E o que vimos não nos agradou nenhum pouco.

Os cavalos se assustaram e relincharam com aquela cena. Haviam três cadáveres deitados na frente da caverna, e pior de tudo, eles estavam completamente mutilados, banhados em sangue, com ossos quebrados e até mesmo com alguns pedaços do tórax abertos. Não havia muito no corpo deles para identificá-los e o cheiro era completamente nauseante.

— O que diabos aconteceu aqui? — John perguntou, tão incrédulo quanto eu.

— Onde estão as tropas? Eles não tinham autorização para entrar na caverna.

Antes que pudéssemos raciocinar, começamos a escutar passos rápidos ecoando pela caverna e chegando cada vez mais perto de nós. John e eu nos entreolhamos rapidamente e desmontamos de nossos cavalos. John desembainhou sua espada longa e eu apontei minha besta em direção ao possível inimigo que chegava mais e mais perto de nós. Não pretendia me juntar aos cadáveres que apodreciam ali.

Quando os passos pareciam estar quase iminentemente chegando em nossa direção, conseguimos ver um homem e uma mulher saindo da caverna, em desespero. O homem é alto, esguio, parece bastante jovem e pelas insignias da armadura posso perceber que é um soldado novato. A mulher que está ao lado dele aparenta ser poucos anos mais velha, está ensanguentada, mas percebo que também faz parte da guarda Cidrakiana.

— Opa! Muita calma, cadetes! O que diabos tá acontecendo aqui? — John perguntou com a espada ainda apontada na direção deles.

— Por Solum!! Por favor não mata a gente! — A garota perguntou quase chorando e com medo muito visível em seu rosto.

— Se recomponham, os dois. Por que mataríamos vocês? — Perguntei e pude observar as reações deles, que definitivamente não estavam dentro do padrão.

— Vocês… vocês não são eles? — O garoto parecia tão assustado quanto a amiga.

— Que droga você tá falando, moleque? Isso é algum tipo de feitiço daquele mago desgraçado? — John perguntou e então partiu para cima dos dois, com a espada mirando no coração do garoto. Antes que ele pudesse fazer algo, eu coloco minha mão no peito dele e o impeço.

— São só garotos, cara! Se acalma! Eu resolvo isso. — John parecia furioso e desconfiado, mas não lutou contra minha decisão. Por mais estranha que fosse a situação, dois cadetes de Cidrak mereciam o beneficio da dúvida. — Nós não estamos aqui para fazer mal a vocês. Eu sou o capitão Anton Foster e esse é o sargento Jonh Briar. Nós fomos enviados para guiar o grupo de vocês por essa caverna. Agora digam, o que diabos aconteceu aqui? — Depois das minhas palavras eles pareceram se acalmar. A garota ainda tremia um pouco sua mão, e pude perceber que sangue escorria de uma parte do ombro dela.

— Capitão… eu sou o Dante… essa é a Gabrielle… nós fomos atacados. — Ele suspirou profundamente depois de dizer isso.

— Como foram atacados?

— Mortos-vivos…

— Mortos-vivos? Vocês estão com medo de mortos-vivos? O que achavam que o necromante ia fazer com vocês? Conjurar animais? — John disse genuinamente impressionado.

— Não eram zumbis comuns… Nós chegamos aqui e esperamos, como eram nossas ordens. Depois de algum tempo começamos a ouvir sons de gritos que vinham da caverna. Gritos e choros de uma mulher. Nós não queríamos entrar, mas ela pedia socorro pela família dela, capitão… Nós…

— Eu entendo, soldado. Não precisa se justificar. Continue.

— Nós entramos e percebemos que a caverna tinha diversas bifurcações e que a mulher não estava mais gritando, então tivemos que nos separar para encontrar ela. Eu, Gabrielle e mais cinco ou seis outras pessoas seguimos por esse caminho. E…

— Achamos a moça. — Gabrielle interrompeu Dante, que parecia mais e mais receoso em contar o resto da história para nós. — Ela tava ajoelhada, de frente para o que, na hora, parecia ser o filho dela.

— Por que você diz “parecia”? — Eu pergunto e percebo Dante revirar os olhos com puro pavor.

— Capitão… eu digo isso porque aquela coisa não era humana. Se é que um dia já foi. Também não era elfo, anão, meio-dragão, e se você quer saber, nem morto-vivo. Eu já vi alguns de perto, e esse não era parecido com eles.

— O que aconteceu? — John perguntou, aflito.

— Eu fui falar com a moça… Ia pedir para que nós saíssemos dali, porque naquela altura eu achava que o “filho” dela precisaria de um clérigo ou coisa assim. — Gabrielle deu uma pausa, pareceu engolir um choro iminente e continuou. — Eu coloquei minha mão no ombro dela e expliquei a situação. Ela lentamente tirou os olhos da criança e virou o rosto para mim. No olhar dela… No olhar dela não havia nada! Não havia tristeza, felicidade, preocupação… nada! Mas ela me disse o seguinte: “Contemplem minha glória, meu poder, e desesperem-se. Eu não entendi nada, e então, ainda sem expressar nenhum sentimento… ela sorriu. Um sorriso de orelha a orelha, que me deixava perturbada por parecer não significar nada… Foi aí…

— A criança atacou ela. — Dante, aparentemente recomposto, segurou a amiga em um abraço e continuou aquela história de terror por ela. — O menino, que não devia ter mais de dez anos, pulou pelas costas da mãe e se agarrou ao ombro da Gabrielle. O garoto estava podre… Literalmente podre. O cheiro dele empesteava a caverna inteira, mas ele pulou com toda energia que tinha. E enquanto avançou para morder o ombro de Gabrielle eu vi… eu vi ele sorrir! Antes que qualquer um de nós pudesse fazer algo, a mãe se levantou e começou a conjurar alguma coisa. Então nós fomos surpreendidos por diversos mortos-vivos atrás do nosso grupo. Eram muitos… muitos mesmo. A maioria parecia ser elfo-amaldiçoado, mas havia alguns humanos e outras raças também. Eles tentavam morder qualquer parte que fosse, e o pior de tudo é que alguns deles… Alguns deles usavam armas quando não conseguiam passar por nossa armadura. Eu vi um homem muito grande, com aparência podre e roupas de bárbaro, partir a armadura de um soldado no meio com um machado, e depois disso… comer a carne dele enquanto ele ainda estava vivo!

— Foi o que aconteceu… não esperávamos por esse tipo de morto-vivo, sargento! — Gabrielle disse enquanto olhava para John, que permaneceu calado.

— Eu mal tive tempo de reagir… Quando vi que nossa retaguarda estava repleta daqueles monstros eu apenas olhei para Gabrielle, acertei a criança e eu e ela corremos para longe daquela bagunça. A moça que ainda conjurava algo pareceu não se importar quando saímos… Seguimos adiante e conseguimos voltar por outras bifurcações.

— Vocês foram embora com o pelotão de vocês morrendo e gritando? — John perguntou algo duro, mas que, ao meu ver, realmente devia ser questionado.

— Não é algo que eu me orgulho, sargento, mas naquele inferno… Eu não consegui pensar em mais nada.

— Vocês viram algum soldado enquanto voltavam? — Perguntei, negando a mim mesmo a gravidade daquela situação.

— Nós ouvimos gritos dos mais diversos, mas não, não vimos ninguém. — Dante disse e pareceu esconder uma das mãos, que tremia incessantemente.

— Eu sinto muito por isso, soldados. Sinto mesmo. Deem graças aos Deuses por terem sobrevivido. Agora nós iremos voltar e contatar o rei, vamos precisar do exército inteiro. — John tomou a frente e deu ordens aos soldados, no entanto, Gabrielle não parecia contente com isso.

— Não podemos. — Gabrielle disse, ainda receosa. — Meu pai está dentro da caverna.

— Pelos Deuses… — John colocou a mão em sua testa e pareceu não acreditar no que estava ouvindo.

— Nós nos separamos em uma das bifurcações, nos perdemos antes de encontrar aquela mulher… Eu sei que ele tá bem, a gente precisa encontrar ele! — Gabrielle praticamente implorou para nós.

— Eu sinto muito, garota, mas nós não vamos entrar! — John não hesitou em dizer isso a Gabrielle, que pareceu não acreditar no que estava ouvindo.

— Você não tá falando sério! — Eu genuinamente não acreditava que John pudesse ser tão frio.

— Qual é, Anton? É você quem não deve estar falando sério! Você quer entrar nessa droga de caverna? Quer encontrar aquele maldito necromante só com dois soldados?!

— É o paidela, John!

— Não, não é só o pai dela. Sou eu, ela, você, sua mulher, seu filho!

— Não começa com essa merda de novo! Não começa!

— Você se lembra daquela família do centro, que tinha um garoto idiota que treinou necromancia escondido no porão de casa? — Eu estava ficando cada vez mais estressado e quase não consegui prestar atenção no que John dizia com tanto afinco. — Eu e você ficamos quase dez minutos batendo na cabeça daquele zumbi imbecil e ele não parava de vir! Agora não só vamos ver mais de um zumbi, como também os desgraçados aprenderam a usar a droga de uma arma! Você acha que foi difícil com só um morto-vivo que era estúpido? É porque nós ainda não enfrentamos os desgraçados que estão aí dentro! — John gritou e então só houve silêncio. Nem mesmo Dante ou Gabriella argumentaram contra ele, porque no fundo sabiam que era verdade.

— Você falou sobre o meu filho… Se fosse eu preso nessa caverna, você me deixaria aí?

— Você é meu irmão, Anton. — Os olhos de John estavam completamente vidrados em mim, de maneira que quase me fez temê-lo. — Você é meu irmão e eu jamais deixaria você para trás. Mas eu nunca, NUNCA, deixaria o seu filho ir atrás de você! — Eu sabia que a declaração de John deveria me deixar feliz ou aliviado, mas eu não estava. Eu não me tranquilizava com as palavras dele.

— Sargento, o senhor não vai precisar se preocupar com isso agora. Porque é o meu pai, e eu vou com ou sem vocês. — Gabrielle disse e então deu as costas para nós, caminhando de volta para a caverna.

— Espera. Eu vou com você. — Eu declarei e o rosto de John pareceu se retorcer de raiva.

— Essa é a decisão errada… — Enquanto eu pegava alguns materiais na bolsa do meu cavalo, John tentava disfarçar sua fúria, mesmo quando ela era tão aparente.

— Você não precisa vir com a gente. Pode voltar para Cidrak e contatar o rei, nós vamos assim que acharmos o pai dela. — Disse enquanto me despedia de meu cavalo em uma árvore próxima da caverna e em seguida partia junto a Dante e Gabrielle.

Eu sigo em direção ao desconhecido, em busca do pai de Gabrielle, ignorando os avisos de John. Por alguns segundos ele fica parado exatamente onde eu o deixei. Não sei se ele não acreditava que eu estava realmente fazendo isso ou se simplesmente tomou seu tempo para pensar se devia ou não ir embora. O que sei é que depois de algum tempo ele ultrapassou os dois soldados e avançou ao meu lado adentro da caverna.

— Você nunca me escuta. — Se emparelhando comigo, John simplesmente proferiu e então seguimos o caminho.

— Somos dois. — Disse e pude ver ele segurar um tímido riso.

Eu e John íamos a frente, orientados por Gabrielle enquanto Dante cobria a retaguarda. Não queria correr o risco de sermos surpreendidos, então fomos a um passo mais lento e cauteloso. O túnel que percorríamos era úmido, o que fazia cada um de nós evitar tocar em suas paredes; e vez ou outra escutávamos sons estranhos e abafados afrente.

— Qual o nome do seu pai, soldada? — John perguntou, quebrando o clima que havia se estabelecido desde sua chegada.

— Gabriel.

— Que criativo. — John se divertia com esse tipo de coisa.

— A sorte é que eu não tenho irmãos. — Gabrielle disse, o que fez John perceberque seu humor não era tão único.

— É raro encontrar pais e filhos na guarda. Vocês devem ser o orgulho da família. — Eu disse, percebendo que até agora ainda não tínhamos questionado isso.

— Obrigada, capitão. A família toda é sim muito orgulhosa com isso. Como eu disse, eu nunca tive irmãos, mas meu pai nunca se importou em não ter um homem para treinar. A segurança de Cidrak é muito importante para nós, mesmo para o meu pai, que vai se aposentar no fim desse ano. — Gabrielle disse, claramente orgulhosa de sua história, apesar de sua voz parecer estar ficando mais fraca.

— Tá vendo, John? O homem vai se aposentar. Mudança na vida. Precisamos aceitar as mudanças na vida! — Eu disse e John mais uma vez parecia querer mudar o foco da conversa com o humor.

— Não começa, Anton… Não tem porquê eu falar nada para você. Você é teimoso. Nunca escuta…

— Teimosia nem sempre é ruim, sargento. Se não fossemos teimosos, já teríamos ido embora com o senhor e deixado o pai de Gabrielle para morrer aqui. — Dante interrompeu, o que me surpreendeu bastante e também pegou John no pulo.

— Isso lá é jeito de falar com seu superior, soldado? — John disse, dando um olhar para Dante que eu não gostaria de estar recebendo.

— Eu sinto muito sargento, mas diante do que o senhor diz para o seu superior, achei que hierarquia não importava aqui. — Dante deu uma resposta afiada e o clima esquentou ainda mais.

— Escuta aqui seu bostinha… — John cessou seu caminhare partiu para cima do soldado, mas eu o impedi.

— Os dois, parem com essa merda agora! A última coisa que precisamos é estarmos um contra o outro!

— Tá tudo bem, Dante. Por favor, fica tranquilo. — Gabrielle segurou o braço de Dante enquanto dizia isso e realmente fez o garoto se acalmar.

— Alguém...? Alguém? — Todos nós nos assustamos quando percebemos que, um pouco a nossa frente, em um ponto que mais uma vez parecia subverter a caverna em outras bifurcações, um senhor, vestido com uma robe azul que ia até o chão, gritava com uma voz extremamente estridente. Ele estava de costas para nós e de frente a um parapeito que separava nosso andar dos mais baixos da caverna.

— É um deles? — John perguntou, abaixando o tom de voz e demostrando uma visível aflição em seu rosto.

— Eu não… Eu não sei. — Dante respondeu, tão surpreso quanto qualquer um de nós.

— Ele tá lá… Tá aonde a criança me atacou! — Gabrielle disse, com a voz ainda mais fraca e quase não conseguindo erguer o braço e apontar na direção do senhor.

— Gabrielle, você está bem? — Dante perguntou o que todos nós já tínhamos pensado em questionar.

— Não… Eu tô tão cansada… Tô sentindo uma náusea também…

— Será que o ferimento dela infeccionou? — O garoto perguntou olhando para mim e John.

— Pelo que você disse, faz pouco tempo que ela foi atacada. Não daria tempo de infeccionar. — A declaração de Johntranquilizou os dois, mas não por muito tempo.

— Por favor, alguém! — O velho voltou a demonstrar sua presença e nos preocupar com isso.

— Eu vou falar com ele. — Disse e vi John colocar sua mão em meu ombro.

— Cuidado! Eu cubro você. — Ele então retirou sua espada da bainha e eu deixei minha besta em mãos, mas sem apontar diretamente para o velho.

— Senhor? Meu nome é Anton, sou capitão da guarda de Cidrak. Qual o seu nome, senhor? O que faz aqui?

— Eu… Eu… estou perdido… perdido a tanto tempo! — O idoso, que tinha uma voz esganiçada e bastante irritante, gritava essas coisas sem sentido enquanto eu e os outros avançávamos. Eu ia a frente, seguido por John, Dante e Gabrielle, nessa ordem.

— Senhor, eu preciso que se identifique AGORA! — Eu disse e o velho finalmente se virou e olhou em nossa direção.

Era realmente um idoso. Poderia facilmente ter mais de setenta anos. Porém, o que mais chamava a atenção não era sua idade ou barba extremamente longa e fina, mas sim seu olho esquerdo, que em parte estava dilacerado e perceptivelmente inútil, cego. Sua pele também parecia ter uma coloração diferente do normal, porém o pior de tudo… foi o sorriso vazio que ele nos deu após minha ordem.

Eu sou o derradeiro fim. — Ele disse enquanto esbanjava seus dentes podres para todos nós.

Eu aponto minha besta na direção dele, mas tarde demais. De repente, nós ouvimos um grito, então eu pude perceber que, da parte mais alta da caverna, um elfo-amaldiçoado vestindo roupas de couro pulou em Gabrielle, que gritou, mas logo teve ele ele jogado para longe dela por John. Vi aquela cena e, no segundo que voltei meus olhos para o velho, pude sentir seus dentes rasgarem a carne de minha mão, arrancando um pedaço de minha pele e me dando uma dor inimaginável.

Eu acerto a cabeça dele com minha besta e o atinjono peito com um dos virotes. Ele sente o golpe, dá dois passos para trás, no entanto, se recusa a morrer. Começo a escutar sons variados por trás de mim e presumo que não estamos mais em maior número na caverna.

Alimento minha arma mais uma vez e firo o velho no mesmo lugar, outro golpe potente, que mais uma vezo lança para trás e até o prende a uma parte do parapeito, entretanto, não é fatal.

Olho para trás e vejo que estamos completamente cercados. Diversos homens e mulheres, com as mais variadas vestimentas, nos cercam de onde viemos. Todos eles sorriem e não parecem ter pressa. Gabrielle tinha razão. Essas coisas não são como qualquer raça. Suas peles se descolam de seus rostos e, diferente dos mortos vivos tradicionais, que apenas ignoram completamente todo o arredor, estes parecem sentir prazer. Parecem sentir prazer com o próprio sofrimento e ainda mais quando causam desgraça aos outros. Eles se juntam, trazendo John e os cadetes encurralados em minha direção, e cada um parece fazer um grande esforço para não rir. Aquelas criaturas terríveis, trajadas desde magos até guerreiros comuns, pouco a pouco deixam suas risadas fluírem mais e mais, pois sabem que nós estamos ficando sem opções. Eu estou junto ao parapeito que dá visão aos níveis mais baixos da caverna e só consigo ver duas saídas, uma a direita e outra a esquerda, dois túneis que não faço ideia se tem saída ou não.

Vejo John e os cadetes virem até mim, com Gabrielle sendo trazida apoiada em Dante, e Johnperceptivelmente tão preocupado quanto eu.

— Anton, que merda a gente vai fazer?!

— Eu não sei! Dante, para onde esses túneis vão?! — Eu pergunto e procuro Dante, que está agachado ao lado de John, de frente para Gabrielle, que acaba ficando a frente do corpo do cadete; com a mão encostada em seu rosto dizendo algo bem próxima dele, o que nos impede de ver a face do jovem. O silêncio ensurdecedor do rapaz faz meu coração dar uma pontada de agonia. — Dante?

Gabrielle então gentilmente coloca o rosto de Dante a alguns centímetros a direita dela, o que nos permite olhar para ela, que está com a boca ensanguentada e com restos de carne do jovem cadete presos entre seus dentes. O que era um amigo próximo agora é simplesmente um pedaço de carne para Gabrielle, que nos olha com um sorriso diabólico. Eu nunca me esqueci daquela cena, de como todo o brilho do garoto, e até mesmo o dela, se foram em um piscar.

Dante não está, ainda não. — Ela diz sorrindo ainda mais, com tanta força que fez parecer que sua boca iria se rasgar para dar lugar àquela feição perversa.

John não hesita em jogar sua espada na cabeça de Gabrielle, e eu não tenho tempo para analisar a efetividade do golpe, pois o velho que estava preso e quieto no parapeito deu uma risada muito alta, e eu pude perceber que, mesmo preso, ele ainda mexeu suas mãos para realizar um feitiço de telecinese, que simplesmente me jogou na direção do parapeito e me faz cair no vão da caverna.

Tudo é tão rápido que acho que John deve ter demorado alguns bons segundos para perceber o que aconteceu. Meu corpo caiu e não tive tempo de me segurar em nada. É uma queda alta, e na minha cabeça a morte é certa. Não me dou ao luxo de gritar.

Tudo se escureceu. Meu último pensamento foi que dessa vez era muito triste John estar certo e eu errado. Minha boa ação levou a morte de boas pessoas e tornou meu filho um pouco mais sozinho no mundo. É o que eu penso. Porém, os Deuses não podem permitir que tamanha injustiça ocorra.

Eu acordo com uma tremenda dor na cabeça e no corpo todo. O que eu consigo ver inicialmente é que meu corpo está amarrado em uma espécie de mesa em vertical. Também percebo uma fogueira em brasa na minha frente, contudo, o que mais me assusta é ver que minha mão esquerda não está onde deveria estar. A mesma mão mordida pelo velho dá lugar a um cotoco, com esparadrapos que impedem o sangramento. Eu me assusto, mas sou interrompido antes mesmo de começar a gritar a plenos pulmões.

— Não grite, ou eu vou jogar você nessa fogueira e aí sim você vai ter motivo para berrar. — É uma voz fraca e cansada que fala comigo. Percebo que ela nasce de trás da minha direita, o que impossibilita minha percepção de quem está me ameaçando. A única coisa que consigo perceber com mais clareza éa silhueta deste homem, que segura minha própria besta contra mim. — Você é um deles?

— Não… Não sou. Você é?

— Não teria tirado sua mão se fosse. — Ele disse, ainda imóvel.

— Você… Foi você? Se quer saber, isso parece bem uma coisa que um deles faria, desgraçado! — Eu digo, ainda sem acreditar que minha mão se foi.

— Eu acho que um deles não inventaria algo tão elaborado. — Escuto ele dizer isso e percebo a besta sendo abaixada.

— O que quer dizer?

Depois da minha pergunta o senhor passa a se aproximar. Seus passos tem um som muito estranho, como se uma espécie de salto fizesse barulho a medida em que ele se movia na minha direção. Assim que o senhor se põe diante da luz da fogueira e de frente a mim, percebo que estou cara a cara comum homem velho, negro e sem sua perna direita, sendo apoiado no chão por um extenso galho de madeira apoiado em seu braço,servindo como uma muleta totalmente improvisada.

— Meu nome é Gabriel. Eu cortei sua mão porque só isso impede de acontecer.

— Impede o quê de acontecer? — Minha pergunta não pareceu surpreendê-lo nenhum pouco.

— Sua mão… Você foi mordido, não foi?

— Sim...

— Eu também fui. Eu e outros membros. Um dos meus colegas foi mordido logo quando nos separamos do grupo principal. Não demos atenção a isso naquela hora, apenas seguimos adiante.Em uma pausa da caminhada resolvemos fazer uma fogueira, dormir e, bem… Quando acordamos percebemos que esse mesmo colega havia devorado o pelotão inteiro, e teria me matado também se outro rapaz não tivesse lutado bravamente contra ele. — A naturalidade e aceitação que Gabriel expressava enquanto dizia isso fez minha mente definhar com o pensamento de um mundo com aquelas coisas soltas por aí. — Mas ainda assim ele deu uma bela mordida na minha perna… Nósmatamos o demônio comedor de carne e então ligamos os pontos. Meu amigo tinha sido mordido na barriga, não havia muito o que se fazer… Mas ele fez todo processo da amputação por mim e, quando eu acordei, vi queele tinha feito a única coisa boa que podia fazer por si. Tirou a própria vida.

— Pelos… Pelos Deuses… — Eu não consigo acreditar em nada disso. Não posso acreditar que isso seja real.

— Eu sinto muito mesmo pela sua mão. Mas é melhor terminar sem uma mão do que como eu ou mesmo meu colega… — Por mais que eu estivesse preso, sentindo uma dor excruciante como se minha mão não tivesse sido decepada, e pior, preso em uma caverna com mortos-vivos terríveis e capazes de transmitir sua maldade; eu me sentia um pouco mais aliviado. Gabriel trazia uma estranha ternura em suas palavras, e algo dentro de mim dizia que eu podia confiar nele. Por isso, eu não podia deixar que ele morresse ali.

— Gabriel… — Minha mente só conseguia pensar em minha esposa e filho. São eles que me lembraram quem e me estimularam a tomar as rédeas da situação. — Gabriel, meu nome é Anton. Eu sou comandante da guarda de Cidrak, ordenado para vir até aqui comandar um grupo de soldados para capturar ou matar Abbadon Adrastea.

— Saudações, capitão.

— Como pode ver… O plano se alterou. Agora tudo o que precisamos fazer é sair daqui com vida. Eu cheguei aqui com um colega e dois cadetes, mas não sei se sairei daqui com eles. O que importa é que consigamos voltar e alertar o rei.

— Eu concordo com isso, capitão. — Gabriel disse e começou a me desamarrar. — Mas tem um problema em toda essa história. Eu não posso sair daqui sem minha filha. Nós nos separamos pelo meio desse labirinto maldito.

— Filha? Espera, Gabrielle? — Gabriel tinha acabado de me soltar quando eu disse isso, e seus olhos faltaram saltar com minha revelação do nome dela.

— Você conhece Gabrielle? Se encontraram aqui? Por favor, me diga que ela está bem! — O pior aconteceu, porque, no olhar dele, eu enxerguei a mim. Me coloquei em seu lugar ao pensar em como eu me sentiria se meu filho tivesse virado uma dessas coisas. Minha mente mais uma vez me lembrou de como Gabrielle se deliciou ao arrancar a carne daquele garoto que claramente sentia algo por ela. Ali, naquele segundo, eu percebi que precisava honrar minha promessa e salvar o pai daquela cadete. E para fazer isso, a verdade não poderia prevalecer.

— Sim, nós nos encontramos. Antes da minha queda nós estávamos todos juntos, até que fomos cercados por aquelas coisas. — Enquanto eu contava a história, pude perceber a ansiedade e desespero de Gabriel aflorados. — Nós fomos atacados por eles mas Gabrielle e os outros fugiram. Eu quase me juntei a eles, mas um mago me jogou para cá.

— Pelos Deuses, obrigado… obrigado… — Essa provavelmente não é a pior mentira que eu já disse, pois a digo querendo algo bom, porém, certamente, é a mais difícil que já contei.

— Nós precisamos ir. — Me apressei, pois não queria que ele fizesse mais perguntas.

— Tudo bem. Quero me juntar a minha filha o mais rápido possível. — Ele disse obstinado, e mais uma vez meu coração se entristeceu.

— Você não consegue correr, né?

— Não… — Ele disse e logo tentei pensar em algo.

— Tá certo… Eu não tenho uma mão, você não tem uma perna. Mas juntando nós dois, temos tudo o que precisamos.

— Aonde quer chegar?

— Eu não consigo usar minha besta, mas posso bradar uma espada curta. E você tem as duas mãos, pode usar minha besta.

— Não consigo usar sua arma e caminhar ao mesmo tempo, capitão.

— Consegue sim… — Um plano improvável, mas com chances de dar certo, de repente nascia. — Você vem apoiado no meu braço esquerdo, não preciso dele. Você mata de longe, com a besta, e se qualquer coisa se aproximar, eu acerto!

— Capitão, com todo respeito, essa ideia… — Ele disse com clara desaprovação, contudo, eu não estava interessado nisso.

— Não! Eu não quero ouvir! Não quero ouvir que é loucura ou que não vai funcionar! Eu quero nós dois longe dessa caverna e é isso que vai nos tirar daqui. É uma ordem. Entendido? — Gabriel pareceu tomar alguns segundos para se conformar que aquela era a única maneira de nós dois sairmos juntos.

— Entendido, senhor. — Ele disse, com a aceitação que eu procurava.

— Bom. Porque nós vamos sair daqui! — Gabriel me ouviu dizer e logo em seguida oferecer meu braço esquerdo a ele. Ele então se apoiou em mim, com suas dificuldades, mas conseguimos seguir em frente.

O início foi o mais difícil. Tentávamos andar juntos e então percebemos que precisávamos estar sincronizados para aquilo funcionar, no entanto, com o tempo, realmente funcionou. Andávamos a uma velocidade baixa, contudo, minha besta repousava nas mãos de Gabriel, e eu me sentia mais seguro assim.

O caminho, apesar de livre de qualquer morto-vivo até aquele momento, testava nossa sanidade, com sons diversos e com um ou outro grito que nos assustava e mais uma vez parecia fazer minha ideia parecer tola. Nós continuamos e seguimos quietos, pelo menos até nos encontrarmos com um deles, que por sorte, estava de costas para nós.

Gabriel não perdeu tempo e disparou contra nosso inimigo, um elfo-amaldiçoado trajado como camponês que não teve tempo de reagir ao golpe que tomou. O virote disparado foi perfeito, atingiu a parte de trás do crânio do elfo e percorreu até mais da metade da cabeça, parando somente quando a parte da frente da flecha apareceu no lugar de um dos olhos do maldito. Fomos até o corpo e vimos que a coisa estava morta mesmo dessa vez. Recuperamos o virote e percebemos que chegávamos perto de um dos corredores iniciais da caverna.

Por mais que o corredor indicasse que estávamos sim mais perto da saída, a visão dele também nos preocupava, já que, se fossemossurpreendidos lá, estaríamos emtremenda desvantagem, lutando com um inimigo em um espaço estreito demais. Ocaminho evidentemente não era ideal, no entanto, nenhum de nós tinha escolha alguma. Precisávamos sair por ali ou a nossa morte seria mais que certa.

Não demorou muito até encontrarmos mais um deles, mais uma vez de costas para nós, mas dessa vez um humano, vestindo trajes tribais e com metade de seu braço perfurado, nos possibilitando ver seus músculos definhando. Gabriel novamente apontou a besta contra nosso inimigo, no entanto, não apertou o gatilho, pois fomos surpreendidos por uma sombra que veiopor cima de nós e me atingiu em cheio.

O homem, um elfo-amaldiçoado, muito parecido com um dos que cercou a mim, John e os cadetes, estava no teto da caverna, apenas esperando nossa passagem. Ele caiu em cima de mim, o que me separou de Gabriel e naturalmente fez o senhor cair. Quando o amaldiçoado se jogou, eu, por instinto, acabei colocando minha espada na direção dele, o que fez um corte horrível se formar no elfo, que ia de sua virilha até o peito. Sangue escuro banhou minha lâmina e, ao contrário do que se pode esperar, o elfo não titubeou em suas ações, ele me segurou com força e não parecia nenhum pouco afetado com o ferimento, que me banhava com seu sangue nojento.

NÃO HÁ ESCAPATÓRIA, HUMANO! JÁ ACONTECEU! JÁ ACONTECEU!— Ele olhava para mim com os olhos esbugalhados, parecia fazer tanta força que eu me preocupei de um dos olhos saltarem para fora da cabeça e me atingirem.

O elfo dizia aquelas coisas sem sentido enquanto esbanjava mais um sorriso como todos os outros. Olhei para trás e vi Gabriel no chão, tentando se recompor e então pegando a besta para atingir o amaldiçoado, todavia, havia um problema.

— Ah, merda! — Gabriel disse e olhou para o lado, tendo a besta o acompanhando. Eu segui seu olhar e percebi que o mesmo homem que havia nos distraído inicialmente agora estava caminhando lentamente na direção de Gabriel, passando por mim e dando uma risada mais terrível a cada passo que caminhava.

Ao mesmo tempo, percebi que o elfo conseguiu alcançar uma adaga e estava prestes a me atingir com ela. Aproveito que uma das mãos dele não está me segurando e então puxo minha espada acima do corpo dele. Minha lâmina afiada continua o primeiro ferimento, basicamente partindo o corpo do elfo em dois. Fecho os olhosesperando que aquele sangue escuro tenha o menor contato possível comigo e percebo que, mesmo com duas metades distintas, o que resta do rosto do miserável ainda sorri.

Não me deixei hipnotizar por aquela cena perversa e voltei meu foco à Gabriel, que acabara de disparar um virote no bárbaro, o que, infelizmente, não parece surtir efeito algum; pelo contrário, aquela montanha de músculos podres apenas pareceu se divertir com a situação, como se soubesse da sua superioridade em relação ao velho. Não permito que ele se aproxime mais, então pego minha espada e atinjo o pescoço do bárbaro.

Ele estava de costas para mim. Foi um golpe preciso que por poucos centímetros não decepou por completo a cabeça dele. No entanto, como a maioria das criaturas daquele lugar, ele não caiu fácil. Pelo contrário. O homem se virou na minha direção e, com extrema facilidade, me segurou pelo pescoço e me ergueu como se eu fosse nada. Ele me colocou um pouco mais perto de si, o que me deu visão de seus dentes podres e, finalmente retirando o sorriso estúpido de sua feição, lançou uma mordida no ar, indicando que meu rosto estaria mais e mais próximo de sua arcada.

Eu tento de tudo, me movo com todas as forças que ainda tenho, porém ,a força e o poder que aquele maldito tinha sobre mim era sobrenatural. Tento até mesmo mover minha espada contra o corpo dele, na esperança de que aconteça o mesmo que ocorreu com o elfo-amaldiçoado, mas, ao fazer isso, eu mais me assemelho a uma criança tentando cortar uma carne. Pouco a pouco eu chegava mais perto da boca pútrida daquele desgraçado, e minhas ideias estavam acabando.

Quase tendo um pedaço de meu rosto destruído por aquele maldito, me surpreendo ao ouvir um grito e perceber que, de alguma maneira, Gabriel, que não tinha parado de disparar virotes até aquele momento, conseguiu pular, se agarrar ao pescoço do bárbaro e fincar um dos virotes na cabeça dele, o que me dá mais tempo, mas não coloca um fim ao nosso oponente.

Vai haver um dia em que não agradecerá, homem de Cidrak.— Cessando suas mordidas e retomando o maldito riso, o bárbaro volta a me irritar com suas frases sem sentido.

Gabriel, ao perceber que o virote na cabeça do homem não o tinha matado, pegou minha espada e retomou meu golpe original, o que rasgou o pescoço do bárbaro e fez sua cabeça cair no chão. Mesmo com o golpe fatal, o desgraçado, de alguma maneira, ainda apertava meu pescoço. Fiz bastante força e então finalmente consegui me livrar das mãos daquele maldito.

Respirei aliviado mais uma vez. Gabriel saiu de cima do corpo do bárbaro, que somente depois de alguns segundos caiumorto como uma pessoa normal. Tenho um arrepio quando escuto uma risada típica deste lugar. Procuro a fonte do som e então meus olhos são levados ao chão, onde percebo que a cabeça do bárbaro ainda tem vida. Suas risadas ecoam pelo corredor, mas apenas por poucos segundos antes de minha espada ir em sua direção e acertar precisamente seu cérebro.

— Gabriel, eu… — Ainda me recuperando do ataque que havíamos sofrido, agradeço Gabriel, igualmente cansado, descansando apoiado em uma das paredes da caverna. — Obrigado. Eu te agradeço, muito. — Digo enquanto estendo meu braço a ele.

— Não tem de quê, capitão. — Gabriel segura minha mão e rapidamente nos colocamos na mesma posição que viemos. — Se alguém tem que agradecer aqui, sou eu.

Meu coração estava um pouco mais leve. Com Gabriel mais uma vez apoiado sobre mim, continuamos seguindo pelo caminho, sabendo que estávamos mais próximos do fim, mais próximos da liberdade, longe daquele lugar.

Nossos corpos já estavam cansados de tanto lutar. Meu braço esquerdo parecia querer ceder, afinal, Gabriel não era leve. Contudo, mantive meu pensamento em algo bom, pensei em como eu me alegraria em ver minha esposa novamente e em como todo esforço para isso valeria a pena. Aparentemente, eu não era o único que queria sair de lá o mais rápido possível, já que Gabriel, mesmo com todas as dificuldades, também apressava seu passo.

Ignorando os sons ruins da caverna, que, graças aos Deuses, estavam cada vez mais distantes, nós finalmente chegamos n=ao corredor inicial desse maldito lugar.

Ainda distantes, podemos em parte ver a “luz do fim do túnel”, que não era tão forte, apesar de não estarmos tão longe do fim. Quanto mais caminhamos, mais isso é estranho para mim. Porque a característica luz do fim não brilha como eu acho que deveria brilhar?

É depois de alguns vários passos que eu descubro o porquê. Andando muito lentamente, quase chegando a preciosa liberdade que eu e Gabriel tanto almejávamos, encontramos mais uma daquelas coisas no nosso caminho. Gabriel, ofegante, mira a besta contra o inimigo, mas sua mira nos falha brutalmente. O virote disparado atinge o chão próximo ao morto-vivo, ricocheteando e parando a poucos centímetros do mesmo, que, para nossa surpresa, se ajoelha e pega o virote, finalmente olhando para trás e exclamando:

— Anton? — Era John. Eu quase não o reconheci. Sua armadura, sempre bem cuidada, estava marcada por sangue. Seu rosto parecia cansado e triste.

— John? John?!? — Eu custo a acreditar que ele ainda está vivo. Outra fagulha de esperança nasce em meu coração, eminha vontade éde correr na direção dele, o que não era possível, por eu estar apoiando Gabriel. — Eu não posso acreditar!

Eu ando rapidamente até ele, na medida do possível, mas a postura dele, retraída e até mesmo dando um passo para trás, me faz parar no meio do caminho.

— O que tá acontecendo? — Ele me pergunta, e eu não sei bem o que responder. — Quem é esse?

— Ah… Esse é Gabriel. Um valente veterano que salvou minha vida aqui. Quando eu caí, foi ele quem me ajudou.

— Saudações, sargento.

— Eu achei que você tivesse morrido. — Ignorando a saudação de Gabriel, John usou um tom que me trouxe uma estranha sensação de desconforto. Como se o terror enfrentado por nós ainda não tivesse acabado.

— Eu também… Mas agora acabou. A gente pode sair daqui agora. — Eu disse e me aproximei mais, até ter um arrepio na espinha, quando percebi que John havia retirado sua espada da bainha. — Irmão… O que você tá fazendo?

— Ela tava bem, Anton… — Ele disse enquanto uma única lágrima caía de seu rosto. — Ela tava bem até não estar mais.

— Do que diabos você tá falando? — Eu disse e vi Gabriel procurar uma resposta inteligente para acalmar os ânimos naquela situação. Ele não conseguiu.

— Foi a mordida, Anton! Foi a merda da mordida! A mordida fez ela arrancar um pedaço do coitado do guri como se não fosse nada! — John fez uma conexão que era extremamente perigosa para mim.

— Sargento, por favor! Desculpe me intrometer, mas isso é ridículo! Eu cuidei dos ferimentos do capitão, amputei a mão dele! Garanto que podemos confiar nele e que não teríamos chegado aqui se não fosse o caso!

— Cala a boca, seu velho! Você não tava lá! Você não tava lá quando ela sorriu! Mas você, Anton, você tava! Você viu o início e o fim! Uma hora ela era Gabrielle, depois se tornou um monstro! — Foientão que tudo deu errado.

— O quê?!? O que você disse? — Gabriel perguntou e eu pude sentir seu corpo perdendo força.

— John, por favor!

— O que ele tá falando? — Gabriel perguntou e eu me senti um monstro.

— Gabriel, a gente já saiu daqui, a gente já venceu!

— Gabriel? — John exclamou, finalmente ligando os fatos. — Ah, Anton… Você não fez isso.

— Não fez o quê?! — Após o questionamento do veterano, percebi que eu havia perdido completamente o controle.

— Você não veio com o pai dela sem dizer que a menina virou uma daquelas coisas. — John disse e então Gabriel caiu ao chão, sem haver nada que eu pudesse fazer.

— Por favor, ela iria querer que o senhor saísse daqui! — Eu fui até ele, mas quando cheguei perto, o mesmo apontou a besta na minha direção, chorando e tremendo muito.

— MENTIROSO! MENTIROSO! — Gabriel chorava compulsivamente, entretanto, eu ainda sentia que ele não era minha maior ameaça.

— Você sabe quem mais era mentiroso? — Eu me virei na direção de John, que agora estava com as mãos firmes na espada, caminhando lentamente até mim. — A garota. Desde o princípio. Ela fez a gente vir até esse inferno! Só esperando… Só esperando para atacar!

— John… Por que você tá fazendo isso? — Pergunto, na esperança de um pingo de humanidade ainda residir no homem que eu já chamei de irmão.

— Por que VOCÊ fez isso? Eu disse para gente não vir aqui! EU DISSE, seu desgraçado! — John começava a chorar enquanto não titubeava em vir até mim. — Você tinha que fazer o que queria, não é? Você sempre faz. Eu digo esquerda, você para direita! Eu digo para esperar para se casar, você não escuta. Eu digo para não entrar numa merda de caverna infestada de zumbis, e adivinha o que você faz?!? — Eu estava completamente aterrorizado. Não sabia mais quem era o homem que me confrontava.

— John… Eu não sou uma daquelas coisas. Eu não sou. Você sabe que eu não sou. Por que você tá fazendo isso?

— Você acha que vai conseguir sair daqui com as suas mentiras?! Acha que eu vou deixar você chegar até Cidrak para devorar a Andrea e o seu filho?! NÃO VAI! Agora você vai escutar, seu filho da puta!

A poucos metros de distância de mim, John encurtou ainda mais o caminho entre nós dois, correndo e emendando o ato em um golpe de espada transversal, que cortaria minha cabeça em dois se eu não tivesse pegado o braço dele e contido o golpe.

Ainda enfurecido e chorando, John soltou a espada e então começou a me atingir com duros socos. John era forte, muito forte. Precisava ser para empunhar uma espada daquele tamanho. Eu, que mal tive tempo de soltar o braço dele para começar a me defender, sou levado ao chão, e os socos dele não paravam.

— Você tinha que ser o homem, não é? — A cada pausa, John me dava um golpe mais duro que o outro. — Tinha que ser o melhor em tudo!Tinha que ser um soldado melhor que eu, um pai melhor que eu, um marido melhor que eu!

Eu perco a conta do quanto já apanhei. Agradeço por não haver um espelho na caverna, pois eu não devia estar nada bonito. Depois de algum tempo eu não sinto mais dor. Posso ver minha mulher sorrindo para mim. É lindo. Reconfortante. Não há calamidade no riso dela, apenas paz. Mas essa mesma feição me faz lembrar do meu mundo. Do mundo que vivo, onde os sorrisos são perversos. Me faz lembrar que não posso abandonar esse mundo sem garantir o sorriso dela.

— Hoje você não é nada além de um morto-vivo de merda, Anton! Você não é nada! NADA! — Eu abro meus olhos, sentindo eles pulsarem, muito provavelmente por conta do inchaço. Percebo John pegar a espada largada a sua direita, levantar ela acima do peito e então preparar seu golpe final. — Eu vou cuidar deles como você nunca poderia!

Encarando profundamente os olhos de um homem que jurei que daria a vida por mim, não sinto medo. Pena é o sentimento mais adequado. Pena e dor.

Antes que John pudesse concluir seu ataque, um virote atingiu seu olho. Gabriel disparou um ataque certeiro ao meu antigo irmão, que simplesmente desabou. John, que a duas horas era meu melhor amigo, se tornouapenas um corpo caído. Eu tomei algum tempo para retirá-lo de cima de mim e encarar meu salvador.

Uma lágrima percorria o rosto de Gabriel, que, apesar de tremer um pouco sua mão, o que me fez agradecer mais uma vez pelo fato do seu tiro ter sido tão perfeito, estava visivelmente mais calmo do que quando descobriu a notícia sobre sua filha. Minha própria besta ainda estava apontada contra mim, no entanto, pouco a pouco elaera abaixada, mostrando que Gabriel não era inimigo.

— Eu prometi a ela. Prometi que te tiraríamos daqui. Eu sinto muito, Gabriel. Eu… — Gabriel me interrompeu rispidamente.

— Ela virou um desses monstros?

— Não era mais ela… — Após isso, uma singela lágrima caiu de seu rosto, fazendo uma dança enquanto percorria por sua face.

— Ela… Ela ainda tá andando por aqui?

— Não… John… O John resolveu o problema dela.

— Capitão… — Uma pequena parcela de mim ainda temia que Gabriel levantasse aquela besta e me acertasse na cabeça assim como fez com John. — Você é um bom homem. Obrigado por honrar a promessa que fez a minha filha.

— Eu não teria conseguido sem a sua ajuda… Eu tenho certeza que ela está orgulhosa.

— Vamos embora, capitão. Vamos deixar esse maldito lugar. — Gabriel disse e então finalmente me senti mais livre, mas não antes de me certificar de algo.

Voltando meus olhos ao corpo que descansava ao meu lado, eu o viro, encarando uma última vez os olhos de John. Passo então a verificar seus pulsos, sua barriga, pés e pernas, o que não é fácil, já que ele estava de armadura. Não digo nada para Gabriel, apenas faço sinal dizendo que preciso de um segundo, mas ele entende exatamente o que eu estava fazendo.

— Você não vai encontrar nenhuma mordida, capitão. A doença dele não está no corpo.

Gabriel me disse essas duras palavras, e provavelmente estava certo. Não há mordida alguma em nenhuma das áreas que procurei. Desisto dessa empreitada e dou minha mão a Gabriel, que a aceita gentilmente.

Não havia nenhuma obstrução na luz agora. Finalmente saímos da caverna, e o ar fresco quase é estranho ao meu nariz, recém acostumado com o abafamento da caverna. A chuva que se escondia nas nuvens anteriormente agora rega toda a floresta ao nosso redor, lava meu corpo, e de certa maneira, minha alma também.

A visão de meu cavalo, seguro e exatamente onde eu o deixei, deixa meu coração mais leve e tranquilo. Subo, ajudo Gabriel a fazer o mesmo, e então partimos de volta para Cidrak. Olho uma última vez para aquela caverna, ciente de que o eu que entrou lá não era o mesmo que saía agora.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!