Antes do Longo Inverno
1 Capítulo único
O sol naquela manhã fria surgiu entre nuvens com uma fraca luz amarela. Não traria calor, nem impediria que mantos de pele fossem usados sobre os ombros, mas traria a sensação de que o inverno ainda estava longe.
O movimento em Winterfell era intenso, com criados correndo de um lado a outro com cestos de pães recém-assados e jarros de vinhos. As crianças estavam ansiosas, principalmente os mais velhos, para receberem os visitantes. Homens da Patrulha da Noite haviam chegado a Winterfell, com seus mantos negros manchados de poeira e gelo, trazendo consigo o velho propósito de recrutar novos irmãos para a Muralha.
E Benjen estaria entre eles.
Rowena Locke passou a mão pelo vestido nas cores de sua casa, branco e púrpura, ajeitando-o mais uma vez sem necessidade. Do lado direito do peito, levava um broche no formato da folha de acácia, presente dado pelo Primeiro Patrulheiro antes de seus juramentos.
Suspirou pesadamente. Tudo se repetiria. Sua fraqueza em não impedir o homem a quem estava prometida a transformara em um espectro do que um dia fora, aguardando os raros momentos em que ele deixava a Muralha para visitar o antigo lar. Deixara de seguir sua própria vida com a esperança de que, por algum milagre dos deuses antigos, ele tiraria o manto negro para retornar para ela.
Saiu para o pátio externo. Catelyn já estava lá, com a barriga proeminente carregando o novo Stark e de mãos dadas com Sansa e Arya Stark. O bebê Brandon, pequeno demais para participar, ficara no berçário com a Velha Ama.
Eddard estava ao lado da esposa com um Robb empolgado, dando pulinhos. Theon Greyjoy estava junto, sem mostrar um pingo de empolgação. Rowena sorriu ao ver Jon parado mais atrás, entre os criados. O garoto, que tinha um lugar especial em seu coração, estava taciturno, mas sabia que, assim como ela, quando visse o tio, seu humor mudaria.
Rowena se postou em seu lugar ao lado de Lady Catelyn, digno de sua posição como dama de companhia. Ela empertigou as costas, prendeu a respiração e segurou firme as próprias mãos no momento em que a figura central do grupo desmontou do cavalo garrano. Ele não era mais o jovem impetuoso que corria pelos bosques de Winterfell ou que a fizera rir em Harrenhal. Benjen Stark agora era um homem marcado pelo gelo. Seu rosto possuía linhas mais profundas, a barba estava mal aparada e seus olhos... seus olhos eram os mesmos cinzentos escondidos atrás do cansaço.
Ned deu um passo à frente, e o abraço entre os dois irmãos foi firme, ambos dando batidas nas costas um do outro.
— Benjen — a voz de Ned era baixa, um murmúrio de boas-vindas que carregava uma nota de alívio por ter o irmão de volta.
Benjen respondeu algo que Rowena não pôde ouvir de seu local. Então, seus olhos varreram o pequeno grupo de boas-vindas. Passaram por Robb, bagunçando os cabelos acobreados do menino. Por Theon, que cumprimentou gentilmente. Por Jon, a quem ele dedicou um olhar cúmplice. Cumprimentou os criados com um leve aceno de cabeça e apertando as mãos daqueles que serviam os Stark desde antes do Ano da Falsa Primavera. E então parou.
Benjen não sorriu, mas uma mudança quase imperceptível ocorreu em sua postura quando a viu. Por um segundo, a máscara de patrulheiro vacilou. Ele olhou para o broche, e depois para os olhos dela.
Rowena baixou a cabeça no momento certo, cumprindo seu papel de dama, mas não antes de Catelyn Stark observar a interação. A Senhora Stark não precisava ler livros para entender o que aquele silêncio entre o cunhado e sua dama de companhia significava. Ela sempre soube e a cada visita a tolerância de Catelyn parecia diminuir.
— Seja bem-vindo, Benjen — disse Catelyn, com sua voz melodiosa, mas que não escondia a frieza. Ela deu um passo à frente, colocando-se estrategicamente entre Rowena e o homem que acabara de chegar. — Espero que a sua viagem tenha sido tranquila.
Benjen inclinou a cabeça para a cunhada, mas seus olhos, por um instante, roçaram no ombro de Rowena novamente, onde o broche de acácia brilhava sob a luz fraca da manhã.
— Tranquilo como sempre, milady— respondeu ele, afável. — Vejo que mais um Stark estará logo entre nós .
Catelyn sorriu, soltando a mão de Sansa e pondo sobre a barriga.
— Sim. E se mexe bastante, também. Um verdadeiro lobo.
— Que os deuses o tragam com saúde e com a força de seu pai — Benjen desejou. Ajoelhou-se no chão para falar com as meninas. — E essas princesas, como estão?
Sansa sorriu, enrubescida, mas Arya soltou da mão da mãe para abraçar o tio com força, que riu com a espontaneidade da pequena. Lorde Stark colocou a mão no ombro do irmão quando soltou a pequena Arya.
— Venha, Ben. Os cavalos precisam de descanso e você, de um banho quente e cerveja.
O grupo começou a se dispersar. Robb, Jon e Theon correram para junto dos patrulheiros, fascinados pelas espadas e para ouvir suas histórias. Catelyn, porém, não se moveu imediatamente. Ela esperou que Ned e Benjen cruzassem o arco que levava ao interior do castelo antes de se virar para a sala de companhia .
— Que os Sete lhe perdoem. — As palavras de Catelyn não foram ditas com raiva, mas com uma severidade que pesou mais do que qualquer grito.
Rowena sentiu o sangue fugir de seu rosto, deixando-a tão pálida quanto a neve.
— Não há pecado em lembrar, milady — Rowena respondeu em voz baixa.
— Há pecado em esperar por um homem morto — Catelyn rebateu, dando um passo. — Benjen Stark morreu no dia em que pronunciou seus votos. O que restou é o Primeiro Patrulheiro que pertence à Muralha, não a você.
Catelyn olhou para o broche de acácia, aquele símbolo de uma primavera que nunca chegou a florescer totalmente, e seus olhos azuis suavizaram-se por um instante com uma piedade dolorosa.
Desde sua chegada ao Norte, Catelyn aprendera a ler os silêncios e o luto recente que Winterfell vivia . Foi através dos sussurros das aias e do olhar baixo das outras damas que ela descobrirá o segredo: a dama da Casa Locke não era apenas uma convidada ou a ama de Jon Snow, mas a noiva que Benjen deixará para trás. Catelyn olhava para a cunhada que nunca teve e sentia o peso do mistério. O que levaria o irmão mais novo de Ned a renunciar terras, linhagem e ao calor de uma mulher como Rowena para abraçar o gelo da Muralha?
— Você desperdiçou sua juventude, Rowena. Nove anos servindo-me com uma lealdade que eu sei que é, em parte, uma mentira para estar perto das sombras dele. Ned a respeita, e eu a estimo, mas não permitirei que sua... esperança perturbe a paz deste castelo durante esta visita.
Catelyn olhou para as meninas que, inocentes, assistiam a conversa sem compreender. Arya começava a mostrar agitação em querer seguir os irmãos.
— Meus filhos precisam de uma Winterfell forte. E Benjen precisa de silêncio para cumprir seu dever. Não vou precisar de sua ajuda hoje a noite. E, por favor, Rowena... desfaça desse broche.
**
Com seus serviços dispensados, Rowena se dedicou a ajudar a Velha Ama a cuidar das crianças, recusando-se a descer aos primeiros níveis do castelo para não se encontrar com Ben. Mas tudo se repetiria, e mais tempo ou menos tempo ele iria aparecer.
— Velha Ama — Rowena chamou, interrompendo o trabalho da idosa que embalava Brandon no colo. — Se senhora quiser descer, eu fico aqui até Bran dormir.
Os olhos cegos da senhora ergueram-se e por um instante Rowena achou que ela pudesse de fato enxergar .
— Você não vai comer, querida? Já sou velha o suficiente para não querer ser vista, mas você é jovem. Um deleite para os homens; — Ela virou o rosto para a janela. — Lembro de uma jovem assim que ficou nas ponta dos pés para beijar um cavaleiro alto...
Rowena soltou um suspiro, um movimento que fez seus ombros pesarem.
— Não quero ouvir histórias hoje. — Ela se ofereceu para pegar Bran de seus braços. — Hoje farei seu trabalho. Vá descansar.
Com lentidão, a velha pôs-se de pé e caminhou até a porta, apoiando as mãos nodosas no batente.
— Normalmente os corvos entram pelas janelas com notícias ruins.
Brandon era pequeno, mas robusto. Os cabelos acobreados deixava implícito a herança Tully da mãe. Com seu um ano era um garoto cheio de curiosidade e agitado. Naquele momento, resistia contra o sono da tarde. Rowena acariciou os cabelo do menino e beijou-lhe a fronte, pensando nas inúmeras crianças que não permitiu nascer, em suas fisionomias, seus cheiros, nos nomes que nunca teriam quando respondeu com a voz melancólica:
— Não espero por nenhum corvo.
— É o que todos dizemos... — a Velha Ama murmurou, antes de desaparecer no corredor escuro
Rowena se sentou na cadeira próxima ao berço de Bran, acomodando-o em seu colo.
Corvos…
Ela então se lembrou da última vez que Ben pisará em Winterfell, há dois anos, quando o corredor estava escuro e do cheiro de cerveja e suor que emanava do Stark mais novo. Ela fora até ele, movida por uma fome que os anos de ausência não conseguiram saciar. Na penumbra, entre beijos desesperados, ela implorara para que ele ficasse. “O Norte é grande, Ben. Ned nos perdoaria e encontraria um lugar para nós, uma torre distante…”
Mas Benjen, com os olhos cinzentos nublados de dor, apenas a segurou pelos ombros e disse: “Eu fiz meu juramento de proteger os reinos dos homens, Rowena. Se eu falhar com meu juramento, quem protegerá você?”
Um estalo mais forte na lareira a trouxe de volta. Em algum momento de seu devaneio, Bran adormeceu. Levantou e pôs o garoto no berço, acariciando seus cabelos.
A tarde caía, e as sombras começavam a se alongar pelo chão de pedra. Rowena sabia que o Grande Salão estaria nos últimos preparativos. O cheiro de carnes, tortas e pães assados logo tomariam o castelo, assim com as vozes animadas que aumentariam conforme a bebida descia pelas gargantas. Ned riria com o irmão, e Catelyn se agradaria com os filhos e as visitas.
De repente, a porta do berçário rangeu de leve. Sorriu ao ver a cabeça de Jon surgir. O garoto se aproximou silenciosamente e parou ao lado do berço, esticando o pescoço para observar o irmão adormecido.
— Ele deu muito trabalho? — Jon sussurrou, a voz pequena carregada daquela seriedade precoce que o tornava diferente das outras crianças.
— Nenhum que eu não pudesse lidar, Jon — Rowena respondeu, forçando um sorriso que não chegou a alcançar seus olhos. — Com certeza quando crescer será bem agitado. É melhor ir se preparando.
Jon soltou uma risadinha abafada, mas logo seu olhar desviou-se para a porta entreaberta. O som distante de uma risada alta subiu pelas escadas, trazendo consigo o cheiro de gordura assada e vinho.
— Lorde Stark perguntou por você — disse o menino, apertando os dedos no berço. — E o tio Benjen também. Lady Catelyn disse que... disse que não precisávamos incomodar lady Locke se ela estivesse ocupada com o bebê.
Rowena sentiu a alfinetada implícita na frase de Catelyn. A Senhora de Winterfell era mestre em usar a cortesia como uma adaga. Ela sabia que Rowena estava se escondendo, e estava mais do que feliz em manter a "noiva esquecida" longe dos olhos de seu cunhado.
— Lady Catelyn é sempre muito zelosa — comentou Rowena, afastando do berço e limpando o pó invisível de suas saias. — Mas ela tem razão. Bran precisa de silêncio. E você, Jon? Por que não está lá embaixo?
O garoto deu de ombros, um gesto pequeno que carregava o peso que um bastardo sofria em sua própria casa.
— Prefiro as histórias da Velha Ama. E o Salão está barulhento demais.
— Barulho nunca foi um problema para você. Os deuses sabem quanto meus ouvidos já sofreram com suas gritarias com Robb e Theon. — Jon riu. — A Senhora Stark falou algo que te desagradou?
Ele ficou em silêncio por alguns instantes e então negaceou com a cabeça.
— Nunca, lady Locke.
Rowena não acreditou, mas não disse nada a ele. Notou que os olhos cinzentos de Jon seguiam para o broche de acácia em seu peito.
— O tio Benjen falou algo estranho hoje… quando estava no pátio — disse Jon, com os olhos fixos no broche.
Rowena sentiu um aperto na garganta.
— E o que ele disse?
— Ele perguntou ao pai por que as acácias não voltaram para um castelo velho. — Jon ergueu os olhos para ela, inocente e perspicaz ao mesmo tempo. — O pai disse algo como se uma árvore tivesse criado raízes e cortar seria cruel. Mas não há acácias em Winterfell. E o castelo da sua casa se chama Castelo Velho, não é? E agora vi que está usando um broche de acácia.
Rowena levou a mão sobre o broche, escondendo-o dos olhos de Jon que tanto pareciam com os de Ned quanto os de Benjen.
— Lady Catelyn não gostou — continuou Jon. — Ela disse que homens da Patrulha não deveriam se preocupar com jardins. Então olhou para mim como se... como se eu fosse uma erva daninha no jardim dela.
Rowena estendeu a mão e tocou o ombro de Jon. Havia uma irmandade silenciosa entre eles ali: a noiva que não foi e o filho que não deveria ter sido. Ambos eram lembretes de coisas que os Stark preferiam manter sob a neve.
— Você não é uma erva daninha, Jon — murmurou ela, com uma doçura triste. — Você é um Stark, quer ela queira ou não. E essa acácia aqui crescia em Harrenhal, há muito tempo. Ganhei de uma pessoa.
De repente, o som de botas pesadas ecoou no corredor externo. Não eram os passos leves de uma aia, nem os saltitantes de uma criança. A porta do berçário, que Jon deixara entreaberta, rangeu.
Benjen Stark parou sob o batente. Seus olhos cinzentos percorreram o quarto, parando primeiro em Jon, depois no berço de Bran e, finalmente, nela.
— Tio Benjen — Jon quebrou o transe, a voz tingida de uma reverência tímida.
Benjen desviou o olhar de Rowena por um milésimo de segundo, pousando a mão no topo da cabeça de Jon. O gesto era afetuoso, mas o olhar do Patrulheiro voltou rapidamente para a mulher à sua frente.
— Jon — a voz de Benjen era como o som de gelo rachando em um lago. — Seu pai o procura no Salão.
Jon olhou de Rowena para o tio e com a sabedoria silenciosa de que sua presença não era necessária ali. Ele assentiu, deu um último olhar para Bran e deslizou para fora do quarto, fechando a porta atrás de si.
Agora, estavam sozinhos.
— Você tem um jeito especial com ele — Benjen murmurou, aproximando-se de Rowena enquanto ela se afastava.
— Eu tive que cuidar dele quando Ned o trou… — ficou em silêncio. O tempo em que Ned trazia Jon em seu braço e Catelyn, Robb, era o mesmo que Benjen fazia seus juramentos. — É um bom menino.
— Não vi você lá embaixo. — Disse, estendendo a mão para tocar no cabelo da mulher, que deu uma passo para trás. — Então soube que Catelyn pediu que ficasse longe… de mim.
— Não poderia deixar Bran sozinho com o castelo cheio. E logo as meninas subirão para dormir.
— E desde quando virou ama? — perguntou ríspido. — era dama de companhia de Lyanna. Deveria ser de Catelyn agora. Não diga que está se escondendo de mim, Rowena.
Ela lhe deu as costas, caminhando até a mesa onde os cadernos das crianças ficavam com a intenção de arrumar algo, mas não havia nada para ser arrumado. Suspirou pesadamente voltando o olhar para o homem da Patrulha da Noite.
— Sim, estou me escondendo. Por que eu não estaria? Você como homem da Patrulha espera que eu fique no Grande Salão, usando minhas melhores sedas, sorrindo para o homem que me transformou em uma viúva sem nunca ter sido esposa?
A seriedade em seu rosto sumiu, substituída por exaustão.
— Não queria que fosse assim… — Ele sussurrou. — Sabe disso. Mas…
— Eu não quero ouvir “mas”, Ben.
Benjen aproximou-se o suficiente para que Rowena pudesse sentir o frio que parecia emanar de suas roupas, o cheiro de neve antiga que nunca o abandonava totalmente. Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou a ponta dos dedos no ombro dela.
— Faço por você. Por Lyanna. — Sussurrou, segurando as mãos dela. — Eu nunca a tirei da cabeça e me amaldiçoou todos os dias por isso. Mesmo no topo da Muralha, quando o vento uiva tão forte que o frio chega nos ossos, eu fecho os olhos e vejo seu vestido. Sinto seu perfume. Ouço sua voz.
Rowena fechou os olhos, permitindo-se por um segundo acreditar naquela ilusão. Ela sentiu a mão dele subir até seu rosto, os calos da palma roçando sua pele com uma delicadeza que contrastava com a brutalidade da vida que ele levava.
— Às vezes eu odeio aquele represeiro — ela confessou, a voz mal passando de um sopro, referindo-se ao Represeiro onde ele fizera seus votos. — Odeio os deuses por terem levado Lyanna e Brandon, e por terem deixado você vivo apenas para ser tirado de mim de outra forma.
— Eu não fui tirado de você — ele respondeu, encostando a testa contra a dela. — Eu apenas fui colocado em um lugar onde posso garantir que o mundo em que você vive continue existindo. Cada patrulha, cada noite de vigia... eu faço por Winterfell. Eu faço por você.
Rowena levou a mão ao ombro e, com dedos ágeis, soltou o broche de acácia. Ela o tirou e o colocou na palma da mão de Benjen. A prata brilhou fracamente entre eles.
— Leve-o desta vez — ela pediu. — Não o deixe aqui como um lembrete do que eu perdi. Catelyn está certa... não posso usar isso nunca mais.
Benjen olhou para a pequena folha de prata, fechando os dedos sobre ela com força.
— Acredite quando digo que o que dói em você, dói em mim. Mandei fazer isso quando meu pai me deu sua mão, pra lembrar do dia que caiu daquela árvore no torneio, de Howland e de Lyanna rindo, de sua dança comigo e daquela noite na tenda. O que resta se me devolver isso?
— Restará o que sempre restou — ela sorriu tristemente,. — Vá, Ben. — Nas pontas dos pés, ela beijou seu rosto. — Ned o espera. E…saiba que meu aposento continua o mesmo.
**
A madrugada em Winterfell era um manto de silêncio, interrompido apenas pelo uivo distante de um lobo e o estalar das brasas que morriam nas lareiras. O banquete terminara horas atrás; o vinho e a cerveja cumpriram seus papéis, mergulhando o castelo em um sono pesado.
Rowena ia de um lado ao outro em seu quarto. O fogo da lareira era a única fonte de luz no aposento, para que quando algum criado percorresse o corredor jamais desconfiasse que quem dormia ali esperava por alguém.
Rowena ajeitou as mangas do robe de seda, as mãos trêmulas traindo a fachada de calma que mantivera durante o dia. Ela sabia que os guardas no pátio estariam entorpecidos pelo álcool e que a patrulha de Ned, embora rigorosa, tendia a relaxar nos níveis superiores após festividades tão longas.
De repente, o som que ela tanto aguardava: o rangido quase imperceptível de uma dobradiça pesada. Não vinha da porta principal, mas da entrada lateral, oculta pelas sombras das tapeçarias.
— Creio que os fantasmas de Winterfell nos odeiem — a voz dele surgiu, rouca e baixa, como o rolar de pedras em um desfiladeiro. — Que os deuses nos perdoem.
Benjen fechou a porta silenciosamente, mantendo a mão no ferrolho por um momento, como se ainda pudesse dar meia-volta e retornar à segurança de seus votos. Mas o olhar que ele lançou a ela não era o de um Patrulheiro da Noite. Era o de um homem que cruzara o mundo para encontrar o único lugar onde o frio não podia alcançá-lo.
Rowena deu um passo à frente, a hesitação sumindo.
— Eu achei que o banquete nunca fosse acabar — ela sussurrou. — Achei que Ned fosse mantê-lo no salão até o amanhecer.
— Eu tentei ficar no meu quarto — ele confessou, aproximando-se. — Tentei rezar, tentei lembrar dos meus votos, palavra por palavra. Mas as palavras morriam na minha boca. A única vigília que eu conseguia imaginar era estar aqui.
Ele parou a poucos centímetros dela, olhando-a de cima a baixo, notando com o chemise de seda era delicado em seu corpo, como os mamilos estavam intumescidos sob o tecido. Rowena levou a mão ao peito dele, sentindo a batida forte e rítmica sob a túnica pesada.
— Amanhã você será o Primeiro Patrulheiro novamente — Rowena disse, olhando os olhos cinzas dele.
— Não quero saber do amanhã. — Benjen murmurou. Seu membro pulsava por debaixo da calça com a expectativa de rasgar a roupa. — Esta noite, Rowena, só você, eu e o pecado que cometemos.
Ele inclinou-se, o nariz roçando o pescoço de Rowena, inalando o perfume da pele quente dela. Seus dedos ágeis buscaram o laço de seda que mantinha o robe fechado.
Rowena soltou um suspiro entrecortado quando sentiu os lábios de Benjen encontrarem a pele sensível de sua clavícula. Ela arqueou o corpo, as mãos agora emaranhadas nos cabelos escuros dele, puxando-o para mais perto, querendo apagar a distância em um único instante.
— Que os fantasmas nos odeiem, então — ela sussurrou, a voz carregada de uma urgência febril. — Que os deuses nos virem as costas.
Benjen a levantou sem esforço, os braços fortes a envolvendo enquanto a levava em direção à cama de dossel. Retirou suas roupas negras, largando-as no chão. Quando a deitou sobre os lençóis de linho, o contraste era absoluto: a pele clara dela contra os braços marcados pelo rigor da Muralha.
Rowena sentia o peso dele, o calor que emanava de seus músculos e o roçar dos calos de suas mãos em suas coxas, e cada sensação era uma vitória contra os deuses que tentaram separá-los. Ela o puxava para mais perto, as unhas cravando-se nas costas dele, abafando seus gemidos no ombro de Benjen para que o silêncio do corredor permanecesse inviolável.
— Fique comigo Ben. Pra sempre. — Rowena gemeu, mordiscando seu ombro, sua orelha.
A lembrança da primeira vez dos dois sobreveio Benjen Stark. Ele se recordava de como o mundo parecia menor e mais simples quando o anúncio do noivado ainda brilhava entre eles como uma promessa de ouro. Ele se lembrava de Rowena, jovem e trêmula, e de como ela chorara a cada estocada dada.
E tal como daquela vez, ela chorava.
Ele jamais prometeria ficar com ela. Sabia das consequências da quebra de seu juramento. Sabia que cada estocada naquela noite era um crime contra a Patrulha. Ele não era apenas um homem amando uma mulher: ele era um desertor de espírito, um Stark que manchava a honra da própria Casa no coração de Winterfell.
Ainda assim, ele a possuía com força. Ele sentia a força dos braços dela, o calor das pernas entrelaçadas, e por um momento, a Muralha, os Outros e o Rei Robert pareciam distantes.
Ele a apertou com uma urgência quase cruel, querendo absorver o calor dela para as décadas de inverno que o esperavam. Rowena não parava de chorar, um pranto silencioso que lhe doía.
Quando o êxtase finalmente os alcançou, não trouxe paz, apenas um silêncio exausto. Benjen permaneceu sobre ela por um longo tempo, sentindo o tremor dos soluços dela diminuir gradualmente até se tornar apenas uma respiração pesada e triste.
**
Quando a primeira luz acinzentada do dia começou a rastejar pela janela, Benjen sentiu Rowena despertar. Ela se mexeu contra ele, procurando o conforto que acreditava ter reconquistado, mas encontrou um corpo rígido como o gelo. Ele a afastou gentilmente, apenas o suficiente para olhar em seus olhos inchados pelo choro, mas sem permitir que ela deixasse o calor de seu peito. Antes de Rowena adormecer exausta, ele a possuíra mais uma vez; teria a tomado a noite inteira se fosse possível, pois sua mente já estava decidida: aquela seria a última vez.
— Você precisa encontrar um marido, Rowena — ele disse de repente. — Alguém de uma casa boa, talvez um Karstark ou um Glover. Um homem que possa lhe dar um castelo e um nome.
Rowena franziu o cenho. Sonolenta e com dores no corpo, achava ter ouvido errado. Ela se sentou, deixando os seios expostos.
— Um marido? Depois do que aconteceu aqui? Eu não quero um Karstark, Benjen! Eu disse que esperaria.
Benjen soltou uma risada amarga, sem alegria.
— Olhe para Catelyn. Ela tem Ned, tem cinco filhos... o mais velho, Robb, já tem dez anos e logo será um homem feito. E você? Você não tem nenhum. Você está desperdiçando sua juventude por um fantasma.
Rowena tentou não mostrar o quanto aquilo a magoava, mas não conseguiu.
— Eu não me importo com os filhos de Catelyn! — Rowena retrucou, rispida. — Eu me importo com o que sinto por você.
Benjen segurou o rosto dela com as mãos calejadas, obrigando-a a encará-lo.
— Pois deveria se importar. O que fizemos aqui esta noite... se houver consequências, eu não estarei aqui para protegê-la. Eu não posso dar meu nome a uma criança. Se você descobrir que está carregando um fruto desta noite, terá que ser rápida. Todas as vezes que ficamos juntos, voltava para Muralha temendo que algo acontecesse a você. Que tivesse um filho meu. Às vezes tinha esperança que estivesse casada... e todas as vezes você permanecia aqui, me esperando.
Ele deu um beijo casto na testa dela.
— Não fique sozinha, Rowena. O inverno está chegando, e mulheres sozinhas não sobrevivem a ele. Encontre um homem que possa te aquecer quando eu não estiver mais aqui.
Rowena desviou o rosto, o silêncio sendo sua única resposta. Ela sabia que ele falava por amor, mas cada palavra dele parecia uma punhalada em seu coração.
Benjen respirou fundo, como se estivesse se preparando para um golpe.
— Eu vou falar com Ned antes de partir — ele declarou, a voz agora firme, a voz do Primeiro Patrulheiro. — Vou pedir que ele arranje um casamento para você. Um homem honrado, um lorde com um castelo seguro. — ele levantou e começou a vestir sua roupa negra, o símbolo de sua renúncia. — Se eu te amasse menos, eu a deixaria definhar aqui, esperando por visitas que se tornariam mais raras a cada ano. Mas eu a amo o suficiente para querer que você seja a senhora de algo real, não a eterna dama de companhia da Casa Stark.
— E você? — Rowena perguntou, a primeira lágrima finalmente caindo.
Benjen pegou o manto negro. Ao colocá-lo sobre os ombros, ele pareceu envelhecer dez anos.
— Eu voltarei para a Muralha. E saberei que, em algum lugar do Norte, há uma lareira acesa e uma mulher aquecida. Essa será a minha única paz.
Rowena permaneceu em silêncio por um longo tempo, observando Benjen terminar de apertar as fivelas de couro de sua armadura. Cada estalo do metal era como um prego sendo batido no caixão da esperança que ela alimentara por nove anos.
— Um homem honrado — ela repetiu, a voz desprovida de vida. — Como se a honra pudesse aquecer minha cama.
Benjen parou, as mãos repousando sobre o cinto de espada. Ele não se virou; não tinha coragem para enfrentar o rosto dela naquele momento.
— A honra é o que nos resta quando o amor se torna uma tortura, Rowena. Eu não quero que você seja uma sombra. Quero que você seja a senhora de sua própria casa. Ned cuidará disso. Ele encontrará alguém que... — ele hesitou, a voz falhando — alguém que possa te dar o que eu não pude.
**
Na biblioteca de Winterfell, na companhia do meistre Luwin e do Lorde Stark, Benjen pediu a seu irmão o que vinha carregando no peito.
— Você tem certeza disso, Ben? — Ned perguntou, a voz baixa. — Rowena é leal. Catelyn a estima.
— Tenho, Ned. — Benjen mantinha a postura rígida de um soldado. — Ela perdeu tempo demais à Casa Stark e a um homem que não pode retribuir. Peço que, como meu irmão e meu suserano, você encontre um pretendente. Alguém das casas vassalas... um homem bom. Os Locke ficarão satisfeitos e ela terá a paz que merece.
O Senhor de Winterfell deu um suspiro alto não escondendo o alívio que sentia por aquele pedido. Ele não sabia se o irmão quebrara os votos em algum momento, mas não o condenaria por querer fugir da solidão.
Rowena crescera entre eles, sendo primeiro dama de companhia de Lyanna, então noiva de Benjen até o momento que ele decidirá se juntar a Patrulha por luto a irmã. Ned oferecerá várias vezes levá-lá de volta a Castelo Velho, mas a chegada de Jon e Catelyn o convenceu a acatar o pedido dela em permanecer em Winterfell.
— Lorde Medger Cerwyn perdeu a esposa no último ano. Tem dois filhos e está disponível para se casar. — Meistre Luwin informou. — Ele é um homem de confiança, justo e com terras férteis perto da Faca Branca. Se ela aceitar...
— Ela aceitará — Benjen interrompeu, o peito subindo e descendo com esforço. — Diga a ela que é meu último pedido como Benjen Stark.
**
Semanas após a partida de Benjen, lorde Medger Cerwyn veio a Winterfell com uma pequena comitiva. Seu estandarte de machado de duas pontas em um céu branco chicoteava contra o vento. Rowena assistia tudo aquilo de seu quarto, na companhia de Jon Snow, que a ajudava a guardar seus últimos pertences nos baús.
— Você precisa mesmo se mudar pra lá? — A voz de Jon saiu miúda.
Rowena deixou a janela para encará-lo e deu um sorriso triste.
— Já estou aqui há muito tempo, Jon... Não seria certo permanecer tanto tempo sem um marido.
— É verdade... Que você e o tio Ben... Já foram noivos?
Ela sorriu com tristeza, pondo a mão na cabeça dele.
— Em algum momento, sim. Mas não é bom recordar o passado. Vá e chame os criados para levarem esses baús.
Prontamente ele foi. E quando retornou a acompanhou até está diante de Medger Cerwyn. Era um homem alto, com os cabelos salpicados de branco e corpo robusto. Seus olhos azuis não pareciam com os de Ben: não despertava nada nela.
— Lady Locke — ele a reverenciou. — Será um prazer tê-la em Castelo Cerwyn.
— Milorde é gentil. Será uma honra servir a sua Casa. — Virou-se então para Ned e Catelyn, os reverenciando. — Obrigada.
Lorde Stark se aproximou, segurando as mãos de Rowena. Seu olhar era uma mistura de felicidade e tristeza.
— Winterfell sempre será sua casa. Ficaremos felizes em receber suas visitas. Lorde Cerwyn é um homem fiel e honrado, tenho certeza que encontrará a felicidade com ele.
Catelyn, ao lado dele, deu um passo à frente. Apesar da tensão que muitas vezes pairava entre as duas devido ao passado de Rowena com os Stark, a Senhora de Winterfell inclinou a cabeça com um respeito genuíno.
— Que os deuses a acompanhem no caminho, Lady Rowena — disse Catelyn, de forma solene.
Rowena sentiu o peso do olhar de Jon Snow às suas costas. O garoto, com o rosto tão parecido com o de Benjen, era o último lembrete vivo daquele sangue que ela tanto amara. Ela deu um último aceno, forçando-se a manter a postura ereta, o queixo erguido.
Medger Cerwyn estendeu-lhe a mão para ajudá-la a subir na carruagem. A pele dele era quente e áspera, a mão de um lorde que conhecia o trabalho e a guerra. Não havia o calafrio elétrico que o toque de Benjen provocava.
— É um dia de viagem até o castelo, minha senhora. Prometo que haverá uma grande festa a esperando. — Medger disse, montando em seu cavalo logo em seguida. — Adeus Lorde Stark.
Enquanto a comitiva começava a se mover, o som dos cascos contra o solo congelado ecoando no pátio, Rowena não olhou para trás.
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O Castelo Cerwyn não era a fortaleza vasta e labiríntica de Winterfell. De pedra clara, o castelo tinha duas torres. Naquela primeira noite, após o banquete oficializando a união dos dois, da festa que comemorava a união da Casa Cerwyn e Locke, Medger conduziu Rowena aos aposentos nupciais.
O quarto estava aquecido com uma lareira que estalava vigorosamente, mas Rowena sentia um frio que vinha de dentro. Enquanto suas servas a ajudavam a despir o vestido e a vestir a camisola de seda, ela evitava olhar para o grande leito de carvalho entalhado.
Quando a porta finalmente se fechou e Medger entrou, ele não veio com a urgência febril que ela conhecera em outros tempos. Ele se moveu com a calma de um homem que sabia que o tempo estava a seu favor. Ele parou diante dela, a luz do fogo delineando seus traços maduros e os cabelos grisalhos.
— Sei que o dia foi longo, Lady Rowena — ele disse, com voz grave e calma, mas exalando cheiro de álcool. — E sei que Winterfell é um lugar difícil de deixar para trás. E não pretendo ser um carcereiro, mas um companheiro.
Ele estendeu a mão e, por um instante, Rowena viu as mãos de Benjen calejadas pelo gelo e pela espada. Mas as mãos de Medger eram diferentes; eram mãos que construíam, que administravam terras e que, naquele momento, buscavam o rosto dela com uma ternura quase paternal.
Rowena permitiu que ele a conduzisse à cama. O toque de Medger era firme e deliberado, mas faltava-lhe o desespero de quem transgredia os juramentos a um Represeiro. Para ele, aquilo era o início de uma dinastia; para ela, era o fechamento de um túmulo.
Enquanto ele a possuía, Rowena fechou os olhos. Ela tentou focar no peso do corpo de Medger, na aspereza de sua barba contra seu pescoço, mas sua mente trapaceava. Ela via o teto de pedra de seu quarto em Winterfell. Sentia o cheiro de neve antiga. Ouvia o sussurro rouco de Benjen dizendo que os deuses não os perdoariam.
Ela arqueou o corpo, mas o suspiro que soltou não foi de prazer, mas de uma dor surda e invisível. Cada movimento de Medger parecia empurrar a lembrança de Benjen para mais fundo, enterrando o Patrulheiro sob camadas e camadas de uma vida de dever.
Quando tudo terminou e Medger adormeceu ao seu lado, sua respiração pesada e rítmica preenchendo o quarto, Rowena permaneceu acordada. Ela olhou para as brasas na lareira, sentindo o sêmen de um homem estranho esfriar em seu ventre.
A ironia era um punhal: ela passara anos bebendo o chá de lua para apagar os rastros de um homem que amava, e agora, rezava para que o homem que não amava tivesse plantado uma semente forte o suficiente para que nunca mais pensasse nas vidas que deveria ter tido com outro.
Ela levou a mão ao peito, onde o broche de acácia costumava ficar escondido, mas não havia nada ali. Nem seu coração. Apenas a pele nua e o silêncio de Castelo Cerwyn.
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