Notas iniciais
゚・*:.。*:゚・ PARTE UM ⎯⎯⎯ Lua Nova. TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=iVmvoo4Nq-Q&t=1s

O carro seguia viagem por quase uma hora e o banco da frente estava tomado por uma conversa animada entre os irmãos Dexter e Isobel Newton, em que atualizavam todos os assuntos acumulados que há algum tempo não colocavam em dia. Faziam quase dois anos que os dois não conseguiam conciliar tempo para diminuir a distância entre Washington e Califórnia, e se reunir.

Distância essa que algumas horas atrás havia diminuído de vez, com a mudança definitiva da adulta e a filha dela para Washington. Mais especificamente para Forks, a cidade que sempre chove.

Ao contrário da mãe e do tio, Rory Newton possuía um desânimo que podia sentir em cada parte de seu corpo. Assim que desembarcou do avião sentiu vontade de correr e fugir, mas sabia que não iria muito longe, não tinha outras pessoas da família com quem contar. Toda sua família, a pequena família materna, agora estava resumida a Washington.

Por estar tão chateada por ter de deixar para trás dezesseis anos de vida na Califórnia tão de repente e sem explicações ao menos razoáveis, assim que os dois parentes pausaram o assunto para curtir uma música conhecida que tocava no rádio, a Newton mais nova retirou seu cinto e se aproximou do espaço entre os dois bancos a fim de tentar irritar a mãe tanto quanto ela estava a irritando com aquela ideia absurda de mudança.

— Mãe, acho que ainda não te perguntei... Por quê logo Forks? — Rory começou enquanto surgia uma expressão sonsa em seu rosto.

— Sim, você já me perguntou milhares de vezes e eu dei minha resposta. — a mais velha a corrigiu e passou a mexer de forma distraída na bolsa que estava em seu colo.

— "Levar a carreira para novos horizontes" deixa de ser uma boa desculpa quando você está vindo para um lugar que provavelmente vai estacionar sua carreira. Ou você acha que vai ter muito trabalho em uma cidadezinha? — continuou a cutucar ao mesmo tempo em que passou a bater as pontas dos dedos no banco de forma irritante.

— Já parou para refletir que talvez seja isso mesmo que eu esteja querendo? Desacelerar. — Isobel encontrou uma caixinha de chicletes na bolsa, que pareceu ser exatamente o que estava procurando, e sorriu satisfeita.

— E precisa ir morar na casa dos outros? Não trabalhou o suficiente para ter nossa própria casa? — a ainda calmaria da mãe começou a irritar Rory, que voltou a se acomodar no banco de trás.

— Não estou indo para qualquer casa, e sim a do meu pai. Ele disse que podemos ficar o quanto precisarmos. — após colocar um dos chicletes na boca, a Newton mais velha aproveitou para encarar mais de perto suas cutículas em uma clara intenção em demonstrar desinteresse para aquele assunto.

— Até onde me lembro vocês nem se falam há anos, então não faz sentido perdoá-lo tão rápido a ponto de largar tudo e ir morar na casa dele! — revirou os olhos e voltou a se mover para a frente, para conversar mais de perto com a mãe — Nós deveríamos ir para a casa do tio Dex, pelo menos é mais perto do centro, provavelmente perto do hospital e da escola. Nós teríamos carona garantida para nossos compromissos nos próximos dias... — continuou a argumentar.

— Isso eu vou ter que concordar. E eu adoraria receber vocês em minha casa! — Dexter se intrometeu e ganhou um sorrisinho de gratidão da sobrinha.

— Não, simplesmente não! — Isobel negou aos dois e depois focou seu olhar na filha — Tudo já está ajeitado e não vou voltar atrás em minha decisão. Nós vamos ficar com o Arnold, então comece a lidar com isso desde já! — abriu um sorriso confiante de que havia vencido aquela discussão.

Irritada pela derrota tão rápida, a adolescente respirou fundo e voltou a se acomodar no banco de trás, onde fechou os olhos e decidiu que evitaria ao máximo uma conversa até que chegasse ao destino final. Ficou apenas de ouvinte nos papos aleatórios dos dois adultos no banco da frente, que relembravam histórias da infância e amigos em comum que tiveram.

Foi usando sua imaginação para tentar visualizar as cenas que os dois descreviam, até que as vozes foram se tornando cada vez mais distantes, a chegar a um ponto que não ouviu mais nada.

Ao abrir os olhos outra vez, Rory tinha noventa e nove por cento de certeza de que estava sonhando ou havia ido muito longe em sua imaginação tão fértil. Num momento estava no carro de seu tio Dexter, no outro estava em uma praia que não reconheceu sua localização. Ainda assim, um sorriso surgiu em seus lábios e ela abriu os braços no momento exato em que a maresia veio ao seu encontro.

Inalando o cheiro reconhecível para ela do oceano, fechou os olhos para curtir melhor o momento e seu sorriso aumentou. Era incrível como seus problemas sempre perdiam o destaque quando dividia a atenção com a praia, seu lugar favorito no mundo. Mesmo não sabendo onde estava, ficou grata por ter sido teletransportada justamente para lá.

Até a maresia perder para ventos tão frios que Rory foi obrigada a abrir os olhos outra vez e abraçar seu corpo para tentar aquecê-lo. Odiou que, assim como o cheiro da praia tão real, um vento tão frio pudesse ser tão real também. Se era um sonho, queria ter apenas as partes boas.

Enquanto encarava o horizonte agora nublado e ondas fortes quebrando na areia, a Newton estremeceu pelo novo vento frio que recebeu e acabou dando passos involuntários para trás, como se pudesse escapar da temperatura tão baixa.

E de fato escapou, de certa forma, pois passou a sentir calor às suas costas. Era uma sensação tão reconfortante, parecia expulsar o frio dali e o impedir que castigasse outra vez seu corpo não tão agasalhado.

Não conseguiu se afastar nem mesmo quando sentiu uma respiração quente em sua nuca. Não sabia como, mas mesmo desconfiando se tratar de uma pessoa, não conseguiu sentir medo ou a necessidade de se afastar de imediato.

—Rory... — uma voz masculina sussurrou seu nome.

Era um timbre que não conseguiu reconhecer, muito provável que fosse um desconhecido. A voz não era tão grave, então se tratava de alguém jovem. Rory começou a revisar em sua mente uma lista dos garotos que faziam parte de seu circulo de amizades na Califórnia, amigos ou colegas da escola, apenas para ter certeza de que realmente era uma voz desconhecida.

E de fato não conseguiu encaixar em nenhum dos garotos que conhecia, o que confirmava se tratar de alguém que não conviveu muito ou simplesmente nunca chegou a conhecer. O que confirmava também se tratar de um sonho e de uma pessoa fruto de seu inconsciente.

— Venha para mim... — continuou em um tom de súplica, um pedido quase desesperado.

A respiração quente se agitou fora de ritmo às suas costas e Rory sentiu sensibilidade em seu pescoço, fazendo-a estremecer devagar, provavelmente sensação causada pelo choque térmico entre frio e quente.

—Venha para mim... Rory... — pediu outra vez, agora usando um tom delicado apesar do timbre mais firme agora.

Ele soltou um suspiro antes de se mexer, mas ainda manteve alguma distância entre os dois corpos apesar de ousar mover suas mãos de encontro às dela e tocá-las devagar.

Rory se assustou com o toque repentino, mas não se mexeu. Não sabia por que, mas sentia alguma segurança em estar ali, apesar de aparentemente estar com alguém que não conhecia sequer o rosto.

Mas a curiosidade da Newton não permitiu que o toque de mãos acontecesse por tanto tempo, pois logo afastou as suas à medida que virava o corpo devagar com a intenção de acabar com o mistério.

E teria conseguido se não tivesse sido puxada de volta a realidade por uma chuva pesada repentina que caiu e causou um barulho tão forte contra o carro de seu tio Dexter, que dava a impressão que poderia quebrar os vidros a qualquer momento.

O susto em junção a irritação por ter de ficar curiosa sobre o desfecho de um sonho mais curioso ainda, causou uma dor de cabeça enjoada na adolescente, que agradeceu por sua mãe ser tão precavida e ter colocado em sua mochila uma bolsinha com remédios para doenças comuns como uma dor de cabeça ou muscular.

Selecionando um que servia tanto para uma coisa quanto para outra, ela pegou a garrafinha de água que havia colocado no suporte que havia na porta ao seu lado e jogou o comprimido rapidamente no fundo da língua, depois bebeu vários goles de água até ter certeza que o remédio estava devidamente engolido.

— E aumenta o número de desaparecidos. Já são cinco os supostamente mortos. Os guardas florestais estão à procura do animal... — uma voz anunciou pelo rádio.

Um punhado de água esguichou da boca de Rory causado pelo novo susto do noticiário repentino do rádio. Dois pares de olhos azuis idênticos a encararam ao mesmo tempo, Dexter pelo retrovisor e Isobel virando-se no banco. O único homem presente no carro bateu o dedo no botão de desligar ao perceber o que aparentemente havia assustado a sobrinha.

Um silêncio desconfortável pairou entre os três por alguns minutos.

— Foram montanhistas, provavelmente. Faz algum tempo que não tem ataques nos arredores da cidade. — foi Dexter quem resolveu quebrar o silêncio, enquanto apertava sutilmente as mãos ao volante e focava o olhar atento na estrada.

— E em Forks, já teve algum ataque? — questionou Rory, sentindo os ombros mais tensos; ela decidiu guardar a garrafa de volta ao suporte antes que suas mãos trêmulas a deixasse cair.

— Não recentemente. Mas vamos esquecer isso, está bem? Não precisa se preocupar! — tentou tranquilizar, mas percebeu que não foi tão firme em suas palavras.

— Quando? — a sobrinha insistiu e voltou a se apoiar entre os dois bancos para ficar mais perto do parente.

— Alguns meses... Vários meses, na verdade. — o Newton respondeu baixo, mas um tom suficiente para ser ouvido — Não se preocupem! De verdade, vocês não têm com o que se preocupar! — insistiu e encarou brevemente as duas.

— Para uma cidade com tão poucos habitantes, cinco é um número bem grande, tio! — a garota rebateu e voltou a se acomodar em seu lugar.

Dexter não falou mais nada, apenas trocou olhares com a irmã ao seu lado em um óbvio pedido silencioso, e então voltou sua atenção para a direção do carro.

— Suas aulas na escola nova começam na segunda. Karen me disse ao telefone algumas horas atrás que Mike está tão empolgado que vocês vão estudar juntos! — Isobel puxou um assunto aleatório com a filha, um sorriso fofo que atraiu o do irmão também.

— Não vamos estudar juntos, são salas diferentes porque ele é mais velho. — corrigiu Rory a fim de cortar a tentativa da mãe de causar alguma empolgação nela.

— De qualquer forma é a mesma escola, vão se encontrar todos os dias e provavelmente você vai conhecer os amigos dele. Mas a cidade é pequena, então você será o centro das atenções por tempo suficiente para conhecer seus próprios amigos muito em breve. Todos são bem receptivos por aqui. — disse Dexter, também tentando animar as coisas.

— Pelo menos uma coisa boa, vou ser o centro das atenções. Vai ser ótimo não poder nem tentar arrumar a calcinha no bumbum porque sempre vai ter alguém me encarando! — abriu um sorriso forçado e deixou totalmente claro o seu sarcasmo.

— Lorelai, que desagradável! — a mãe reclamou em tom de advertência e esticou o braço para trás, onde conseguiu alcançar a perna da filha e acertar um tapinha ali.

Após resmungar ao receber o contato, Rory encolheu suas pernas o máximo possível na direção oposta a Isobel para se tornar uma tarefa difícil ser alcançada de novo, enquanto ria de suas próprias palavras e principalmente do pequeno sinal de irritação que conseguiu finalmente causar na mãe.

E enquanto gargalhava e se esquivava, encostou a cabeça no vidro e notou que a chuva agora se resumia a gotas minúsculas demais para enxergá-las caindo, sendo visíveis apenas ao acumular-se no vidro.

— E todos vão te olhar mesmo. Você ficou uma moça linda, Rory. Só não sei de quem herdou a beleza... — para acudir a sobrinha, o homem provocou a irmã — Talvez tenha sido seu tio bonitão aqui! — gabou-se em brincadeira.

— Ei, é óbvio que a genética é toda minha! — protestou Isobel, mostrando a língua logo em seguida.

— Ou talvez pode ser genética do meu pai. — Rory comentou de forma despreocupada enquanto mordiscava a ponta de uma unha.

Rory não conseguiu enxergar a expressão de seu tio, pois ele pareceu duro ao volante de repente e parecia evitar os retrovisores. Mas a reação de Isobel ficou completamente visível, pois ela encarou a filha com olhos marejados, pareceu querer falar alguma coisa e então desistiu, voltando a olhar para frente e ficando em silêncio pelos próximos minutos.

— Oh, vejam. Estamos entrando em Forks! — o único homem do carro falou de forma empolgada e barulhenta, demonstrando seu óbvio interesse em quebrar o gelo do carro que ele sentiu que causou.

Rory sentiu uma enorme vontade de fechar os olhos e tentar ignorar sua triste realidade, mas a curiosidade foi ainda maior e venceu a disputa. Então abriu a janela para conseguir enxergar melhor, mas apenas o suficiente para ficar à altura de seus olhos. Depois da história do animal assassino não tinha coragem de ficar tão exposta e vulnerável.

E pela brecha livre de vidro e insulfilm, observou uma placa simples, verde e com letras brancas com o nome da cidade e alguma mensagem que não teve tempo de ler. Árvores foram passando logo ao lado, árvores bem altas e outras vegetações que enfeitavam as laterais da estrada.

Nada além de coisas verdes, o que provocou um bocejo involuntário de tédio na única que não concordava em estar ali.

— Que troca mais decadente. Trocar toda a estrutura da Califórnia por esse fim de mundo, só pode ter perdido completamente o juízo! — Rory desmereceu e voltou a se encostar no banco.

— Vamos, Rory, dê uma chance. Não é tão ruim, mesmo perdendo feio para Sacramento e San Francisco, é claro! — Dexter a encarou pelo espelho do carro, estava sorrindo.

Mas a adolescente permaneceu desinteressada, um braço agora apoiando na porta e a mão esmagando sua bochecha mais próxima e piorando a expressão infeliz.

— Talvez sua opinião melhore quando começar a frequentar La Push. Vai ver como as coisas continuarão exatamente iguais à Califórnia, incluindo a praia. — o adulto insistiu em tentar melhorar o humor da mais nova, principalmente ao notar que a irmã havia ficado muda.

— Aqui tem praia? — perguntou Rory de forma empolgada, mas que logo tratou de disfarçar e voltar ao humor anterior — Nossa, vai ser ótimo ter hipotermia várias vezes no ano, cada vez que eu tentar ir para a praia! — ironizou e fez questão em revirar os olhos para deixar óbvio o seu contragosto.

— Às vezes aqui tem sol, sabia? — Dexter tentou novamente.

— Se não se importa... — a garota pegou rapidamente seu mp3 e colocou os fones para encerrar ali o assunto.

Isobel permaneceu quieta e encarando a paisagem lá fora, enquanto Dexter pareceu disposto a deixar a mais nova em paz, para se adaptar em seu próprio tempo.

Enquanto ouvia alguma música do Bryan Adams, Rory encostou a cabeça no vidro e ficou observando a cidade ir passando diante dos seus olhos tão críticos.

Em certo ponto da estrada viu uma escultura de urso que achou ridícula, mas que poderia estar ali o verdadeiro culpado para as notícias ruins que ouviu no rádio minutos atrás. Um lugar tão rodeado de verde por toda parte, árvores tão altas e florestas sem trilhas seria o cenário perfeito para um ataque fatal de urso. Isso a fez engolir em seco, pois se lembrou de Isobel comentando que o novo endereço delas era um pouco afastado do centro da cidade.

Rory conseguiu se distrair novamente ao voltar a atenção para outros detalhes da nova cidade, onde viu pessoas saindo de um café e outras conversando na entrada do lugar.

Por onde quer que passasse, notou pessoas se cumprimentando em cada encontro ao acaso. Parecia que a cidade toda realmente se conhecia, consequência por se tratar de um lugar com tão poucos habitantes.

Depois de algum tempo, a população foi desaparecendo pelo caminho. Casas foram tendo maiores intervalos de uma para outra, as árvores se limitando apenas para um lado da estrada enquanto do outro um enorme campo rodeado por cercas, onde alguns cavalos caminhavam de um lado para outro apesar da baixa temperatura atual. Ao avistá-los, a Newton agradeceu mentalmente pela distância que os separava, pois sempre teve pavor de cavalos.

— Chegamos! — anunciou Dexter e começou a dirigir mais devagar, onde virou o volante para mover o carro em direção a uma curta estradinha de terra e pedras que levava a um enorme portão de entrada para uma propriedade.

Dexter buzinou e alguns poucos segundos depois o portão automático foi aberto. Com a entrada liberada e após o homem acenar em agradecimento, o carro começou a adentrar a propriedade.

O restante do caminho chacoalhou o suficiente para deixar Rory desconfiada sobre seu café da manhã permanecer no estômago. Até perceber que enjoo não se tratava da viagem de carro, e sim a ansiedade que estava a incomodando cada vez que chegava mais perto de sua nova realidade.

O enjoo só diminuiu quando a novata conseguiu se distrair observando a propriedade em que estavam entrando.

Não muito diferente do restante da cidade, ali também era repleto de verde por toda parte, mas parecia perfeitamente planejado para não sobrecarregar a paisagem. Havia sim muitas árvores espalhadas, mas eram poucas se comparadas aos espaços reservados para serem campos limpos, estes limitados por cercas.

Somando todos os detalhes de forma lenta, Rory demorou para entender do que se tratava aquele lugar e só obteve o total da conta quando olhou para seu lado oposto e se deparou com cavalos, assim como havia visto de longe na estrada. O enjoo voltou à medida que o pânico se misturou com ansiedade e pareceram diminuir o tamanho de seu estômago.

Mas sua agonia diminuiu consideravelmente quando o carro fez uma curva, indo na direção oposta aos cavalos para outra parte do enorme terreno em que era mais afastado dos campos dos animais, mas ainda assim vizinhos. Eles seguiram em direção a uma casa que Rory observou ser grande demais para apenas dois moradores, até então, sendo um imóvel de tons claros que provavelmente perderia qualquer destaque diante da temperatura baixa e a neblina frequente na cidade.

Juntando tudo que viu desde o portão até a casa, Rory observou que a propriedade de Arnold Newton só não era maior porque a cidade era limitada.

— Bem-vindas ao Newton's Haras! — Dexter apresentou assim que estacionou o carro — Bom dia, Jared! — acenou para alguém e então saiu do carro, seguido por Isobel.

— Bom dia, Dex. E seja bem-vinda, senhora Isobel! — pelo tom de voz masculina ainda não tão grave se tratava de alguém jovem, que respondeu de volta de uma forma simpática e íntima.

Seja lá quem fosse, Rory não se deu ao trabalho de virar para procurar, pois resolveu focar somente em demorar o máximo possível para sair, usando como desculpa a arrumação de suas coisas de volta à mochila, caso alguém a questionasse.

Um pulo de susto aconteceu quando a porta ao seu lado foi aberta de repente e o ar gelado adentrou o automóvel, indo de encontro a única ali dentro. Isso a fez fechar a expressão, pois o novo susto fez sua cabeça ainda não recuperada latejar outra vez.

— Madam. — uma voz masculina e familiar forçou um péssimo sotaque francês, estendendo a mão para ela em seguida.

— Mike! — o mau humor se desfez imediatamente quando reconheceu o primo; em vez de aceitar a mão solidária, ela saiu sozinha e pulou para os braços dele, quase o derrubando.

— Eu estava tão ansioso para sua chegada! — Mike falou de forma animada após se recuperar da quase queda; ele a abraçou, esquecendo-se de sua força masculina superior ao segura-la firme demais para afastar os pés dela do chão.

— Sei que não está acostumado a abraçar garotas, mas pegue leve! — resmungou quando percebeu que estava difícil respirar.

— É muito bom te rever, sua debochada. E vai ser melhor ainda te ter mais tempo por perto! — o outro Newton revirou os olhos para a piadinha da parente e desapertou o abraço.

— Deixe-me analisar se já tenho uma fila de primas... — Rory tocou o peito do primo e o fez dar uns passos para trás para que pudesse vê-lo por completo.

Não precisou encara-lo por tanto tempo para perceber que Mike não havia mudado muito desde o último ano que se viram pessoalmente. Era um garoto loiro assim como ela, olhos azuis que sempre causaram inveja em seus olhos castanhos comuns e ainda tinha o mesmo rosto de bebê desde a infância, estando sempre tão bem humorado e exalando simpatia natural. Uma falsa impressão, já que achava que o primo conseguia ser um pouco sufocante e insistente de um modo chato às vezes. Mas o amava mesmo assim e o considerava sua pessoa favorita na pequena família Newton.

— Está bonitão, então aproveite esse privilégio para escolher direito. Não quero ter que te perder para uma namorada chata! — Rory falou em tom brincalhão e o abraçou de lado — Senti sua falta. Mas isso não é suficiente para me fazer mudar de opinião sobre essa mudança maluca repentina! — desabafou.

— Também não entendi a mudança, mas entendi menos ainda porque você e a tia Izzy ficarão aqui e não lá em casa, já que fica mais perto de tudo e de quebra ainda tem internet e tv a cabo! — comentou o garoto, puxando seu braço e o passando atrás das costas da prima.

— E aqui não tem tv a cabo e internet? — Rory arfou entre desesperada e inconformada.

— Não. Vovô não é tão interessado por tecnologia! — negou com a cabeça.

— Só pode ser castigo tardio por eu ter cuspido no banheiro minha hóstia molhada no vinho da Primeira Comunhão cinco anos atrás! — fechou os olhos e apertou as duas mãos no rosto.

— Você cuspiu sua hóstia? — ele segurou o pulso da prima e retirou de frente ao rosto para encará-la enquanto ouvia a resposta.

— Isso não vem ao caso agora. Tem outras prioridades no momento, como você convencer minha mãe de me deixar ir para sua casa hoje mesmo! — choramingou e fez beicinho para tornar o pedido irresistível.

— Será que ela deixaria? Ou melhor, será que ela deixaria se soubesse que você cuspiu a hóstia em um momento tão importante como a Primeira Comunhão? — Mike a provocou, apertando os lábios para não rir da situação e sentir que estava pecando tanto quanto a parente.

— Michael, foco. Você tem a missão de tornar meu primeiro dia melhor! — Rory beliscou o braço do garoto e o encarou séria.

— Acho que se eu dormir aqui seria a mesma coisa e até algo mais fácil de conseguir. — sugeriu o garoto.

— De jeito nenhum. Minha intenção é justamente ficar longe daqui! — a Newton recusou.

— Venham, crianças, vamos entrar. — a voz de Dexter foi ouvida ali por perto.

— Crianças? Que falta de respeito! — resmungou o filho dele, compartilhando da mesma expressão indignada da outra adolescente.

Os quatro caminharam devagar para a entrada da casa. Primeiro passaram por uma varanda larga e coberta, antes de chegarem até a porta principal por onde entraram para o abrigo.

Ao sentir o ar quente de uma forma bem confortável pela casa, Rory agradeceu por pelo menos ter aquecedor. Não morreria sem Internet ou TV, mas com toda certeza morreria por causa de todo o frio que soube que fazia na cidade.

— Rory, querida, como está uma moça linda. E quanto tempo, meu amor! — Karen Newton foi de encontro à sobrinha e a envolveu em um abraço apertado e cheio de afeto.

Karen era uma mulher loira e magra, tão elegante que parecia inapropriada a sua presença naquela cidade minúscula em vez de New York, talvez. Mas ela sempre parecia feliz em estar exatamente ali com sua família.

— Bom te ver também, tia. — Rory devolveu o carinho e sorriu.

— Por favor, tente continuar a ser gentil assim. — Isobel finalmente voltou a falar e se aproximou da filha ao notar outra mulher se aproximando para cumprimentar — Meryl, essa é minha filha Rory. — apresentou e sorriu.

— Olá, Rory, seja bem vinda por aqui. Ouvi falar muito de você, principalmente no ponto de vista de Mike. É quase como se eu já te conhecesse! — a mulher sorriu e estendeu uma mão simpática, que foi retribuída e as duas ficaram unidas por alguns segundos como forma de cumprimento.

— Espero que só tenha ouvido coisas boas. — falou e lançou um olhar falso de ameaça para o primo, que deu de ombros e soltou uma risadinha.

— Pode ter certeza que sim. — ela pareceu sincera ao responder.

Meryl era uma mulher muito bonita, seus traços do rosto eram firmes e delicados ao mesmo tempo. Era possível reparar em traços que entregavam sua descendência nativa, olhos escuros e levemente puxados, cabelo preto e muito liso, a pele sendo moreno-avermelhada. Mas tudo perdia um pouco o destaque quando prestava atenção na idade que sua aparência demonstrava ter, provavelmente quase metade dos setenta e oito anos de Arnold.

— Achei seu nome tão lindo, mas se importaria se eu te chamasse de vovó? — Rory atraiu a atenção da dona da casa de volta para si e aquele pareceu ser um pedido sério para quem não conhecesse bem seu humor às vezes inapropriado.

— Não tem problema. Acho até que é uma forma carinhosa de ser tratada. — Meryl abriu um sorriso divertido.

— Estamos entendidas então, vovó. — Rory cruzou as mãos atrás do corpo e permaneceu sorrindo.

— Enfim, tem quartos livres para vocês duas na escada à direita. Se quiserem se acomodar e descansar um pouco, podem ir. Enquanto isso, vou começar a adiantar o jantar. — anunciou antes de virar-se para se afastar na direção do que provavelmente seria a cozinha.

— Eu te ajudo. E nem adianta negar, que eu não gosto de ficar parada durante o dia! — Isobel se ofereceu sem opções de recusa e sorriu para a dona da casa.

— Vou aceitar sua ajuda então. — a anfitriã concordou e saiu dali com Karen e Isobel logo atrás.

— Vamos buscar as malas. Quer ir junto e aproveitar para dar uma volta para conhecer o Haras, Rory? — Dexter falou com a sobrinha enquanto abraçava o filho pelo ombro.

— Não quero não, tio. Fica para outra ocasião. — suspirou ao responder o parente e ainda conseguiu abrir um pequeno sorriso para não deixar seu desinteresse tão explicito.

— Tudo bem então. — o mais velho assentiu e puxou Mike para acompanha-lo de volta ao carro.

Sozinha entre a entrada da casa e a escadaria que levava ao andar superior, Rory ficou algum tempo sem intenção em se mover do lugar. Não queria chegar logo ao quarto para se acomodar, pois sabia que a ficha de que estava realmente de mudança definitiva para aquele lugar iria cair com força e afetar completamente seu humor.

Mas sabia que não poderia fugir, que não adiantaria tentar fugir daquela situação, pois era sua nova realidade. Então teria que enfrentar. E que maneira melhor de superar uma situação, se não a enfrentando?

Tensa, ansiosa, melancólica e um pouco irritada, a Newton soltou um suspiro alto e começou a subir em direção ao andar superior. Só parou quando chegou ao fim do primeiro lance de escadas e notou que havia duas, uma para o lado direito e outra para o lado esquerdo. Seguiu pelo lado direito conforme Meryl havia indicado anteriormente e neste era possível ver de longe cerca de quatro portas.

Ainda que seguindo na direção certa, não conseguiu não ficar curiosa com o lado esquerdo e sua única porta. Sua curiosidade aumentou um pouco mais quando ouviu o barulho da porta se abrindo e viu a sombra de uma pessoa saindo para o lado de fora do corredor. Mas a saída se resumiu apenas na sombra, o corpo físico permaneceu em abrigo.

Era ele.

Não tinha como ser outra pessoa. Arnold era velho demais para ter um filho surpresa e todos estavam no andar inferior. Somente os dois estavam na parte mais alta da casa.

O reconhecimento fez com que a caçula dos Newton se apressasse para sua escada sem tornar a olhar para trás. E em meio a quatro portas, correu para aquela mais longe possível, sendo a última do lado direito, onde entrou em um cômodo simples e sem muitos detalhes.

Era básico, mas também muito espaçoso. Havia uma cama de casal e em cada lado uma mesinha, uma com um Abajur e outra vazia. Havia um guarda-roupa grande em uma das paredes e em outros espaços do cômodo uma penteadeira, uma escrivaninha e livreiros ainda vazios embutidos na parede em volta da janela. Mas o que a nova moradora mais se animou foi pelo fato de ter o próprio banheiro, que geralmente não tinha em quartos de hóspedes. Aquilo seria um bom motivo para ficar trancada o máximo possível naquele cômodo.

A fim de explorar um pouco mais seu novo ambiente, Rory se aproximou da janela, apoiou um joelho na poltrona embutida a parte baixa da janela e observou a vista que dava para tudo o que havia em frente a casa. Conseguiu ter uma base melhor da dimensão da propriedade e se surpreendeu. Notou alguns cavalos no campo mais próximo a casa e dois homens se dividindo para escovar a pelagem dos animais.

— Está tudo muito simples, mas você pode redecorar quando quiser. Podemos até sair para comprar as coisas na próxima semana! — Karen adentrou o quarto no segundo seguinte e atraiu a atenção da sobrinha, que se afastou da janela para encará-la.

— É muito gentil de sua parte, mas não precisa. Não tenho empolgação alguma de morar aqui, muito menos redecorar. Mas me ajudaria se me levasse para morar com vocês, titia... — abriu um sorriso ansioso enquanto seguia para perto da parente a fim de melhorar sua chantagem emocional.

— Sabe que pela Izzy isso está fora de cogitação, infelizmente. Mas eu adoraria te ter lá em casa sim, meu amor! — a mais velha recebeu a sobrinha em seus braços e a apertou de leve no momento que viu o sorriso ir diminuindo — Não se preocupe, vou tentar negociar pelo menos os fins de semana. — deu uma piscadinha.

— Sem querer ser pessimista, mas eu conheço bem o tamanho da teimosia da minha mãe. Você vai se cansar de tentar, tia. — Rory abriu um sorriso não tão animado — Sendo assim, não tenho mesmo empolgação nenhuma para redecorar aqui. Mas obrigada pelo convite. — com um longo suspiro entre chateação e desespero, se afastou do afeto e caminhou para perto daquela que agora seria sua cama.

— Espero que reconsidere no decorrer dos dias. Seria um programinha bacana de garotas! — a esposa de Dexter desejou, sorrindo — Não se preocupe, meu amor, logo as coisas vão se ajeitar. Mas enquanto não, tenha um pouquinho de paciência principalmente com a sua mãe. Ela sempre tentou o melhor pensando em vocês duas. — pediu.

O pedido ficou alguns minutos sem resposta. Rory ainda abriu a boca a fim de rebater e reclamar pelo fato da mãe provavelmente ter ido fazer drama nos poucos minutos que esteve com Karen e Meryl na cozinha, mas acabou desistindo pois a tia não tinha culpa das brigas das duas. Estava cansada e impaciente, então tinha medo de não usar palavras gentis com Karen, logo a pessoa mais gentil de sua família.

— Tudo bem, tia. — concordou, por fim.

— Obrigada por tentar compreender. — Karen sorriu enquanto se aproximava da sobrinha, depois depositou um beijo rápido na testa dela e então caminhou para a saída do quarto.

Sozinha, Rory encarou o novo quarto mais uma vez, enquanto abraçava o próprio corpo e se sentia cada vez mais um bichinho fora de seu habitat natural.

Notas finais
⎯⎯⎯⎯NOTAS ⋮ ➤ E esse foi o primeiro capítulo. Comentem o que acharam até então.